O "MAPA MUNDI" DOS "CARETAS" NASCIDOS NOS ANOS 50


Complementando o texto em questão, nota-se que muitos "coroas" nascidos na década de 1950 - a década que ofereceu, no Primeiro Mundo, pessoas com algum senso maior de modernidade - , sobretudo os do Brasil, uma mentalidade um tanto "mofada", que mesmo no caso de homens casados com mulheres mais jovens consegue resolver (e até agrava).

Com isso, os "coroas", sobretudo os granfinos, sucumbem a uma personalidade antiquada que cria até mesmo um "mundinho" de referenciais antigos, de um passado que eles não compreendem por uma inclinação natural ou uma identificação espontânea, mas algo feito para impressionar os mais velhos que agora viram filhos, alunos e empregados ganharem também rugas e cabelos cinzas ou brancos.

Numa pesquisa feita a partir de diversas personalidades, há sobretudo uma obsessão dos homens nascidos nos anos 50 em assumir uma bagagem de conhecimento de homens nascidos nos anos 1920-1930, a época de seus pais, patrões e professores. As mulheres, nota-se um aumento de religiosidade, que contagia até mesmo antigas hippies que hoje viraram beatas.

Isso não significa uma revisitação sincera do passado. Os "coroas" mais granfinos nascidos nos anos 50 já não se lembram mais de personalidades como Ben Gurion, Gamal Abdel Nasser, Dick Haymes, Jane Russell, Alceu Penna, Stellinha Egg, Gabriel Passos, Stan Kenton e Johnny Ray, embora queiram dar a impressão de que foram "jovens" nos anos 40 e "adultos" nos anos 50, só para impressionar. E transformam a velhice numa brincadeira de criança, literalmente.

Hoje se cobra maior jovialidade para nossos "coroas", que nossas "senhoras" não rezem muito, que nossos "senhores" não fiquem usando sapatos de verniz o tempo todo, que aumentem os BPMs (batidas por minuto) de sua trilha sonora e procurem arejar suas mentes com atividades menos sedentárias e mais descontraídas.

Aqui vai um resumo do "mapa-mundi" e de uma lista de referências que povoam as mentes pedantes desse pessoal de meia-idade, com pressa de assumir um modelo de velhice e de vida idosa que não é mais o dos dias de hoje, e nem é uma versão recauchutada de paradigmas de velhice da década de 1970.

1) EUA DA DÉCADA DE 1940 - O centro chique de Nova York dos anos 40 (e um pouco dos 50), o auge de Hollywood, as comédias românticas da época, as orquestras, os standards da canção hollywoodiana. Glenn Miller, Frank Sinatra, Gene Kelly, Dean Martin, Ella Fitzgerald, Grace Kelly, músicos jazzistas ao lado de seções de cordas, músicas para dançar colado, "Cheek to Cheek", "Moonlight Serenade" etc etc etc.

2) FRANÇA DO SÉCULO XIX - Pinturas impressionistas, campos silvestres, boemia, romantismo parisiense, Belle-Èpoque, vinhos de grande marca e longo tempo de fermentação, e um pouco de referenciais "mais contemporâneos" como Charles Aznavour e Maurice Chevalier com suas canções românticas ao som de acordeon.

3) ITÁLIA RENASCENTISTA - Pinturas renascentistas, a arquitetura remanescente do antigo Império Romano, incluindo os pontos turísticos de Roma. A Roma romântica pré-Mussolini, os antigos restaurantes, o antigo glamour. Se bem que a patota nascida nos 1950 só começou a apreciar a Roma histórica depois que viu o filme Candelabro Italiano, de 1962 (!).

4) BRASIL ANOS 50 - É lógico que quem nasceu nos 1950 foi criança ou não era nascido diante de muitos referenciais chiques da época. A boate Vogue destruída num incêndio em 1955, mas antes disso símbolo do glamour da época junto ao Copacabana Palace (que em 1968 receberia até Mick Jagger), a Bossa Nova, a sofisticada revista Senhor, o colunismo de Jacinto de Thormes já passando o lenço para Ibrahim Sued, as festas de gala da época, a Casa Canadá, a grife Alfred etc etc.

5) GERAÇÕES ANTIGAS - Outra mania também é a geração de 1950 querer se vincular à geração intelectual nascida décadas antes. Qual o médico nascido nos 1950 poderia ter participado dos círculos boêmios de 1958, senão da forma de um meninote de camisa listrada e tênis Vulcabras acompanhando algum pai que estivesse por perto?

Aqui vale denunciar um certo pedantismo. Em 1958 a boemia era marcada por jornalistas, compositores, escritores e outras figuras que nasceram, em média, entre 1923 e 1937, alguns antes, outros um pouco depois. Gente que dava à boemia não só um glamour poético mas uma riqueza de conhecimentos em que até uma piada renderia artigos memorialistas tempos depois.

Era o tempo em que se via, nos bares, gente como Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Porto e tantos, tantos outros. E vinha também uma Adalgisa Nery ou então um Otto Lara Rezende, xará do também em evidência Otto Maria Carpeaux, participar das conversas.

Um tempo que não volta mais e que também não são os "coroas" nascidos nos 1950 que se dispuseram a resgatar. Perdemos a MPB tal como era antes de 1968, perdemos a TV Excelsior, perdemos até mesmo a capacidade de se paquerar alguém em locais públicos, ou de ver pobres como o sambista Cartola criar poesia admirável, e nossos "senhores" não resgataram isso.

Fora um ou outro lamento, pelas costas, sobre a crise social de nosso país, eles não vieram resgatar o ouro perdido, ocupados demais com suas jovens esposas (lá entre os 35, 45 anos) que mais parecem versões new wave das "garôtas" de Alceu Penna e que passaram a adolescência e a puberdade ouvindo Rock Brasil, lendo Bizz e vendo MTV.

Na verdade, esses homens e também as mulheres nascidas nos 1950 - que trocaram o Velvet Underground pelo Padre Zezinho - sentem saudade de um passado que não viveram, parafraseando Millôr. E não se sentem identificados com esse passado, salvo raras exceções, mas sim com um desejo de se vincularem ao que seus patrões, pais e professores mais queridos viveram.

Dizem que ser "coroa" é uma forma infantil de ser idoso. Chegando os cabelos brancos, a novidade empolga a princípio e, entre os 45 e 65 anos se brinca de "ser velho" acreditando ter adquirido uma sabedoria que na verdade não vem assim de bandeja. Se empolga demais com os primeiros sinais de envelhecimento e os "coroas" vão longo brincando de "velhos sábios" em palestras, encontros e entrevistas.

Daí a recomendação de, por exemplo, ir a um Lollapalooza para arejar suas mentes. A vida de escritórios, consultórios, encontros formais e festas de gala andou fazendo um pouco mal às mentes de senhores que se esqueceram de Stan Kenton mas se acham entendidos de jazz e senhoras que fizeram topless na adolescência e hoje parecem beatas castiças. Vão viver um pouco mais, enquanto estão vivos!!

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