terça-feira, 15 de abril de 2014

DICAS PARA ENTENDER AS DÉCADAS DE 1950, 1960 E 1970


Quem nasceu depois de 1978, pelo menos no Brasil, ainda precisa se esforçar bastante para entender o passado. Por conta das distorções promovidas pela grande mídia nos anos 80 e 90, as gerações mais recentes acabaram tendo uma visão tão distorcida do passado que mesmo a década de 80 vivida em suas infâncias era precariamente compreendida e vivenciada.

Os mais esforçados, pelo menos, tiveram que aprimorar o aprendizado depois dos 25 anos, já adquirido o nível universitário. E viram, entre outras coisas, que nem tudo que passava na TV nos anos 80 era realmente dos anos 80, que a disco music não é uma música sofisticada, que o cinema comercial antigo de Hollywood não é "alternativo" nem "de arte" e que a década oitentista não era só Trem da Alegria, Menudo, Dr. Silvana e Absyntho, entre outras coisas.

Para requintar o nível de compreensão e a bagagem de conhecimentos, é preciso ir a sebos ou ir a bibliotecas consultar material antigo, como jornais e revistas. Ou ver filmes antigos que passam na TV, sem cair na ilusão de achar que o cinemão comercial de Hollywood é tão artístico quanto o intelectualizado cinema independente europeu.

Uma boa introdução é pesquisar o que revistas como Manchete e Cruzeiro publicaram nas décadas de 1950, 1960 e 1970, além de outras revistas derivadas como Joia, Cigarra e Fatos e Fotos. É aconselhável começar da edição mais recente - por exemplo, uma edição de Manchete da última semana de 1979 ou da Cruzeiro do final de 1973 - e ir depois para edições anteriores.

O mesmo deve ser feito com os jornais. Nas três décadas citadas, os quatro principais jornais do país, O Globo, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo estavam em circulação. Mas havia também outras, como Última Hora, Correio da Manhã (RJ), Diário de Notícias (RJ) que não existem mais. E há jornais regionais, como Correio Braziliense, O Estado de Minas, Zero Hora e A Tarde, também em circulação naqueles tempos.

Há revistas antigas como Senhor (1959-1964), sem relação, ao menos direta, que a Senhor dos anos 70 que deu origem à atual Isto É. Teve também a revista Visão, surgida em 1952, e a Amiga, revista de celebridades que marcou a década de 70, tal como a Intervalo, nos anos 60.

As famosas Contigo (1963), Cláudia (1961), Manequim (1959), Capricho (1952), Quatro Rodas (1960) e Veja (1968) são periódicos da Editora Abril que também oferecem volumes antigos para pesquisas.

Além disso, o You Tube encontra disponíveis fragmentos de antigos programas de TV mesmo na fase pré-1970 da televisão brasileira, em que a maior parte de seu conteúdo se perdeu. O que dela restou está em parte reproduzido em vídeos do You Tube, para uma pesquisa básica.

Conversas com pais, tios, professores e avós também ajudam bastante. E um pouco de reflexão crítica e analítica para não distorcer as coisas. Afinal, compreender uma época passada sem deslumbramento ingênuo é difícil, mas cabe um esforço de raciocínio sobre os prós e contras desse tempo.

Com essas dicas, nosso blogue cumpre a missão de mostrar um pouco desses tempos de 1950 a 1979 para vocês. O conteúdo deste blogue permanece, nós apenas encerraremos as atividades. Muito obrigado pelo apoio de vocês e tenham uma excelente leitura.

sábado, 5 de abril de 2014

AOS 69 ANOS, MORRE O ATOR JOSÉ WILKER, VÍTIMA DE INFARTO


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: É chocante a notícia do falecimento repentino do ator José Wilker, uma das figuras mais dinâmicas, joviais e atuantes do cenário da atuação. Profundo conhecedor de cinema, ele ainda teve, no passado, a militância no CPC da UNE, quando se preparava para sair do Ceará, seu Estado de origem, para a então Guanabara.

Wilker era conhecido por uma porção de trabalhos, que incluíram o personagem de Dias Gomes, Roque Santeiro, e figuras históricas como o justiceiro Tenório Cavalcanti e o líder da Revolta de Canudos, Antônio Conselheiro. Também interpretou o ex-presidente Juscelino Kubitschek, participou de filmes como Bye Bye Brasil e Dona Flor e Seus Dois Maridos e uma de suas últimas atividades foi fazer a locução de um comercial dos Correios.

Wilker também era diretor de cinema e teatro e eventual autor de textos. Uma figura dessas vai fazer falta ao nosso país, cada vez mais marcado pela mediocridade. Retificamos a informação do texto original, que creditou 66 anos a idade final do ator, quando ele faleceu com 70 incompletos, ou seja, ainda com 69 anos.

Aos 69 anos, morre o ator José Wilker, vítima de infarto

Do Portal Terra

Morreu na manhã de sábado (5) o ator José Wilker, aos 69 anos vítima de um infarto fulminante. Ele estava em sua casa, no Rio de Janeiro.

Natural de Juazeiro do Norte, no Ceará, mudou-se para o Rio de Janeiro aos 19 anos. Estreou em novelas em 1971, em Bandeira 2, de Dias Gomes, na Rede Globo. A partir daí viveu personagens marcantes, como o protagonista da novela Anjo Mau (1976), de Cassiano Gabus Mandes. Fez muito sucesso com a novela Roque Santeiro (1985), na qual deu vida ao personagem central da trama homônima, ao lado de Regina Duarte e Lima Duarte, escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva.

Dirigiu boa parte dos episódios de Sai de Baixo, exibido também na Rede Globo, entre 1997 e 2002. Ainda na televisão interpretou personagens memoráveis como Giovanni Improtta, na novela Senhora do Destino, onde bordões como “felomenal” e “o tempo ruge e a Sapucaí é grande” ganharam a boca do público. Na minissérie JK, deu vida ao ex-presidente Juscelino Kubitsheck, e em 2012 voltou a ser dono de outro bordão marcante, o “vou lhe usar”, usado por Jesuíno Mendonça, em Gabriela. Seu último papel na TV foi na novela Amor à Vida, em 2013, onde interpretou o médico Herbert.

No cinema, Wilker também teve destaque com papéis como Tiradentes, no filme Os Inconfidentes, em 1972, foi Vadinho, em Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1976; viveu o político Tenório Cavalcanti de O Homem da Capa Preta, em 1986 e Antônio Conselheiro, de Guerra de Canudos, em 1997. Também participou dos filmes Xica da Silva e Bye Bye Brasil, ambos de Cacá Diegues.

Amante de cinema tinha aproximadamente quatro mil fitas em casa, era comentarista oficial da premiação do Oscar, na Rede Globo, além de escrever uma coluna semanal sobre o assunto no Jornal do Brasil, e apresentar o programa Palco & Plateia, no Canal Brasil.

José Wilker deixa duas filhas, Marina, de seu relacionamento com a atriz Renée de Vielmond, Isabel, com a atriz Mônica Torres, e Madá, do casamento com a jornalista Claudia Montenegro. Também foi casado com a atriz Guilhermina Guinle. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O "MAPA MUNDI" DOS "CARETAS" NASCIDOS NOS ANOS 50


Complementando o texto em questão, nota-se que muitos "coroas" nascidos na década de 1950 - a década que ofereceu, no Primeiro Mundo, pessoas com algum senso maior de modernidade - , sobretudo os do Brasil, uma mentalidade um tanto "mofada", que mesmo no caso de homens casados com mulheres mais jovens consegue resolver (e até agrava).

Com isso, os "coroas", sobretudo os granfinos, sucumbem a uma personalidade antiquada que cria até mesmo um "mundinho" de referenciais antigos, de um passado que eles não compreendem por uma inclinação natural ou uma identificação espontânea, mas algo feito para impressionar os mais velhos que agora viram filhos, alunos e empregados ganharem também rugas e cabelos cinzas ou brancos.

Numa pesquisa feita a partir de diversas personalidades, há sobretudo uma obsessão dos homens nascidos nos anos 50 em assumir uma bagagem de conhecimento de homens nascidos nos anos 1920-1930, a época de seus pais, patrões e professores. As mulheres, nota-se um aumento de religiosidade, que contagia até mesmo antigas hippies que hoje viraram beatas.

Isso não significa uma revisitação sincera do passado. Os "coroas" mais granfinos nascidos nos anos 50 já não se lembram mais de personalidades como Ben Gurion, Gamal Abdel Nasser, Dick Haymes, Jane Russell, Alceu Penna, Stellinha Egg, Gabriel Passos, Stan Kenton e Johnny Ray, embora queiram dar a impressão de que foram "jovens" nos anos 40 e "adultos" nos anos 50, só para impressionar. E transformam a velhice numa brincadeira de criança, literalmente.

Hoje se cobra maior jovialidade para nossos "coroas", que nossas "senhoras" não rezem muito, que nossos "senhores" não fiquem usando sapatos de verniz o tempo todo, que aumentem os BPMs (batidas por minuto) de sua trilha sonora e procurem arejar suas mentes com atividades menos sedentárias e mais descontraídas.

Aqui vai um resumo do "mapa-mundi" e de uma lista de referências que povoam as mentes pedantes desse pessoal de meia-idade, com pressa de assumir um modelo de velhice e de vida idosa que não é mais o dos dias de hoje, e nem é uma versão recauchutada de paradigmas de velhice da década de 1970.

1) EUA DA DÉCADA DE 1940 - O centro chique de Nova York dos anos 40 (e um pouco dos 50), o auge de Hollywood, as comédias românticas da época, as orquestras, os standards da canção hollywoodiana. Glenn Miller, Frank Sinatra, Gene Kelly, Dean Martin, Ella Fitzgerald, Grace Kelly, músicos jazzistas ao lado de seções de cordas, músicas para dançar colado, "Cheek to Cheek", "Moonlight Serenade" etc etc etc.

2) FRANÇA DO SÉCULO XIX - Pinturas impressionistas, campos silvestres, boemia, romantismo parisiense, Belle-Èpoque, vinhos de grande marca e longo tempo de fermentação, e um pouco de referenciais "mais contemporâneos" como Charles Aznavour e Maurice Chevalier com suas canções românticas ao som de acordeon.

3) ITÁLIA RENASCENTISTA - Pinturas renascentistas, a arquitetura remanescente do antigo Império Romano, incluindo os pontos turísticos de Roma. A Roma romântica pré-Mussolini, os antigos restaurantes, o antigo glamour. Se bem que a patota nascida nos 1950 só começou a apreciar a Roma histórica depois que viu o filme Candelabro Italiano, de 1962 (!).

4) BRASIL ANOS 50 - É lógico que quem nasceu nos 1950 foi criança ou não era nascido diante de muitos referenciais chiques da época. A boate Vogue destruída num incêndio em 1955, mas antes disso símbolo do glamour da época junto ao Copacabana Palace (que em 1968 receberia até Mick Jagger), a Bossa Nova, a sofisticada revista Senhor, o colunismo de Jacinto de Thormes já passando o lenço para Ibrahim Sued, as festas de gala da época, a Casa Canadá, a grife Alfred etc etc.

5) GERAÇÕES ANTIGAS - Outra mania também é a geração de 1950 querer se vincular à geração intelectual nascida décadas antes. Qual o médico nascido nos 1950 poderia ter participado dos círculos boêmios de 1958, senão da forma de um meninote de camisa listrada e tênis Vulcabras acompanhando algum pai que estivesse por perto?

Aqui vale denunciar um certo pedantismo. Em 1958 a boemia era marcada por jornalistas, compositores, escritores e outras figuras que nasceram, em média, entre 1923 e 1937, alguns antes, outros um pouco depois. Gente que dava à boemia não só um glamour poético mas uma riqueza de conhecimentos em que até uma piada renderia artigos memorialistas tempos depois.

Era o tempo em que se via, nos bares, gente como Millôr Fernandes, Nelson Rodrigues, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Porto e tantos, tantos outros. E vinha também uma Adalgisa Nery ou então um Otto Lara Rezende, xará do também em evidência Otto Maria Carpeaux, participar das conversas.

Um tempo que não volta mais e que também não são os "coroas" nascidos nos 1950 que se dispuseram a resgatar. Perdemos a MPB tal como era antes de 1968, perdemos a TV Excelsior, perdemos até mesmo a capacidade de se paquerar alguém em locais públicos, ou de ver pobres como o sambista Cartola criar poesia admirável, e nossos "senhores" não resgataram isso.

Fora um ou outro lamento, pelas costas, sobre a crise social de nosso país, eles não vieram resgatar o ouro perdido, ocupados demais com suas jovens esposas (lá entre os 35, 45 anos) que mais parecem versões new wave das "garôtas" de Alceu Penna e que passaram a adolescência e a puberdade ouvindo Rock Brasil, lendo Bizz e vendo MTV.

Na verdade, esses homens e também as mulheres nascidas nos 1950 - que trocaram o Velvet Underground pelo Padre Zezinho - sentem saudade de um passado que não viveram, parafraseando Millôr. E não se sentem identificados com esse passado, salvo raras exceções, mas sim com um desejo de se vincularem ao que seus patrões, pais e professores mais queridos viveram.

Dizem que ser "coroa" é uma forma infantil de ser idoso. Chegando os cabelos brancos, a novidade empolga a princípio e, entre os 45 e 65 anos se brinca de "ser velho" acreditando ter adquirido uma sabedoria que na verdade não vem assim de bandeja. Se empolga demais com os primeiros sinais de envelhecimento e os "coroas" vão longo brincando de "velhos sábios" em palestras, encontros e entrevistas.

Daí a recomendação de, por exemplo, ir a um Lollapalooza para arejar suas mentes. A vida de escritórios, consultórios, encontros formais e festas de gala andou fazendo um pouco mal às mentes de senhores que se esqueceram de Stan Kenton mas se acham entendidos de jazz e senhoras que fizeram topless na adolescência e hoje parecem beatas castiças. Vão viver um pouco mais, enquanto estão vivos!!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

BIOGRAFIA DE MARVIN GAYE


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Marvin Gaye foi um dos importantes nomes da música negra norte-americana, tendo sido um dos artistas que enriqueceu o ritmo com romantismo e poesia, além de ter dado ao gênero soul uma sofisticação que falta no cenário de hoje. Neste dia, Marvin teria completado 75 anos. Mas, há 30 anos atrás, em 01 de abril de 1984, ele foi morto pelo próprio pai durante uma séria discussão.

Gaye foi conhecido por inúmeros clássicos como "Dancing In The Streets", "Wherever I Lay My Hat (That's My Home)", "Stop, Look and Listen", "I Heard it Through The Grapevine", "What's Going On" e "Sexual Healing", este seu derradeiro sucesso, de 1982, que antecipava o soul eletrônico, o charm.

Biografia de Marvin Gaye

Do Portal Letras.com.br

Marvin Gaye (2 de abril de 1939 - 1 de abril de 1984), em Marvin Pentz Gay. Foi um cantor popular de soul e R&B, multiinstrumentista, compositor e produtor. 

Gaye conquistou fama internacional durante os anos 60 e 70 como um artista da gravadora Motown. 

O início da carreira do cantor foi em 1961, na Motown, onde Gaye se tornou o principal cantor da gravadora e emplacou numerosos sucessos durante os anos sessenta, entre eles "Stubborn Kind of Fellow", "How Sweet It Is (To Be Loved By You)", "I Heard It Through the Grapevine" e vários duetos com Tammi Terrell, "Ain't No Mountain High Enough" e "You're All I Need to Get By", antes de mudar sua própria forma de se expressar musicalmente. 

Gaye é importante por sua luta por produzir seus sucessos, mas criativamente restritivo no processo de gravação da Motown. Intérpretes, compositores e produtores eram geralmente mantidos em áreas separadas. 

Com seu bem-sucedido álbum What's Going On, de 1971, e outros lançamentos subseqüentes - includindo Trouble Man, de 1972, e Let's Get It On, de 1973, Gaye, que vez ou outra compunha canções para artistas da Motown no início da sua carreira, provou também que poderia tanto escrever quanto produzir seus próprios discos sem ter de confiar no sistema da Motown. 

Também é conhecido por seu ambientalismo, talvez mais evidente na canção "Mercy Mercy Me (The Ecology)". 

Durante os anos setenta, Gaye lançaria outros notáveis álbuns, includindo Let's Get It On e I Want You, além de ter emplacado vários sucessos, como "Let's Get It On" e "Got to Give It Up". Já no começo dos anos oitenta, seria a vez do hit "Sexual Healing", que lhe rendeu dois prêmios Grammy. 

Gaye assassinado pelo seu pai, em 1984, tinha se tornado um dos mais influentes artistas da cena soul. 

Em 1996, Gaye foi homenageado na 38º cerimônia do Grammy Awards. 

A carreira de Marvin tem sido descrita como uma das que "abarcam toda a história do R&B, do doo-wop dos anos cinqüenta ao soul contemporâneo dos anos oitenta." 

Críticos têm também afirmado que a produção musical de Gaye "significou o desenvolvimento da black music a partir do rhythm'n blues, através de um sofisticado soul de consciência política nos anos setenta e de uma abordagem maior em assuntos de cunho pessoal e sexual." 

Marvin Gaye nasceu no Freedman's Hospital, em Washington, D.C.. Ele foi o primeiro filho e o segundo mais velho de quatro filhos do pastor evangélico Marvin Pentz Gaye Sr. e da professora e dona-de-casa Alberta Cooper. 

Com as irmãs Jeanne e Zeola e o irmão mais novo Frankie, viviam na zona segregada da capital norte-americana, no bairro da Deanwood (nordeste da cidade). 

Ainda novo, ele era carregador de tacos de golfe no Norbeck Country Club, em Olney, Maryland 

O pai de Gaye pregava com pastor na Igreja Adventista do Sétimo Dia chamada House of God (a "Casa de Deus"), que tinha um rigoroso código de conduta misturado a ensinamentos do judaísmo ortodoxo e pentecostalismo. 

Crescendo na igreja de seu pai, Marvin começou a cantar desde cedo no coral - aos 3 anos - e a tocar instrumentos. 

A música era uma espécie de válvula de escape para o jovem, que durante toda a infância costumava apanhar do pai diariamente. 

Durante o tempo em que esteve na high school, Marvin começou a ouvir Doo-Wop e ingressou no DC Tones como um baterista. 

Após abandonar a Cardozo High School, Gaye alistou-se na Força Aérea dos Estados Unidos. Após o fingimento de uma doença mental, ele foi dispensado por ter se recusado a seguir ordens. 

Após abandonar as Forças Aéreas em 1957, Gaye começou sua carreira musical em vários grupos Doo Wop, fixando-se em um popular grupo de Washington DC, chamado The Marquees. 

Com Bo Diddley, The Marquees lançaram o single "Wyatt Earp" em 1957 pela gravadora Okeh e foram então contratados por Harvey Fuqua para o grupo The Moonglows. 

"Mama Loocie", lançada em 1959 pela gravadora Chess, foi o primeiro e único single de Gaye com os Moonglows. 

Junto com os Moonglows, Gaye assimilou várias técnicas, utilizadas posteriormente, nos álbuns que produziria. 

E foi com ajuda dessa banda que ele foi apresentado a empresários da cena musical. Depois de um concerto em Detroit, o "novo" Moonglows foi dissolvido e Fuqua apresentou Gaye a Berry Gordy, presidente da Motown Records. 

Ele contratou Gaye primeiramente como baterista de estúdio, para tocar para grupos como The Miracles, The Contours, Martha and the Vandellas, The Marvelettes, entre outros. 

Depois de iniciar sua carreira na Motown, Gaye mudou seu nome de Marvin Gay para Marvin Gaye, acrescentando '"e"' para diferenciar do nome de seu pai, para encerrar os boatos em curso em torno de sua sexualidade e ainda para imitar seu ídolo, Sam Cooke, que havia também acrescentado um 'e' ao seu sobrenome. 

Gaye desejava gravar para a Motown, mas Berry Gordy tinha receio quanto ao cantor, devido ao fato de que Gaye não costumava seguir as ordens sobre as quais a gravadora queria que ele cumprisse. 

De acordo com um documentário do canal de televisão VH1, a namorada de Marvin - e irmã de Berry, Anna Berry Gordy, convenceu o irmão a assinar com Gaye. Berry concordou em deixar que Marvin gravasse versões pop-contemporâneas de baladas românticas baseadas no jazz. 

Popular e querido dentro da Motown, Gaye já carregava com ele uma maneira sofisticada e cavalheiresca e tinha pouca necessidade de treinamento no setor de desenvolvimento artístico da gravadora - embora tenha seguido o conselho do diretor dessa divisão, Maxine Powell, de não cantar de olhos fechados, para não parecer que tinha adormecido". 

Em junho de 1961, foi lançado a primeira gravação solo de Gaye, The Soulful Moods of Marvin Gaye. Foi o segundo LP lançado pela Motown - o primeiro foi o Hi... We're The Miracles, o primeiro disco dos Miracles. Apesar das faixas "How Deep Is the Ocean?" e "How High the Moon" terem sido elogiadas pela crítica pela profundidade das harmonias e melodias, o álbum de Gaye fracassou e nem chegou às paradas norte-americanas. 

Marvin ainda tinha dificuldades em descobrir seu jeito próprio de cantar, que ele desejava que fosse o mais próximo de, um dos ícones do jazz, estilo que predomina no primeiro disco solo de Marvin. 

A Motown queria que o cantor se direcionasse para melodias da Soul Music, mais populares e atraentes no mercado fonográfico. 

Depois de discutir sobre a direção de sua carreira com Berry Gordy, Gaye - relutante - concordou em gravar mais canções de R&B de seus colegas de gravadora e outros três novos escritos pelo próprio Gordy. 

Seu primeiro single lançado, "Let Your Conscience Be Your Guide", construída sobre uma vibração de Ray Charles, fracassou nas paradas - tendo o mesmo ocorrido com as canções "Sandman" e "A Soldier's Plea", todas de 1962. 

Ironicamente, Gaye encontraria o sucesso primeiramente como compositor da canção "Beechwood 4-5789", gravada pelas Marvelettes em 1962. 

Finalmente naquele mesmo ano, o single "Stubborn Kind of Fellow" rendeu algum sucesso e chegou ao Top 10 R&B dos Estados Unidos. Co-escrita por Gaye e produzida pelo amigo William "Mickey" Stevenson, a gravação contou com a participação das recém-contratadas Martha and the Vandellas (então conhecidas como The Vells) e foi uma espécie de desabafo autobiográfico sobre o comportamento indiferente e deprimido de Gaye. 

Na seqüência de "Stubborn Kind of Fellow" vieram, em 1963, outros três singles: as dançantes "Hitch Hike" e "Can I Get a Witness", que chegaram ao Top 30 Pop da Billboard, e a balada romântica "Pride and Joy", primeira canção de Gaye a chegar ao Top 10 Pop. 

Apesar do cantor começar a encontrar o caminho do sucesso, Marvin ainda brigava com a Motown para ser um cantor de baladas românticas e sofisticadas, diferentemente da linha da gravadora que esperava de seus artistas os grandes hits. 

Batalhas entre a opção artística de Marvin e a demanda por produtos comerciais da Motown seriam freqüentes ao longo dos anos e marcariam o relacionamento entre o cantor e a gravadora, já que as insistentes cobranças do selo por um trabalho mais comercial eram incompatíveis com as ambições artísticas de Gaye. 

O sucesso continuaria em 1964 com os singles "You Are a Wonderful One" (que contou com o trabalho vocal de fundo do grupo The Supremes), "Try It Baby" (que contou com vocais de fundo do grupo The Temptations), 
"Baby Don't You Do It" e "How Sweet It Is (To Be Loved By You)", que tornou-se sua primeira composição de sucesso. 

Durante este fase inicial de sucesso, Gaye ainda contribuiu com o grupo Martha and the Vandellas, sendo autor da letra do hit "Dancing in the Street", sucesso naquele mesmo ano. 

Gaye também conseguiu figurar nas paradas com o álbum Together, um disco de duetos com a cantora Mary Wells. A dupla emplacou os singles "Once Upon a Time" e "What's the Matter With You, Baby?". 

Como artista solo, Gaye continuou a desfrutar de um grande sucesso e seu LP Moods of Marvin Gaye, de 1966, do qual participou Smokey Robinson, colocou os singles "I'll Be Doggone" e "Ain't That Peculiar" tanto o Top 10 Pop da Billboard quanto no topo - pela primeira vez na carreira do cantor - da parada R&B norte-americana. 

Com Kim Weston, sua segunda parceria de dueto, foi lançado "It Takes Two", canção que chegou ao Top 20 Pop e ao quarto lugar na lista de R&B da Billboard. Marvin Gaye se estabelecia como um dos principais artistas na era dos duos. 

Seu sucesso como cantor solo também lhe concedeu o status de ídolo da juventude, assim como ele se tornou um dos artistas prediletos nos principais shows adolescentes - entre os quais, American Coreto, Shindig, Hullaballoo e The Mike Douglas Show. 

Ele também se tornou um dos poucos artistas da Motown a se apresentar no Copacabana - e um álbum seu gravado na casa demoraria três décadas para ser lançado. 

Uma série dos sucessos de Gaye pela Motown foram duetos com artistas femininas, tais como Mary Wells e Kim Weston. O primeiro LP do cantor a aparecer nas listas da Billboard foi o Together, de 1964, disco de duetos com Wells. 

No entanto, a parceira mais popular e memorável de Marvin foi Tammi Terrell. Gaye e Terrell tinham um bom relacionamento e o álbum de estréia da dupla, United, lançado em 1967, gerou uma série de sucessos, como "Ain't No Mountain High Enough", "Your Precious Love", "If I Could Build My Whole World Around You" e "If This World Were Mine". 

A dupla de compositores Nickolas Ashford e Valerie Simpson, que eram também casados, forneceu as letras e a produção para as gravações de Gaye/Terrell. Enquanto Gaye e Terrell não formavam um casal de namorados - embora rumores persistam de que eles podem ter tido um caso anteriormente -, eles atuavam como verdadeiros amantes nas gravações. 

De fato, Gaye às vezes declarava que pela duração das canções ele estava apaixonado por ela. Mas ainda naquele ano, o sucesso da parceria foi tragicamente encurtado. 

Em 14 de outubro, Terrell desmaiou nos braços de Gaye, enquanto eles se apresentavam no Hampton Institute (hoje Hampton Universit), em Hampton, Virginia. Era o primeiro sintoma de um tumor cerebral, diagnosticado em exames realizados posteriormente, e que continuaria a debilitar a saúde de Tammi. 

A Motown decidiu tentar e continuar as gravações da dupla Gaye/Terrell. Em 1968, a gravadora lançou You're All I Need, o segundo LP da dupla, que se destacou pelos sucessos de "Ain't Nothing Like the Real Thing" e "You're All I Need to Get By". 

No ano seguinte foi lançado Easy, o último álbum da dupla. A deterioração da saúde de Terrell a impediu de concluir as gravações de estúdio e a maior parte dos vocais femininos teriam sido gravados por Valerie Simpson. Duas faixas do LP eram canções arquivadas da carreira solo de Terrell e foram mixadas com a voz de Gaye. 

A doença de Tammi Terrell deixou Gaye em profunda depressão; quando sua canção "I Heard It Through the Grapevine" (inicialmente gravada em 1967 por Gladys Knight & The Pips) chegou ao primeiro lugar da principal lista da Billboard - além de ter também sido o single mais vendido da história da Motown, com quatro milhões de cópias -, ele se recusou a reconhecer seu sucesso, sentindo que ele era imerecido. 

O trabalho com o produtor Norman Whitfield, que havia produzido "Grapevine", resultou em outros dois sucessos similares: "Too Busy Thinking About My Baby" e "That's the Way Love Is". 

Entretanto, o casamento de Gaye estava ruindo e ele continuava a sentir que seu trabalho artístico era completamente irrelevante. Frente às transformações sociais que chacoalhavam os Estados Unidos naquele período. 

Ao mesmo tempo que Marvin cantava interminavelmente sobre o amor, a música popular norte-americana passava por uma grande revolução, abordando em suas letras as questões sociais e políticas daqueles anos. Desejando ter independência criativa, Marvin foi liberado pela Motown para produzir as gravações de estúdio das bandas The Originals, cujo resultado apareceu nos hits "Baby I'm For Real" e "The Bells". 


Em 16 de março de 1970, Tammi Terrell morreu em decorrência do tumor cerebral e deixou Marvin devastado. Durante o funeral da parceira, Marvin estava tão sensível que ele conversava com o corpo de Tammi como que esperando por uma resposta dela. Imediatamente, Gaye mergulhou em um auto-isolamento e ficou sem se apresentar ao vivo por quase dois anos. Gaye contou a amigos que havia pensado em deixar a carreira musical, à ponto até de tentar ingressar no futebol americano e jogar no Detroit Lions (onde ele encontrou os colegas Mel Farr e Lem Barney), mas depois de seu sucesso produzindo os Originals, Gaye estava confiante em criar sua própria gravadora. Como resultado disso, ele entrou nos estúdios em 1 de junho de 1970 para gravar as canções "What's Going On", "God is Love", "Sad Tomorrows" - uma versão inicial da canção "Flying High (In the Friendly Sky)". Gaye queria lançar "What's Going On" como single, mas Berry Gordy recusou-se, alegando que a canção não era viável comercialmente. Gaye recusou-se a gravar qualquer outra canção até que o presidente da Motown cedesse, o que ocorreria em janeiro de 1971. O sucesso do single surpreendeu Gordy, que requisitou um álbum com canções similares. 

O álbum What's Going On tornou-se um dos mais importantes da carreira de Gaye e é até hoje seu trabalho mais conhecido. Tanto em termos de som (influenciada pelo funk e pelo jazz) e de conteúdo das letras (fortemente espiritual), o álbum representou uma aproximação com seus trabalhos iniciais na Motown. 

Além da faixa-título, "Mercy Mercy Me" e "Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)" atingiram o Top 10 Pop Hits e o primeiro lugar da lista R&B da Billboard. Considerado como um dos mais notáveis discos da história da soul music norte-americana, o álbum conceitual de Gaye foi um divisor de águas para esse gênero musical. 

Ele já foi chamado de "a mais importante e apaixonada gravação já lançada da música soul, entregue por uma de suas melhores vozes". 

Com o sucesso do álbum What's Going On, a Motown renegociou um novo contrato com Marvin que permitiu a ele o controle artístico de seu trabalho, no valor de US$1 milhão, fazendo do cantor o mais bem pago artista negro da história da música. 

Além disso, Gaye ajudou a libertar o trabalho criativo de outros artistas da Motown, entre os quais Stevie Wonder. Ainda naquela época, Marvin mudou-se de Detroit para Los Angeles em 1972 após receber uma proposta para escrever a trilha-sonora para um filme blaxploitation. 

Escrevendo as letras, criando os arranjos e produzindo o LP para o filme Trouble Man, Marvin lançou o álbum e a canção homônimas, que atingiram o Top 10 Pop da Billboard em 1973. 

Depois de passar por um período complicado quanto aos rumos de sua carreira, Marvin decidiu mudar o conceito lírico das composições. 

O LP Let’s Get it On trazia uma temática menos social e mais pessoal da vida de Marvin. Conflitos com o pai, dúvidas existenciais e questões sobre a vida particular do compositor fazem parte do álbum. 

O LP foi um dos trabalhos mais bem sucedidos de sua carreira e o seu maior sucesso de vendas, superando What's Going On. A faixa-título chegou ao topo da parada pop da Billboard e bateu o recorde de vendagens da Motown, que pertencia ao próprio Marvin com "I Heard It Through the Grapevine". 

Outros destaques do LP foram as canções "Come Get to This", "You Sure Love to Ball" e "Distant Lover". 

Gaye começou a trabalhar naquele que seria seu último álbum dueto, desta vez com Diana Ross. O projeto do LP Diana & Marvin teve início em 1972, mas houve atrasos no andamento do álbum. 

Com Diana grávida pela segunda vez, Gaye recusava-se a cantar se ele não pudesse fumar no estúdio. Então, os dois realizaram as gravações em dias separados. 

Lançado no segundo semestre de 1973, o álbum rendeu vários sucessos, entre os quais "You're a Special Part of Me", "My Mistake (Was to Love You)" e as versões para "You Are Everything" e "Stop, Look, Listen (To Your Heart)", ambas hits do grupo The Stylistics. 

Em 1975, Gaye começou a pensar em seu próximo disco solo, mas o divórcio com Anna Gordy tomou boa parte do seu tempo. O fim do casamento levou Gaye a várias audiências nos tribunais. 

O disco I Want You foi finalizado somente no ano seguinte. O álbum levou a faixa-título "I Want You" ao topo da parada R&B da Billboard. 

Em 1977, a Motown lançou o single de "Got to Give It Up", que se tornou primeiro lugar nas lista Pop, R&B e Dance da Billboard, e o LP ao vivo Live at the London Palladium, álbum que vendeu em torno de duas milhões de cópias - se tornando um dos mais vendidos daquele ano. 

No ano seguinte, finalmente Gaye consegue se divorciar de sua primeira esposa Anna. Como resultado do acordo judicial, Gaye foi ordenado a pagar pensão alimentícia - ele concordou em ceder parte de seu salário e das vendas do seu álbum seguinte para pagar essa pensão. 

O resultado foi o LP duplo Here, My Dear, que explorou o relacionamento do casal em detalhes tão íntimos que quase levou Anna a processá-lo por invasão de privacidade, mas ela desistiu dessa decisão. 

O LP fracassou nas listas de sucesso e Gaye se esforçou para vender o disco. Em 1979, Gaye se casou pela segunda vez, agora com Janis Hunter, com quem teve dois filhos, Frankie e Nona), e começou a trabalhar em um novo álbum, Lover Man. Mas o projeto foi abortado depois do fracasso do single "Ego Tripping Out". 

Reclamando de problemas com impostos e de vício em drogas, Gaye pediu falência e se mudou para o Hawaii, onde ele vivia em um furgão. 

Em 1980, ele assinou com o promotor britânico Jeffrey Kruger para realizar concertos no Reino Unido. Mas Gaye não conseguiu chegar em tempo ao palco. Quando ele chegou, todos já haviam deixado o concerto. 

Em Londres, Marvin trabalhou no LP In Our Lifetime?, uma complexa e profunda gravação pessoal. Quando a Motown lançou o disco em 1981, Gaye ficou lívido: ele acusou a gravadora de editar e remixar o álbum sem seu consentimento, lançando uma canção inacabada, 
"Far Cry", alterando a arte do LP que ele requisitara e removendo o ponto de interrogação do título (dessa forma, alterando sua conotação irônica). 

Depois de oferecida uma nova chance em Ostend, Bélgica, Marvin mudou-se para lá ainda em 1981. Ainda perturbado pela decisão precipitada da Motown em lançar In Our Lifetime, ele negociou sua saída da gravadora e assinou com a Columbia Records no ano seguinte, onde lançou Midnight Love. 

O disco incluía o grande sucesso "Sexual Healing", que lhe rendeu seus primeiros dois prêmios Grammy (de Melhor Performance R&B Masculina e Melhor R&B Instrumental), em fevereiro de 1983. 

Ele também seria indicado aos mesmos prêmios no ano seguinte pelo LP Midnight Love. Também em fevereiro de 1983, Gaye fez uma apresentação memorável no All-Star Game da NBA, interpretando o Hino Nacional dos Estados Unidos. 

No mês seguinte, ele fez sua última apresentação para seu antigo mentor no concerto Motown 25, apresentando What's Going On. Depois, ele embarcou em uma turnê pelos EUA divulgando seu recente trabalho. Terminada a turnê, em agosto de 1983, ele estava atormentado por problemas de saúde - ele teve acessos de depressão e medo em torno de uma suposta tentativa de lhe tirarem a vida. 

Quando a turnê foi encerrada, ele se isolou e se mudou para a casa de seus pais. Ele ameaçou cometer suicídio diversas vezes, depois de numerosas e amargas brigas com seu pai, Marvin Pentz Gay. 

Em 1 de abril de 1984, um dia antes de completar seu 45º aniversário, Marvin foi assassinado com um tiro por seu próprio pai, após uma briga iniciada quando os pais de Gaye discutiam sobre a perda de documentos de negócios. Gaye foi morto por uma arma que ele próprio havia dado de presente para seu pai. 

Marvin Pentz Sr. foi condenado a seis anos de prisão, após ser declarado culpado por homicídio. A acusação de assassinato foi abandonada após médicos descobrirem que ele estava com um tumor cerebral. Marvin Pentz Sr passou o final de sua vida em um asilo, onde morreria de pneumonia em 1998. 

Após alguns lançamentos póstumos, que fortaleceram a memória de Marvin na consciência popular, o cantor foi introduzido ao Rock and Roll Hall of Fame em 1987. Mais tarde, também ao Hollywood's Rock Walk e, em 1990, ganharia uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

"BRASIL PERDEU 50 ANOS DESDE GOLPE"

JOÃO VICENTE APARECE BEM PEQUENO AO LADO DO PAI, JANGO, E DA MÃE, MARIA THERESA. ATUALMENTE ELE E A MÃE SÃO AS PRINCIPAIS TESTEMUNHAS DO LEGADO DO EX-PRESIDENTE EXPULSO DO PODER PELA FORÇA DOS GENERAIS.

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Mesmo criança, naqueles tempos turbulentos em que viveu seu pai, o hoje presidente do Instituto João Goulart, João Vicente Goulart, foi testemunha daquele período e sentia a humilhação de ver o pai sendo expulso do poder por um levante militar que deu origem a um período político que causou sérios prejuízos ao Brasil.

Segundo João Vicente, o Brasil teve um prejuízo de 50 anos por causa do golpe militar, já que até agora o projeto de reformas de base proposto por seu pai não foi plenamente realizado.

"Brasil perdeu 50 anos desde golpe", diz filho de Jango

Da Agência EFE

O Brasil perdeu 50 anos desde o golpe de 1º de abril de 1964, que mergulhou o país em uma ditadura de 21 anos, porque as reformas propostas pelo então presidente, João Goulart, ainda precisam ser feitas, disse em entrevista exclusiva à Agência Efe o filho do presidente deposto, João Vicente Goulart.

"Estaríamos em uma situação muito diferente. Perdemos 50 anos. É lógico que o país evoluiu, mas, se as reformas tivessem sido adotadas na época, nosso nível de desenvolvimento seria muito superior hoje", afirmou o presidente do Instituto João Goulart, que tinha sete anos quando acompanhou o pai ao exílio.

João Vicente, que é filósofo, poeta e empresário, dedicou os últimos anos a resgatar a memória do pai, explicou que a maior parte das "reformas de base" propostas por Jango ainda não foram iniciadas.

Essas reformas estruturais, tachadas de "comunistas" por alguns e que aterrorizavam ruralistas, militares e banqueiros, foram implantadas por muitos dos grandes países capitalistas, afirmou.

Goulart explica que a reforma agrária de Jango distribuiria títulos de propriedade a 1 milhão de camponeses ("nada mais irônico do que um comunista distribuindo títulos de propriedade"), a bancária permitiria que o crédito chegasse a toda a sociedade, a tributária criaria impostos sobre as grandes fortunas e a educacional universalizaria a educação.

"Estou citando uma a uma porque nenhuma foi feita até hoje. Foram propostas 50 anos atrás e ainda são necessárias", assegurou.

Para ele, a perda de meio século se reflete no Índice de Gini, utilizado pela ONU para medir a desigualdade, e que "está voltando agora ao nível em que estava na época de Jango".

"Derrubaram uma constituição, depuseram um governo legítimo, implantaram uma ditadura, reduziram os salários, criaram a ideia de que o Brasil era um país imparável que vivia um milagre econômico e que o bolo estava crescendo para depois ser dividido. O problema foi que o bolo cresceu, não foi dividido e ficamos devendo a farinha e os ovos. Só agora estamos recuperando a economia e voltando ao nível de desenvolvimento da época", disse.

João Vicente diz esperar que o Brasil aproveite os 50 anos do golpe, amanhã, para fazer uma profunda reflexão "nas universidades, nos sindicatos, nos movimento sociais" sobre as reformas que o Estado precisa fazer.

"Independentemente de estarmos em um ano eleitoral e de termos um governo de direita ou de esquerda - entre aspas - é fundamental saber que existe um gargalo para o desenvolvimento e que para superá-lo é preciso fazer a reforma do Estado, a agrária, a do seguro social", continuou.

O filho de Jango garantiu que os militares tomaram o poder financiados por "interesses econômicos das multinacionais que não queriam as reformas para poder continuar subjugando as economias latino-americanas, que é o que acontece até hoje".

Segundo Goulart, a sociedade brasileira não estava polarizada em 1964 como alegavam então os grandes meios de comunicação, que, analisou, ficaram do lado dos golpistas desde 1962, quando a CIA forneceu dinheiro para comprar redações, promover a instabilidade, financiar ações encobertas e escolher políticos contrários a Jango.

"Essa polarização foi fabricada, tanto que esconderam durante 40 anos uma pesquisa que atribuía a Jango 68% do apoio da opinião pública e 89% entre os setores mais pobres", disse.

Goulart não considera tardia a homenagem que o governo brasileiro fez recentemente a seu pai ao receber seu corpo em novembro em Brasília com as honras de chefe de Estado que foram negadas pela ditadura.

"Rever a história do Brasil é um compromisso da nação. Jango é hoje um bem cultural imaterial da nação e do país, que tem uma responsabilidade com a verdade, e por isso (o governo) tem que investigar o que ocorreu com Jango, com suas propostas, com sua vida, com sua morte. É um dever investigar tudo isso", concluiu.

JOÃO GOULART E AS PRESSÕES DO 1964


Por Alexandre Figueiredo

João Goulart pode ter cometido erros políticos, sim, como a tal anistia aos sargentos revoltosos comandados pelo suspeito Cabo Anselmo - depois revelado um direitista astucioso - , mas não era um político fraco nem hesitante, mas um líder popular que sabia que estava agindo sob violentas pressões de todos os lados.

Das esquerdas, Jango era acusado de não cumprir o que prometia das chamadas reformas de base. Neste caso, as pressões sociais e a atuação bem menos cúmplice do que parecia em relação ao PCB - que já em 1962 deixava o antigo nome "Partido Comunista do Brasil" para o nascedouro PC do B e passava a ser Partido Comunista Brasileiro - desmentiram o mito de que Jango era "comunista" e "manipulador de sindicatos".

Da direita, Jango era acusado de ser "comunista", mesmo quando as relações não eram assim tão ligadas e que o próprio PCB era duramente criticado pelos esquerdistas de 1961-1964, por conta de sua visão antiquada e extremamente pragmática. Depois do golpe, o PCB foi acusado de não ter firmeza, na época, para reagir contra a ação dos generais.

João Goulart era um líder nacionalista. Até o linguista e cientista político norte-americano Noam Chomsky não considerava Jango um "comunista". O que Jango representou foi um político reformista, que procurava ousar mais nas suas ideias políticas e nos seus projetos de governo, que infelizmente não teve condições de colocar em prática.

Jango não era hesitante. Ele tentava manter um equilíbrio político, já que governava um país grande e diferenciado que era o Brasil. A responsabilidade dele era grande, mas o preconceito que se havia na sociedade com projetos reformistas era bem pior.

Se trinta anos antes do Golpe de 1964 ainda se via as reivindicações dos trabalhadores como um "crime", em 1964 havia gente que se revoltava quando um governante prometia reformas sociais amplas, reforma agrária e redução das remessas de lucros para o exterior.

Jango melhorava as políticas salariais, e irritou a direita quando, no tempo em que era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, dobrou o valor do salário mínimo. Isso em 1954. A direita pressionou e os então coronéis que depois derrubaram o mesmo político, chegaram a divulgar um manifesto contra a medida.

A reforma agrária só era aceita pela direita quando os grandes proprietários de terra recebessem uma pesada indenização. Foram-se os tempos de antigos fazendeiros que transformavam antigas propriedades em bairros populares, a ganância dos fazendeiros nas últimas décadas motivou até mesmo a prepotência e a violência nas áreas rurais e nos subúrbios.

A redução da remessa de lucros para o exterior era uma forma de impedir que empresas e empresários estrangeiros levassem mais dinheiro para fora do país. Era um meio do Brasil segurar mais dinheiro no seu território, para ser aplicado em projetos de cunho social, sobretudo em favor da Saúde, da Educação e dos salários dos trabalhadores.

Jango irritava a direita por causa disso. Aliás, o Brasil queria andar para a frente. Mesmo culturalmente. Discutia-se até mesmo as marchinhas de carnaval, algo que parece insólito num país que, hoje, não quer que questionemos o "funk". Tínhamos projetos educacionais ousados, projetos de cultura musical polêmicos mas audaciosos, tínhamos programações de TV de qualidade.

Sim, porque naquela época mesmo apresentadores de auditório que depois mergulharam fundo na bregalização cultural - como Sílvio Santos e Raul Gil, que já eram bem conhecidos na época do governo Jango - não estavam comprometidos com a imbecilização das classes populares. E se hoje qualquer nulidade do Big Brother Brasil vira "celebridade", naqueles tempos um filósofo como Jean-Paul Sartre é que atraía mais audiência para a televisão já no começo de popularização.

Bibi Ferreira chamava personalidades brasileiras que tinham o que dizer e artistas de música brasileira de verdade para comporem as atrações do Brasil "Ano Tal" que havia feito então, na TV Excelsior, uma emissora de TV de perfil moderno na época. Com seu Brasil 60, Brasil 61, Brasil 62 e Brasil 63, Bibi fazia um programa de auditório sofisticado que nem as emissoras de TV paga hoje têm coragem nem interesse em fazer.

Era um Brasil que parecia antecipar até mesmo à Contracultura da Europa e dos EUA. A dos EUA de 1961-1964 parecia tímida, a da Grã-Bretanha incipiente, a da França criava fôlego, com outros países assistindo a tudo isso de camarote. O Brasil já tinha uma UNE discutindo cultura e querendo transformar as mentes populares de nosso país.

Mas aí veio a ditadura, e Jango mostrou-se, por incrível que pareça, equilibrado. Ele sabia que nada podia fazer, com um Congresso Nacional em maioria contra ele, com ameaças de golpe já divulgadas em rádio e TV, e tinha um Exército pouco preparado para reagir contra as ações golpistas.

O frágil dispositivo militar do ministro da Casa Militar, Argemiro Assis Brasil, e o fato do ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, estar doente, propiciaram a reação golpista, que ainda contou com a adesão dos poucos militares de Assis Brasil que rumaram em direção às tropas de Olímpio Mourão Filho.

Jango preferiu não investir na reação, e sua decisão foi controversa (ela irritou, sobretudo, o cunhado Leonel Brizola, que havia transferido seu domicílio político do Rio Grande do Sul para a Guanabara). Ele não queria criar um ambiente de guerra, primeiro por saber do que a rígida oposição seria capaz de fazer, segundo, porque não queria que se criem grandes tragédias para o povo brasileiro.

Mais tarde, revelou-se que os EUA já tinham pronto um plano de guerra contra o Brasil, a operação Brother Sam, não bastasse a grande soma de dinheiro que a CIA investiu aqui e ali no Brasil, de entidades "representativas" de estudantes e operários até "marchas da família", para não dizer o IPES-IBAD, na campanha para derrubar Jango.

Com a ditadura militar, o país regrediu a um conservadorismo reciclado que reflete até mesmo nos dias de hoje. Tanto que, quarenta anos depois, Lula tentava aplicar uma forma branda de "governo Jango" num contexto sócio-cultural parecido com o da Era Geisel.

Em vários aspectos da vida social, cultural, política e econômica, o país passou a sofrer de um vazio ideológico e identitário muito grande. Para piorar, muitos dos intelectuais de hoje só querem analisar o passado retrocedendo, no máximo, até 1967. Eles têm medo de 1964, e de antes desse ano, porque iria expor contradições e equívocos que explicariam muitos erros ocultos de hoje.

Por isso ainda temos que analisar muito o que significou o Brasil até 01 de abril de 1964. A memória curta sofrerá muitas dores, e muitos "heróis" e "dogmas" serão postos em xeque, diante da redescoberta de um Brasil que os brasileiros de hoje pouco conhecem.