A MARCHA DA FAMÍLIA UNIDA COM DEUS PELA LIBERDADE PEDIU O GOLPE MILITAR DE 1964


Por Alexandre Figueiredo

Assustadas com as promessas feitas por João Goulart no comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964, as classes dominantes, de entidades religiosas a grupos empresariais, resolveu, seis dias depois, dar a resposta que representou o maior protesto contra o governo progressista que vigorava naquele problemático ano, que se distancia de hoje em meio século.

Se o comício da Central teve a presença de representantes das classes trabalhadoras, além de políticos progressistas - inclusive um José Serra então líder estudantil e distante do direitista tucano que é atualmente - , a Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade reuniu a chamada "nata da direita" brasileira, claramente simpatizante da supremacia capitalista dos EUA.

Era a época da Guerra Fria e o Brasil vivia o maniqueísmo ideológico entre a "democracia" capitalista dos EUA e o comunismo da URSS, num conflito bem mais duro do que a atual disputa entre EUA e Rússia na disputa pela Crimeia, que historicamente foi vinculada à Ucrânia e queria manter e reafirmar seu status de nação independente.

Os EUA estavam preocupados com as promessas arrojadas do governo nacionalista e popular de João Goulart, que no seu comício na famosa estação ferroviária do centro carioca - no então Estado da Guanabara - e, nos bastidores da política estadunidense, o Departamento de Estado e a CIA despejavam uma gigantesca soma de dinheiro para campanhas pela derrubada do governo Jango.

Esse investimento, acrescido de outros de empresas estrangeiras, sobretudo estadunidenses, instaladas no Brasil, como Coca-Cola, ESSO, General Motors, IBM, Shell, Ford e muitas outras, financiava desde pretensos institutos, como o IPES-IBAD, até passeatas como a Marcha da Família, além de instituições diversas de mulheres, estudantes, trabalhadores e militares, todos de cunho direitista.

A Marcha da Família, ou Marcha Deus e Liberdade, como tornou-se conhecida a título de simplificação de nome, ocorrida no dia 19 de março de 1964 - ironicamente, dia de aniversário de José Serra, então completando 22 anos de idade - , não foi a primeira nem a única marcha realizada, mas foi a maior, feita por multidões no centro de São Paulo.

A inspiração da marcha está nas pregações moralistas do líder católico conservador Patrick Peyton, cujo sobrenome inspiraria e talvez inspirou piadas no anedotário brasileiro. Ele pedia a seus adeptos que exibissem rosários como prova de fé. O evento, patrocinado pelo governador de São Paulo, Adhemar de Barros, teve adesões que iam de Hebe Camargo a Carlos Lacerda, passando pelos estudantes da Mackenzie, instituição de ensino de orientação prebisteriana.

Seu itinerário incluiu da Praça da República à Praça da Sé, passando pela rua Barão de Itapetininga, a Praça Ramos de Azevedo, o Viaduto do Chá, a Praça do Patriarca e a rua Direita. Entre as frases exibidas pelos manifestantes, se destacaram "Vermelho bom, só o batom", "Um, dois, três, Jango no xadrez", "Abaixo os imperialistas vermelhos" e "Verde e amarelo, sem foice nem martelo".

A marcha causou grande repercussão na opinião pública da época e agravou a crise política do país, fazendo com que os generais das três Forças Armadas - Exército, Marinha e Aeronáutica - começassem a debater qual a forma de tirar João Goulart do poder. Coisa que foi feita no dia 01 de abril, embora a História tivesse atribuído para um dia antes.

Outra marcha foi organizada no Rio de Janeiro, em 02 de abril de 1964, para celebrar a vitória do golpe militar de 1964. Mantendo o mesmo longo nome, a marcha no entanto foi apelidada de Marcha da Vitória, reunindo as mesmas instituições que realizaram a manifestação paulista.

REEDIÇÃO - Em 22 de março de 2014, foi realizada a nova marcha, com o mesmo nome e relançando muitos bordões. No entanto, a manifestação teve menos adesão e a crise política que existe no governo Dilma Rousseff se limita a conflitos com políticos do PMDB, o maior partido aliado do PT, que comanda o governo.

O objetivo da marcha, além de relembrar o protesto de 1964, era pedir "intervenção militar" para tirar Dilma do poder. Os pretextos são outros, como a promessa de "novas eleições" e com uma ênfase na juventude, mas seu sucesso foi muito fraco e o Brasil não possui uma crise político-institucional e econômica que propicie uma ação golpista bem-sucedida e respaldada pela sociedade.

Além disso, também ocorreram marchas anti-fascistas, paralelamente à Marcha da Família, que lembraram, numa abordagem negativa, tanto a marcha de 1964 quanto a ditadura militar que se seguiu e teve reflexos negativos na sociedade brasileira.

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