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REGINALDO ROSSI NÃO SE ACHAVA UM "ARTISTA SÉRIO"


Por Alexandre Figueiredo

Um dos nomes da música brega que não merece tantas críticas é o recém-falecido Reginaldo Rossi. Ele, ao lado de alguns outros - como Sidney Magal, por exemplo - , tinham a despretensão que a maioria dos ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas não tem.

Nota-se que, nos últimos anos, estimulada pela blindagem intelectual ferrenha, a música brega e seus derivados (inclusive a "moderna" axé-music e o "arrojado" "funk") foram tomados de um surto de pretensiosismo extremo, às custas da falsa imagem de "vítimas de preconceitos" e do mau humor que seus "artistas" despejavam nos depoimentos à imprensa.

Ingratos, esses ídolos, em vez de expressar alguma gratidão a alguém pelo seu sucesso, resmungavam ou choramingavam só porque não eram vistos como "artistas sérios" nem eram incluídos no primeiro time da MPB.

Por sorte, a quase totalidade do brega-popularesco tinha a solidariedade de um poderoso lobby de intelectuais, empresários e até mesmo do apoio explícito mas quase nunca admitido (pela intelectualidade) dos barões da grande mídia, das "transnacionais" e do latifúndio, daí a criação de artifícios falsos para os breguinhas da hora parecerem "MPB" num dado momento da carreira.

Os bregas dos anos 70 e início dos anos 80 tentaram imitar o que a MPB mais acessível fazia através de intérpretes menores como Biafra e Hermes Aquino ou os de maior apelo comercial, como Guilherme Arantes e Joanna vide o verniz "emepebista" que envolveu nomes como Nahim, Adriana, Ângelo Máximo, José Augusto, Fernando Mendes, Dudu França e Markinhos Moura.

A partir da fusão das fórmulas de pasteurização da MPB dos anos 80 com a cosmética de luxo e pompa que cercou o brega através de Sullivan & Massadas, floresceu a geração neo-brega que marcou a década seguinte através de "sertanejos", "pagodeiros" e axézeiros que faziam brega misturado com pretensões pseudo-MPBistas.

E se os neo-bregas queriam parecer "sofisticados", logo depois, por volta do começo do século XXI, vieram os pós-bregas, que juntavam a vocação brega com uma gama de informações acumuladas, porém confusas e mal-trabalhadas, extraídas do mais básico da "cultura pop" pesquisada na Internet ou naquilo que a televisão e o rádio permitem que seja divulgado.

Daí que os pós-bregas queriam ser "vanguarda", da mesma forma que os neo-bregas com sua "MPB de mentirinha" queriam parecer "requintados", todos querendo algum vínculo à MPB, à "alta cultura", mesmo da forma mais retardatária, forçada e tendenciosa possível, mesmo com muitos covers de MPB feitos para disfarçar seus repertórios autorais sofríveis.

O que faz Reginaldo Rossi - e também Sidney Magal e Falcão, este tratando o brega como um verdadeiro espetáculo de humor - respeitável é que ele nunca quis estar no topo da MPB, não se achava no patamar de um Tom Jobim ou Chico Buarque, não fazia brega pensando que estava fazendo "MPB séria" e, além disso, tinha um excelente senso de humor que falta a um Odair José.

E já que citamos o cearense Falcão, vale acrescentar que o humorista, abominado pelo "semideus" da intelectualidade, "sua santidade papa" Paulo César Araújo, havia parodiado o pretensiosismo pseudo-emepebista dos bregas, através de um disco intitulado A Um Passo da MPB, lançado em 1997, no calor da pretensão dos neo-bregas dos anos 90 em fazer "MPB de mentirinha".

Mesmo muitas tendências e ídolos bregas risíveis - como a Banda Calypso, Grupo Molejo, É O Tchan, Psirico, Calcinha Preta e ritmos como arrocha, tecnobrega e "funk carioca" - tinham uma desesperada pretensão de parecerem sérios, de serem vistos como "MPB séria", mesmo não tendo sequer metade do talento necessário para isso.

Também se tornou constrangedor ver que nomes como os "pagodeiros" Péricles e Leandro Lehart - para não dizer o pedantismo de Alexandre Pires, Belo e Thiaguinho - ou "sertanejos" como Daniel e Leonardo, levarem tanto tempo para descobrirem que a MPB tem melhor reputação que o brega, tentando soar "emepebistas" de forma tardia e tendenciosa, depois de tanta breguice feita.

Reginaldo Rossi passou ao largo de tudo isso. E olha que ele fez parte da Jovem Guarda antes, da mesma forma que Odair José e Michael Sullivan (que era o Ivanilson dos Fevers). Mas Reginaldo não queria mudar o mundo, não se achava dono da MPB, não queria ser gênio visionário.

Se ele foi fazer brega, ele o fez numa boa. Da parte dele e seus semelhantes, o brega, sem se levar muito a sério e sem perseguir uma grandiloquência artística e um pretensiosismo artístico-cultural surreais, não incomodava a sociedade e também não ameaçava os espaços da MPB, que sob o pretexto da "diversidade cultural" perderia seus próprios espaços.

Daí ser vergonhoso o quanto os nomes do "funk", seja o "funk carioca", seja o "funk ostentação" ou o que vier, chegarem com um constrangedor discurso "ativista", chorando feito pretensas vítimas da sociedade, arrotando, até com certa arrogância e nervosismo, pretensiosismo extremo que os torna ainda mais chatos e insuportáveis.

Pode ser que Reginaldo Rossi não deixe muitas lacunas musicais, depois de sua morte. Mas deixa uma lição de humildade, despretensão e senso de humor que falta na quase totalidade do brega. Ele mesmo sabia que não iria mudar o mundo e não se achava um "artista sério".

Talvez Reginaldo Rossi tenha sido um dos poucos ídolos bregas que assumiram o verdadeiro sentido do brega: humorismo e diversão. Só isso.

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