Pular para o conteúdo principal

OSCAR CASTRO NEVES E O ENVELHECIMENTO DA MPB


Por Alexandre Figueiredo

Pobre MPB. A MPB autêntica, não a suposta "verdadeira MPB" que combina, numa só equação, plateias lotadas e uma cosmética de pompa e luxo que se observa sobretudo nos neo-bregas, está em crise, estagnada num envelhecimento que faz perder nossos mestres a cada temporada.

No último fim de semana, foi a vez do compositor, violonista e arranjador Oscar Castro Neves, um nome da Bossa Nova tão importante quanto Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Johnny Alf e Billy Blanco, Carlos Lyra e Roberto Menescal.

Oscar - figura tão simbólica dos Anos Dourados brasileiros quanto seu xará Oscar Niemeyer - faleceu aos 73 anos de câncer, na última sexta-feira. É mais um grande nome da Bossa Nova, um músico empenhado no abrasileiramento do jazz em uma obra peculiar, que nos deixa e deixa a MPB órfã e a cada dia mais acéfala.

Oscar Castro Neves estava em atividade até pouco tempo atrás. Seu último disco individual foi em 2006. Ele faleceu em Los Angeles, EUA, país mais receptivo à Bossa Nova que o Brasil cada vez mergulhado em tendências brega-popularescas, sob uma blindagem de uma geração de intelectuais supostamente "progressista" que parece fazer free lance para a ditadura midiática.

A Bossa Nova anda muito injustiçada no Brasil. Por vezes parasitada por breguinhas em busca de algum lugar ao Sol, ou empastelada por covers politicamente corretas de sucessos qualquer nota, e por outras atacada duramente, a BN chegou a ser símbolo de sofisticação musical brasileira, de verdadeira cultura jovem e urbana no nosso país.

A Bossa Nova havia, juntamente com a música de raiz resgatada pelo movimento cepecista (leia-se Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes - CPC da UNE), fornecido os elementos musicais para uma geração de jovens universitários nos anos 60 estabelecer as bases do que hoje se considera a moderna MPB.

Nessa época, MPB era uma sigla de um movimento cultural de resistência contra os arbítrios da ditadura militar e contra as pressões da crescente indústria cultural, que no Brasil foi muito favorecida já que a grande mídia e a indústria fonográfica, em boa parte mas salvo exceções, apoiaram o regime militar.

Hoje a MPB vive o dilema de se tornar uma Academia Brasileira de Letras musical ou uma "casa da mãe Joana", no primeiro caso restrita ao mais rijo elitismo, no outro aberta à mais escancarada cafonice. Nos dois extremos, a cultura brasileira sai seriamente prejudicada.

E hoje, então, a MPB autêntica, que reúne qualidade artístico-cultural e visibilidade, está ficando muito velha. Oscar Castro Neves era apenas dois anos mais velho que os mestres remanescentes da MPB, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Milton Nascimento.

Isso é grave, porque os grandes nomes da MPB autêntica - não a "verdadeira MPB" que vive tão somente de lotar plateias - são idosos, muitos com idade para receber aposentadoria do INSS. Por sorte, vários deles têm saúde, disposição e fôlego para criar novas grandes canções, tocar nos palcos e dar entrevistas lúcidas e substanciais. Mas, até quando?

Enquanto isso, temos o crescimento gangrenoso da breguice musical, que dos pastiches de rocks e boleros dos anos 60-70 se desdobrou em caricaturas de sambas, merengues, modinhas, xaxados e até do funk autêntico eletrônico de Afrika Bambataa.

Criam-se ídolos brega-popularescos como se criam automóveis. Se a intelectualidade - a verdadeira, não a "farofa-feira" - derruba um ídolo, outro é colocado no seu lugar, enquanto o ídolo derrubado ganha tempo no ostracismo para depois criar sua choradeira nos meios intelectuais.

Para piorar, vários deles agora fazem pastiches de MPB, mais preocupados com a marca dos ternos e a posição dos holofotes de luz nos palcos do que com a música que não sabem fazer. Contratam até arranjadores de luxo, enquanto aderem à fórmula preguiçosa de gravar covers de gente como Wilson Simona, Renato Teixeira e Lupicínio Rodrigues só para enganar a rapaziada.

Fácil gravar covers de MPB. É como o mau aluno que, quando faz um trabalho escolar, copia textos inteiros de livros, ou talvez uma colagem de parágrafos copiados de diferentes textos, para depois fingir para a professora que escreveu tudo aquilo. Criar MPB, mesmo, no duro, é que é uma tarefa difícil que nem arranjadores alheios conseguem ajudar.

Afinal, reduzir ídolos neo-bregas a crooners de uma cosmética musical que apenas parece, na forma, com a MPB mais manjada, mas cujo conteúdo continua tão brega quanto antes, em nada contribui para a renovação ou melhoria da Música Popular Brasileira.

Pelo contrário, até piora. Não se produzem Oscar Castro Neves nas rodas de "pagode romântico" ou nas reuniões de "sertanejo romântico". A forma aparente não justifica o conteúdo, e o que vemos é uma MPB autêntica envelhecida que corre o risco de perecer e cair no esquecimento, e que já é deixada de lado pela "MPB de mentirinha" de bregas veteranos.

Ainda existe muita MPB nova por aí. Mas ela não tem espaço no mercado e na mídia. E nem todo mundo faz a linha "MPB obediente" - que agrada muito a gente como os blogueiros do Farofa-fá - a aceitar de forma cordeirinha a breguice dominante e ser coadjuvante ou figurante do espetáculo da cafonice escancarada.

A crise da música brasileira existe, mas infelizmente, não é notada. Muitos pensam que a crise só existe quando falta dinheiro. Ainda pensa-se o Brasil apenas de forma economista, e isso é mal. Em nome do desenvolvimento, sacrifica-se até a cidadania. E muita coisa digna dos tempos do general Médici hoje é relançada sob o rótulo de "progressista", por causa dessa visão.

E aí perdemos Oscar Castro Neves, um dos símbolos de um Brasil que queria mesmo crescer, se debatia, se reavaliava, se construía. Não era um Brasil de hoje que se imbeciliza por dinheiro, que faz masoquismo em prol de mais verbas. Com Oscar Castro Neves, morre um pouco daquele Brasil desenvolvimentista e verdadeiro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TV EXCELSIOR

TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista co…

30 ANOS SEM KAREN CARPENTER

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A cantora da dupla de irmãos Carpenters, a belíssima Karen Carpenter, faleceu no dia 04 de fevereiro de 1983. Talvez esta postagem pareça tardia, mas há exatos 30 anos a notícia do falecimento da cantora já estava espalhada pelos quatro cantos e repercutia mundialmente, causando tristeza profunda em todos os seus fãs.

Os Carpenters podem não ter sido musicalmente excepcionais, mas eram bastante talentosos, pelo talento de pianista de Richard Carpenter e da bela voz de Karen, que por sinal tinha uma beleza sexy que ela mesma não pôde prestar atenção, tão preocupada em se tornar magra que a fez vítima de anorexia nervosa. Pena, porque Karen era linda e desejadíssima mesmo "cheinha" e, se viva estivesse, continuaria belíssima, apenas adaptando suas feições para os 63 anos que poderia completar no próximo dia 02 de março.

Algumas curiosidades notáveis dos Carpenter: os irmãos chegaram a gravar cover da banda progressiva Klaatu e Karen era eventual bater…

O ESTADO DA GUANABARA

AEROFOTO DO FOTÓGRAFO DA REVISTA MANCHETE, CARLOS BOTELHO, PUBLICADA TAMBÉM NA ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS DO IBGE. A FOTO DATA DE 1956, QUANDO A NOVA CAPITAL, BRASÍLIA, COMEÇOU A SER CONSTRUÍDA, TRANSFORMANDO DEPOIS O ANTIGO DISTRITO FEDERAL NA GUANABARA.

Do portal WikipediaA Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, no território do atual município do Rio de Janeiro. A palavra guanabara tem sua origem no tupi guarani guaná-pará, e significa "o seio-mar".

HISTÓRIA

Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada no Município Neutro da Corte, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser a capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, a cidade transformou-se em capital da República, o município neutro em distrito federal e a província em estado. Com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Cons…

ATRIZ ARACY CARDOSO MORRE NO RIO AOS 80 ANOS

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Aracy Cardoso faleceu hoje, aos 86 anos - divulgado em informações recentes, e reproduzimos abaixo um artigo do jornal O Tempo apenas mudando essa informação, pois estava creditada a apenas 80 anos.

Aracy foi uma das mulheres mais bonitas de sua geração e também um dos grandes talentos na atuação, tendo começado no teatro, em 1952, em peças como Mulher de Outro Mundo, montada pelo grupo Teatro de Equipe.

Ela também foi casada com o ator e cineasta Ibanez Filho, falecido em 2006.

Atriz Aracy Cardoso morre no Rio aos 80 anos

Do Jornal O Tempo - Belo Horizonte, 26 de dezembro de 2017.

RIO DE JANEIRO. Morreu nesta terça-feira (26), no Rio de Janeiro, aos 80 anos, a atriz Aracy Cardoso. Ela era conhecida por participações em diversas novelas da Rede Globo, como “Fogo Sobre Terra” (1974), “De Corpo e Alma” (1992) e “Sol Nascente” (2017), seu último trabalho, no qual interpretou a personagem Dona Laís. Também ficou marcada pela personagem Zazá em “A Gata Comeu” (1985).

OS 70 ANOS DE RITA LEE

Por Alexandre Figueiredo

A cantora paulistana Rita Lee Jones teve como proeza ser uma das primeiras cantoras musicistas e compositoras a fazer sucesso e, também, ser uma das primeiras artistas envolvidas com rock psicodélico a ter o conhecimento e o reconhecimento do grande público.

Iniciando sua carreira em 1966, como integrante da banda O'Seis, o embrião dos Mutantes, numa época em que a maior cantora da Bossa Nova, Sylvia Telles, saía de cena prematuramente devido a uma tragédia automobilística, Rita Lee foi uma batalhadora musical num período em que os movimentos estudantis desafiavam a ditadura militar e ela, irritada, reagiu com a truculência institucional do AI-5.

Num país como o Brasil, em que Os Mutantes parecem tardios na carreira discográfica - seu primeiro álbum só foi lançado em 1968, talvez pela falta de visão da indústria fonográfica, pois a fase psicodélica dos Mutantes, entre 1968 e 1972, poderia ter sido registrada em disco com dois anos de antecedência - , Rita…

AOS 80 ANOS, JANE FONDA DIZ QUE NÃO ESPERAVA CHEGAR AOS 30

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Com 80 anos e em atividade, a atriz Jane Fonda, uma das revelações de Hollywood no começo dos anos 1960, sendo mais conhecida então como a filha do astro Henry Fonda - e, depois, irmã de Peter Fonda, de Sem Destino (Easy Rider), este pai da também atriz Bridget Fonda - , não imaginava que sobreviveria aos 30 anos.

Era uma época em que atrizes faleceram precocemente por diversos incidentes - entre 1961-1962 o mundo perdeu a inglesa Belinda Lee e a estadunidense Marilyn Monroe - , e Jane, felizmente, seguiu sua vida não sem dificuldades, mas consolidando seu talento e seu carisma até hoje. Além de atriz, ela já gravou um vídeo de ginástica, escreveu livro e havia sido ativista política de esquerda,

Consagrando-se como "musa" no filme de ficção científica Barbarella, de 1968 e atualmente solteira depois de três casamentos - com o cineasta Roger Vadim, o político Tom Hayden e o empresário de Comunicação Ted Turner - , atualmente participa de seriados de…

PRIMEIRA TRANSMISSÃO DE TV A CORES NO BRASIL FAZ 40 ANOS

Por Alexandre Figueiredo

Hoje faz 40 anos em que se realizou a primeira transmissão televisiva a cores, a partir da TV Difusora de Porto Alegre (hoje TV Bandeirantes local) e a TV Rio (Guanabara, atual TV Record Rio). A TV Globo, do Rio de Janeiro, também participou da façanha.

O evento escolhido foi o desfile tradicional da Festa da Uva, na cidade gaúcha de Caxias do Sul. A foto em questão, aliás, mostra um ônibus "bicudinho" da Mercedes-Benz, provavelmente O-326, que a TV Rio enviou para o Sul do país.

Era tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar e prefeitos com algum senso de oportunismo instalaram aparelhos de TV pelas ruas da cidade para que a população visse a novidade. Aliás, foi assim que Assis Chateaubriand fez para atrair a multidão para a então recém-inaugurada televisão, em vários pontos-chave da cidade de São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Em ambos os casos, eventuais falhas técnicas ocorreram.



Mas quem imaginasse que a televisão a cores era u…

CARLOS HEITOR CONY MORRE AOS 91 ANOS

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Conservador moderado, embora polêmico, Carlos Heitor Cony foi um dos maiores escritores do Brasil dos últimos tempos. Tendo defendido o golpe militar de 1964, como jornalista e cronista do Correio da Manhã, pouco após a instalação da ditadura militar, ele passou para a oposição. O livro O Ato e o Fato de 1964 foi um dos primeiros livros lançados com críticas à ditadura militar.

Não se considerava esquerdista e, em 2016, apoiou a queda da presidenta Dilma Rousseff. Ainda assim, deixou uma importante trajetória como cronista, romancista, articulista e intelectual, e era um dos membros da Academia Brasileira de Letras.

Uma curiosidade é que, quando ele era coroinha de uma igreja em Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro, ele constantemente passava perto de um bar onde estava um grupo de rapazes, entre eles o notável compositor e sambista Noel Rosa. Cony faria 92 anos em março.

Carlos Heitor Cony morre aos 91 anos

Do Portal G1

O jornalista e escritor Carlos Heito…

MORREU A ATRIZ E BAILARINA HELOÍSA MILLET

Faleceu na última sexta-feira, no Rio de Janeiro, a atriz e bailarina carioca Heloísa Millet, aos 64 anos de idade, vítima de câncer. Tendo sido conhecida pelo seu trabalho de bailarina na abertura do programa Fantástico, da Rede Globo, em 1974, ela depois foi levada pelo diretor de teatro Zbigniew Ziembinsky para seguir carreira de atriz.

Ao saber do sucesso como bailarina da abertura do programa, Heloísa teve a impressão que relatou numa entrevista de 1994: “Sou pequena, baixa, e quando fiz aquela abertura, virei um mulherão de dois metros de altura. Então, acabaram-se os meus complexos".

Depois, ela fez uma personagem, Betina, na novela Estúpido Cupido, em 1976, e a esse trabalho seguiram-se outros nas novelas Espelho Mágico (1977), Te Contei? (1978), Feijão Maravilha (1979), Marrom-glacê (1979) e Elas por Elas (1982), todas na Globo.

Heloísa também participou da minissérie Terras do Sem Fim (1981) e no elenco do humorístico Estúdio A...Gildo (1982), comandado por Agildo Rib…

"MINDUIM" COMEMORA 60 ANOS

A Turma do Charlie Brown comemora 60 anos de publicação. Suas histórias ora eram dotadas de humor sarcástico, ora eram cheias de profundo lirismo, e toda essa obra foi produzida desde 02 de outubro de 1950, quando foi lançada a primeira tira, até 13 de fevereiro de 2000, um dia após o falecimento de seu autor, Charles M. Schulz.

Conhecido como Sparky desde a infância, Schulz, na verdade, havia criado um embrião da Turma do Charlie Brown, chamado Lil'Folks, onde já se via o personagem Charlie Brown e um cachorro com as caraterísticas semelhantes ao Snoopy das primeiras tiras, além de haver um outro personagem fanático pela música de Ludwig Van Beethoven, a exemplo do pianista Schroeder.


LIL' FOLKS: O "EMBRIÃO" DA TURMA, JÁ COM CHARLIE BROWN E SEU CACHORRO, ENTÃO SEM NOME.

Lil' Folks foi publicada entre 22 de junho de 1947 e 22 de janeiro de 1950. Para não ser confundida com obras da história em quadrinhos como Lil'Abner (criação de Al Capp conhecida, no Brasil, c…