sexta-feira, 28 de junho de 2013

HÁ 45 ANOS, A PASSEATA DOS CEM MIL


Por Alexandre Figueiredo

Com a volta dos grandes protestos populares este mês, não custa lembrar do breve período de mobilização que aconteceu no Brasil há 45 anos atrás e que, por muito pouco, não terminou com a ditadura militar que havia sido instaurada em 1964.

A Passeata dos Cem Mil, realizada no dia 26 de junho de 1968 no Rio de Janeiro, no entorno da Av. Rio Branco e na Praça Floriano, na Cinelândia, foi o ápice de um período de dois anos de protestos contra a ditadura militar.

Há dúvidas se realmente foram cem mil pessoas que compareceram à manifestação - do contrário de um número muitas vezes maior nos protestos de hoje - , mas a mobilização repercutiu bem na imprensa nacional e estrangeira da época, apesar da censura do regime. Na época, acreditava-se que a passeata poderia estimular os militares a encerrar a ditadura e voltar à democracia civil.

A origem dos protestos que culminaram nessa passeata se deu em 1966, quando o ex-reitor da antiga Universidade do Paraná (atual UFPR), Flávio Suplicy de Lacerda, ao ser nomeado pelo general presidente Humberto Castello Branco, decidiu fazer um plano de reformulação da Educação que em diversos pontos irritou a juventude brasileira.

A ditadura militar, que se anunciava como "provisória" em 1964 - ela havia surgido na crise política do governo João Goulart, através de um golpe que o depôs em primeiro de abril - , foi considerada definitiva em 1965, eliminando qualquer hipótese de haver as esperadas eleições presidenciais para as quais há muito os candidatos potenciais, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, se preparavam.

Em 1966, Kubitschek e Lacerda, respectivamente o ex-presidente e ex-governador mineiro e o jornalista e ex-governador da Guanabara (estado então constituído da cidade do Rio de Janeiro), antigos e ferrenhos rivais políticos, se reuniram em Lisboa para um entendimento político que os levou à surpreendente aliança para o movimento pela redemocratização chamado Frente Ampla.

Era a época em que Flávio Suplicy de Lacerda iniciou um plano para a Educação que incluiu reduzir a natureza do ensino aos objetivos profissionalizantes, e isso incluiu a promessa de que iria privatizar as universidades públicas, que além disso tiveram decretado o fim de sua autonomia.

Junto a isso, Suplicy de Lacerda havia planejado a criação de uma entidade de representação estudantil para substituir a União Nacional dos Estudantes, que, oficialmente extinta em 1964 por ordem dos militares, continuava agindo na ilegalidade. A nova instituição seria um órgão vinculado ao governo militar, através do Ministério da Educação e Cultura.

Isso provocou revolta na juventude brasileira, que, realizando passeatas, enfrentavam a repressão policial, que agia de forma bastante violenta. Logo em 23 de setembro daquele ano, policiais invadiram a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, depois que foram informados de uma manifestação iniciada no dia 22, o "Dia Nacional de combate à ditadura militar".

No episódio, mais de 600 pessoas foram agredidas, depois de um confronto com os policiais que ordenavam aos alunos e professores a abandonar a faculdade, que seria ocupada pela polícia militar. O episódio, embora não tenha tido um saldo trágico conhecido, é historicamente conhecido como o Massacre da Praia Vermelha.

Outros protestos aconteciam, e era comum a correria pelos vários cantos das cidades. O momento mais dramático foi durante um almoço no restaurante Calabouço, que oferecia refeições a preços baratos no centro do Rio de Janeiro, em 28 de março de 1968.

Policiais entraram no restaurante para prender estudantes que faziam uma manifestação contra a ditadura, e estes reagiram com paus e pedras. Os policiais atiravam à queima-roupa e foram atingidos os estudantes Edson Luís de Lima Souto e Bernardo Frazão Dutra, além de outros feridos. Edson faleceu na ocasião e Bernardo morreu depois de internado no Hospital Sousa Aguiar.

Edson, por ter morrido na hora do confronto, foi escolhido pelo movimento estudantil como o símbolo das manifestações contra a ditadura. Apesar disso, Edson, que era um humilde paraense de 19 anos que trabalhava no Calabouço para pagar os estudos e a própria vida, nunca se envolveu em qualquer atividade de liderança ou mobilização política estudantil.

Os estudantes se mobilizaram para evitar que os policiais sumissem com o corpo de Edson no Instituto Médico Legal (IML) e decidiram levar o corpo do jovem para a Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara, no prédio do Palácio Tiradentes, onde hoje fica a ALERJ. Lá o corpo de Edson foi velado e depois levado para o cemitério São João Batista, onde foi enterrado.

Devido à morte de Edson, os protestos aumentaram, e as tensões políticas também. Os protestos eram duramente reprimidos pela polícia. Celebridades, artistas, intelectuais e políticos de oposição expressaram solidariedade aos estudantes.

Aparentemente, a ditadura militar parecia, momentaneamente, disposta ao diálogo. No decorrer de junho de 1968, um grupo de intelectuais e artistas procurou negociar com o governo a realização de uma ampla passeata, que seria realizada sem atos violentos e sob a garantia de que não houvesse a repressão policial.

No dia 28 daquele mês, foi realizada a manifestação, tendo a Cinelândia como ponto de partida. A princípio, cerca de 50 mil pessoas estavam presentes, e o número teria se dobrado segundo dados oficiais. O número de cem mil causa controvérsias, mas parece fazer sentido naqueles tempos de manifestações contra a ditadura.

A repercussão da manifestação, poucos dias depois, dava a crer que a ditadura militar poderia chegar ao fim. O general presidente Artur da Costa e Silva recebeu os estudantes Marcos Medeiros e Franklin Martins (atualmente, conhecido jornalista brasileiro) para negociar o fim da censura e a redemocratização do país.

O problema é que os ânimos se exaltaram em incidentes posteriores. Na Rua Maria Antônia, em São Paulo, estudantes de extrema-direita da Universidade Mackenzie (entre eles estava o hoje também jornalista Bóris Casoy) promoveram um conflito contra os estudantes da Universidade de São Paulo (Faculdade de Filosofia), causando um tiroteio que matou o secundarista José Guimarães, que apenas observava o ocorrido, em 03 de outubro.

Mas foi a repercussão de um discurso feito em razão do 07 de setembro que criou as condições para o endurecimento da ditadura. Foi o jornalista e deputado federal pelo MDB da Guanabara, Márcio Moreira Alves, então conhecido por sua atividade no então combativo Correio da Manhã, que fez um discurso provocativo contra a ditadura militar.

Irritado, Marcito, como foi conhecido o jornalista (falecido em 2009), disse para as brasileiras se recusarem a dançar com os cadetes militares, entre outros comentários irônicos feitos em protesto contra o regime militar.

A solidariedade dos parlamentares com Márcio, reagindo contra a possibilidade de cassação de seu mandato, fez o presidente Costa e Silva se reunir com seu ministério e decidir pela criação de um quinto Ato Institucional que tornasse rígida a censura e a repressão e abolisse o habeas-corpus. A ditadura teve que continuar por muitos anos, e só o desgaste a fez encerrar-se em 1985.

OUTRAS MANIFESTAÇÕES

Em 1973 houve uma pequena passeata no centro de São Paulo, em que pessoas marchavam em silêncio exibindo faixas em branco, num ato irônico contra o cenário político de repressão e censura na época, um ato pacífico num tempo em que alguns opositores da ditadura militar se envolviam em guerrilhas armadas, entre eles a hoje presidenta da República Dilma Rousseff, que chegou a ser presa e torturada.

Em 1977 voltaram os movimentos estudantis, de forma mais tímida em relação a 1968, reivindicando o fim da ditadura militar e a anistia política, além de protestar contra o "pacote de abril" do general Ernesto Geisel que, entre outras coisas, criava a figura do "senador biônico" (nomeado pela ditadura).

Em 1983 e 1984, manifestações populares eram realizadas pedindo a volta das eleições diretas para presidente da República, depois de conquistada a volta do voto direto para governadores e deputados federais. Embora aprovada a volta do voto direto para presidente, ela foi reservada para 1989.

Com a redemocratização, manifestações pontuais de vários segmentos da sociedade passaram a ocorrer. Em 1992, protestos estudantis ocorreram em reação à corrupção política do governo do então presidente Fernando Collor, depois condenado ao impedimento político de oito anos.

No entanto, nesses 45 anos não havia tido manifestações com a espontaneidade e a diversidade social que ocorreram em 1968, já que em boa parte das manifestações eram feitas em épocas de repressão ou por alguma prévia organização sindical ou de grupos político-partidários. Somente neste ano vieram manifestações que se comparam, em suas caraterísticas, a 1968, sobretudo a histórica Passeata dos Cem Mil.

terça-feira, 11 de junho de 2013

UM ADEUS A JACOB GORENDER


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A esquerda perdeu o renomado intelectual Jacob Gorender, historiador e ativista conhecido pela sua atividade progressista nos anos 50 e 60 e por sua luta contra as injustiças da direita política, incluindo sua militância contra a ditadura militar. Era baiano de Salvador e tinha 90 anos de idade.

Um adeus a Jacob Gorender

Por José Carlos Ruy - Portal Vermelho

Jacob Gorender, um dos mais notáveis entre os intelectuais marxistas brasileiros, despediu-se da vida hoje, em São Paulo, aos 90 anos de idade.

Gorender, que se tornou uma personalidade pública tardiamente (ele tinha 55 anos quando publicou seu O Escravismo Colonial, em 1978), foi um homem de seu tempo, e nunca se afastou do combate a que se filiou na juventude - a luta por um mundo mais justo, que ultrapassasse as mazelas do capitalismo.

Não ficou alheio às controvérsias - aliás, sempre entrou nelas de peito aberto, com um rigor intelectual raro. Tornou-se, nas décadas finais de sua vida, um dos grandes intelectuais brasileiros, tendo sido autor de outros livros, entre eles Combate nas trevas, um estudo da luta armada contra a ditadura militar de 1964,

Na década de 1950, apoiou Luiz Carlos Prestes nos embates internos ao Partido Comunista. Foi então um dos autores da famosa Declaração de Março de 1958, que marcou a viragem comunista para a luta política parlamentar e reformista. Depois do golpe militar de 1964, juntou-se a outros dirigentes comunistas que divergiam da orientação de Prestes, tendo sido expulso do partido e, em seguida (1968) fundou, com Mário Alves e Apolônio de Carvalho, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR),

Jacob Gorender nasceu em 1923 na periferia pobre de Salvador (BA), sendo o mais velho dos cinco filhos de um imigrante judeu, originário da Ucrânia. Com dificuldade, estudou até entrar na Faculdade de Direito; participou da campanha pela entrada do Brasil e se alistou nas tropas brasileiras enviadas para a Itália, tendo participado da tomada de Monte Castelo, que foi a mais importante batalha travada pela FEB, a Força Expedicionária Brasileira, contra o nazifascismo.

Ao voltar ao Brasil, filiou-se ao PCB, onde militou profissionalmente, sendo redator de A Classe Operária e, depois, da Imprensa Popular, do Voz Operária, da revista Novos Rumos, e demais publicações do partido. Foi no Congresso de 1960 que chegou ao Comitê Central. Em 1970, já fora do PCB, quando era dirigente eo PCBR, foi preso, tendo sido muito torturado. Foi condenado a dois anos de prisão e quando foi solto, sistematizou os estudos históricos que levaram a O Escravismo Colonial.

Foi então que o público - e os estudiosos - puderam conhecer o intelectual rigoroso forjado, nas décadas anteriores, nas fileiras comunistas. O reconhecimento público foi imediato. Era um trabalhador intelectual que já tinha três décadas de envolvimento na luta pelo socialismo e, agora, podia ser visto em embates intelectuais que tiveram por temas a natureza do passado colonial brasileiro (assunto de duros embates entre os historiadores comunistas, opondo grandes nomes como Nelson Werneck Sodré e Caio Prado Jr), as vicissitudes da luta contra a ditadura (registradas no polêmico Combates nas Trevas), o fim do socialismo na URSS e a própria natureza do marxismo (em livros igualmente polêmicos, Marcino e Liberatore, um diálogo excessivamente otimista sobre a perestroika e os rumos da URSS, e Marxismo sem utopia, no qual discute o próprio marxismo).

Filiado ao Partido dos Trabalhadores, Jacob Gorender foi um intelectual marxista de notável envergadura e rara franqueza. Nele caminhavam lado a lado a paixão do conhecimento e o sonho socialista de um mundo melhor. A cultura brasileira e as polêmicas no campo do marxismo - o lugar comum é irremediável! - ficam mais pobres com a partida de Gorender. Ele será enterrado amanhã (12) em São Paulo, cidade que adotou e onde apareceu para o grande público como o notável historiador e pensador que foi.