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BOSSA NOVA DESAFINOU NOS EUA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Este texto vale por uma curiosidade, porque é bastante polêmico, fruto de uma campanha de parte de jornalistas brasileiros, "orquestrada" pelo pesquisador cultural José Ramos Tinhorão, contra a Bossa Nova, a qual acusavam ser um subproduto do jazz norte-americano.

Há até quem diga que o autor do texto, o "obscuro" Orlando Suero, seja o próprio Tinhorão que havia escrito o texto abaixo, a partir de informações colhidas da imprensa internacional e de repórteres brasileiros, e talvez um tanto superestimadas, dando a crer que o fiasco do festival de Bossa Nova no Carnegie Hall teria sido pior do que realmente foi, apesar de, realmente, o evento ter sido um tanto precipitado e desorganizado.

BOSSA NOVA DESAFINOU NOS EUA

Por Orlando Suero - Do Bureau de O Cruzeiro em Nova York - 18 de dezembro de 1962

Nova York, via VARIG - Cercados por uma floresta de microfones (uma dúzia ao todo), que impediam sua visão pelo público, mas os fazia ouvidos, graças ao trabalho de uma cadeia de emissoras, até na Cortina de Ferro, 20 cantores, compositores e instrumentistas da chamada bossa nova brasileira levaram à cena, no Carnegia Hall, o maior fracasso da música popular do Brasil. Quase 3 mil pessoas, atraídas ao Carnegie Hall para conhecer a bossa nova autêntica, começaram a abandonar a sala quando Antônio Carlos Jobim passou a cantar, em mau inglês, os mesmos sambas que as orquestras norte-americanas já haviam gravado, muito melhor.

MENINOS EMPRESTARAM TODA A SUA BOSSA AO FESTIVAL QUE FRACASSOU

Depois de conquistar o público norte-americano e europeu, a bossa nova brasileira passou por um fiasco, ao anunciado Festival do Carnegie Hall, que representou o ponto culminante de uma série de equívocos, para o qual colaboraram, em partes iguais, o interesse comercial norte-americano, a ingenuidade e a vaidade dos artistas brasileiros e a pressa do Itamaraty em colaborar para uma empresa sem base na realidade.

Após uma viagem improvisada (até a véspera do embarque muitos não tinham sequer passaporte), duas dezenas de representantes da bossa nova partiram para Nova York, certos de conquistar a América. Eram eles: Tom Jobim, Carlinhos Lira, João Gilberto, Luís Bonfá, Chico Feitosa, Roberto Menescal, Milton Banana, Maurício Marconi, o sexteto de Sérgio Mendes, Oscar Castro Neves e Quarteto (Ico, Henri, Mário), além do cronista de discos Sílvio Túlio Cardoso, do vagamente empresário Aloísio de Oliveira e o próprio Conselheiro Mário Dias Costa, do Itamaraty.

O Festival havia sido programado por iniciativa do presidente da fábrica de discos norte-americana Audio Fidelity, Sr. Sidney Frey, que estivera no Rio de Janeiro tentando contratar representantes para uma apresentação de bossa nova nos Estados Unidos, com caráter de divulgação, mas apenas prometendo pagar as passagens.

Após uma série de desentendimentos, os artistas brasileiros preferiram embarcar para os Estados Unidos com passagens fornecidas pelo Itamaraty e com recursos próprios, dentro de um orgulhoso objetivo: mostrar aos norte-americanos, sem receber um único dólar, a verdadeira bossa nova.

Nos Estados Unidos, a apresentação dos brasileiros - principalmente do cantor e compositor João Gilberto, apontado como o pai da bossa nova - foi precedida de larga publicidade, o que encontrava eco no sucesso obtido pelas primeiras três dezenas de "long-playings" de orquestras americanas responsáveis pela nova moda musical.

Dias antes do espetáculo, as entradas (caras) já estavam esgotadas no Carnegie Hall. Às 8h30 min da noite de quarta-feira, dia 21 de novembro último, finalmente - hora e data que se pretendiam históricas para a música popular brasileira - a grande cortina da sala de concertos do mais respeitável teatro norte-americano se levantou para o ansiado espetáculo.

Estavam presentes, no Carnegie Hall, além de numerosos altos funcionários de setores culturais do governo dos Estados Unidos, alguns dos músicos mais famosos do país e artistas de Hollywood (como Lauren Bacall e Rosalind Russel) e o grande teatrólogo Tennessee Williams. 

Desde logo, porém, a pressa com que foi organizada a apresentação fica patente. A floresta de microfones não deixava ver os artistas. A sequência na apresentação dos números não fôra estabelecida dentro de qualquer critério, mas o cantor ou conjunto era simplesmente anunciado como nos programas de calouros: Agora é fulano de tal que vai cantar isto assim e assim.

Apequenados no meio do palco grandioso do Carnegie Hall, rapazes ainda praticamente amadores como Carlos Lira, ou possuidores de pequeno volume de voz, como o próprio João Gilberto - tão louvado pela propaganda - começaram, então, a apresentar-se com pouca possibilidade de serem ouvidos por todo o público presente, e sem possibilidade nenhuma de serem entendidos, em face da diferença de língua.

Depois de alguns minutos de espetáculo, a impressão geral era de uma grande monotonia. Os conjuntos de Sérgio Mendes e Oscar Castro Neves - esforçados imitadores da música norte-americana - revelaram-se em tudo inferiores aos conjuntos americanos que já haviam gravado as mesmas músicas que procuravam mostrar.

Para agravar a desorganização, figuravam no programa, longo demais, artistas brasileiros radicados nos Estados Unidos - como a cantora Carmen Costa e o violonista Bola Sete - além de músicos norte-americanos ligados à bossa nova naquele país, como os contratados da Audio Fidelity, o pianista Lalo Schifrin (com Leo Wright, flauta, e Art Davis, contrabaixo) e Stan Getz, com orquestra de 10 figuras sob a direção de Gary McFarland.

Em meio à confusão, quando tocava o quarteto de Lalo Schifrin (que, aliás, é argentino), alguém acendeu inadvertidamente as luzes do Carnegie Hall, e o público, já impaciente, começou-se a levantar pensando tratar-se do intervalo.

E veio realmente o intervalo, pouco depois. Quando o pano voltou a subir, porém, a plateia estava quase vazia. Nos bastidores, o fiasco já patenteado provocava intensa agitação e troca de acusações. Para agravar tudo, Stan Getz abriu a segunda parte da apresentação do Festival tocando, com grande orquestra, a composição francesa "Flores Mortas" (*), que nada tem a ver com bossa nova.

Ante o fracasso da apresentação, osos organizadores resolveram abreviar o fim do espetáculo fazendo aparecer, no palco, vários artistas de uma só vez, o que provocou protestos de Carlinhos Lira, que fez pé firme para apresentar-se só.

Ao final, o único artista mais aplaudido ficou sendo mesmo o violonista Luís Bonfá (que era já conhecido nos Estados Unidos e se tornara popular graças ao filme "Orfeu Negro").

Hora depois do encerramento do Festival da Bossa Nova, já as primeiras críticas começaram a aparecer, e eram unânimes: se a bossa nova já não estivesse popularizada nos Estados Unidos por alguns dos melhores músicos do país - como Stan Getz e Charlie Byrd - o fracasso do Carnegie Hall seria o bastante para sepultar qualquer pretensão no sentido de sua divulgação.

Na Europa - principalmente na França e na Itália - onde as gravações norte-americanas de bossa nova já começam a figurar nas paradas de sucesso, o fiasco dos brasileiros não causou maior repercussão. Os europeus parecem dispostos, apenas, a receber os sambas de bossa nova (um "jazz" estilizado), através de sua estilização pelos músicos de "jazz" norte-americanos, e exclusivamente como música para dançar. Diferente do "twist", porque cavalheiro e dama dançam juntos.

(*) Provavelmente, o títulooriginal da canção seria "Les fleurs fanées" (nota do editor).

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