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HOMENS "NASCIDOS NOS 1950" NO BRASIL: UM CASO ESTRANHO

EMPRESÁRIOS, MÉDICOS, PUBLICITÁRIOS ETC NASCIDOS NOS ANOS 50 AINDA ESTÃO PRESOS NOS TEMPOS EM QUE MANECO MULLER (FOTO) FAZIA SUCESSO COMO O SOFISTICADO COLUNISTA JACINTO DE THORMES.

Por Alexandre Figueiredo

Os homens que nasceram nos anos 50 no Brasil são um caso estranho. Se escolhem ser surfistas, ativistas estudantis e músicos de rock, eles permanecem fiéis ao seu ideal de jovialidade e juventude espiritual adequados ao contexto do tempo de suas vidas.

Já quem decide ser profissional liberal, executivo ou empresário, se fecha no tempo. Quando em idade universitária, no começo de seus 20 anos - geralmente no começo da década de 1970 - , se deslumbram com o tipo de quarentão que eles entenderam ser sinônimo de sucesso, geralmente um coroa grisalho com mais de 45 anos, enrugado e vestido terno e gravata ou roupa de gala e com uma taça de uísque na mão.

Nem adianta desposarem com moças mais jovens - geralmente bebês ou recém-nascidas naqueles idos dos anos 70 - que eles se fecham ainda mais no tempo. E, talvez por vergonha de terem esposas mais novas, tentam ser mais velhos do que realmente são.

Daí a estranheza. Numa mesma geração, por um lado, vemos homens que sentiram a noção de liberdade e prazer e que chegam aos 60 anos com total desenvoltura de garotões sem medo de amadurecer e de coroas sem medo de serem jovens. Sempre tiveram contato com jovens o tempo todo, e até o contato com a natureza continua sendo poético e saudável.

Por outro lado, em contrapartida, vemos homens que se trancaram, desde os anos 80, em seus escritórios e consultórios, perdem a noção de jovialidade. E, quando chegaram aos 50 e 55 anos, tentaram parecer mais velhos do que são, até pela vergonha inconsciente de terem se casado com moças mais jovens, uns 10, 15 e até 20 anos a menos que eles.

Mas aí eles, assim que precisam manter esses casamentos - geralmente segundos, terceiros ou quartos - para evitar mais um fracasso conjugal, eles também, na medida em que se tornam grisalhos e enrugados (e até irresponsavelmente barrigudos, pois na juventude eram até franzinos ou tinham porte atlético), tentam parecer à imagem e semelhança de seus pais, patrões e professores, estes geralmente nascidos nos 1930.

E aí, haja pedantismo. Só por uma especialização médica, por um êxito empresarial, por algum sucesso administrativo ou advocacional, nossos coroas born in the 50s acham que podem se equiparar aos homens mais velhos. Nem todo homem consegue compreender referenciais anteriores ao seu tempo. Não é um Ruy Castro que aparece em qualquer consultório de oftalmologia ou ginecologia nem em qualquer empresa.

Aí, coisas que parecem "admiráveis" são constrangedoras, para quem conhece melhor as coisas. Uma compreensão pedante do jazz, como uma coisa necessariamente de festas de black tie, é um equívoco que os mais jovens não compreendem, pois a estrutura musical do jazz não está relacionada a festas de gala e estas também não são necessariamente eventos de jazz.

Outra coisa é a tentativa de se aproximar de referenciais aos quais eles existiam quando eles eram ainda bebês. Por exemplo, um homem nascido em 1953, 1954 praticamente só teve contato com a sofisticada revista Senhor quando rabiscava os exemplares de seus pais, isso quando eles compraram a revista. Se não compraram, não há como um coroa de hoje dizer que ele era "do tempo da revista Senhor".

No colunismo social, vi que, nos últimos 10 anos, esses homens se comportavam como se ainda vivessem no tempo de Jacinto de Thormes, o colunista social "clássico" - apesar de trabalhar num jornal popular e progressista como a Última Hora - , numa época em que as colunas sociais de hoje mostram jovens atores andando de skate com bermudão e tênis.

Pelo comportamento "glamouroso" que nossos coroas empresários, executivos e profissionais liberais fazem, eles parecem procurar, até hoje, os escombros da finada boate Vogue, destruída por um incêndio em agosto de 1955. Não gerou tantas vítimas fatais quanto a boate Kiss de Santa Maria (RS) recentemente, mas gerou muita notícia e muito pesar.

Eles tentam cortejar as gerações intelectuais mais velhas - num tempo em que era fácil, pelo menos no antigo Distrito Federal, o Rio de Janeiro, encontrar intelectuais se reunindo em grupos nos bares da Zona Sul - , como se estivessem presentes e participassem das conversas. Sem chance. Naqueles tempos, a única preocupação dos born in the 50s era brincar em algum parquinho de seu agrado.

E aí tentam se equiparar a um Millôr Fernandes, a um Tom Jobim. Tentam ler Paulo Francis como quem lia uma revista da Luluzinha. Mas não chegam a encarar um Otto Maria Carpeaux. Muito erudito. Nelson Werneck Sodré? Muito esquerdista para seu gosto. Cartuns do Carlos Estevão? Não, muito anárquicos. E será que eles se lembram do "Micróbio do Rock" de Adilson Ramos?

Eu nasci em 1971. Mas é muito mais fácil eu saber dos anos 50 e 60 do que a turma "mais elegante e culta" de 1950-1955 saber dos anos 80. Um Roberto Justus da vida ignora que pelo menos dois homens de sua idade - o jornalista Luiz Antônio Mello e o cantor e radialista Kid Vinil - formataram o espírito dos anos 80, aquele que os empresários, executivos e profissionais liberais nascidos nos 1950 acham "muito infantis".

Mas nem mesmo o rock dos anos 50 e começo dos anos 60 lhes é de seu conhecimento. Mas, no fundo, nem a revista Senhor, nem os livros de Otto Maria Carpeaux, e nem sequer a revista O Pif Paf de Millôr Fernandes são de conhecimento vivenciado dos coroas aqui comentados.

Elvis Presley eles conhecem por umas cinco músicas mais conhecidas. Os Beatles eles só querem saber de umas baladas mais "comportadas" ou "reflexivas", seja "Michelle" ou "Something", "In My Life" e "The Long and Winding Road". E acham ainda que os Beatles foram um grupo isolado de seu cenário de rock britânico. Balelas.

Os Beatles se relacionaram com os Rolling Stones, Who, Led Zeppelin, Cream, Deep Purple, Jimi Hendrix Experience (o músico era norte-americano, mas o grupo foi formado na Inglaterra), Animals, Hollies, Manfred Mann, Yardbirds etc. Se vissem uma foto recente com Paul McCartney e Keith Richards conversando como velhos camaradas, ficariam assustados.

Daí que os nossos coroas preferem viajar para a Itália e evitar o Reino Unido. Pelo menos lembra o Candelabro Italiano, filme de sucesso em 1962, acessível até à criançada da época. Se nem nomes emergentes do rock de 1958 como Buddy Holly e Eddie Cochran a turma "granfina" da safra 1950-1955 não quer saber, eles pelo menos, correndo para Roma com suas "meninas" (esposas), eles se consolam com o contato com o antigo, com o romântico, que os anestesia depois da rotina profissional.

E assim essa turma começa, desde 2010, a entrar em contato com os 60 anos. Mas não serão idosos comuns. Serão homens querendo sobreviver hoje com um perfil de meia-idade fora do seu tempo, por mais que as jovens esposas de boa parte desses homens tenha referenciais mais modernos. Enquanto isso, Serginho Groisman amadurece sem perder a jovialidade.

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