ELDO POP: ESSA FIM FOI A RÁDIO DO ROCK!!


Por Alexandre Figueiredo

Hoje as gerações recentes, desinformadas das coisas, comemoram o retorno da rádio paulista 89 FM, que nunca foi grande coisa e nunca cumpriu de fato o que promete até hoje o logotipo de fontes de impacto e a expressão "A Rádio Rock" inserida em destaque.

Quem entende de radialismo rock sabe que o que a UOL 89 FM  faz fica a dever até para os previsíveis serviços de som dos shopping centers, com uma programação musical bastante fraca e locutores engraçadinhos torrando a paciência de qualquer um.

Pois muito antes do mercado impor esse paradigma absurdo de "rádios de rock" - repertório hit-parade, locução abobalhada etc - , houve rádios de rock de verdade, com locutores que falavam feito gente, mesmo com algum senso de humor hilário, repertório abrangente e ousado, que poderia ir muito além das fronteiras dos "grandes sucessos" tocando até músicas longas, bandas obscuras e mesmo música instrumental.

A Eldo Pop não teve sequer locução. Mas, se tivesse, não teria locutores fazendo gracinhas, mas, quando muito, haveria um bem humorado e um dos poucos que usavam uma fala rápida sem soarem insuportáveis. Afinal, era ele que comandava a festa roqueira da rádio, o lendário Big Boy.

Newton Duarte era seu nome de batismo. Era um locutor da Rádio Mundial AM - emissora que era das Organizações Victor Costa e havia sido arrendada para Alziro Zarur apresentar alguns programas - conhecido pelo apelido de Big Boy, pela saudação "hello crazy people" e pelos profundos conhecimentos de rock'n'roll, soul music e jazz, tendo sido um dos mais influentes disc jockeys dos anos 60.

Com uma aparência que encontra similar hoje com o ator Jack Black - cujo filme Escola do Rock tem o mesmo estado de espírito da Eldo Pop - , Big Boy assumiu a gerência artística da rádio Eldorado FM, que havia sido inaugurada pelo Sistema Globo de Rádio em 1972 e transmitida nos 98,1 mhz.

Big Boy decidiu que a rádio tocaria rock, com base no que as melhores rádios do gênero faziam desde 1967, quando a primeira rádio de rock havia surgido, em San Francisco, para divulgar o rock psicodélico que eclodiu então.

A essas alturas, a cultura rock era marcada pelo rock clássico, geralmente pesado e influenciado pelo blues, pelo hard rock e heavy metal, pelo que ainda restava do rock psicodélico e pelo rock progressivo. E tudo isso rolou na Eldorado FM, mesmo sem qualquer locução, mas com músicas de primeira.

A emissora chegou a estar em terceiro lugar entre as emissoras do nascente rádio FM carioca, mesmo tocando bandas consideradas excêntricas para o grande público. Só para dar uma amostra do que rolava na Eldo Pop, como a emissora ficou conhecida, citaremos aqui um resumo do elenco que frequentava as vitrolas do estúdio da rádio:

Beatles, Rolling Stones, Who, Jimi Hendrix, Jethro Tull, Doors, Led Zeppelin, Deep Purple, Thin Lizzy, Blue Cheer, Eric Clapton, Triumvirat, King Crimson, Gentle Giant, Yes, Frank Zappa, Allman Brothers, Nektar, Secos e Molhados, Raul Seixas, MC-5, Bob Dylan, John Mayall & The Bluesbrakers, Backman Turner Overdrive, Creedence Clearwater Revival, Soft Machine, Black Sabbath, Pink Floyd, Genesis, Can, Amon Dull, Tangerine Dream etc etc etc.

Ou seja, era um repertório que não era "só sucesso" porque simplesmente era rock, mas era um rock que ultrapassava até mesmo os seus próprios limites do "só sucesso". Algo que as gerações recentes não conseguem entender, tão apegadas ao ditado popular "em terra de cego...".

A Eldo Pop acabou em 1978. Um ano antes, morreu Big Boy, aos 34 anos incompletos, de problemas cardíacos. Deixou uma grande lacuna no rádio e no circuito dos espetáculos. Se vivo fosse, ele daria até uma bronca nos funqueiros de hoje, porque a imbecilização do que poderia ter sido a tradução brasileira do tecnofunk de Afrika Bambataa não teria ocorrido diante da força do "grande garoto".

O fim da Eldo Pop se deu não por causa da falta de entrosamento do sucessor, Mário Henrique Guimarães, o Peixinho, que conseguiu captar o espírito da rádio. Ele se deu porque o Sistema Globo de Rádio, querendo competir com a Rádio Cidade (aviso aos navegantes: a rádio surgiu como emissora de pop convencional), criou a popularesca 98 FM.

Entrando a 98 FM, aparentemente só um programa da Eldo Pop permaneceu no ar, o Rock Special. Isso é, formalmente. Depois o formato do programa foi descaraterizado, virando um programa de pop qualquer nota, a avacalhar com a palavra "rock" nas ondas cariocas.

Apenas em Salvador, quando a Rádio 96 Aratu, seguindo a lógica da TV Aratu, que na Bahia era ligada às Organizações Globo, seguia a linha da 98 FM. Todavia, a rádio decidiu variar com uma edição local do Rock Special que tocava rock de verdade.

Era comandado pelo cantor Marcelo Nova, depois vocalista do Camisa de Vênus e hoje em carreira solo, nos mesmos moldes do que ele fez em rede nacional com o programa Let's Rock, da Rede Transamérica, nos anos 90.

Em uma hora semanal, o programa da antiga 96 FM conseguiu captar o espírito da antiga Eldo Pop para os ouvintes soteropolitanos, através da locução e produção de Nova. Infelizmente, com Marcelo Nova já longe da Bahia, a 96 FM teve uma terrível experiência como caricatura de "rádio rock" como hoje se ouve na UOL 89 FM, mas abortada a tempo. Às vezes os baianos acabam sendo mais prudentes que os paulistas.

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