quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

ELDO POP: ESSA FIM FOI A RÁDIO DO ROCK!!


Por Alexandre Figueiredo

Hoje as gerações recentes, desinformadas das coisas, comemoram o retorno da rádio paulista 89 FM, que nunca foi grande coisa e nunca cumpriu de fato o que promete até hoje o logotipo de fontes de impacto e a expressão "A Rádio Rock" inserida em destaque.

Quem entende de radialismo rock sabe que o que a UOL 89 FM  faz fica a dever até para os previsíveis serviços de som dos shopping centers, com uma programação musical bastante fraca e locutores engraçadinhos torrando a paciência de qualquer um.

Pois muito antes do mercado impor esse paradigma absurdo de "rádios de rock" - repertório hit-parade, locução abobalhada etc - , houve rádios de rock de verdade, com locutores que falavam feito gente, mesmo com algum senso de humor hilário, repertório abrangente e ousado, que poderia ir muito além das fronteiras dos "grandes sucessos" tocando até músicas longas, bandas obscuras e mesmo música instrumental.

A Eldo Pop não teve sequer locução. Mas, se tivesse, não teria locutores fazendo gracinhas, mas, quando muito, haveria um bem humorado e um dos poucos que usavam uma fala rápida sem soarem insuportáveis. Afinal, era ele que comandava a festa roqueira da rádio, o lendário Big Boy.

Newton Duarte era seu nome de batismo. Era um locutor da Rádio Mundial AM - emissora que era das Organizações Victor Costa e havia sido arrendada para Alziro Zarur apresentar alguns programas - conhecido pelo apelido de Big Boy, pela saudação "hello crazy people" e pelos profundos conhecimentos de rock'n'roll, soul music e jazz, tendo sido um dos mais influentes disc jockeys dos anos 60.

Com uma aparência que encontra similar hoje com o ator Jack Black - cujo filme Escola do Rock tem o mesmo estado de espírito da Eldo Pop - , Big Boy assumiu a gerência artística da rádio Eldorado FM, que havia sido inaugurada pelo Sistema Globo de Rádio em 1972 e transmitida nos 98,1 mhz.

Big Boy decidiu que a rádio tocaria rock, com base no que as melhores rádios do gênero faziam desde 1967, quando a primeira rádio de rock havia surgido, em San Francisco, para divulgar o rock psicodélico que eclodiu então.

A essas alturas, a cultura rock era marcada pelo rock clássico, geralmente pesado e influenciado pelo blues, pelo hard rock e heavy metal, pelo que ainda restava do rock psicodélico e pelo rock progressivo. E tudo isso rolou na Eldorado FM, mesmo sem qualquer locução, mas com músicas de primeira.

A emissora chegou a estar em terceiro lugar entre as emissoras do nascente rádio FM carioca, mesmo tocando bandas consideradas excêntricas para o grande público. Só para dar uma amostra do que rolava na Eldo Pop, como a emissora ficou conhecida, citaremos aqui um resumo do elenco que frequentava as vitrolas do estúdio da rádio:

Beatles, Rolling Stones, Who, Jimi Hendrix, Jethro Tull, Doors, Led Zeppelin, Deep Purple, Thin Lizzy, Blue Cheer, Eric Clapton, Triumvirat, King Crimson, Gentle Giant, Yes, Frank Zappa, Allman Brothers, Nektar, Secos e Molhados, Raul Seixas, MC-5, Bob Dylan, John Mayall & The Bluesbrakers, Backman Turner Overdrive, Creedence Clearwater Revival, Soft Machine, Black Sabbath, Pink Floyd, Genesis, Can, Amon Dull, Tangerine Dream etc etc etc.

Ou seja, era um repertório que não era "só sucesso" porque simplesmente era rock, mas era um rock que ultrapassava até mesmo os seus próprios limites do "só sucesso". Algo que as gerações recentes não conseguem entender, tão apegadas ao ditado popular "em terra de cego...".

A Eldo Pop acabou em 1978. Um ano antes, morreu Big Boy, aos 34 anos incompletos, de problemas cardíacos. Deixou uma grande lacuna no rádio e no circuito dos espetáculos. Se vivo fosse, ele daria até uma bronca nos funqueiros de hoje, porque a imbecilização do que poderia ter sido a tradução brasileira do tecnofunk de Afrika Bambataa não teria ocorrido diante da força do "grande garoto".

O fim da Eldo Pop se deu não por causa da falta de entrosamento do sucessor, Mário Henrique Guimarães, o Peixinho, que conseguiu captar o espírito da rádio. Ele se deu porque o Sistema Globo de Rádio, querendo competir com a Rádio Cidade (aviso aos navegantes: a rádio surgiu como emissora de pop convencional), criou a popularesca 98 FM.

Entrando a 98 FM, aparentemente só um programa da Eldo Pop permaneceu no ar, o Rock Special. Isso é, formalmente. Depois o formato do programa foi descaraterizado, virando um programa de pop qualquer nota, a avacalhar com a palavra "rock" nas ondas cariocas.

Apenas em Salvador, quando a Rádio 96 Aratu, seguindo a lógica da TV Aratu, que na Bahia era ligada às Organizações Globo, seguia a linha da 98 FM. Todavia, a rádio decidiu variar com uma edição local do Rock Special que tocava rock de verdade.

Era comandado pelo cantor Marcelo Nova, depois vocalista do Camisa de Vênus e hoje em carreira solo, nos mesmos moldes do que ele fez em rede nacional com o programa Let's Rock, da Rede Transamérica, nos anos 90.

Em uma hora semanal, o programa da antiga 96 FM conseguiu captar o espírito da antiga Eldo Pop para os ouvintes soteropolitanos, através da locução e produção de Nova. Infelizmente, com Marcelo Nova já longe da Bahia, a 96 FM teve uma terrível experiência como caricatura de "rádio rock" como hoje se ouve na UOL 89 FM, mas abortada a tempo. Às vezes os baianos acabam sendo mais prudentes que os paulistas.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

MORRE NO RIO O ATOR E DIRETOR ZÓZIMO BULBUL


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Um dos mais prestigiados diretores e atores brasileiros e dedicado ativista negro no país, Zózimo Bulbul, faleceu hoje de parada cardíaca, perdendo a luta contra um câncer. De notável trajetória, ele participou como ator da produção cepecista Cinco Vezes Favela, além de ter feito par romântico com Leila Diniz e tendo sido o primeiro modelo negro de uma grife de alta costura. Era também ligado aos movimentos em prol da cultura negra, tendo sido um de seus mais dedicados ativistas.

Portanto, é uma grande falta que se fará para a cultura brasileira, com a perda de um artista batalhador como poucos, que foi Zózimo.

Morre no Rio o ator e diretor Zózimo Bulbul

Do Portal do Ministério da Cultura

O ator e cineasta Zózimo Bulbul morreu depois de sofrer uma parada cardíaca, na manhã desta quinta-feira. O ator, que sofria de câncer há anos, estava em casa, em Botafogo. Na TV, ele foi o primeiro protagonista negro de uma novela brasileira, fazendo par romântico com Leila Diniz em Vidas em Conflito, TV Excelsior, 1969. Foi ainda o primeiro manequim negro masculino de uma grife de alta costura. Ator e diretor de mais de 30 filmes, 50 anos de carreira, estreou no cinema com "Cinco vezes favela" na década de 60 e trabalhou com a geração de diretores do Cinema Novo como Glauber Rocha.

No fim de 2012, organizou a 6ª edição do Encontro de Cinema Negro Brasil, África & Américas. 

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Morre o ator e cineasta Zózimo Bulbul, aos 75 anos

Do Portal Geledés

O ator e cineasta Zózimo Bulbul morreu nesta quinta-feira aos 75 anos em sua casa em Botafogo. Ele sofria de câncer havia alguns anos e não resistiu a uma parada cardíaca pela manhã. Ator e diretor de mais de 30 filmes, 50 anos de carreira, estreou no cinema com "Cinco vezes favela" na década de 60 e trabalhou com ícones do Cinema Novo como Glauber Rocha.

Um dos maiores expoentes afro-brasileiros do Cinema Novo nas décadas de 60 e 70, Zózimo Bulbul construiu sua trajetória no cinema através da história do seu povo no Brasil. Bulbul atuou também em clássicos como Terra em Transe (Glauber Rocha), Compasso de Espera (Antunes Filho) e, mais recentemente, em Filhas do Vento (Joel Zito Araújo), entre outros.

Em 1974, realizou seu primeiro trabalho, Alma no Olho. O título foi inspirado no livro do líder dos Panteras Negras Eldridge Cleaver,Alma no Exílio. O livro de Cleaver foi publicado em 1968 nos EUA e no Brasil em 1971. Tornou-se leitura corrente entre os intelectuais negros brasileiros, quase todos, naquele momento, antenados com os movimentos políticos que ocorriam na África e nos EUA. Aliás, nesse sentido, reflete totalmente o ideário da negritude afro-americana na história e na trilha sonora: a música “Kulu Se Mama”, de Julian Lewis, executada por John Coltrane entra em "off", enquanto o ator (Bulbul), através de pantomimas, conta a história da diáspora negra, desde a África até os dias atuais. No final o personagem, vestido de roupa, africana quebra a corrente branca que o prende pelos punhos. A mensagem não poderia ser mais política: a liberdade definitiva só virá com a assunção da negritude cujo símbolo é a África.

Dedicado ao saxofonista John Coltrane, Alma no Olho é um dos poucos filmes (talvez único) que absorveu na época as influências do protesto negro norte-americano. Embora a parcela mais ativa dos militantes negros brasileiros já tivesse construído uma agenda política informada do ideário da negritude pelo menos desde o final da década de 60. "No cinema vivia-se ainda a ressaca do golpe militar entre a goiabice de intelectuais de esquerda em crise e o desbunde tropicalista" (dogma, p. 86). A reflexão sobre a experiência dos negros urbanos e de suas lutas políticas nos filmes brasileiros é praticamente ausente. Nesse sentido, Alma no Olho é absolutamente moderno e aponta para uma representação do negro descolada do culturalismo nacionalista quase sempre elitista e conservador.

Em seguida, Bulbul dirige com Vera de Figueiredo o curta Artesanato do Samba sobre os preparativos do carnaval carioca. Ainda em 1974, sentindo-se acuado pela repressão desencadeada com o golpe militar, Bulbul parte para um auto-exílio europeu retornando somente em 1977. Em 1980, dirige seu terceiro curta-metragem, Dia de Alforria?, sobre a vida do sambista e fundador da escola de samba Império Serrano, Anicéto do Império. O filme é de uma reverência completa com o velho sambista, representante da cultura negra carioca. Reflete, assim, a postura política da intelectualidade negra que marcou o final da década de 70 e início da década de 80 desde a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU). Nos letreiros iniciais de Dia de Alforria? lê-se: "Dedicado a Zumbi dos Palmares e todos os quilombolas mortos e vivos".

A afirmação da cultura e da história do negro foi fundamental para o ativismo negro desde o final da década de 80. É nessa chave que Bulbul realiza o seu primeiro longa metragem, o documentário Abolição, lançado em 1988, durante as comemorações do centenário da Abolição.

Ousado, o filme pretende contar a história do negro desde a abolição. O que, aliás, o faz, a partir de entrevistas com artistas, ativistas, historiadores, políticos e intelectuais negros. O dado político percorre todo o filme na base da denúncia de que nada mudou desde a abolição até agora. No entanto, há um discurso mais interno, que se manifesta quando mostra uma equipe de cinema formada por negros montando os sets e filmando. "Uma mudança e tanto! O que vemos está mediado pelo olhar dessa equipe. Assim, não se trata apenas de contar a história do negro, mas de um ponto de vista negro sobre a história. Nesse sentido Abolição (1988) é um programa ampliado de Alma no Olho (1974).

Em 1997, participou do Fespaco – Festival Pan-Africano de Cinema de Ouagadodou, considerado por ele “A Cannes Africana”, para o qual presta uma homenagem neste encontro no Brasil. “Lá, descobri que o africano que preserva a cultura oral ama o cinema por ser um ato social, de integração, diferente da literatura, que é mais individual. Os cineastas africanos são verdadeiros Griots, sábios que contam histórias para a população. E assim nós fazemos aqui respeitando o nosso tempo, nossas cores e a nossa música”, diz ele, que acaba de completar 70 anos realizando através desse Encontro de Cinema um sonho de muito tempo: juntar a África e o Brasil através das suas culturas.

Em 2001, Bulbul filma Pequena África. Utilizando como mote a descoberta de um cemitério de escravos, volta-se para os seus temas preferidos: a história do negro e do samba cariocas. Atualmente Bulbul realiza vídeos e prepara a produção do seu segundo longa metragem.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

MORREU ADALGISA COLOMBO, MISS BRASIL 1958


Faleceu na sexta-feira passada, dia 18, um dos maiores símbolos da beleza brasileira de 1958, Adalgisa Colombo. Ela sentiu-se mal ao acordar em casa, sofrendo falta de ar. Ela chegou a ser socorrida, mas morreu a caminho do hospital. Ela tinha 73 anos. A causa da morte não foi divulgada.

Ela se destacou não só por ter ganho o concurso de Miss Brasil em 1958 - um ano considerado especial para o Brasil, segundo historiadores e jornalistas - , mas também por ter ganho o concurso de Miss Distrito Federal (quando o município do Rio de Janeiro era a capital do país, mas já com Brasília em adiantada construção), no mesmo ano, e por ter ficado em segundo lugar no concurso de Miss Universo.

Antes do concurso de Miss Brasil, Adalgisa, ainda adolescente em 1956, participou como atriz na comédia de chanchada Com Água na Boca, de J. B. Tanko, com Anilza Leoni, Otelo Zeloni, Costinha e Older Cazarré no elenco.

Durante o reinado de Miss Brasil, Adalgisa abriu mão do título, por estar de casamento marcado com seu primeiro marido, Jackson Flores, cuja união, em 1959, resultou em um filho. Dois outros filhos foram gerados no segundo casamento, com o empresário gaúcho Flávio Teruszkin.

Depois do concurso de Miss Brasil, Adalgisa foi modelo e apresentadora de televisão, tendo feito vários programas na TV Rio, durante a década de 60. Ela viveu 14 anos nos EUA e sua beleza rendeu inúmeras capas para revistas como Cruzeiro e Manchete, entre outras. Nos últimos anos, a revista Caras dava destaque à sua beleza madura e seu charme impecável.

Numa entrevista em 2009, Adalgisa lamentou a impopularidade do concurso de miss nos últimos anos. “Hoje em dia nem toda moça quer ser miss, elas querem ser modelo, porque ganha mais e nem precisa ter um rosto bonito. Mas a top não se mostra, mostra a roupa. Para ela se destacar, precisa ter um tipo diferente. Já a miss tem que ter um perfil clássico de beleza", disse.

No entanto, apesar disso, Adalgisa, realista, admite que o título de miss não garante que essa beleza tenha prestígio e grande projeção: “Ter uma coroa na cabeça não quer dizer necessariamente que você é a mulher mais bonita do Brasil. Isso é balela".

MORREU A ATRIZ E BAILARINA HELOÍSA MILLET


Faleceu na última sexta-feira, no Rio de Janeiro, a atriz e bailarina carioca Heloísa Millet, aos 64 anos de idade, vítima de câncer. Tendo sido conhecida pelo seu trabalho de bailarina na abertura do programa Fantástico, da Rede Globo, em 1974, ela depois foi levada pelo diretor de teatro Zbigniew Ziembinsky para seguir carreira de atriz.

Ao saber do sucesso como bailarina da abertura do programa, Heloísa teve a impressão que relatou numa entrevista de 1994: “Sou pequena, baixa, e quando fiz aquela abertura, virei um mulherão de dois metros de altura. Então, acabaram-se os meus complexos".

Depois, ela fez uma personagem, Betina, na novela Estúpido Cupido, em 1976, e a esse trabalho seguiram-se outros nas novelas Espelho Mágico (1977), Te Contei? (1978), Feijão Maravilha (1979), Marrom-glacê (1979) e Elas por Elas (1982), todas na Globo.

Heloísa também participou da minissérie Terras do Sem Fim (1981) e no elenco do humorístico Estúdio A...Gildo (1982), comandado por Agildo Ribeiro e inspirado no teatro de revista. No cinema, Heloísa participou dos filmes O Rei e os Trapalhões (1979) e As Tranças de Maria (2003).

Nos últimos anos, ela vivia em Minas Gerais, tendo também morado em Goiás. Nos anos 90, ela deixou o trabalho de atriz para se dedicar à pintura. Só recentemente voltou ao Rio de Janeiro para tratar do câncer que a matou no último dia 18.

Heloísa Millet era considerada uma das musas da televisão mais desejadas nos anos 70. Ela foi casada com o pianista e maestro Edson Frederico, já falecido. A notícia do falecimento da atriz foi divulgada em primeira mão pelo mesmo Fantástico que a lançou à fama.

domingo, 20 de janeiro de 2013

TRINTA ANOS APÓS MORTE, GARRINCHA AINDA NÃO DESCANSOU


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Em tempos de "futebol de resultados" que vive hoje o Brasil, onde uma seleção instável apenas cumpre as agendas da CBF, é bom lembrar dos tempos em que o futebol unia jogadores entrosados, criativos em ótimas jogadas e na capacidade natural de fazerem belos gols, não apenas através de figuras marcantes como Pelé, mas também em outros jogadores como o peculiar Manoel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, que faleceu há trinta anos.

Ruy Castro: Trinta anos após morte, Garrincha ainda não descansou

Por Ruy Castro - Folha On Line

Trinta anos após sua morte, certos mitos sobre Garrincha continuam mais difíceis de matar do que Rasputin. O de que ele chamava seus marcadores de "João", por exemplo --significando que não queria nem saber quem eram, porque iria driblá-los do mesmo jeito. Garrincha nunca disse isso.

A história foi inventada por seu amigo, o jornalista Sandro Moreyra, em 1957, para mostrá-lo como um gênio ingênuo e intuitivo. Garrincha a detestava, porque os adversários, que não queriam ser chamados de "João", redobravam a violência contra ele.

Que Garrincha era um gênio intuitivo do futebol, não há dúvida. Mas não tinha nada do ingênuo, quase débil, com que algumas histórias o pintavam. Ao contrário, era até muito esperto a respeito do que o interessava --mulheres e birita, a princípio nesta ordem--, e não havia concentração que o prendesse. Nos seus primeiros dez anos de carreira, 1953-1962, Garrincha conseguiu conciliar tudo isso com o futebol. Dali em diante, a vida lhe apresentou a conta.

Outro mito é o de que, às vésperas do Brasil x URSS na Copa-1958, na Suécia, os três jogadores mais influentes da seleção --Bellini, Didi e Nilton Santos-- foram ao técnico Vicente Feola e exigiram sua escalação na ponta direita, com a consequente barração de Joel, do Flamengo, então titular. Em 1995, isso me foi desmentido pelos quatro jogadores (Bellini, Didi, Nilton Santos e Joel), pelo preparador físico daquela seleção, Paulo Amaral, e por outros membros da delegação.

Perguntei a Nilton Santos por que, durante tantos anos, ele confirmara uma história que sabia não ser verdadeira. Ele admitiu: "Era o que as pessoas queriam ouvir". No futuro, em entrevistas, contaria a versão correta: a de que Joel se contundira ante a Inglaterra, e a entrada de Garrincha aconteceria de qualquer maneira. Note-se que, até o jogo com a URSS, Garrincha ainda não era o Garrincha da lenda, e Joel, também grande atleta, era uma escolha normal para a ponta.

Outro mito, este agora bastante atenuado, mas ferocíssimo na época, refere-se à participação de Elza Soares na vida de Garrincha. Para os desinformados, ela ajudou a destruí-lo. A verdade é o contrário: sem Elza, Garrincha teria ido muito mais cedo para o buraco. Quando ela o conheceu (em fins de 1961, e não em meados de 1962, durante a Copa do Chile, como até hoje se escreve), Elza estava em seu apogeu como estrela do samba, do rádio e do disco. E ninguém imaginava que Garrincha, logo depois de vencer aquela Copa praticamente sozinho, logo deixaria de ser Garrincha.

Ninguém, em termos. Os médicos e preparadores do Botafogo sabiam que Garrincha, com o joelho cronicamente em pandarecos (e agravado pela bebida), estava no limite. Mas ele não se permitia ser operado --só confiava nas rezadeiras de sua cidade, Pau Grande. O que Garrincha fez na Copa foi um milagre. Mas, assim que voltou do Chile, os problemas se agravaram.

Mesmo jogando pouquíssimas partidas, levou o Botafogo ao título de bicampeão carioca --e, assim que o torneio acabou, com sua exibição arrasadora nos 3x0 ante o Flamengo, ele nunca mais foi o mesmo. Marque o dia: 15 de dezembro de 1962 --ali terminou o verdadeiro Garrincha.

Um outro Garrincha --gordo, inchado, bebendo às claras ou às escondidas, incapaz de repetir seus dribles e arranques pela direita-- continuou se arrastando pelos campos, vestindo camisas ilustres (do próprio Botafogo, do Corinthians, do Flamengo, do Olaria e da seleção) por mais inacreditáveis dez anos --até o famoso Jogo da Gratidão, organizado por Elza Soares. Foi sua despedida oficial, a 19 de dezembro de 1973, com um Maracanã inundado de amor.

Naquela noite, um time formado por Felix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Rivellino e Paulo César; Garrincha, Jairzinho e Pelé --praticamente a seleção de 1970 com Garrincha-- entrou em campo para enfrentar uma seleção de estrangeiros que atuavam no Brasil, estrelada por Pedro Rocha, Forlan, Reyes e outros.

AUDREY HEPBURN, 20 ANOS SEM A ÚLTIMA HEROÍNA ROMÂNTICA


COMENTÁRIOS DESTE BLOGUE: Sinônimo de charme e elegância nos anos 50 e 60, Audrey mostrou-se belíssima e classuda até o fim da vida, tendo sido encantadora até mesmo na velhice. E, juntamente com Marilyn Monroe, Natalie Wood e Brigitte Bardot, foi uma das grandes musas modernas do século XX, cujas lições influem as mulheres do mundo até hoje, mesmo duas décadas depois de falecida.

Audrey Hepburn, 20 anos sem a última heroína romântica 

Da Agência EFE


Custa acreditar que uma das mulheres mais adoradas pelo público durante gerações tivesse tanto azar no amor. Audrey Hepburn, heroína romântica na tela e cuja morte completa 20 anos hoje, teve uma vida cheia de carências afetivas que só foi suprida como embaixadora do Unicef.

Cinco indicações ao Oscar... e cinco abortos. Duas estatuetas... e dois casamentos fracassados. Audrey Hepburn, provavelmente o ícone do cinema clássico mais lembrado junto com Marilyn Monroe, cativou na audiência algo que ela sentiu saudades desde menina: o carinho e a adoração.

Musa da Givenchy na moda, de Stanley Donen, Billy Wilder, George Cukor e Blake Edwards no cinema... mas rejeitada por Albert Finney e Ben Gazzara na vida real. Sua beleza era mais etérea que sexy e sem a aura do glamour de filmes como "A Princesa e o Plebeu" e "Bonequinha de Luxo", Audrey se sentia menor.

"Acho que o sexo é supervalorizado. Não tenho 'sex appeal' e sei disso. De fato, prefiro ter um aspecto curioso. Meus dentes são curiosos e não tenho os atributos que deveria ter uma deusa do cinema", falava sobre si mesma.

Nos registros oficiais, dois casamentos: um com Mel Ferrer, notavelmente maior que ela e de um físico pouco felizardo, e outro com o aristocrata e neuropsiquiatra italiano Andrea Dotti. Com o primeiro substituiu o verdadeiro amor pela admiração profissional. Com o segundo, pela "dolce vita".

Com eles teve seus dois filhos, Sean e Luca, outra de suas obsessões, pois por esterilidade tinha descartado alguns de seus amantes mais apaixonados, como William Holden e Robert Anderson.

Conheceu Ferrer em uma festa na casa de Gregory Peck e ele lhe ofereceu um papel em "Ondine", uma peça na Broadway, e, como dizem, uma coisa levou à outra.

Em 1954 já estavam se casando na Suíça em grande estilo e Audrey tentou combinar sua emergente carreira e seu novo casamento, até o ponto de rejeitar "Gigi" para rodar "Cinderela em Paris" na capital francesa, onde Ferrer trabalhava com Jean Renoir em "Elena et les Hommes".

Em pouco tempo, Ferrer foi tomado de ciúmes pelo sucesso de sua esposa e o divórcio chegaria em 1968, pouco após seu último êxito, "Um Clarão nas Trevas", produzido por Ferrer.

"Não posso explicar a desilusão que senti. Sabia que era difícil estar casado com uma estrela mundial. Mel sofreu muito. Mas, acredite, eu pus minha carreira em segundo lugar", disse a atriz na época.

Porém, um ano mais tarde, já estava se casando com Dotti, um dos solteiros mais cobiçados de sua época. Ela tinha 40 anos e ele 31, invertendo os papéis de seu casamento anterior, e foi Audrey que enlouqueceu de ciúmes ao ver os paparazzi fotografarem seu "latin lover" com outras mulheres.

Além disso, vários abortos a levaram a um estado de depressão, embora finalmente tenha conseguido dar à luz a seu segundo filho, Luca. O divórcio aconteceu apenas em 1982.

Mas, nesse meio tempo, a atriz continuou buscando o amor nos braços de seus companheiros de filmagem. "Chegou um momento em que sua vida se transformou em algo triste e patético e alcançou um grau de desespero no qual chegou a permitir que lhe tratassem mal", declarou Donald Spoto, ao apresentar sua biografia da atriz em 2006, a respeito da relação de Audrey com Ben Gazzara.

Gazzara lembrou assim seu romance em 1970. "Ela era infeliz com seu casamento e eu também e nos consolamos, mas era impossível. Ela tinha sua vida na Europa e eu em Los Angeles. A vida ficou entre nós", declarou o ator, que também ressaltou a insegurança de Hepburn como atriz.

Esse relacionamento seguiu o padrão de outro ocorrido poucos anos antes, quando ainda era casada com Mel Ferrer, durante seu romance extraconjugal mais famoso, com Albert Finney durante a filmagem de "Um Caminho para Dois". Porém, o ator não pôde com tanta intensidade.

As carências afetivas tinham nascido já na infância. "Nasci com uma enorme necessidade de receber afeto e uma terrível necessidade de dá-lo", dizia a atriz.

Abandonada por seu pai e com uma mãe incapaz de transmitir esse carinho, forjou uma insegurança que a tornou hidrofóbica e lhe fez chorar quando viu que não tinham respeitado sua voz nas canções de "My Fair Lady".

A delicadeza deslumbrante de Audrey Hepburn na tela tinha um revés preocupante na vida real. E assim, marcada pela filmagem de "Uma cruz à beira do abismo", acabou se entregando às causas humanitárias.

"No final encontrou o sentido de sua vida em seu trabalho com a Unicef. Mas foi praticamente por eliminação", resumiu Donald Spoto.

Missões na Somália e El Salvador como Embaixadora de Boa Vontade do Unicef, mas nas condições de uma voluntária a mais, lhe garantiriam um Oscar honorífico. E assim, faleceu, sentimentalmente realizada, finalmente, no dia 20 de janeiro de 1993 aos 63 anos.

"Tive momentos muito difíceis em minha vida. Mas fossem quais fossem, os superei e sempre encontrei uma recompensa no final", comentou a atriz.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

WALMOR CHAGAS MORRE AOS 82 ANOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Um dos maiores nomes do teatro brasileiro e um dos grandes astros da fase de sofisticação e profissionalismo implantada no Brasil pelo Teatro Brasileiro de Comédia, Walmor Chagas, faleceu em circunstâncias misteriosas em sua chácara em Guaratinguetá. Ele também foi ator de cinema e televisão de grande destaque, principalmente no filme São Paulo S/A, de Luiz Sérgio Person.

Walmor Chagas morre aos 82 anos

Do Portal G1

O ator Walmor Chagas, de 82 anos, foi encontrado morto na chácara onde vivia na cidade de Guaratinguetá, no interior de São Paulo, na tarde desta sexta-feira (18). As circunstâncias da morte ainda serão investigadas.

Com mais de 60 anos de carreira, o gaúcho Walmor de Souza Chagas atuou em mais de 40 peças, cerca de 20 filmes e 30 novelas. Era considerado um dos grandes atores do teatro brasileiro.

Segundo um funcionário, o caseiro José Arteiro de Almeida, o corpo do artista foi achado caído na cozinha com um tiro na cabeça.

Almeida relatou ao G1, por telefone, que, no momento da morte, Walmor estava sozinho dentro da casa. Ele diz que uma empregada e uma cozinheira haviam acabado de deixar o local.

Almeida, que trabalha há 30 anos com o ator, diz que Walmor Chagas não demonstrava nenhum indício de que poderia tirar a própria vida. "Eles apenas relatou nos últimos dias que estava preocupado com o diabetes. As pernas também já não estavam tão firmes, mas ele estava bem", disse.

O sítio onde o ator vivia fica no bairro Gomeral, na zona rural de Guaratinguetá. O local é de difícil acesso. Equipes do Corpo de Bombeiros e Polícia Civil receberam um chamado à tarde e só conseguiram chegar ao local por volta das 18h30.

Carreira


Walmor Chagas nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 28 de agosto de 1930. No começo dos anos 50, foi para São Paulo em busca de uma chance no cinema.

Em 1952, Chagas fundou o Teatro das Segundas-Feiras, com Ítalo Rossi, encenando “Luta até o amanhecer”, de Ugo Betti. Ele estreou no Teatro Brasileiro de Comédia em 54, na peça “Assassinato a domicílio”, de Frederick Knott, com direção de Adolfo Celi.

Ao lado de Eva Wilma, o ator estreou no cinema em “São Paulo Sociedade Anônima” (1965), de Luís Sérgio Person, interpretando Carlos, um jovem da classe média. Sua primeira novela foi na TV Globo em 1974, na trama de “Corrida do ouro”.

Em 1992, Chagas chegou a apresentar o programa “Você decide”. Após oito anos afastado dos palcos, o ator retornou em 1999 na peça “Um equilíbrio delicado”.

Seus últimos trabalhos foram “Cara ou Coroa” e “A Coleção Invisível”, no cinema; e as novelas “A favorita” e “Os mutantes”, na televisão. Chagas era viúvo da atriz Cacilda Becker, com quem teve uma filha, Maria Clara Becker Chagas.

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