sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O QUASE SILÊNCIO SOBRE JOE STRUMMER


Por Alexandre Figueiredo

Admito que deixei ocorrer uma semana de atraso para lembrar dos dez anos de falecimento do músico Joe Strummer, um dos fundadores do grupo punk The Clash, uma das mais importantes bandas do gênero. Mas a minha "agenda" estava sobrecarregada, entre compromissos particulares e uma sobrecarga de assuntos nos meus blogues que fizeram o assunto ser adiado.

Portanto, não foi por omissão. Eu havia me lembrado do falecimento e da falta que faz essa grande figura, um músico criativo e um ativista sócio-cultural como poucos, diante da acomodação que o punk rock já sofria em 2002 e que sucumbiria ao roquinho emo dos últimos anos.

Mas desde os anos 90 o punk rock se acomodou. Se nos anos 80 tínhamos os punks de butique, nos anos 90 tivemos os poppy punks. Músicas sobre caras legais e garotas saradas, ou, quando muito, de leves molecagens de colegas ao mesmo tempo gozadores e encrencados da linha do Stifler de American Pie. Se havia uma letra falando de manobras de skate, já seria um alívio.

Pois, anos antes, naqueles idos de 1976-1977, o jovem cantor e guitarrista do grupo de psychobilly 101ers, cidadão britânico nascido na Turquia e filho de diplomata, John Graham Mellor, nome de batismo do músico, sentiu o entusiasmo daquela rebelião juvenil da Londres daqueles tempos, e decidiu encerrar o grupo e formar outra banda, o conhecido grupo The Clash.

A formação sempre contou com Joe Strummer, e na maior parte do tempo seus parceiros foram Mick Jones, também vocalista e guitarrista, e Paul Simonon, vocalista e baixista. Da formação clássica, teve dois bateristas, Terry Chimes e Topper Headon. O grupo durou de 1976 a 1986, sendo que com a formação clássica se encerrou em 1983.

O mérito do grupo esteve acima de qualquer controvérsia. Afinal, o Clash causou estranheza entre os punks radicais por assinar contrato com a Epic Records e, com o tempo, assimilar influências de reggae, funk autêntico e disco music. A princípio, o Clash poderia muito bem parecer um traidor do movimento punk, mas não foi.

Afinal, o Clash se destacou brilhantemente e havia sido essencialmente muito mais punk do que se imaginava. O grupo tornou-se criativo, buscando aventuras sonoras com o mesmo apetite que vimos nos Beatles em 1967, o que fez a banda se destacar não se aprisionando a uma estética punk que, banalizada, acabou se esvaziando na essência.

Foram seis álbuns fundamentais, um deles em vinil duplo e CD simples (London Calling, de 1979) e outro em vinil triplo e CD duplo (Sandinista, de 1980). Os dois álbuns desafiaram a fama dos punks de viverem de discos compactos, mas mostraram também o vigor criativo da banda, que com o tempo se estendeu em dois principais projetos derivados, o Big Audio Dynamite de Mick Jones e Joe Strummer & The Mescaleros.

A acomodação do punk rock nos anos 90 não só abriu caminho para o tal poppy punk - ponte entre os punks de butique mais antigos e os atuais emos - , mas mesmo o punk autêntico raramente saiu imune. As letras acabaram sendo de uma rebeldia vaga, com críticas sem destinatários, causas sem propostas, um discurso raivoso sem conteúdo.

Para quem não entende, é como se eles dissessem: "Vamos agir diante da ameaça que nos cerca", sem dizer de que ameaça se trata. Ou então: "Sai da frente, panaca, que queremos passar e você é um idiota", sem dizer a quem a letra se dirige. Isso é o que restou da contestação punk nos anos 90, na maioria das vezes.

Joe Strummer faleceu quando passeava de manhã perto de sua casa. Tinha apenas 50 anos e dois meses. Ele sentiu-se mal e sofreu parada cardíaca, falecendo quando estava em casa. A morte dele acabou com qualquer esperança de volta do Clash, já que ele e Mick Jones voltaram a se entender dois anos antes.

Isso mexeu muito no meio punk, e até que alguns grupos que faziam letras "críticas" sobre nada, ninguém e coisa nenhuma passaram a fazer letras sobre críticas políticas. Até mesmo o Good Charlotte, um grupo de poppy punk, teve que fazer críticas até ao feminicídio conjugal (quando machistas exterminam suas próprias esposas ou namoradas).

Com o tempo, até o Green Day passou a ser quase um "novo Clash" em termos de atitude punk. Mas isso lá fora, no exterior. Aqui os dez anos de falecimento de Joe Strummer foram praticamente passados em branco, quando muito houve lamentos dos roqueiros brasileiros, músicos e admiradores em geral, que sentem sincera falta do ex-líder do Clash.

Fora isso, só as "lágrimas de crocodilo" da "rádio rock" 89 FM, que prefere se comover com o falecimento dos piadistas Mamonas Assassinas do que com a perda de figuras importantes como Renato Russo, Chico Science, Redson (do Cólera) e, entre os estrangeiros, figuras como Ronnie James Dio, Adam Yauch e Joe Strummer.

O que dizer então do saudoso Sky Saxon, do grupo psicodélico The Seeds, para os "mãos-de-vaca" da UOL 89 FM, que fingem sentir total receptividade ao rock alternativo, mas nunca vão além de tosqueiras tipo Marilyn Manson ou do feijão-com-arroz do Flaming Lips? Mas "Pushin' Too Hard" dos Seeds entrar na trilha no próximo blockbuster com Tom Cruise, quem sabe role na UOL 89 FM? Só nessas condições.

O falecimento de Joe Strummer nos faz pensar num tempo em que a rebelião juvenil poderia ter lá seus defeitos e exageros, mas expressava vida, intensidade, espontaneidade e idealismo. 1976 e 1977 foram dois anos históricos, de um movimento juvenil que quebrou de vez a sisudez do mundo adulto, que tentava de recompor depois da rebelião hippie, psicodélica e beatnik dos anos 60.

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