domingo, 2 de setembro de 2012

PROGRAMA DA TV ITACOLOMI ANTECIPOU O FANTÁSTICO

FOTOS AO LADO TERIAM FEITO PARTE DO PROGRAMA "A NOITE É DA GUANABARA", DA TV ITACOLOMI. ACERVO CARLOS FABIANO BRAGA

Por Alexandre Figueiredo

Uma curiosidade da televisão brasileira é que o programa que deu origem ao formato de revista eletrônica não foi transmitido no Rio de Janeiro nem em São Paulo, nas em Belo Horizonte.

A capital mineira havia ganho, em 1955, sua primeira emissora de televisão. A TV Itacolomi, ligada aos Diários Associados, já se beneficiava pela experiência técnica brasileira resultante do trabalho da TV Tupi do Rio de Janeiro e de São Paulo e pelo seu equipamento ela já foi conhecida como a emissora de TV mais moderna da América Latina.

Destinada a uma programação voltada para os aspectos culturais de Minas Gerais, a emissora de Belo Horizonte provocou uma grande polêmica entre os mineiros quando passou a se integrar em rede com as duas principais emissoras dos Associados, a Tupi carioca e a paulista.

As redes, é claro, não eram em satélite (isso só ocorreria a partir de 1969), até o videoteipe era uma tecnologia recente, usada por poucas emissoras (em Minas só veio em 1965), e os programas geralmente eram retransmitidos por gravação ou haviam transmissões locais dos mesmos programas. Só um exemplo: o programa infantil Gladys e Seus Bichinhos, da escritora e desenhista Gladys Mesquita Ribeiro, tinha edições feitas na TV Tupi carioca (de onde se originou o programa), na TV Tupi paulista e na TV Itacolomi. A apresentadora teria que viajar com sua equipe e todo o material para fazer seu programa em outras praças.

Pois nem tudo era negativo na "desmineirização" da televisão em Belo Horizonte. De um modo, foi benéfico, porque trouxe novidades na televisão local. Mas evidentemente isso deixou de lado a produção local e a divulgação da cultura mineira, enquanto valores próprios do eixo Rio-São Paulo eram veiculados para os mineiros.

Pois um dos aspectos positivos foi a produção de um programa de variedades, do estilo "revista eletrônica", cujo pioneirismo foi implantado na TV Itacolomi em 1961. Trata-se do programa A Noite é da Guanabara, produzido pela agência Esquire de Fernando Barbosa Lima e Mauro Borja Lopes, este nada menos que o famoso cartunista Borjalo (que as gerações recentes conhecem pelos desenhos da abertura do teleteatro Sai de Baixo da Rede Globo).

Borjalo foi um dos diretores do programa, que apesar do nome assustar, a princípio, os mineiros mais provincianos, correspondia não ao Estado governado por Carlos Lacerda, mas a uma famosa rede local de eletrodomésticos, as Lojas Guanabara, que fez história na capital mineira. Havia até mesmo um imponente prédio no centro da capital mineira. No entanto, a rede foi extinta anos depois.

A Noite é da Guanabara era apresentado pela atriz Elizabeth Gasper, nascida na Alemanha mas radicada no Brasil, e que era uma das musas da época. Mas tinha vários convidados, em diversos quadros. O programa era composto de entrevistas, musicais, notícias, curiosidades e esquetes humorísticas. Tinha um quadro com o compositor Lamartine Babo, onde ele contava estórias e depois cantava. Seu sobrinho, Oswaldo Sargentelli, também tinha um quadro, baseado no seu famoso formato de entrevistas onde ele perguntava com a voz em off (não aparecia na tela).

Conta Fernando Barbosa Lima que certa vez o quadro de Sargentelli teve como convidado o deputado federal petebista, Emílio Carlos, de aparência galântica. Mas aí Sargentelli anunciou, meio hesitante, o nome de um jornalista, com essas palavras: "Deputado Emílio Carlos, pergunta do jornalista Virgílio... Veado".

Emílio, sentado de costas para a câmera, não se conteve em risadas, puxando a gargalhada para a equipe em volta do cenário. Passada a gargalhada, Sargentelli continuou: "Pergunta do jornalista Virgílio Veado. Deputado Emílio Carlos, é verdade que as moças de São Paulo, nas eleições, o achando tão bonito só pensam em beijar o senhor?".

Emílio Carlos, gozador, respondeu: "Seu Veado, como é que, com esse nome, o senhor faz uma pergunta dessas?". Cinco minutos depois o jornalista, que era presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, armado de um revolver, gritou, irritado: "Veado é uma família tradicional de Minas...".

Felizmente, houve acordo e um pedido de desculpas foi formalizado no dia seguinte em mensagem dirigida ao Sindicato dos Jornalistas. Mas, no momento da reação furiosa de Virgílio, Emílio tentou explicar: "Eu não tenho nada com isso, seu Veado. É coisa da equipe do programa". Felizmente o episódio terminou sem tragédia.

O programa A Noite da Guanabara fez sucesso imediato, de tal forma que os astros da televisão paulista e carioca queriam aparecer no programa. Os cinemas deixaram de exibir a última sessão porque as pessoas estavam em casa vendo o programa. E ainda havia os televizinhos e as televisitas, porque televisão custava caro e era artigo de luxo.

O programa também serviu para dois convidados da televisão carioca, o humorista Chico Anysio e a vedete Rose Rondelli - que foi uma das "certinhas" de Stanislaw Ponte Preta - se conhecerem e se apaixonarem. Da relação, nasceu o também comediante Nizo Neto, parceiro do pai em vários quadros humorísticos, como o Ptolomeu, o aluno inteligente, na penúltima versão da Escolinha do Professor Raimundo, da TV Globo, entre 1990 e 1995. Nizo é também conhecido dublador de televisão, tendo feito as vozes de Ferris Bueller (Curtindo a Vida Adoidado) e Stiffler (American Pie 1).

Sendo produção da Esquire, A Noite da Guanabara se beneficiou com a parceria da agência com os Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul (depois vinculados à Varig), que transportava em avião toda a equipe que fazia o programa. No entanto, Lamartine Babo, que tinha medo de avião, preferia ir para a capital mineira de trem ou, quando muito, na carona de carro.

O programa fez história na televisão mineira, em especial na história da TV Itacolomi, e é considerado um dos maiores sucessos do Estado, nesta fase inicial da televisão. A televisão era em preto e branco, feita ao vivo e com poucas pessoas sendo donas de aparelhos de televisão.

Mais tarde, o formato inspiraria programas como Primeiro Plano (que passou pela TV Tupi e chegou a ser transmitido nos primeiros anos da TV Globo do Rio) e, a partir de 1973, se tornou nacionalmente conhecido através do Fantástico, também da TV Globo.

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