NELSON RODRIGUES E O FUTEBOL


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Um dos mais controversos e originais dramaturgos brasileiros, Nelson Rodrigues, teria feito hoje 100 anos. Sua trajetória foi marcante, polêmica e bastante rica que dividimos a homenagem em dois tópicos, um falando sobre o teatro, outro sobre as crônicas esportivas. Comecemos por esta.

Nelson Rodrigues, míope do Maracanã, gênio do futebol 

Por Ruy Carlos Ostermann - Jornal Zero Hora

Texto publicado na edição de 11 de outubro de 1997 de ZH, republicado em 23 de agosto de 2012, quando se completam 100 anos do nascimento de Nelson Rodrigues.

A miopia é casta, escreveu Vladimir Nabokov, mestre da literatura, da ironia e também da frase feita.

Escreveu porque não conhecia Nelson Rodrigues, afinal um escritor em língua nem um pouco universal.

Nelson não enxergava um palmo à frente do nariz, sem exagero é possível que nunca tenha observado com nitidez o magnífico episódio humano da grande área. Mas ia ao Maracanã ao menos todos os domingos. Sentava nas cadeiras, encolhido, sempre com alguém do lado. Conversava o tempo todo. Muitas vezes sentei perto antes de começar o jogo para ouvir o que se diziam, ele e seus amigos jornalistas, o João Saldanha, o Scassa e tantos outros. Eram trivialidades, brincadeiras datadas e nomeadas numa intimidade inalcançável.

Era um truque ficar com amigos nas cadeiras do Maracanã,. Começava o jogo e Nelson estava perguntando o que foi, quem é, onde foram, é mesmo? Ouvia o radinho de pilhas do companheiro ao lado, espichava o ouvido, às vezes abria os braços, inúteis óculos de fundo de garrafa, boca aberta, salivar, e esbravejava um palavrão.

Nunca viu um jogo de futebol, sempre o ouviu pelos outros. Mas fez uma literatura maravilhosa, delirante e comprometida, pela ordem: com o Fluminense, com os outros que eram adversários dilacerantes e espasmódicos, e com o escrete. Escreveu sempre assim, escrete, palavrinha tirada do inglês, scratch, que significa seleção.

Esta impossibilidade dos olhos é que explica em grande parte a caudalosa imaginação que pôs a serviço de um texto genial, exclamativo, surpreendente e escatológico _ um pouco menos no futebol, que sempre registrou como tragicamente patético na necessidade épica ou ridícula de seus heróis.

Escreveu crônicas de futebol (como esta que publicamos), de costumes ridicularizando ao estase a mediocridade da pequena classe média, a que pertencia, e escreveu muitas peças de teatro. A arte consumada do diálogo e a exemplaridade suburbana de seus personagens, fizeram dele o autor decisivo da dramaturgia brasileira.

E o futebol sempre há de lhe agradecer a paixão talentosa.

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