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CAETANO VELOSO E SEU FAMOSO PROTESTO


Por Alexandre Figueiredo

Caetano Veloso faz 70 anos hoje. Figura polêmica, ele de fato é um grande artista, mesmo quando aposta no oportunismo de embarcar em qualquer tendência musical. Tem-se, no entanto, a ressalva de que ele procura estar informado das coisas, e se esforça em não soar deslocado, seja cantando música italiana, seja rock ou samba enredo.

No âmbito político-ideológico, ele é mais conservador (apesar de ser, em compensação, bastante jovial) e isso tornou-se evidente nos últimos vinte anos, depois de tanto tempo numa posição "ambígua" que deslumbrou os intelectuais de então.

Condescendente com o brega-popularesco - que, na visão dele, concretiza na prática as utopias do cantor baiano com a chamada "cultura de massa" e que resultou na despolitização da tese de "geléia geral" inicialmente lançada ao debate pelo Tropicalismo - , Caetano Veloso está há pelo menos 35 anos no establishment da música brasileira.

Muito se falou sobre a crise da MPB agravada pela acomodação dos tropicalistas. E as controvérsias que envolviam Caetano Veloso e a crítica musical. Hoje Caetano não é visto com tanta unanimidade pela intelectualidade média como há 35 anos atrás, mas alguns cientistas sociais e críticos musicais que hoje defendem a ideologia brega - inspirados sobretudo pelo dueto de Caetano com Odair José - são tidos como "unanimidades" do mesmo jeito que Caetano num passado recente.

Aqui vamos mostrar um pouco do Caetano Veloso mais ousado, quando ele estava na vauguarda da música brasileira, causando polêmica por ser moderno e não por ser conivente com o "estabelecido", no famoso episódio no Teatro da Universidade Católica (Tuca), em São Paulo, em 15 de setembro de 1968, no III Festival Internacional da Canção (TV Globo), quando foi vaiado enquanto apresentava, ao lado dos Mutantes (Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista), a música "É Proibido Proibir".

Caetano vestia uma roupa de plástico de alusão futurista e, irritado, interrompeu bruscamente a canção para fazer o famoso discurso contra a plateia mais voltada à MPB cepecista. Com todo o mérito de Caetano na ocasião, o episódio, associado ao posterior dueto com Odair, faz as gerações intelectuais de hoje distorcerem as abordagens, confundindo os contextos e criando situações esquisitas como uma parcela da intelectualidade dita "de esquerda" esculhambando a MPB esquerdista, enquanto dá preferência para bregas claramente de direita (o próprio Odair e Waldick Soriano). Vá entender.

Primeiro vamos ver aqui a letra de "É Proibido Proibir", que Caetano compôs sozinho, e depois o discurso que ele fez contra a plateia que o vaiou. Tirem suas próprias conclusões, leitores, e boa sorte.

É proibido proibir

Caetano Veloso

A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão
E estava escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo
E além da porta
Há o porteiro, sim…

E eu digo não
E eu digo não ao não
Eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças
Livros, sim…

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estátuas, as estantes
As vidraças, louças
Livros, sim…

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

DISCURSO DE CAETANO VELOSO DURANTE APRESENTAÇÃO DA MÚSICA "É PROIBIDO PROIBIR"

"Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês tem coragem de aplaudir este ano uma música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado; são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem! Vocês não estão entendendo nada, nada, nada , absolutamente nada. Hoje não tem Fernando Pessoa! Eu hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura do festival, não com o medo que sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu. Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa, que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém! Vocês são iguais sabe a quem? São iguais sabe a quem? - tem som no microfone? - Àqueles que foram ao Roda Viva e espancaram os atores. Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada! E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu tinha -me comprometido em dar esse ?viva? aqui, não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira! O Maranhão apresentou esse ano uma música com arranjo de charleston, sabem o que foi? Foi a Gabriela do ano passado que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar, por ser americana. Mas eu e Gil abrimos o caminho, o que é que vocês querem? Eu vim aqui pra acabar com isso. Eu quero dizer ao juri: me desclassifique! Eu não tenho nada a ver com isso! Nada a ver com isso! Gilberto Gil! Gilberto Gil está comigo pra acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Acabar com isso tudo de uma vez! Nós só entramos em festival pra isso, não é Gil? Não fingimos, não fingimos que desconhecemos o que seja festival, não. Nínguém nunca me ouviu falar assim. Sabe como é? Nos, eu e ele, tivemos a coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas, e vocês? E vocês? Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos! Me desclassifiquem junto com Gil! Junto com ele, tá entendendo. O juri é muito simpático mas é incompetente. Deus está solto! (Canta trecho de É proibido Proibir) Fora do tom, sem melodia. Como é juri? Não aceitaram? Desqualificaram a melodia de Gilberto Gil e ficaram por fora! Juro que o Gil fundiu a cuca de vocês. Chega!?"

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