quarta-feira, 28 de março de 2012

ESCRITOR MILLÔR FERNANDES MORRE AOS 87 ANOS NO RIO DE JANEIRO



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Depois de Chico Anysio, outro grande humorista faleceu, deixando órfã a cultura de nosso país. Sobretudo uma mente lúcida como Millôr Fernandes, um grande ativista do humor, da mesma geração de Chico Anysio - que vivia um grande clima de coleguismo sobretudo nos bares da vida - , e que estava por trás da coluna Pif Paf, de O Cruzeiro, da revista do mesmo nome e do histórico Pasquim, jornal de humor lançado em plena vigência do AI-5 da ditadura militar.

Millôr, do contrário que muito intelectualzinho festejado de hoje em dia, não acreditava nesse papo de "ruptura de preconceitos" que serve de apologia para a mediocridade cultural de nossos dias.

Millôr escrevia para Veja, mas se desiludiu com ela. E se foi, depois de ter ficado seriamente doente.

Escritor Millôr Fernandes morre aos 87 anos no Rio de Janeiro

Do Portal Terra

Millôr Fernandes morreu aos 87 anos de falência múltipla dos órgãos na noite da última terça-feira (27), segundo informou o Cemitério Memorial do Carmo, no bairro do Caju, Rio de Janeiro. Millôr Fernandes nasceu no Rio de Janeiro, no dia 16 de agosto de 1923, contudo foi registrado em 27 de maio de 1924. Por isso, em diversos lugares, o ano de nascimento aparece como 1924.

A Capela 2 do cemitério estará disponível para o velório do escritor a partir das 18h desta quarta-feira (28) e ficará reservada até as 15h da quinta-feira, quando a cerimônia deve ser encerrada.

Ainda não há informações sobre o horário em que a família de Millôr vai levar o corpo para ser velado e nem se após as homenagens ele será sepultado ou cremado.

No perfil oficial do escritor no Twitter, uma mensagem postada nesta quarta diz: "o mestre foi... Nosso eterno carinho". Já em outro perfil, a ex-editora do escritor, a L&PM, lamentou o fato: "que dia triste! O grande Millôr Fernandes morreu esta manhã, aos 88 anos".

Biografia
Millôr Fernandes nasceu no Rio de Janeiro, no dia 16 de agosto de 1923, contudo foi registrado em 27 de maio de 1924. Por isso, em diversos lugares, o ano de nascimento aparece como 1924. Perdeu o pai dois anos após seu nascimento e a mãe cerca de seis anos depois. "Tive a sensação da injustiça da vida e concluí que Deus em absoluto não existia", escreveu sobre a infância na capital carioca.

Em 1938, deu início a sua carreira de jornalista, como repaginador da revista O Cruzeiro. No mesmo ano, escreveu o conto A Cigarra, ganhou um concurso da revista e foi promovido para o arquivo. Mais tarde, assinava a coluna Poste Escrito, sob o pseudônimo de Vão Gogo. Dirigiu também a revista em quadrinhos O Guri e Detetive, de contos policiais.

Em 1940, começou a colaborar com com seção As garotas do Alceu, como colorista. Em 1942, fez sua primeira tradução literária, do romance A estirpe do dragão, da americana Pearl S.Buck. Em 1946, lançou Eva sem costela - Um livro em defesa do homem, sob o pseudônimo de Adão Júnior. No nao seguinte, sua participação na revista O Cruzeiro já atingia a marca de dez seções por semana. Em alta, encontrou-se com Walt Disney, Vinicius de Moraes, César Lates e Carmen Miranda nos Estados Unidos, em 1948.

No ano seguinte, assinou seu primeiro roteiro para o cinema, com Modelo 19, filme que ganhou cinco prêmios Governador do Estado de São Paulo, entre eles Melhores diálogos para Millôr. Em 1951, lançou a revista Voga, que não fez sucesso. Em 1955, dividiu com o desenhista americano Saul Steinberg o primeiro lugar da Exposição Internacional do Museu da Caricatura de Buenos Aires, na Argentina. Nesse ano escreveu as peças Bonito como um Deus, Um elefante no caos, que lhe rendeu um prêmio de Melhor Autor pela Comissão Municipal de Teatro, e Pigmaleoa.

Em 1962, na edição de 10 de março de O Cruzeiro, passou a assinar como Millôr. Em 1969, foi um dos fundadores do jornal O Pasquim. Um ano depois, deixa a revista e começa a trabalhar no jornal Correio da Manhã. Em 1974, lançou a revista Pif-Paf, que fechou em seu oitavo número, por problemas financeiros. No ano seguinte, escreveu para Fernanda Montenegro a peça É..., que se tornou o seu grande sucesso teatral.

Em 1996, passou a colaborar com os jornais O Dia, O Estado de São Paulo e Correio Braziliense. Ao longo se sua carreira, escreveu mais de 30 livros em prosa, três de poesia, além de mais de quinze peças para teatro. Depois de colaborar com os principais jornais brasileiros, passou a escrever para a revista Veja em setembro de 2004. Ele deixou a revista em 2009.

MORRE ADEMILDE FONSECA, A "RAINHA DO CHORO"



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: De repente, se vão os artistas mais veteranos, num tempo em que a cultura de verdade tinha grande espaço no mercado e na mídia. Mas, pior do que perdermos essas pessoas, que naturalmente se vão idosas, é a perda crescente de referenciais, em nome de uma mediocrização que atinge as últimas consequências.

Uma curiosidade é que, dois dias antes de falecer, Ademilde havia gravado o programa Sarau, da Globo News, apresentado pelo âncora do Bom Dia Brasil Chico Pinheiro.

Morre no Rio, aos 91 anos, Ademilde Fonseca, a "rainha do choro"

Do Portal Terra

Morreu no final da noite dessa terça-feira (27), aos 91 anos, Ademilde Fonseca, considerada a rainha do choro. De acordo com a família, a cantora teve um mal súbito. O enterro será no cemitério São João Batista, em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, mas o horário não foi divulgado, de acordo com informações da rádio CBN.

A artista nasceu no dia 4 de março de 1921 em São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte. Em 1942, quando lançou o álbum Tico-Tico no Fubá, inovou a música brasileira ao introduzir voz ao chorinho, um gênero até então predominantemente instrumental.

Entre suas canções mais famosas estão interpretações de Tico-Tico no Fubá, Brasileirinho, Pedacinhos do Céu e Apanhei-te um Cavaquinho. Além de cantar, Ademilde chegou a trabalhar da extinta TV Tupi.

DISCOGRAFIA (FONTE: DICIONÁRIO CRAVO ALVIM DE MÚSICA POPULAR BRASILEIRA)

(2001) Café Brasil Conjunto Época de Ouro, Paulinho da Viola, Ademilde Fonseca e outros • Teldec • CD
(2000) As Eternas Cantoras do Rádio - Carmélia Alves, Violeta Cavalcanti, Ademilde Fonseca e Ellen de Lima • Leblon Recors • CD
(2000) A Música Brasileira deste século por seus autores e intérpretes - Ademilde Fonseca • CD
(2000) Vê se gostas - Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo e Ademilde Fonseca • CD
(2000) Chorinhos e Chorões - Vol. 2 • CD
(2000) Ademilde Fonseca - 20 Selecionadas • CD
(1998) Ademilde Fonseca - Vol. 2 • CD
(1997) A Rainha do Choro • CD
(1977) A Rainha Ademilde & seus chorões maravilhosos • MIS/Copacabana • LP
(1976) Série Ídolos MPB Nº 14 • Ademilde Fonseca • LP
(1975) Ademilde Fonseca • Top Tape • LP
(1964) Esquece de mim/Carnaval na lua • Serenata • 78
(1963) Marcha do pinica/"Tô" de bobeira • Marcobira • 78
(1962) Pé de meia/Quem resolve é a mulher • Philips • 78
(1961) De apito na boca/É o que ela quer • Philips • 78
(1961) Boato/Que falem de mim • Philips • 78
(1960) Tá vendo só/Indiferença • Philips • 78
(1960) Choros Famosos • Philips • LP
(1959) Na Baixa do Sapateiro/Io (Eu) • Odeon • 78
(1959) Voz + Ritmo = Ademilde Fonseca • Philips • LP
(1958) Eu vou na onda • Odeon • 78
(1958) Rainha do mar/Cortina do meu lar • Odeon • 78
(1958) À La Miranda • Odeon • LP
(1957) Teia de aranha/Té amanhã • Odeon • 78
(1957) Falsa impressão/Telhado de vidro • Odeon • 78
(1956) Xote do Totó/Acariciando • Odeon • 78
(1956) A situação/Procurando você • Odeon • 78
(1955) Rio antigo/Saliente • Todamérica • 78
(1955) Saudades do rio/Dó-ré-mi-fá • Todamérica • 78
(1955) Polichinelo/Na vara do trombone • Odeon • 78
(1954) Pinicadinho/Tem 20 centavos aí? • Todamérica • 78
(1954) Qué pr'ocê?/Mar sereno • Todamérica • 78
(1954) Dono de ninguém/Neste passo • Todamérica • 78
(1954) A hora é essa/Amei demais • Todamérica • 78
(1953) Vaidoso/Turista • Todamérica • 78
(1953) Meu Cariri/Se amar é bom • Todamérica • 78
(1953) Papel queimado/Sapatinhos • Todamérica • 78
(1953) Uma casa brasileira/Se Deus quiser • Todamérica • 78
(1952) Só você/Baião em Cuba • Todamérica • 78
(1952) Gato, gato/Doce melodia • Todamérica • 78
(1952) Sentenciado/Liberdade • Todamérica • 78
(1951) Delicado/Arrasta-pé • Todamérica • 78
(1951) Galo garnizé/Pedacinhos do céu • Todamérica • 78
(1951) Meu senhor/Minha frigideira • Todamérica • 78
(1950) João Paulino/Adeus, vou-me embora • Continental • 78
(1950) Brasileirinho/Teco-teco • Continental • 78
(1950) Molengo/Derrubando violões • Todamérica • 78
(1950) Vão me condenar/Não acredito • Todamérica • 78
(1948) Vou me acabar/Sonhando • Continental • 78
(1946) Estava quase adormecendo/Sonoroso • Continental • 78
(1945) O que vier eu traço/Xem-em-ém • Continental • 78
(1945) Rato, rato/História difícil • Continental • 78
(1944) Brinque a vontade!.../Os narigudos • Continental • 78
(1944) Dinorá/É de amargar • Continental • 78
(1942) Tico-tico no fubá/Volte pro morro • Columbia • 78
(1942) Altiva América/Racionamento • Columbia • 78
(1942) Apanhei-te cavaquinho/Urubu malandro • Columbia • 78

sexta-feira, 23 de março de 2012

CHICO ANYSIO, 1931-2012



Por Alexandre Figueiredo

Não houve jeito. Depois de tantos comediantes da Escolinha do Professor Raimundo terem falecido, é a vez de seu professor deixar de cena.

E era, de fato, um professor de humor e de atuação. Francisco Anysio de Paula, conhecido como Chico Anysio, o humorista de diversos papéis, não aguentou mais o sofrimento de sua saúde frágil e extremamente problemática que o atormentava desde 22 de dezembro passado.

Chico Anysio foi o primeiro comediante a usar o vídeoteipe na televisão brasileira, para permitir a interação de mais de um personagem seu no Chico Anysio Show da TV Rio, a partir de 1960. Seus primeiros personagens, lançados entre 1957 e 1960, foram Santelmo, Quem-Quem, Coronel Limoeiro - que apareceu num comercial da Ford em 1960 - e Urubulino. A estes seguiram-se Salomé, Justo Veríssimo, Popó, Coalhada, Jovem, além do já citado professor Raimundo Nonato, entre muitos outros.

Sua trajetória de mais de 50 anos incluiu até mesmo uma hilária paródia dos Novos Baianos e dos tropicalistas, o grupo Baiano e os Novos Caetanos, com o já falecido Arnaud Rodrigues.

Chico já foi repórter esportivo no início de carreira, trabalhou muito no rádio, foi roteirista de filmes da Atlântida, compositor musical. Sua estreia na televisão foi no programa Noite de Gala, na TV Rio. Na mesma emissora, fez também Tintim por Tantan, Só Tem Tantã e o famoso Chico Anysio Show, cujo formato se seguiu por vários nomes e várias emissoras, mais recentemente na Rede Globo de Televisão.

Difícil dizer a trajetória de Chico em poucas linhas. Foi uma carreira muito rica, e muito produtiva. Até papéis não necessariamente cômicos ele fez, enquanto não havia um espaço para ele na programação humorística. Ele foi um grande mestre do humor, versátil na criação de seus personagens e na elaboração de textos humorísticos.

Um dos papéis que Chico interpretou nos últimos anos foi o de um candidato político, bem naquele estereótipo do velho demagogo, no episódio "Eleições" do seriado Cilada, do seu filho Bruno Mazzeo, que foi também colaborador de textos do pai. Um especial de fim de ano da Rede Globo foi lançado em 2011, Chico e Amigos, o último humorístico de sua carreira. E, nos últimos anos, ainda divulgava seus trabalhos como pintor.

Ele fará falta, mas sua lição permanece para as futuras gerações, sobretudo numa época em que o humorismo brasileiro está em crise e em processo de reavaliação.

domingo, 18 de março de 2012

MORRE O CANTOR DE RÁDIO JORGE GOULART



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A julgar pela memória curta, as notícias do falecimento do cantor Jorge Goulart são superficiais, diante da importância desse artista que, além de ter sido marido da notável Nora Ney (informação lamentavelmente ignorada por algumas fontes), era também um cantor e compositor peculiar.

Além do mais, ele era um dos reis do rádio brasileiro e participou de várias atividades e cantou até jingle para a campanha do marechal Henrique Lott para a presidência (mas não havia parentesco entre o cantor e o vice do militar, João Goulart), em 1960.

Diante dessa carência, preferi colocar três textos para dar uma noção mais detalhada sobre ele: duas diferentes notícias de sua morte e uma biografia do Dicionário Cravo Alvim de Música Popular Brasileira.

Morre aos 86 anos Jorge Goulart, compositor do sucesso "Cabeleira do Zezé"

Do Correio Braziliense

O cantor e compositor Jorge Goulart, um dos principais nomes da chamada "Era do Rádio", na década de 1950, foi enterrado na tarde de hoje, aos 86 anos. O enterro aconteceu no cemitério Jardim da Saudade, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Goulart estava internado no Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul do Rio, e morreu ontem vítima de uma parada cardiorrespiratória, segundo a assessoria de imprensa do hospital.

O cantor fez sucesso na Rádio Nacional ao lançar marchinhas de carnaval que até hoje são cantaroladas pela população. Entre elas está o hit “Cabeleira do Zezé”. Goulart ainda foi o primeiro intérprete do clássico “A voz do Morro”.

Jorge Goulart também foi puxador das escolas de samba Império Serrano, Imperatriz Leopoldinense e Unidos de Vila Isabel. Casou-se duas vezes e teve uma filha, origem do primeiro relacionamento.

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Morre cantor de rádio Jorge Goulart

Por Danilo Casaletti - Revista Época

Morreu neste sábado (17), no Rio de Janeiro, o cantor Jorge Goulart, voz de sucesso nos anos 50 e 60. Goulart tinha 86 anos e estava internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. A causa da morte, segundo o hospital, foi uma insuficiência respiratória.

Foi Goulart quem lançou uma das mais emblemáticas marchinhas de carnaval, “Cabeleira do Zezé (Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?). Além desse, colecionou outros tantos sucessos, como a também marchinha “Não faz marola” e o clássico “A voz do morro”. De acordo com informações do site Dicionário da MPB, de Ricardo Cravo Albin, Goulart lançou seu primeiro LP em 1945. Em 1952, o cantor ganhou o título de “Rei do rádio”.

O cantor foi casado com a companheira de profissão Nora Ney (1922-2003), conhecida como a rainha da fossa. Juntos, eles fizeram diversas gravações e shows. Em 1983, Jorge teve um câncer na garganta, o que fez com que ele ficasse impedido de cantar.

Sua última aparição na TV foi em 2010, no programa “História Sexual da MPB”, comandado pelo jornalista e pesquisador musical Rodrigo Faour no Canal Brasil. Àquela altura, muita gente pensava que o cantor nem fosse ainda vivo, o que mostra como o Brasil trata mal seus ídolos do passado.

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Jorge Goulart

Jorge Neves Bastos (16/01/1926 Rio de Janeiro, RJ - 17/03/2012 - Rio de Janeiro/RJ)

Uma das figuras mais importantes da música popular brasileira, por sua militância em divulgá-la no exterior e por seu incentivo aos compositores e sambistas das classes mais populares, que dificilmente conseguiam espaço na mídia para divulgarem seus sambas.

Começou sua carreira de cantor como crooner, em 1943, apresentando-se em casas noturnas do Rio de Janeiro, os famosos "dancings". Na época, costumava cantar principalmente composições de Custódio Mesquita, quando adotou o nome artístico de Jorge Goulart, sugerido pela então radialista Heloísa Helena, que tirou o sobrenome de um produto muito popular na época, o "elixir de inhame Goulart". Por ser ainda menor de idade, os músicos o ocultavam quando aparecia algum fiscal. Para divulgar as músicas de Custódio, compositor que utilizava desse artifício para ter suas composições conhecidas, recebia Cr$ 10,00 por dia. Começou a participar de programas noturnos na Rádio Tupi em 1943, por intermédio do cantor João Petra de Barros. Chegou a ter um programa semanal de 15 minutos, antes do encerramento das transmissões da rádio. O seu primeiro êxito foi "Xangô", de Ary Barroso e Fernando Lobo, com orquestração de Guerra-Peixe, que interpretou no programa de Ary e que lhe valeu um contrato exclusivo com a Rádio Tupi. Segundo o próprio cantor, esta música "lançou-me definitivamente no rádio brasileiro".

Em 1945, por influência de Custódio Mesquita que na ocasião era diretor da Victor, lançou seu primeiro disco cantando a valsa "A Volta" e o samba "Paciência, Coração", as duas de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, com acompanhamento de Benedito Lacerda e seu regional. O disco infelizmente não teve a repercussão esperada. Em 14 de março de 1945, estava escalado para gravar, por escolha do seu autor Custódio Mesquita, o samba-canção "Saia do caminho". Na véspera da gravação o compositor faleceu subitamente e a música, para infelicidade do então jovem iniciante, acabou sendo lançada por Aracy de Almeida. Ainda no mesmo ano, gravou outro disco, com o sambas "Nem tudo é possível", de Cícero Nunes e Aldo Cabral e "Feliz ilusão", de Castor Vargas e Aldo Cabral, que também não fez sucesso e acabou dispensado pela gravadora Victor.

Em 1946, participou do show organizado por Chianca Garcia, ‘Um Milhão de Mulheres’, que esteve em cartaz no Teatro Carlos Gomes por dois anos consecutivos. Com esse espetáculo excursionou depois a Porto Alegre, RS, onde teve de permanecer um tempo cantando em casas noturnas, justamente porque o empresário Chianca Garcia acabou indo à falência e teve que demitir todo o elenco do espetáculo. Nesse ano, atuou no filme "Segura esta mulher", de Watson Macedo contracenando com Grande Otelo, Aracy de Almeida, Emilinha Borba, Bob Nelson e outros.

Em 1948, ingressou na gravadora Star e lançou os sambas "Alfredo", de Buci Moreira e Haroldo torres e "Caso perdido", de Henrique de Almeida e Geraldo Gomes. Em seguida, gravou os sambas "Meu amor", de Valdemar de Abreu, o Dunga e "Fiquei louco", de Erasmo Silva e Ciro de Souza. Em 1949, gravou para as festas juninas a marcha "Noites de junho", de Lamartine Babo e o samba "São João", de Alcyr Pires Vermelho e Moreira da Silva. Ainda no mesmo ano, foi contratado pela gravadora Continental e gravou o samba "Miss Mangueira", de Antônio Almeida e Wilson Batista e a marcha "Balzaqueana", de Nássara e Wilson Batista, com acompanhamento de Severino Araújo e sua orquestra Tabajara, lançadas em janeiro do ano seguinte já com vistas ao carnaval. Essa última uma das mais cantadas do carnaval de 1950. Com o sucesso deste disco, foi convidado para trabalhar no cast da Rádio Nacional, lá permanecendo por 15 anos. Também em 1949, atuou no filme "Carnaval no fogo", de Watson Macedo.

Em 1950, gravou os sambas "São Paulo", de Haroldo Barbosa e Garoto e "No fim da estrada", de Wilson Batista e Nóbrega de Macedo. Gravou também as marchas dos clubes de futebol do América, do Madureira e do Bonsucesso, todas de Lamartine Babo. Nesse ano, atuou no filme "Aviso aos Navegantes", deWatson Macedo. Em 1951, lançou discos com as marchas "Sereia de Copacabana", um grande sucesso no carnaval, de Nássara e Wilson Batista, e "As grandes mulheres", de Roberto Martins e Roberto Roberti, com acompanhamento de Severino Araújo e Orquestra Tabajara e os sambas "Meu drama", de Wilson Batista e Ataulfo Alves e "Mexe mulher", e Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, com acompamento de Canhoto e seu regional. Nesse ano, foi um dos primeiros a interpretar em shows na noite do Rio de Janeiro o samba-canção "Vingança", de Lupicínio Rodrigues, o qual não pode gravar por motivos contratuais pois era contratado da gravadora Continental e Lupicínio Rodrigues, artista exclusivo da concorrente RCA Victor. Em 1952, obteve grande sucesso com o samba "Mundo de zinco", de Nássara e Wilsonn Batista, gravada em fins do ano anterior. No mesmo ano, gravou com o Trio Madrigal e o Trio Melodia a valsa "Dominó", de Jacques Plante, com versão de Paulo Tapajós, a marcha "Noites de junho", de Alberto Ribeiro e João de Barro e o samba-canção "Mané Fogueteiro", de João de Barro, com o qual fez bastante sucesso. Gravou também para o público infantil, com acompanhamento de Radamés Gnattali e sua orquestra os fox "Canção do gato", de G. Paul e Dan Ray, com versão de João de Barro e Vinícius de Moraes e "Alice no país das maravilhas", de S. Fain e Bob Hilliard, com versão de João de Barro. Ainda nesse ano, participou dos filmes "É fogo na roupa", de Watson Macedo e "Tudo azul", de Moacir Fenelon. No mesmo período, gravou na Todamérica as marchas "A mulher do diabo", de Antônio Almeida e "Salve a mulata", de Antônio Almeida e João de Barro.

Em 1953, lançou a marcha "O cinzeiro da Zazá" e o samba "História da favela", de Nássara e Wilson Batista com acompanhamento de Severino Araújo e seu conjunto. Gravou ainda, da dupla Haroldo Lobo e Milton de Oliveira a marcha "Na China" e o samba "Reza por nosso amor", com acompanhamento de Astor e seu conjunto, este último considerado um dos mais belos sambas do ano. Nesse ano, voltou a gravar com os trios Madrigal e Melodia registrando a fantasia "Festa canora", de Humberto Teixeira e a toada "Asa branca", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Gravou ainda o samba "Cais do porto", de Capiba, considerado um das obras-primas do compositor pernambucano. Em 1954, fez sucesso com o samba "Couro de gato", de Grande Otelo, Rubens Silva e Popó. Gravou também os sambas "Quem ainda não pecou", de Marino Pinto e Mário Rossi, "Dinheiro de pobre", de Rutinaldo e Norival Reis e "Fulana de tal" e "Minha amada dormiu", de Antônio Maria. Nesse mesmo ano, gravou com acompanhamento de Radamés Gnattali e sua orquestra os sambas "Maria das Dores", de Ary Barroso e "Graças a Deus ela não veio", de Alcyr Pires Vermelho e João de Barro.

Em 1955, gravou com Radamés Gnattali e sua orquestra os sambas "Ninguém tem pena", de Haroldo lobo e Milton de Oliveira e "Você não quer, nem eu", de Ataulfo Alves e com Astor e sua orquestra a marcha-rancho "Lenço branco", de Roberto Martins e Jair Amorim. Nesse ano, fez sucesso com o "Samba fantástico", de José Toledo, Jean Manzon, Leônidas Autuori e o poeta Paulo Mendes Campos. Gravou também o LP "Brasil em ritmo de samba", intrerpretando entre outros "Brasil moreno", de Ary Barroso e Luiz Peixoto, "Canta Brasil", de David Nasser e Alcyr Pires Vermelho, "Isso aqui o que é?" e "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso. Numa época em que a maioria dos sambistas de morro era vista com certa indiferença, destacou-se como um dos grandes divulgadores das músicas de sambistas de escolas de samba, como Zé Kéti, Candeia, Silas de Oliveira e Elton Medeiros. "Essa gente não tinha oportunidade no rádio e nos discos", declarou ele em entrevista. O primeiro desses sambas a lhe render grande sucesso foi "A voz o morro", de Zé Kéti gravado em 1955 com acompanhamento de Radamés Gnattali e sua orquestra. Em 1956, gravou os sambas "O samba não morreu", de Zé Kéti e Urgel de Castro, "O morro canta assim", de Norival Reis e José Batista e "Meu passado em Mangueira", de Raul Sampaio e Ivo Santos. Regravou no mesmo ano os sambas "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso e "Onde o céu azul é mais azul", de João de Barro, Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho.

Em 1957, gravou os sambas "Brasil", do maestro Lindolfo Gaya, "Mês de Maria", de Ary Barroso, "Sempre Mangueira", de Nássara, Wilson Batista e Jorge de Castro e "Descendo o morro", de Billy Blanco e Antônio Carlos Jobim e fez grande sucesso com o samba-canção "Laura", de João de Barro e Alcyr Pires Vermelho. Em 1958, gravou os sambas "Tudo é Brasil", de Vicente Paiva e Sá Roris e "Isso é Brasil", de José Maria de Abreu e Luiz Peixoto. No mesmo ano, passou a gravar na RCA Victor estreando com o samba "Ave Maria no Salgueiro", de Jorge Morais e Rufino Gonçalves e o samba-canção "Além do céu", de Sidney Morais e Edson Borges. Em seguida, gravou a valsa "Palhaço", de Ivon Curi e o samba-canção "Flor do lôdo", de Zé Kéti. Nesse ano, participou do filme "Rio 40 Graus", de Nélson Pereira dos Santos, no qual cantou o samba "A voz do morro". Ainda em 1958, foi agraciado com o troféu Microfone de Ouro instituído pela revista Radiolândia depois de escolhido por um júri de críticos especializados e representantes de agências de propaganda como o "Melhor cantor do ano" no Rádio. Na segunda metade dos anos 1950, junto com a companheira Nora Ney, esteve em diversos países do Leste europeu, fazendo shows, incentivado pela política do então presidente Juscelino Kubitschek de aproximação entre o Brasil e aqueles países da então ainda chamada "cortina de ferro". Na primeira viagem cultural ao Leste Europeu que organizou dirigiu um espetáculo com Paulo Moura, Conjunto Farroupilha, Dolores Duran, Nora Ney, Carmélia Alves e a soprano Maria Helena Raposo. Numa dessas excursões, divulgou a música brasileira na China e na URSS, onde chegou a participar de 10 documentários para a TV e 5 para o cinema, além de outros países da Europa Oriental. Esta aproximação com países socialistas seria motivo de muitas perseguições sofridas durante a ditadura militar instaurada no Brasil em 1964, especialmente a inclusão de seu nome na primeira relação de personalidades da Rádio Nacional, demitidas por serem acusadas de comunistas. A esse respeito declarou ao Pasquim 21: "Quando saiu o golpe, 36 colegas nossos foram parar no Dops. Agora, vou dizer meu ponto de vista. César de Alencar não nos traiu. Foi uma luta política que nós perdemos. A sacanagem foi feita com ele também, que perdeu sua nomeação. (...) E independente dessa história toda de César de Alencar, no nosso meio havia também dois espiões da CIA".

Em 1959, em seu terceiro disco na RCA Victor, lançou o samba "O último", de Wilson Batista e Jorge de Castro, que obteve razoável sucesso no carnaval, e a marcha "Vai tudo bem", de Antônio Almeida e José Batista. Ainda nesse ano, gravou o LP "Em tempo de samba", com, entre outras canções, "O samba não morreu", de Zé Kéti e Urgel de Castro e "O morro canta assim", de Norival Reis e José Batista. Ainda nesse ano, o jornal O Globo publicou nota com a seguinte notícia: "Jorge Goulart gravou "Trágica mentira", tema musical da novela homônima, de Ilza Silveira, transmitida pela TV Tupi. Em 1960, gravou na Continental as marchas "Pia cotovia", de João de Barro e "Fim do mundo", de Jorge de Castro, Wilson Batista e José Utrini. Nesse mesmo ano, lançou pela RCA Victor dois boleros de Antônio Almeida, "Feiticeira" e "Sonho cor de rosa". Gravou em janeiro do mesmo ano o samba "Brasília, capital da esperança", de Cid Magalhães e Ivo Santos alusiva à nova capital brasileira que seria inaugura três meses depois. Logo depois gravou mais um samba de Zé Kéti, "Não sou feliz", parceria com Nelson Luiz. Em 1961, voltou para a gravadora Continental e lançou o tango "Tu vais passar", de Britinho e Fernando César, o samba "Atualidades francesas", de Nonato Buzar e as marchas "Foguete à lua", de Antônio Almeida e Nilo Barbosa, registrando a crescente corrida espacial entre estados Unidos e União Soviética e "Linda cubana", de Wilson Batista e Jorge de Castro, que também aludia a outra situação mundial bastante presente naqueles anos, a socialista ilha de Cuba, de Fidel Castro e Che Guevara.

Em 1962, gravou as marchas "Greve das mulheres" e "Entra pelo cano", as duas de Haroldo Lobo, Silvino Neto e Milton de Oliveira. Nesse ano, gravou duas composições de Silvino Neto, o tango "Lágrimas de amor" e o bolero "Pergunte ao coração". Em 1963, gravou na Copacabana a balada "O prisioneiro", e Elmer Bernstein e Mack David, com versão de Fred Jorge e a famosíssima marcha-rancho "Marcha da quarta-feira de cinzas", de Vinícius de Moraes e Carlos Lira, a qual foi o primeiro a gravar. No mesmo ano, gravou na Mocambo de Pernambuco os sambas "Deus lhe dê em dobro", de Bastos Neves e Jorge de Castro e "Promessa", de Jujuba e Castrinho.e as marchas-rancho "Noites de gala", de Alcyr Pires Vermelho e Lamartine Babo e "Carnaval azul", de Jota Júnior. Em 1964, gravou as marchas "Na mulher não se bate", de Brasinha e David Raw e "A cabeleira do Zezé", de Roberto Faissal e João Roberto Kelly, sucesso absoluto do carnaval do ano do golpe militar e que se tornaria um clássico do carnaval carioca.

Em 1965, obteve outro grande sucesso carnavalesco com a marcha "Joga a Chave, Meu Amor", de João Roberto Kelly e J. Rui. Por essa época cantou o samba-enredo "O último baile da monarquia", de Silas de Oliveira. Segundo o cantor, "Silas fez um samba-enredo chamado "Último baile da monarquia", contando em cinco partes o final do Império com o baile da Ilha Fiscal. Era um samba difícil de cantar, a terceira parte era muito alta, daí o Silas mandou me chamar. Era a primeira vez que um cantor de Rádio puxou uma Escola de Samba." Em 1971, realizou com sua companheira Nora Ney uma temporada na boate Feitiço da Vila, em Belo Horizonte, MG. Em 1974, fez o show "Brazillian Follies", no teatro do Hotel Nacional do Rio de Janeiro. Em 1977, lançou com Nora Ney o LP "Jubileu de prata" no qual interpretou "Alô pandeiro (Não é economia)", de Haroldo Lobo e Wilson Batista, "A timidez me devora", de Walter Rosa e Jorginho, "Os cinco bailes da história do Rio", de Ivone Lara, Bacalhau e Silas de Oliveira, "Fim de semana em Paquetá", de Alberto Ribeiro e João de Barro, e "Divina dama", de Cartola, além de cantar em dueto com Nora Ney a cançao "Provei", de Vadico e Noel Rosa. Em 1979 fez um show no Projeto Seis e Meia, da Sala Funarte, também no Rio, intitulado "Casal Vinte", ao lado de Nora Ney e onde ambos falavam de sua vida em comum, com roteiro e direção de Ricardo Cravo Albin. O espetáculo obteve grande sucesso, a ponto de ser prorrogado na Sala Sidney Miller, a pedido do público.

Em 1980, esteve à frente, junto com Nora, do show em homenagem a Lupicínio Rodrigues, "Roteiro de um boêmio", ainda realizado na Sala Funarte. Em 1981, também na Sala Funarte, participou do espetáculo "Oh! As marchinhas", também escrito e dirigido por Ricardo Cravo Albin, onde atuou ao lado de Emilinha Borba. O show rendeu um LP com o mesmo título lançado pela Phonodisc com clássicos do gênero como "As pastorinhas", de João de Barro e Noel Rosa, "História do Brasil", de Lamartine Babo, "Chiquita bacana", de Alberto Ribeiro e João de Barro, "O teu cabelo não nega", de Irmãos Valença e Lamartine Babo e "Pirata da perna de pau", de João de Barro e que seria seu último disco devido ao problema na garganta. Em 1982, realizou um show em comemoração aos 30 anos de casamento com Nora Ney, intitulado "De coração a coração", no Teatro Gonzaga, em Marechal Hermes, RJ.

No ano de 2000, participou da homenagem prestada a Nora Ney (em cadeira de rodas) no Canecão, Rio de Janeiro por Elymar Santos, quando foi ovacionada pelo público no momento em que dublou (em mímica) a gravação de seu sucesso "Laura", de João de Barro e Alcir Pires Vermelho. Nesse ano, o selo Revivendo lançou o CD "Amor, meu grande amor - Nora Ney e Jorge Goulart", com músicas dos dois. Em 2003, participou do espetáculo "Canto para Nora Ney", apresentao pelas Cantoras do Rádio com roteiro, direção e apresentação em cena de R. C. Albin contando histórias dos bastidores do Ráio brasileiro. Em janeiro de 2004, o jornal O Pasquim 21 publicou entrevista sua na qual contou detalhes de sua vida e carreira. Em 2009, foi homenageado por ocasião dos seus 83 anos de nascimento com um show realizado no Fluminense Futebol Clube e que contou com as presenças da o grupo Cantoras do Rádio formado por Carmélia Alves, Ademilde Fonseca, Carminha Mascarenhas e Ellen de Lima, além das cantoras Eymar Fonseca e Mariúza.

quinta-feira, 8 de março de 2012

A LIÇÃO DE DESPRETENSÃO DOS MONKEES



Por Alexandre Figueiredo

No Brasil, muita gente procura algum "cantor de protesto" por trás dos anódinos cantores bregas, às custas de muita pieguice e muita choradeira, como se a simples rejeição da intelectualidade especializada (e não-etnocêntrica, preocupada com a mediocridade cultural tal qual os educadores em relação ao analfabetismo) fosse uma "bandeira de luta" dos ídolos cafonas.

No exterior, porém, a história é outra. Mesmo ídolos mais comerciais, como Pat Boone e Ricky Nelson, quanto ídolos musicalmente mais "pueris", como Chubby Checker e os Monkees - que no último dia 29 de fevereiro havia perdido seu vocalista, Davy Jones, morto aos 66 anos por ataque cardíaco - , nunca se atreveram ao pretensiosismo mais preciosista, nem a serem associados a um ativismo político que não lhes interessava.

Os Monkees, aliás, eram até de fato injustiçados. Seguindo um filão juvenil do qual outro símbolo maior (e, igualmente, "saco de pancadas") , eram os fictícios Archies, os Monkees surgiram como comediantes que parodiavam os Beatles através de um divertido seriado lançado pela rede estadunidense NBC e que levava o nome do grupo.

Os membros Davy Jones, Mickey Dolenz, Peter Tork e Michael Nesmith eram também músicos, de fato, e com expressivo talento, mas nos primeiros discos eram proibidos pelo seu empresário de gravarem suas colaborações instrumentais, se limitando a cantar acompanhados de outros músicos.

Suas músicas não tinham a sofisticação melódica que envolvia os grupos psicodélicos de então, e mesmo os Beatles haviam se evoluído, com uma ajuda indireta dos outrora "pueris" Beach Boys (que haviam lançado o impactuante Pet Sounds), para um som mais refinado.

Mesmo assim, havia boas melodias nas músicas dos Monkees, dentro de uma roupagem de rock da safra 1964-1965 que, se não oferecia grande poesia, pelo menos trazia melodias assobiáveis e vibrantes.

O grupo era o que, recentemente, se vê no fenômeno Jonas Brothers. Mesmo nas suas limitações de pop comercial, havia competência, talento e boas ideias, sem a pretensão de querer mudar o mundo e se passar por "coitado" ou por "provocador da moral elitista".

Certamente, se compararmos os Monkees, por exemplo, a grupos como Strawberry Alarm Clock, Byrds e Jimi Hendrix Experience, ou então os Doors do poeta Jim Morrison, o grupo de Davy Jones fica muito a dever. Mas, dentro de sua proposta, o grupo que deu aos fãs sucessos como "I'm a Believer" e "Last Train to Clarksville" até fez simpáticos álbuns psicodélicos, como Pisces, Aquarius, Capricorn & Jones Ltd. (1967), The Birds, The Bees & the Monkees (1968) e Head (1968), que podem não terem a força das bandas de garagem de então, mas mostravam bons arranjos e boa estética do gênero.

No fim, até os Beatles se mostraram simpáticos aos Monkees. George Harrison, com seu "coração de mãe" - na sua carreira-solo, o saudoso ex-beatle era famoso por chamar muitos músicos convidados - , até convidou um dos Monkees, Peter Tork, para tocar no disco Wonderwall Music (a estreia solo do autor de "Taxman" e "Something"), de 1968, usando um banjo que pegou "emprestado" de Paul McCartney.

Portanto, os Monkees dão uma excelente lição de despretensão. Eles nunca foram marcados pela arrogância e nem pela falsa modéstia. Não queriam ser os pretensos salvadores da música mundial. Nem a Contracultura da época foi usada como pretexto para eles.

Pelo contrário, até o fim eles atuaram com um mínimo de humildade possível, fazendo aquilo que sabiam e puderam fazer. Deixaram marca dentro de sua proposta como uma banda de rock bubblegum e como talentosos comediantes de seu seriado e seus longas.

Os Monkees, assim, são uma boa lição de despretensão que existe nos EUA, em que os nomes pop dos anos 60 não se passavam por "artistas de protesto" nem como usurpadores dos louros da Contracultura.

E essa lição serve muito bem para o Brasil, onde até os ídolos menores da Jovem Guarda e os ídolos da música brega são vistos como "artistas de protesto" e superestimados como "coitadinhos" que "revolucionaram" (sic) a cultura popular brasileira.