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A LEMBRANÇA DE ELIS REGINA



Por Alexandre Figueiredo

Há 30 anos, Elis Regina faleceu, por causa de uma combinação excessiva de cocaína e bebida alcoólica, cerca de dois meses antes de completar 37 anos, que teria sido em 17 de março. Elis tinha pouco mais de 20 anos de carreira musical e seu reconhecimento público era coisa de pouco mais de 15 anos.

Gaúcha da capital, Porto Alegre, Elis já se apresentou, criança, na Rádio Farroupilha, integrando o elenco do programa Clube do Guri, da Rádio Farroupilha, na segunda metade da década de 1950.

Sua carreira musical, no entanto, começaria oficialmente em 1960, quando passou a viajar para o Rio de Janeiro. Na ponte aérea Rio-Porto Alegre, Elis gravou, em 1961, com apenas 16 anos, o primeiro disco, Viva a Brotolândia, mais próximo do som adolescente que se fazia na época e cujo símbolo maior foi Cely Campello.

Mas Elis não tardou a conhecer a Bossa Nova, por um lado, e a MPB cepecista - influenciada pelo engajamento sócio-político e pela cultura de raiz difundidos dos Centros Populares de Cultura da UNE - por outro. A Bossa Nova ela conheceu quando foi levada pelo baterista Dom Um Romão para conhecer o Beco das Garrafas, um dos redutos do gênero em Copacabana, Rio de Janeiro. É apresentado ao coreógrafo norte-americano Lennie Dale, que a ensina lições de performance no palco, que depois se tornariam célebres.

Nesse tempo, Elis ingressa na televisão como participante do programa Noite de Gala, da TV Rio. Com Jair Rodrigues, apresentou, entre 1965 e 1967, o programa Fino da Bossa, cuja linha musical traçou as caraterísticas do que hoje conhecemos como a Música Popular Brasileira, ou simplesmente MPB.

Em 1965, revela-se em sua performance através da apresentação de "Arrastão", música de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, no Festival de Música Popular Brasileira. A partir daí, torna-se uma cantora destacada e prestigiada, uma reputação que continua valendo até os dias de hoje, décadas depois de falecida.

Em 1967, casa-se com o jornalista e letrista de Bossa Nova, Ronaldo Bôscoli, e em 17 de junho de 1968 nasce o filho João Marcelo Bôscoli, hoje músico, produtor e empresário fonográfico (é sócio da Trama Discos). O casamento dura até 1972, quando ocorre o divórcio. Em 1974, Elis inicia seu segundo casamento, com César Camargo Mariano (que tocava com Wilson Simonal), gerando o filho Pedro Mariano, hoje cantor, em 18 de abril de 1975. Em 09 de setembro de 1977, era a vez da caçula Maria Rita Mariano, hoje cantora, nascer. Elis e César se separaram em 1981.

Elis fez, com suas interpretações, vários compositores se tornarem famosos, como João Bosco e Aldir Blanc e Belchior. Deste, a cantora tornou célebre a composição "Como Nossos Pais", num arranjo levemente inspirado em blues, e cuja letra falava da geração juvenil dos anos 60.

Elis também gravou "Se Eu Quiser Falar Com Deus", de Gilberto Gil, artista baiano tão fascinado pela cantora gaúcha que, amante entusiasmado das guitarras elétricas, o tropicalista no entanto participou da passeata contra a guitarra, em São Paulo, em 1967, só para tentar agradá-la. Outro compositor que teve composições consagradar por Elis foi Milton Nascimento, sobretudo por "Maria, Maria" e "Canção da América".

Elis também foi conhecida pelos duetos históricos com Tom Jobim, através de "Águas de Março", em 1973, e do LP Elis & Tom, de 1974 (que contem uma regravação da citada música do famoso maestro da Bossa Nova). Também se entrosou com o samba paulistano de Adoniran Barbosa, gravando "Tiro ao Álvaro", em 1980.

É nesse ano que Elis gravou participação no especial Mulher 80, ao lado de outras cantoras da Música Popular Brasileira. Elis parecia ter um grande futuro pela frente, gravou "Aprendendo a Jogar", do cantor e tecladista Guilherme Arantes, com quem teve um breve romance, e seu último sucesso, "Alô Alô Marciano", de Rita Lee e Roberto de Carvalho. Em 1981, Elis iniciava uma grande amizade com a ex-mutante.

Tudo parecia promissor, mas Elis acabou falecendo de overdose de cocaína misturada com álcool, em 19 de janeiro de 1982, interrompendo uma carreira respeitável. A cantora deixou uma grande lacuna, por conta de seu estilo de cantar, agir no palco e na seleção de compositores e composições que adotava para seu repertório.

Mas os frutos de sua breve trajetória, de uma forma ou de outra, renderam. O envolvimento de Elis com Jair Rodrigues e César Camargo Mariano, que por sua vez era ligado a Wilson Simonal, refletiu no círculo social de seus filhos, já que João Marcelo, Pedro Mariano e Maria Rita são muito amigos de Wilson Simoninha e Max de Castro (filhos de Simonal) e Jairzinho Oliveira e Luciana Mello, filhos de Jair Rodrigues. Jair e César continuam até hoje em atividade.

Comparada a Elis Regina, Maria Rita Mariano, que só conviveu pouco tempo com a mãe, no entanto tem fortes influências dela. Evidentemente, Maria Rita possui estilo próprio, mas em muitos aspectos ela atualiza os referenciais culturais da mãe, gravando até mesmo músicas de autores que Elis havia gravado, como Rita Lee e Milton Nascimento (este também um grande amigo da cantora gaúcha). Maria Rita prepara um tributo para a mãe, este ano.

Num tempo de mediocridade cultural, em que a MPB autêntica é esnobada por críticos e intelectuais que preferem exaltar a música brega-popularesca que lota plateias com facilidade, é uma sorte que Elis Regina tenha se livrado do fardo do esquecimento, num país de memória curta.

Diante da mesmice de cantoras "ecléticas" da MPB de hoje ou de cantoras popularescas - sobretudo as de axé-music, que se apropriam de qualquer estilo de forma pedante e pretensiosa, sem conhecimento de causa - , a lição de Elis e de sua breve, mas rica e produtiva carreira, vem à tona para as novas gerações.

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