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TRAGÉDIA DE CIRCO EM NITERÓI É CONTADA EM LIVRO



Por Alexandre Figueiredo

A tragédia que havia comovido o mundo naquele final de 1961 transformou em trevas a "primavera" social que o ano parecia anunciar. O ano que havíamos esquecido e que a redemocratização não o fez recuperar em todo na memória é revelado aos poucos em raros livros, como o 1961 de Paulo Markun e Duda Hamilton (relançado este ano, com algumas reformulações no texto) e este livro, O Espetáculo Mais Triste da Terra, de Mauro Ventura.

1961 também teve suas tragédias. Uma equipe inteira de patinação dos EUA havia morrido em um acidente com um avião de passageiros e havia cancelado a edição de um torneio de patinação naquele ano. A bela e jovem atriz inglesa Belinda Lee, que havia aparecido num pequeno papel em A Doce Vida de Federico Fellini (1960), faleceu em um acidente de carro. O crítico literário Brito Broca morreu atropelado por um ônibus no Rio de Janeiro e o humorista Péricles Maranhão, criador do Amigo da Onça, se matou inalando gás de cozinha, magoado com as gozações que recebia do personagem.

Outra tragédia também estava ligada a Niterói, com a morte, por queimaduras causadas pela explosão de um helicóptero durante um acidente em Petrópolis, do governador do Estado do Rio de Janeiro, Roberto Silveira - pai do atual prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, que, criança, estava com a família numa casa de férias, na ocasião - e o jornalista do Diário Carioca, Luís Paulistano, que então trabalhava para o governo fluminense.

Mas nenhuma dessas tragédias comoveu tanto quanto a que matou centenas de pessoas - o número é controverso, entre 300 e 500, 323 para certas fontes, 490 ou 499 para outras - quanto a do Gran Circo Norte-Americano, que então exibia seu espetáculo no bairro de São Lourenço, em Niterói, na área da Praça Dez de Novembro, próxima à Avenida Feliciano Sodré.

Mauro Ventura passou dois anos pesquisando sobre o livro, entrevistando remanescentes (inclusive o cirurgião Ivo Pitanguy, que participou do atendimento às vítimas e parentes de gente que já faleceu, como o empresário José Datrino que abriu mão de sua prosperidade sócio-econômica para prestar assistência às vítimas, transformando-se no Profeta Gentileza.

Ventura não se preocupa em trazer uma versão definitiva do episódio, embora não quisesse também deixar as informações "em aberto", preferindo mostrar as mais diversas informações a respeito da ocorrência, no esforço de trazer à memória os detalhes sobre o terrível acontecimento do incêndio que queimou o Gran Circo Norte-Americano, causando centenas de mortos e feridos.

Isso porque, segundo o jornalista, as informações sobre o que causou a tragédia e o número total de mortos são controversas. Oficialmente, a versão é que o incêndio tenha sido criminoso, causado por um ex-funcionário do circo conhecido como Dequinha, depois que, demitido pela família Stevanovitch, discutiu com outro funcionário.

Ele e outros comparsas, conhecidos como Bigode e Pardal, haviam se vingado com um plano de incendiar o circo no espetáculo do dia 17 de dezembro de 1961. As investigações policiais chegaram ao trio criminoso, que foi detido. Em 1973, Dequinha, depois de fugir da prisão, teria sido morto numa troca de tiros.

Mas mesmo a hipótese de um simples acidente, juntando o curto-circuito com a lona inflamável, foi analisada pelo escritor. E o número controverso de mortos poderia também ter sido maior, já que muitos morreram quando levados aos hospitais de suas cidades, além de muitos corpos carbonizados e de muita gente pisoteada na confusão. Até hoje, há até mesmo o relato de uma menina de cerca de oito anos que até hoje nunca foi encontrada.

Niterói ficou 14 anos sem ter um circo no local. E até hoje o espetáculo choca pelo fato de que em 1961 ainda havia uma relativa inocência, apesar da criminalidade estar crescendo. Afinal, em 1960 já houve a "fera da Penha" que, por uma bobagem amorosa, assassinou uma criança, e passear na Av. Beira-Mar à noite já era bastante perigoso. Mas nada que se compare à insegurança de tempos mais recentes.

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