quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS



Por Alexandre Figueiredo

A história do Brasil sofreu tantos descaminhos que a gente imagina o que seria do país se certos episódios não tivessem ocorrido.

Até a eleição de Jânio Quadros, em 1960, houve tentativas de arranjar uma sucessão mais tranquila para Juscelino Kubitschek que, apesar da grande popularidade, era constantemente incomodado pela oposição por conta das dívidas que JK causou com a construção de Brasília.

Talvez Juscelino fosse um excelente estrategista político. A princípio desistiu da candidatura do marechal Henrique Lott - o mesmo que garantiu a posse de JK em 1955 - para apoiar a candidatura do udenista Juracy Magalhães, não por amores à UDN, mas como forma de entregar o poder à oposição que, com um governo impopular, abriria depois o caminho para JK vencer as eleições de 1965.

Mas a alternativa de Henrique Lott parecia também mais palatável. Lott era legalista e de vocação nacionalista, mas seu governo talvez não sofresse violenta oposição. A oposição seria forte, na medida em que Lott prometia priorizar a educação pública, mas seria difícil algum golpismo com um militar legalista no comando, governando com a Constituição (de 1946, que vigorava então).

Um governo conservador como o de Juracy Magalhães seria menos agradável, mas causaria um descontentamento diferente do que teve Jânio Quadros. Seria um governo "careta", com muitos retrocessos, mas certamente a UDN, saboreando o poder, talvez perdesse a fúria que sempre a acompanhava nos momentos de oposição política.

Jânio Quadros parecia uma figura simpática do professor que era. Dizem que foi bom prefeito paulistano e bom governador paulista. Mas a Presidência da República pareceu muito para ele, e ele tentou ser conciliador à sua maneira, fazendo uma política interna de direita, mas uma política externa de centro-esquerda.

A oposição ficou maluca. Carlos Lacerda, que apoiou Jânio em sua campanha presidencial, foi ver o presidente para pedi-lo explicações sobre sua postura "esquerdista" na política externa e a instabilidade do governo dentro do país, enquanto pretendia também solicitá-lo a ajudar financeiramente a Tribuna da Imprensa, o jornal do governador da Guanabara, que, sabemos, foi um grande jornalista. Conservador e reacionário, mas que escrevia e falava muito bem.

Mas Jânio queria ficar com uma amante, e mandou Lacerda embora para falar com o ministro da Justiça Oscar Pedroso Horta. Lacerda ficou furioso. Achou que foi traído e foi para a televisão dizer que Jânio Quadros pretendia fazer um golpe. Sabe-se que Jânio, como governador paulista, havia apoiado Lacerda naquele golpe de 1955 para impedir a posse de Juscelino, e que tinha o pouco iluminado Carlos Luz, o presidente interino, como um dos artífices. O mesmo golpe desfeito pelo contragolpe do general Lott.

Pois tivemos o governo de Jânio Quadros, dotado de um estranho populismo conservador e moralista, os bilhetinhos etc. E aí Jânio renuncia em sete meses de mandato e Jango prorrogando a estadia no exterior para que o clima esfriasse, porque a oposição não queria sua posse e os ministros militares ameaçavam prendê-lo se chegasse ao país.

Tivemos a crise política de 1961. Tivemos a opção de um parlamentarismo vesgo só para tentar "domar" Jango. E aí tem o plebiscito que aprovou a volta do presidencialismo, mas Jango só irritou a direita com as reformas de base que a classe média não estava preparada para enfrentar (ainda não existia os pseudo-esquerdistas na época; Eugênio Raggi, anti-socialista e anti-varguista, teria sido um udenista assumido), e ainda havia a Guerra Fria no exterior, com reflexos no Brasil.

Aí foi turbulência atrás de turbulência (que, não esqueçamos, veio desde o segundo governo de Getúlio Vargas), até vir o golpe militar que fez atrasar o país.

Daí que até agora estamos reconstruindo o país e retomando o rumo que quase perdemos em 1961 e que perdemos em 1964.

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