segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

HÁ 50 ANOS, JÂNIO QUADROS TOMOU POSSE



Por Alexandre Figueiredo

No dia 31 de janeiro de 1961, Jânio da Silva Quadros se tornou presidente da República. O Brasil havia saído da ressaca da Era Kubitschek, que a História registrou, com natural otimismo mas com um certo exagero, como o período dos Anos Dourados.

Sem dúvida alguma, havia muito ânimo do país avançar, com o projeto "50 anos em 5" de Juscelino Kubitschek, presidente que quase teve o mandato perdido por um golpe defendido pela UDN, naqueles idos de 1955, quando Juscelino e seu vice, João Goulart, foram eleitos para assumir o Executivo federal.

Naqueles tempos - como em 1960 na eleição que deu vitória a Jânio - havia eleição em separado para vice-presidente, e Jango era hostilizado pela direita brasileira, daí a tentativa de golpe para banir a posse da chapa vitoriosa, a do PSD-PTB. Mas um contragolpe, movido pelo general Henrique Teixeira Lott, que destituiu o presidente interino, Carlos Luz (presidente da Câmara dos Deputados, que havia sucedido Café Filho, por sua vez presidente titular depois que Getúlio Vargas morreu, em 1954, mas que retirou-se do mandato para tratamento de doença) e nomeou o presidente do Congresso Nacional, senador Nereu Ramos, para o cargo de presidente interino, havia garantido a posse de JK e seu vice, em 1956, portanto, há 55 anos.

Juscelino fez seu governo com ênfase na industrialização, na substituição de importados, na construção de estradas e, acima de tudo, na construção da nova capital do país, Brasília, fruto de uma promessa inusitada num comício em Jataí (GO), quando o jovem Toniquinho da Farmácia, lembrando-se da Constituição de 1946, perguntou se JK cumpriria o dispositivo que indicava a mudança de capital do Brasil do Rio de Janeiro para o Planalto Central, reivindicação que havia desde o século XVIII, ainda no tempo colonial.

O governo de JK representou uma esperança grande para os brasileiros. Havia um clima de debates públicos em torno de um projeto para o Brasil, a música brasileira viva tanto a novidade da Bossa Nova quanto a revalorização das músicas de raiz (samba, baião etc), e discussões nas universidades e cineclubes deram origem a iniciativas como o Cinema Novo, os Centros Populares de Cultura, o Método Paulo Freire de alfabetização para adultos, etc. A Casa Canadá transformou a moda feminina no país, servindo até mesmo à primeira-dama Sarah Kubitschek. E a seleção brasileira de futebol tornou-se pela primeira vez campeã mundial, em 1958.

O senão de Juscelino Kubitschek talvez tenha sido, segundo dizem, o consentimento à corrupção política para burlar a burocracia e acelerar a finalização das obras em Brasília. Além disso, o estímulo aos investimentos estrangeiros fez aumentar o poder de pressão das empresas multinacionais, de forma mais intensa do que 1942, quando a Política da Boa Vizinhança do então presidente estadunidense Franklin Roosevelt fez introduzirem-se filiais brasileiras de empresas dos EUA (como a Coca Cola).

A oposição política pressionou para que a Era JK não tivesse continuidade. Isso encontrou ainda mais um estímulo. O possível indicado para suceder Juscelino dentro de sua chapa, o então independente general Teixeira Lott (de vocação nacionalista, mas que havia apoiado o udenista Juarez Távora nas campanhas de 1955), que depois do contragolpe tornou-se ministro da Guerra (pasta correspondente ao atual Ministério da Defesa) de JK, não tinha carisma suficiente para ganhar as eleições.

Lott tinha uma vocação democrática, legalista, e fazia defesa de políticas nacionalistas e era um grande defensor do ensino público. No entanto, seu jeito discreto, aparentemente sisudo, impediu que ele tivesse carisma suficiente para ganhar a campanha eleitoral de 1960.

Por outro lado, um político esquisito, sem vinculação partidária, que parecia um primo perdido do comediante Groucho Marx e era inclinado a um discurso rebuscado e ideias ao mesmo tempo populistas e conservadoras, que havia sido bem sucedido como governador de São Paulo.

O matogrossense (hoje seria sul-matogrossense) Jânio da Silva Quadros tornou-se eleito porque sua campanha tinha um quê de espetáculo. Suas ideias eram confusas, mas ele tinha um discurso envolvente e um forte apelo popular.

O que tornou a situação ainda mais confusa é que, com as votações em separado de presidente e vice-presidente, a chapa de Henrique Lott, se não conseguiu eleger seu titular, conseguiu dar vitória ao vice, o mesmo Jango da chapa de JK, derrotando o jurista Milton Campos da chapa janista.

Consta-se que havia setores do empresariado paulista que estimularam essa vitória fatiada entre as duas chapas, através da criação dos comitês Jan-Jan (Jânio-Jango). E, na cerimônia de posse, a primeira posse presidencial realizada na República, estavam Jânio Quadros, João Goulart e Juscelino Kubitschek. Tudo na mais santa paz. Mas, logo no dia seguinte, Jânio já disparava contra JK, acusando-o de corrupto.

Diante desse quadro doido, Jânio Quadros mostraria-se um político instável, às vezes de grandes decisões, noutras de tolas frescuras, que na política interna era radicalmente conservador, mas na política externa chegava a ser receptivo aos regimes socialistas, tendo colocado um quadro do presidente da então Iugoslávia Jozip Broz Tito.

A gente fica indagando se não teria sido melhor para o país que Henrique Lott tivesse vencido, porque com ele, talvez, o Brasil não teria perdido a cabeça e mergulhado num longo período de atraso político e social.

Evitou-se que um militar de vocação democrática se tornasse presidente da República, mas a História provou que militares sem qualquer inclinação para o interesse do povo governassem o país por muito tempo.

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