segunda-feira, 25 de outubro de 2010

35 ANOS SEM VLADIMIR HERZOG



Por Alexandre Figueiredo

Em 1975, eu era um menino de quatro anos. Ficava nos meus brinquedinhos em casa, no Barreto, em Niterói, e via muitos desenhos animados, além de expressar minha já surpreendente busologia, porque já começava a entender de transporte coletivo nessa época.

O Brasil em que eu vivia não parecia perigoso, mas era, e muito. Afinal, o temível quinto ato institucional da ditadura militar (o AI-5) vigorava com energia, tendo permitido os órgãos de tortura a "fazer a limpa" em boa parte da guerrilha, até então. E, naquele 25 de outubro, um fato ocorreu que eu, obviamente, só tomaria conhecimento a partir do fim dos anos 80, já perto de meus 18 anos.

Sim, não se podia ficar informado do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo. A censura pegava pesado. Circulou uma versão de que ele havia se suicidado dentro de sua cela no DOI-CODI. Uma versão vagabunda, cínica, inverossímil, e mesmo a "pose" de Herzog era muito grotesca para ser considerada um suicídio. E o contexto político permitia muito menos a veracidade dessa tese, por mais que a "Revolução" a tomasse como verdadeira.

Curiosamente, Vladimir nasceu Vlado. Vlado não era apelido, era nome de batismo mesmo. O apelido Vladimir veio porque ele achava que Vlado soaria exótico no Brasil. Nascido em junho de 1937, viveu apenas 38 anos. Para se ter uma ideia, hoje em tenho 39. Vlado nasceu na atual Croácia (então parte da Iugoslávia), mas naturalizou-se brasileiro. Certamente, muito mais brasileiro que tantos brasileiros natos adeptos do neoliberalismo. E bem mais patriota brasileiro do que os torturadores que o mataram na prisão do DOI-CODI.

Vlado foi comunista assumido, ligado ao "partidão", o Partido Comunista Brasileiro. Exerceu o jornalismo em vários veículos de imprensa, sobretudo em O Estado de São Paulo. Mas sua atuação foi autônoma, não se compactou com o golpismo da grande imprensa, que protestava contra a censura militar não por ser contra o ato em si, mas porque seu processo atrasava a veiculação dos jornais e "esfriava" seu conteúdo. A essas alturas, a Folha de São Paulo, hoje tão "moderna", fornecia suas viaturas para os "gorilas" do DOI-CODI transportarem prisioneiros políticos.

Herzog também teve uma passagem em Londres, trabalhando para a BBC (numa atividade que, hoje, corresponderia à BBC Brasil, afiliada da rede britânica). Foi dramaturgo, era apaixonado por fotografia, ensinou na Escola de Comunicação e Artes da USP e era um intelectual engajado.

Sua luta pela resistência à ditadura militar incomodou o governo. Detido pelos militares do DOI-CODI, provavelmente Herzog não baixava a cabeça. Talvez por isso os torturadores fizeram questão de enforcá-lo, vendo que não estavam lidando com alguém submisso nem resignado.

Herzog queria justiça, queria um Brasil mais livre, como muitos cidadãos brasileiros de então. Era um dos jornalistas como poucos, e que certamente não existem na elite midiática de hoje. Era um jornalista humanista, progressista, de uma grandiosa geração com cara e coragem que constituiu a imprensa esquerdista, às vezes trabalhando até nos veículos da imprensa direitista, mas dentro de uma autonomia que seus editores eram obrigados a tolerar.

A morte de Vlado foi horrível, mas gerou um ponto bem positivo. Mostrou que os órgãos de tortura da ditadura militar, protegidos pelo AI-5 e usados para reprimir e eliminar opositores do "governo revolucionário" (como a ditadura era conhecida então), também expressavam a mesma ameaça de insubordinação militar e quebra de hierarquia que os sargentos revoltosos da época de João Goulart representaram nos idos de 1964.

Com isso, os órgãos de tortura passaram a ser vistos como um perigo para o próprio regime militar, pelo abuso de poder com que exerciam suas atividades. E criou clima de conflito até entre os próprios generais, sobretudo com Sílvio Frota, de linha dura e apoiado pelos torturadores. Havia, nessa época, nos bastidores das Forças Armadas, a ameaça de Frota um dia ser indicado presidente da República e transformar o Brasil num caos.

No ano seguinte, Manuel Fiel Filho foi morto pelos torturadores, agravando ainda mais a situação no lado da repressão. Foi o complemento da repercussão do caso Herzog, aumentando a crise ditatorial que já acontecia pelo colapso econômico que era reflexo da crise internacional do petróleo, no Oriente Médio.

Daí que a morte de Vladimir Herzog foi um dos primeiros fatores que levaram à decadência da ditadura militar, que se anunciava eterna, mas que se desgastou ao longo dos anos, se extinguindo em 1985.

Ainda sofremos os efeitos devastadores causados pela ditadura militar, mas vivemos um cenário sócio-político bem mais saudável. E podemos nos relembrar de Vladimir Herzog sem medo, falando de seu exemplo humano e sua dedicação sem que qualquer força venha nos reprimir por isso. Daí Herzog ser considerado um dos exemplos, um dos grandes nomes respeitados e venerados por aqueles que lutaram pela redemocraticação do país.

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