segunda-feira, 10 de maio de 2010

O VOO SONORO DOS BYRDS



O conjunto The Byrds é um dos mais expressivos personagens do psicodelismo norte-americano, sendo uma das mais importantes bandas a servirem de trilha sonora da Contracultura dos anos 60.

Surgido em 1964, a formação original do grupo era composta pelo fundador e único integrante de toda sua trajetória, o cantor e guitarrista Roger McGuinn (então conhecido como Jim McGuinn), os outros guitarristas-cantores David Crosby e Gene Clark, o baixista Chris Hillman e o baterista Mike Clarke. Essa formação gravou o primeiro álbum, em 1965, chamado Mr. Tambourine Man, cuja faixa-título, de autoria de Bob Dylan, foi cantada parcialmente, não se sabe por quê. Em todo caso, McGuinn desfez a dívida na carreira-solo, cantando a letra toda do amigo, em vários concertos e no concerto dos trinta anos de carreira fonográfica de Dylan, em 1992.

Depois a formação gravou Turn!Turn!Turn!, em 1966 (embora a coletânea The Byrds Play Dylan credite o álbum como do final de 1965, o disco é de 1966, 1965 foi a conclusão da mixagem do álbum). A faixa-título é inspirada no Livro dos Eclesiastes e foi outro grande hit do grupo. Mais tarde, Gene Clark saiu da banda e o grupo prosseguiu na formação restante, que gravou alguns discos, como o álbum Younger Than Yesterday. Este álbum é uma celebração ao espírito da juventude, e foi lançado em 1967, início do auge da Contracultura. Neste álbum se encontra a música "So you want to be a rock’nroll star", um “comentário” composto por McGuinn e Hillman, cantada por este último (acompanhado por McGuinn e Crosby no coro), sobre como ser um ídolo do rock. Além dela, há outras músicas brilhantes, como My back pages, de Bob Dylan.

Os Byrds eram tidos como a “resposta” californiana aos Beatles. Até aderiram a mudança de grafia, já que os Beatles são uma corruptela gráfica de beetles (besouros) e Byrds correspondia a birds (pássaros). Eles eram intérpretes constantes da música de Bob Dylan. Ao longo de sua trajetória, diversas músicas foram gravadas, e treze delas, gravadas entre 1965 e 1970, foram incluídas na coletânea The Byrds Play Dylan, organizada em 1979. Passaram por algumas gravadoras, sendo a primeira a Columbia Records, hoje da Sony Music.

The Byrds tiveram pelo menos quatro fases. A primeira, entre 1964 e 1967, do rock básico melodioso, com vocais angelicais e concepção folk, com alguns momentos de psicodelismo como em “Eight Miles High”. Depois veio a fase country de 1968, quando McGuinn ganhou a forte parceria de Gram Parsons, gravando o álbum Sweetheart at the rodeo, que contém duas músicas de Dylan: “You ain’t goin’ nowhere” e “Nothing has delivered”.

Em seguida, veio a fase ácida de 1969, quando participam da trilha do filme Easy Rider, da dupla Peter Fonda e Dennis Hopper, também daquele ano. A melancólica canção "The Ballad of Easy Rider", gravada solo por McGuinn na trilha mas também gravada pelo grupo no álbum homônimo à canção, é o destaque dessa época. E mais Bob Dylan: “Wheel’s on fire”, rock ácido com contrabaixo soul. Depois, daí em diante, os Byrds passaram a fazer folk rock, só que mais cru do que a fase inicial.

Dos vários membros dos Byrds, pelo menos três faleceram. Numa triste coincidência, Gene Clark faleceu em 1991 de problemas cardíacos, na proximidade do aniversário de 50 anos de Dylan. Antes, em 1973, Gram Parsons, então líder do grupo Flying Burrito Brothers, teve uma overdose fulminante de drogas. Já em 1996, foi a vez de Mike Clarke deixar este planeta. Todos os óbitos estão relacionados com o passado de álcool e drogas vivenciado pela maioria do pessoal do rock nos anos 60. Felizmente, os três membros originais, Roger McGuinn, Chris Hillman e David Crosby estão vivos e ativos, tendo se reunido para gravar quatro músicas para a caixa de quatro CDs comemorativa dos 25 anos da banda e cuja versão reduzida foi lançada em 1991, no Brasil inclusive, sendo vendido até por R$ 4,90.

McGuinn, recentemente, lançou suas novas músicas no site MP3.Com. O legado dos Byrds se encontra espalhado nos sons de bandas como R. E. M., Smiths (Johnny Marr se inspirou muito em McGuinn para tocar guitarra e compor), Smithereens, Tom Petty & The Heartbreakers, The Dylans, Toad The Wet Sprocket, Gim Blossoms e Ride. Este último é um exemplo típico, que utilizou até a mesma marca de guitarra de McGuinn, a Rickenbaker. Basta comparar o som das guitarras de “Paralysed”, do Ride (do primeiro álbum, Nowhere) e “Eight Miles High” dos Byrds. Outra faixa byrdiana do Ride é “Like a daydream”, da coletânea Smile.

Mas mesmo o tema original do seriado de desenho animado Scooby Doo, de 1969, tem linhas de baixo claramente influenciadas por Chris Hillman. Os produtores William Hanna e Joseph Barbera contavam com músicos de rock psicodélico fazendo trilhas dos seriados produzidos pela dupla. O seriado em filme Banana Split é sintomático disso, uma verdadeira aula de rock psicodélico e soul music dos anos 60 para a criançada.

É verdade que o som dos Byrds já não é considerado revolucionário ou ousado. Ao longo dos anos 90, mesmo o conservadorismo folk e pós-grunge de Counting Crows e Matchbox 20 (cujo vocalista andou fazendo vocal num recente sucesso do Santana, bem longe dos tempos áureos da banda do mexicano Carlos Santana) evoca traços dos Byrds, mas sem a criatividade do original.

No entanto, ouvir os próprios Byrds é muito melhor do que escutar as bandas estereotipadas de folk, ainda zonzas pela neblina de Seattle e completamente desplugadas do legado da Contracultura dos anos 60. E mil vezes melhor do que ouvir o country de butique da Zona Sul paulistana dos chamados "sertanejos universitários".

Afinal, os Byrds são reconhecidos como uma das grandes bandas de rock autêntico do mundo, por sua grandiosa força artística e melodiosa.

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