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O NEO-GLAMOUR: A BURGUESIA CONTRA-ATACA


O COPACABANA PALACE É UM SÍMBOLO DA IDEOLOGIA GRANFINA NO BRASIL. NA FOTO, SALÃO DE FESTAS DO FAMOSO HOTEL CARIOCA.

Com o fracasso da Contracultura, através de episódicos trágicos como o massacre de Tlatelolco, no México, repressivos, como a invasão dos tanques soviéticos de Praga (hoje capital da República Tcheca) e o julgamento de Chicago dos militantes da Nova Esquerda (EUA), e trágico-repressivos, como o AI-5 no Brasil, além do enfraquecimento do movimento estudantil da França pelo abandono da aliança operária, em 1968, e sem contar a banalização hippie de Woodstock e da chacina da Família Manson, em 1969, a aristocracia (ou a burguesia, no jargão dos intelectuais de esquerda) viu o momento de sua revanche, no raiar dos anos 70.

Para as elites que viam uma simples expressão como "Nação Woodstock" como um palavrão, desconhecendo que o visual bicho-grilo - como aqui denominamos o estilo de vida hippie - era apenas um aspecto diante de tantos outros da juventude dos anos 60, reciclar os tempos em que até os vagabundos vestiam terno e usavam sapatos engraxados.

Esse tempo de glamour e dos valores superiores do homem branco, rico, maduro e dotado de racionalidade - ideologia onde o saber técnico e o poder sócio, econômico e político marcava a superioridade do homem na sociedade ocidental - vigorou entre a segunda metade do século XIX, através dos valores dos novos capitalistas, até meados da década de 50, no século XX, quando a explosão juvenil do rock'n'roll punha em xeque os valores sisudos do mundo aristocrático.

O ideal aristocrático, naqueles idos de 1954-1955, já não oferecia respostas para a humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. Essa ideologia de uma sociedade perfeita, elegante e bem-comportada contrastava com a miséria e o sofrimento de multidões imensas, sobretudo depois do fim da Segunda Guerra, que fez a aristocracia mostrar-se esnobe, moralista e belicista.

Assim, enquanto os grandes senhores da guerra queriam ver jovens lutando para eles na Coréia e depois no Vietnam e depois em qualquer lugar em que estejam em jogo os interesses da "moderna sociedade ocidental", a rebelião roqueira e outros movimentos artísticos, como a pop art e a literatura beatnik, anunciavam a futura onda do Poder Jovem, que entrou no auge em 1968.

Com os excessos da Contracultura, veio a esperança da aristocracia retornar com seus valores de elegância, sisudez e formalidade. Então, nos anos 70, começou-se a esboçar o novo ideal de "sucesso", a partir de valores ligados à elegância extrema, à riqueza financeira e a posse de produtos sofisticados de consumo, o neo-glamour.

Mudavam-se algumas coisas. O engravatado de cabelo engomado com trejeitos de Cary Grant, Humphrey Bogart ou Paul Newman dava lugar ao granfino que eventualmente usava um paletó sobre um suéter "turtleneck" (com a gola longa, que cobre o pescoço) e usava um cabelo mais cheio, com costeletas, na linha Robert Redford.

O som também tinha leves mudanças, substituindo os standards e as releituras mais mornas do swing jazz da Glenn Miller Orchestra - que sobreviveria nos anos 70 muitos anos após ter perdido seu maestro e já sem o mesmo pique de antes - e seus clones, a "música de consultório" de Ray Conniff, Paul Mauriat e outros, e, assim como o pedantismo dos granfinos dos anos 50 lhes permitia se apropriar dos jazzistas mais manjados (Sarah Vaughan, Nat Cole, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald), o pedantismo dos granfinos dos anos 70 embarcava no phillis sound, ou The Sound of Philadelphia, movimento soul que lançou Barry White e Lou Rawls, que musicalmente anteviu a disco music na sua facção mais artística e ligada ao funk autêntico.

Mas havia também outras tendências pop. A música jovem granfina se serviu de nomes que simbolizaram o sucesso juvenil e os valores familiares, como Bee Gees, uma banda de irmãos, ABBA, duas duplas de casais perfeitas para confrontar os Mamas And The Papas hippies, e os Carpenters, uma dupla de irmãos. Veio também um cantor granfino emergente, Barry Manilow, cujo sucesso, mesmo sem querer, acabou influenciando a breguice comportada do brasileiro Fábio Jr.. O granfinismo, que vinha nos cantores românticos uma forma de tranquilizar a humanidade, se valeu também do ex-goleiro espanhol Julio Iglesias, que por sua vez já gerou outro concorrente, Manolo Otero, que carregava ainda mais na elegância.

Os carros Cadillac e a geração anos 50 dos Aero Willys deram lugar aos carros Laudau, Mercury, Comodoro e Opala lançados nos anos 70. O neo-glamour também estimulava a valorização dos cruzeiros marítimos, como "recreação" dos granfinos que ostentavam sua pretensa superioridade social em alto-mar, regados a muito champanhe e uísque.

As regras de etiqueta, que determinavam até mesmo a forma de como um grafino deveria sorrir e dar risadas, tornaram-se norma maior do neo-glamour, até para se defender do desleixo hippie que já era observado até mesmo nas salas de aula universitárias. O moralismo social também era outro princípio maior do neo-glamour, que tentava ressuscitar o modelo autoritário da figura paterna, mas adaptado através da evolução da psicologia moderna. Mas nada que fosse, evidentemente, aderir à "anti-psiquiatria" de Ronnie Lang, tão cultuado pela juventude contracultural.

Os valores granfinos dos anos 50 não eram descartados, apesar das mudanças. As mudanças serviam apenas para atrair a adesão dos jovens, que não poderiam em 1973 adotar o mesmo visual de Bing Crosby em 1953. Jovens influenciados por Beatles e pela soul music não poderiam restringir seus ouvidos com as canções de standards dos seus pais, pois nem mesmo o doo-wop (música negra romântica e vocal que previu parte da soul music) fazia a sua cabeça naqueles idos dos anos 70. Tinham mesmo é se esbaldar com disco music e com um pop comportado que possa equilibrar solos de guitarra e orquestra de cordas.

A superficialidade do neo-glamour, no entanto, começou a declinar já em 1976, depois do curto auge do ideal granfino de vida (1973-1976). Com a explosão punk na Inglaterra e nos EUA, o ceticismo tomou conta dos jovens, que viram no ideal granfino de vida uma grande chatice. A coisa só complicaria com os casos de crimes e corrupção envolvendo granfinos e também a existência de vilões elegantes em seriados norte-americanos dos anos 70 e 80.

NO BRASIL - A ideologia granfina recebeu adesão da aristocracia brasileira, nos anos 70. Mas seu alarde era prejudicado pelos tensos momentos em que o país vivia, na época, quando a crise do petróleo no Oriente Médio fez a economia brasileira entrar em colapso. A ditadura militar intensificou as torturas e o extermínio de guerrilhas oposicionistas, a ponto de irritar até mesmo os generais que antes autorizaram a autonomia ilimitada dos torturadores, como nos episódios das mortes do jornalista Wladimir Herzog e do sindicalista Manuel Fiel Filho.

O neo-glamour só serviria praticamente para os anos 90, quando uma geração de antigos universitários do período 1970-1975, oriundos de famílias bem estruturadas financeiramente, se tornaram mais tarde bem-sucedidos empresários, profissionais liberais e executivos, sempre com lindas namoradas ou esposas: Roberto Justus, Almir Ghiarone, Malcolm Montgomery, Eduardo Menga, Edmar Fontoura, Walter Zagari, Amilcar Dallevo, Eike Batista. Todos homens "símbolos" da maturidade bem-sucedida, mas nos anos 70 simples pupilos da doutrinação elegante e, nos anos 80, adeptos da ideologia yuppie (que se baseava no culto à elegância, à tecnocracia e ao mundo dos negócios).

Estes homens granfinos representam uma geração que, em 1960, poderia ter aparecido nos anúncios do sabão em pó Rinso (antiga marca do grupo empresarial que hoje constitui a Unilever), era muito imatura para entender os movimentos estudantis de 1968, mas era um tanto careta para aderir aos movimentos estudantis de 1977. E, apegados aos pais, muitos deles já usavam terno e gravata até na infância, em cerimônias especiais, enquanto na puberdade paqueravam os anúncios de roupas das Casas José Silva e da Alfred nas revistas de informação geral que liam.

No entanto, certos ícones musicais do neo-glamour deixaram de simbolizar esse universo. ABBA, Bee Gees e Carpenters acabaram tendo tanta penetração no público juvenil quanto Michael Jackson. Júlio Iglesias e Manolo Otero se tornaram extremamente cafonas, a ponto do primeiro, em uma recente visita ao Brasil, estar cercado de ídolos popularescos. Sem chegar a esse ponto, o mesmo ocorreu com Barry Manilow, enquanto Ray Conniff e outros maestros se tornaram desprezados ou curtidos por poucos convictos, não necessariamente granfinos. A disco music, apesar de ser erroneamente vista como "sofisticada" pelo falso revisionismo das rádios dos anos 90, havia se popularizado demais para virar patrimônio dos granfinos.

Com isso, o neo-glamour brasileiro, já uma releitura dos anos 90 para o seu ideário dos anos 70, teve que se tornar ainda mais conservador, preferindo abraçar os valores da geração anos 50. O neo-glamour brasileiro já nasceu e cresceu velho e antiquado.

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