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A FALTA DE BIG BOY NA CULTURA JOVEM CARIOCA


Newton Alvarenga Duarte (1943-1977) não chegou a ter 34 anos de vida. Tendo nos deixado há 32 anos, em morte bastante prematura, seu grande legado chegou até a ter herdeiros, mas também boa parte deles desapareceu.

Devido à ausência de Newton Duarte, conhecido como Big Boy, a cultura carioca tornou-se praticamente acéfala, não pela falta de grandes ativistas ou artistas, mas por estes terem pouco espaço no mercado e na mídia, entregue aos mercadores da mediocridade.

Vi o Big Boy em algumas aparições no telejornal Hoje na Rede Globo. E cheguei a ouvir algumas músicas tocadas por uma FM coordenada por ele, a Eldo Pop. Isso lá por volta de 1976, quando eu tinha cinco anos, no primeiro caso através da TV, no segundo caso através das andanças nas ruas, na companhia de meus pais. Mas só pude entender o valor de Big Boy anos mais tarde.

Big Boy é uma daquelas mentes sensacionais, daquelas figuras ímpares que acabam perdendo a vida cedo. Era um radialista de excelente nível, bastante informativo e que garimpava novidades e raridades. Marcou a Rádio Mundial, nos anos 60, muito menos pelo seu bordão "Hello crazy people do que pelo seu trabalho radialista. Porque seu talento era bom mesmo, aliás brilhante.

Big Boy é tradicionalmente ligado à difusão da soul music no Brasil, juntamente com o cantor Tim Maia (1942-1998) , que, à sua maneira, divulgava as novidades soul na música que fazia.

Mas Big Boy também é ligado ao radialismo rock, por ter bolado, em 1972, a programação rock da Eldorado FM, no Rio de Janeiro. Aqui vale um parêntese, no próximo parágrafo.

Era risível que, nos anos 90, com a Internet brasileira engatinhando nas informações, alguns engraçadinhos, que defenderam a fase pseudo-roqueira da Rádio Cidade, tenham
feito de tudo para apagar a memória da fase original desta emissora. Quando não podiam, tentaram argumentar que a Rádio Cidade original - associada, sobretudo, ao pioneirismo da difusão da disco music no dial carioca - não era rádio rock por causa da ditadura.

Só que, em pleno auge do AI-5, Big Boy conseguiu, mesmo dentro das Organizações Globo (dona da Eldorado FM), criar uma das melhores rádios de rock do país, junto à Fluminense FM de 1982-1985. A Eldo Pop teve como preço abolir a locução, tendo um sistema de informação de músicas via correspondência (algo que a OI FM faz dentro da tecnologia dos telefones celulares). Mas o repertório roqueiro era de primeira, concentrado no hard rock e no progressivo, que eram os sons mais populares de rock na época. Tocava também bandas nacionais, o famoso rock sulista (tendência dos EUA que fundiu rock com country e blues) e outras tendências. A Eldo Pop foi um sucesso de audiência na época, numa frequência que, desde 1978, é da popularesca 98 FM (que agora adota o codinome Beat 98).

Paralelamente a isso, Big Boy agitava os bailes de soul music no Rio de Janeiro. Foi um excelente agitador cultural e mestre de muitos DJs e produtores que agitaram o universo do funk autêntico no Rio, como Cidinho Cambalhota, Ademir Lemos e Messiê Lima, entre outros. Os bailes funk originais estavam muito longe da palhaçada que se tornou desde 1990. Eram coisa séria, e nos anos 70 os cantores de soul music brasileiros eram todos grandiosos.

Funk autêntico é guitarra, baixo, bateria, órgão e orquestra, com sessões de metais e cordas, e excelentes cantores que também tinham que ter informação musical aprofundada (muitos cantores eram na verdade multi-instrumentistas e arranjadores, apesar de aparecerem no palco quase sempre só cantando).

Funk autêntico internacional é James Brown, Sly & Family Stone, Kool & The Gang, KC & The Sunshine Band, Commodores, Sister Sledge, Rick James, Chic, Earth Wind & Fire, Michael Jackson (com e sem seu grupo Jackson Five/Jacksons) com adesões explícitas de Stevie Wonder, Marvin Gaye, Smokey Robinson e o que imaginar de soulmen.

Funk autêntico nacional é Tim Maia, Erlon Chavez, Cassiano, Hyldon, Gerson King Combo, Tony Tornado, Lady Zu, Banda Black Rio. E, como o original, é guitarra, baixo, bateria, órgão, orquestra com metais e cordas e muita, muita informação musical.

Daí a falta que Big Boy, assim como os DJs que eram seus seguidores diretos, faz, já que quase todos eles estão mortos. A verdade é que seus então aluninhos, Marlboro e Rômulo Costa, os traíram e exterminaram todas as lições aprendidas.

Assim como o radialismo rock, que teve a Fluminense FM como seguidora e autalizadora da Eldo Pop, mas com o fim dela caminhou para uma deturpação violentamente grosseira e reacionária (em muitos aspectos, a "cultura rock" promovida pela Rádio Cidade nos anos 90 parecia vir do ponto de vista do DOI-CODI), a cultura funk carioca, em 1990, mergulhou numa degradação musical tão grande que transformou em lodo a inicial absorção do technofunk de Afrika Bambataa (que buscou um som que unisse Grandmaster Flash, Kraftwerk e James Brown) e que, ingenuamente, ganhou uma fusão com Jovem Guarda nos primeiros momentos do movimento Funk Brasil.

De 1990 para cá, o que hoje se chama de "funk carioca" é um festival de demagogia atrás de demagogia. Alimentado pelo jabaculê radiofônico durante anos - coisa que, todavia, é desmentida pelos seus defensores mais exaltados - , o "funk" hoje se limita a uma batida eletrônica e um pé-rapado fazendo uma paródia de cantiga-de-roda com letras maliciosas ou panfletárias. O "tamborzão", batida eletrônica que simula batuque de umbanda, foi apenas adotado para turista ver.

A farsa funqueira de hoje, que absorveu literalmente todo o esquemão jabazeiro, mafioso e temático do miami bass, também assimilou toda a abordagem politicamente correta do caso 2-Live Crew, grupo que teve seus discos censurados e apresentações banidas por causa do conteúdo pornográfico de suas letras. Ou seja, assim como o caso 2-Live Crew, o "funk carioca" queria promover todas as baixarias como se fossem "legítima liberdade de expressão cultural".

O que está por trás de toda a retórica favorável ao "funk carioca", que envolve até autoridades políticas, jornalistas, artistas de diversos estilos e cientistas sociais, é todo o jogo do poder dos empresários-DJs. Com os mestres mortos, Marlboro e Rômulo Costa, por mais que desmintam, passaram a acumular fortuna e poder político através do "funk".

Outro aspecto a considerar também é o violento contraste entre todo o "lindo discurso" que os defensores do "funk" fazem e a realidade de sua "música" e de seu "espetáculo", cuja ruindade salta aos olhos.

Pior: a própria visão etnocêntrica da classe média sobre o povo pobre (visto como "inocentemente idiota" e "naturalmente patético e grosseiro"), aliada ao paternalismo politicamente correto que trata o público pobre como "bom salvagem", permite que todo o discurso pró-funqueiro prevaleça, em que pese as aberrações narco-pornográficas dos hoje ditos "bailes funk" e da "rica música" (sic).

O povo hoje está envolto numa camisa-de-força funqueira, não podendo mais voltar aos tempos em que as favelas geravam gênios como Cartola e Ataulfo Alves e, mais recentemente, Elza Soares. E nem fazer soul music contemporânea, que é o funk autêntico, o povo favelado pode mais. No máximo, o povo é obrigado a fazer apenas "funk melody" e sambrega, dominado não só pelo narcotráfico como pelos empresários e dirigentes funqueiros, que se autoproclamam "porta-vozes da favela", criando todo um discurso de legitimação do "funk" que só favorece suas finanças e seu poderio político.

Daí a falta de referenciais que o jovem mestre Big Boy e seus discípulos difundiram, num passado recente da cultura carioca.

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