segunda-feira, 29 de março de 2010

ARMANDO NOGUEIRA



Do Portal G1

O ex-diretor da Central Globo de Jornalismo e comentarista esportivo Armando Nogueira, de 83 anos, morreu por volta das 7h desta segunda-feira (29), em seu apartamento, na Lagoa, na Zona Sul do Rio.

Ele sofria de câncer e estava muito doente desde 2007, quando descobriu a doença.

Torcedor apaixonado pelo Botafogo e, em especial, pelo futebol, participou da cobertura de diversas Copas do Mundo a partir de 1954 e dos Jogos Olímpicos, a partir de 1980.

Armando nasceu no Acre e veio para o Rio de Janeiro com 17 anos, onde se formou em direito. A carreira de jornalista começou em 1950, no jornal Diário Carioca, onde foi repórter, redator e colunista. Ao longo dos 60 anos de carreira, passou também pela Revista Manchete, O Cruzeiro, Jornal do Brasil.

O jornalista trabalhou ainda na Rede Bandeirantes, e atualmente estava no SportTV, onde apresentava o programa Papo Com Armando Nogueira, e na Rádio CBN, onde participava do CBN Brasil.

Escreveu textos para o filme "Pelé Eterno" (2004) e é autor de dez livros, todos sobre esporte: Drama e Glória dos Bicampeões (em parceria com Araújo Neto); Na Grande Área; Bola na Rede; O Homem e a Bola; Bola de Cristal; O Vôo das Gazelas; A Copa que Ninguém Viu e a que Não Queremos Lembrar (em parceria com Jô Soares e Roberto Muylaert), O Canto dos Meus Amores; A Chama que não se Apaga, e A Ginga e o Jogo.

OBSERVAÇÕES: Armando Nogueira também foi um dos criadores do Jornal Nacional e também foi um dos idealizadores dos "praça-TV", projeto de telejornais regionais da Rede Globo (como RJ-TV, SP-TV, MG-TV etc).

quinta-feira, 25 de março de 2010

LEILA DINIZ


Do portal NetSaber

Uma entrevista histórica ao semanário "Pasquim", em 1969, Leila Diniz disse: "Você pode amar muito uma pessoa e ir para a cama com outra. Já aconteceu comigo".

Para a moral da época, foi algo revolucionário. Jovem, alegre e bonita, Leila falava de sua vida sem constrangimento algum. Os trechos com palavrões na entrevista foram substituídos por asteriscos.

A ditadura militar que vigorava no Brasil de então reagiu prontamente às afirmações da atriz e decretou a censura prévia no jornal. Leila atraiu também a indignação nas feministas, em pé de guerra naqueles anos, que a acusaram de servir aos homens.

Alegando razões morais, a TV Globo não renovou contrato com a atriz. O apresentador Flávio Cavalcanti, da TV Tupi, a empregou então como jurada em seu programa de auditório, em1970, e a escondeu da polícia política.

Aos 15 anos, Leila trabalhou como professora, ensinando crianças do maternal e jardim de infância. Desde aquele primeiro emprego queria mudar a maneira como as coisas eram feitas. Por exemplo, aboliu a sua mesa para ficar sempre entre os alunos.

Em 1961, com 17 anos, se apaixonou pelo cineasta Domingos de Oliveira, com quem viveu até os 21 anos. Estreou como atriz dirigida pelo marido, na peça infantil "Em Busca do Tesouro". No ano seguinte, foi corista em um show de Carlos Machado. Em 1964, contracenou com Cacilda Becker em "O preço de um homem".

No ano seguinte, iniciou a carreira na televisão em papéis menores até ganhar papéis em "Eu compro essa mulher" e "O Sheik de Agadir", ambas escritas por Glória Magadan. No total, fez 12 novelas na TV Globo, TV Excelsior e TV Tupi. Fez também publicidade de refrigerantes, sabonetes e creme dental.

Leila foi dirigida pelo ex-marido em dois filmes. O primeiro deles, "Todas as mulheres do mundo", incorporou histórias da vida em comum do casal, e, em 1967, "Edu, Coração de Ouro", história de um malandro carioca classe média estrelado por Paulo José.

Baseado no romance de Antônio Callado, "Madona de Cedro", foi um de seus melhores momentos, sob a direção de Carlos Coimbra. Entre papéis de protagonista, coadjuvante e participações especiais, Leila atuou em 14 filmes. Em 1968, foi à Alemanha representar "Fome de amor", de Nelson Pereira dos Santos, no Festival de Berlim.

Leila reabilitou o teatro de revista com uma curta carreira de vedete no espetáculo "Tem Banana na Banda", improvisando a partir dos textos de Millôr Fernandes, Luiz Carlos Maciel, José Wilker e Oduvaldo Viana Filho. Em 1971, casou-se com o diretor de cinema Rui Guerra, pai de sua filha Janaína. É eleita a Grávida do Ano no programa do Chacrinha.

Leila Diniz quebrou tabus de uma época em que a repressão dominava o Brasil. Escandalizou a tradicional família brasileira ao exibir a sua gravidez de oito meses, na praia de biquíni e ao amamentar a filha Janaína diante das câmeras. Defensora do amor livre e do prazer sexual, irritou feministas tradicionais e se tornou símbolo da liberação feminina dos anos 1960 e 1970.

Morreu em 1972, em um acidente de avião na Índia, no auge de sua fama. Voltava de um festival de cinema na Austrália, onde ganhara o prêmio de melhor atriz com o filme "Mãos vazias".

terça-feira, 23 de março de 2010

MASSCARE DE SHARPEVILLE FAZ 50 ANOS



Há 50 anos, uma tragédia na Africa do Sul influiu numa série de manifestações de revolta dos negros contra o sistema de discriminação racial no país, denominado apartheid.

Cerca de 20 mil pessoas estavam protestando em Sharpeville, indignadas contra a exigência de um passe, uma espécie de "cracha" que os negros tinham que usar para entrar nos bairros resididos por brancos. Caso um negro não mostrasse esse documento para a polícia, simplesmente seria preso. Era totalmente ridículo, mas o governo racista da época impunha essa barbaridade, a proibição do direito de ir e vir dos negros e de sua natural integração social com os brancos.

Pois a manifestação, justa e pacífica, foi reprimida por policiais armados que atiraram contra os manifestantes, matando 69 pessoas e ferindo 180. O triste episódio, ocorrido em 21 de março de 1960, foi conhecido como o massacre de Sharpeville, e provocou imensos protestos dos negros, numa reação dura contra o apartheid sul-africano, que continuou resistindo até 1990, quando o advogado militante Nelson Mandela saiu da cadeia depois de 27 anos, se preparando para, quatro anos depois, assumir a presidência do país.

O país que sediará a Copa do Mundo passou a viver um clima de profundas tensões sociais, num conflito entre o povo negro e o Estado racista, mostrando o quanto o governo autoritário do apartheid, que só beneficiava poucos (os brancos), era opressivo, cruel e anti-democrático.

No mesmo ano de 1960, vários países africanos tornaram-se independentes, mostrando ao mundo a importância de um continente que é a África, com seus diversos países, e seus diversos povos negros, porque a variedade étnica e cultural deles é enorme. Algo que os colonizadores europeus do início do século XX não sabiam, muito menos os comerciantes de escravos de séculos antes.

Os negros foram muito atuantes na Contracultura. Sua mobilização social é bem anterior a 1968, e muitos episódios de protesto contra o racismo aconteceram em vários países. Nos EUA, um grupo de estudantes negros, em 1961, simplesmente permaneceu sentado nas suas cadeiras num restaurante, depois que foram recusados a serem atendidos pelos funcionários brancos. Eram os sit ins, protestos pacíficos de gente sentada, que viraram moda entre os jovens de 1968.

A repercussão negativa do massacre de Sharpeville fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) instituísse 21 de março como Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. Na África do Sul, a mesma data tornou-se o Dia Nacional da Defesa dos Direitos Humanos.

Felizmente, hoje, muita coisa se superou. Felizmente negros, brancos, orientais, judeus e outras raças e etnias podem conviver livremente, na maior parte dos países do mundo. Mas as lutas sociais sempre encontram novos desafios, e hoje, quando a direita, em vários âmbitos da vida social, estabelece projetos, paradigmas e procedimentos que visam o privilégio de poucos contra as necessidades fundamentais de muitos, a luta dos negros, mesmo com muitas vitórias, enfrenta novas questões e novos problemas.

Os movimentos sociais, sejam especificamente negros ou não, pelo menos, estão atentos a essas questões, problemas e desafios. A luta continua.

domingo, 7 de março de 2010

A FALTA DE BIG BOY NA CULTURA JOVEM CARIOCA


Newton Alvarenga Duarte (1943-1977) não chegou a ter 34 anos de vida. Tendo nos deixado há 32 anos, em morte bastante prematura, seu grande legado chegou até a ter herdeiros, mas também boa parte deles desapareceu.

Devido à ausência de Newton Duarte, conhecido como Big Boy, a cultura carioca tornou-se praticamente acéfala, não pela falta de grandes ativistas ou artistas, mas por estes terem pouco espaço no mercado e na mídia, entregue aos mercadores da mediocridade.

Vi o Big Boy em algumas aparições no telejornal Hoje na Rede Globo. E cheguei a ouvir algumas músicas tocadas por uma FM coordenada por ele, a Eldo Pop. Isso lá por volta de 1976, quando eu tinha cinco anos, no primeiro caso através da TV, no segundo caso através das andanças nas ruas, na companhia de meus pais. Mas só pude entender o valor de Big Boy anos mais tarde.

Big Boy é uma daquelas mentes sensacionais, daquelas figuras ímpares que acabam perdendo a vida cedo. Era um radialista de excelente nível, bastante informativo e que garimpava novidades e raridades. Marcou a Rádio Mundial, nos anos 60, muito menos pelo seu bordão "Hello crazy people do que pelo seu trabalho radialista. Porque seu talento era bom mesmo, aliás brilhante.

Big Boy é tradicionalmente ligado à difusão da soul music no Brasil, juntamente com o cantor Tim Maia (1942-1998) , que, à sua maneira, divulgava as novidades soul na música que fazia.

Mas Big Boy também é ligado ao radialismo rock, por ter bolado, em 1972, a programação rock da Eldorado FM, no Rio de Janeiro. Aqui vale um parêntese, no próximo parágrafo.

Era risível que, nos anos 90, com a Internet brasileira engatinhando nas informações, alguns engraçadinhos, que defenderam a fase pseudo-roqueira da Rádio Cidade, tenham
feito de tudo para apagar a memória da fase original desta emissora. Quando não podiam, tentaram argumentar que a Rádio Cidade original - associada, sobretudo, ao pioneirismo da difusão da disco music no dial carioca - não era rádio rock por causa da ditadura.

Só que, em pleno auge do AI-5, Big Boy conseguiu, mesmo dentro das Organizações Globo (dona da Eldorado FM), criar uma das melhores rádios de rock do país, junto à Fluminense FM de 1982-1985. A Eldo Pop teve como preço abolir a locução, tendo um sistema de informação de músicas via correspondência (algo que a OI FM faz dentro da tecnologia dos telefones celulares). Mas o repertório roqueiro era de primeira, concentrado no hard rock e no progressivo, que eram os sons mais populares de rock na época. Tocava também bandas nacionais, o famoso rock sulista (tendência dos EUA que fundiu rock com country e blues) e outras tendências. A Eldo Pop foi um sucesso de audiência na época, numa frequência que, desde 1978, é da popularesca 98 FM (que agora adota o codinome Beat 98).

Paralelamente a isso, Big Boy agitava os bailes de soul music no Rio de Janeiro. Foi um excelente agitador cultural e mestre de muitos DJs e produtores que agitaram o universo do funk autêntico no Rio, como Cidinho Cambalhota, Ademir Lemos e Messiê Lima, entre outros. Os bailes funk originais estavam muito longe da palhaçada que se tornou desde 1990. Eram coisa séria, e nos anos 70 os cantores de soul music brasileiros eram todos grandiosos.

Funk autêntico é guitarra, baixo, bateria, órgão e orquestra, com sessões de metais e cordas, e excelentes cantores que também tinham que ter informação musical aprofundada (muitos cantores eram na verdade multi-instrumentistas e arranjadores, apesar de aparecerem no palco quase sempre só cantando).

Funk autêntico internacional é James Brown, Sly & Family Stone, Kool & The Gang, KC & The Sunshine Band, Commodores, Sister Sledge, Rick James, Chic, Earth Wind & Fire, Michael Jackson (com e sem seu grupo Jackson Five/Jacksons) com adesões explícitas de Stevie Wonder, Marvin Gaye, Smokey Robinson e o que imaginar de soulmen.

Funk autêntico nacional é Tim Maia, Erlon Chavez, Cassiano, Hyldon, Gerson King Combo, Tony Tornado, Lady Zu, Banda Black Rio. E, como o original, é guitarra, baixo, bateria, órgão, orquestra com metais e cordas e muita, muita informação musical.

Daí a falta que Big Boy, assim como os DJs que eram seus seguidores diretos, faz, já que quase todos eles estão mortos. A verdade é que seus então aluninhos, Marlboro e Rômulo Costa, os traíram e exterminaram todas as lições aprendidas.

Assim como o radialismo rock, que teve a Fluminense FM como seguidora e autalizadora da Eldo Pop, mas com o fim dela caminhou para uma deturpação violentamente grosseira e reacionária (em muitos aspectos, a "cultura rock" promovida pela Rádio Cidade nos anos 90 parecia vir do ponto de vista do DOI-CODI), a cultura funk carioca, em 1990, mergulhou numa degradação musical tão grande que transformou em lodo a inicial absorção do technofunk de Afrika Bambataa (que buscou um som que unisse Grandmaster Flash, Kraftwerk e James Brown) e que, ingenuamente, ganhou uma fusão com Jovem Guarda nos primeiros momentos do movimento Funk Brasil.

De 1990 para cá, o que hoje se chama de "funk carioca" é um festival de demagogia atrás de demagogia. Alimentado pelo jabaculê radiofônico durante anos - coisa que, todavia, é desmentida pelos seus defensores mais exaltados - , o "funk" hoje se limita a uma batida eletrônica e um pé-rapado fazendo uma paródia de cantiga-de-roda com letras maliciosas ou panfletárias. O "tamborzão", batida eletrônica que simula batuque de umbanda, foi apenas adotado para turista ver.

A farsa funqueira de hoje, que absorveu literalmente todo o esquemão jabazeiro, mafioso e temático do miami bass, também assimilou toda a abordagem politicamente correta do caso 2-Live Crew, grupo que teve seus discos censurados e apresentações banidas por causa do conteúdo pornográfico de suas letras. Ou seja, assim como o caso 2-Live Crew, o "funk carioca" queria promover todas as baixarias como se fossem "legítima liberdade de expressão cultural".

O que está por trás de toda a retórica favorável ao "funk carioca", que envolve até autoridades políticas, jornalistas, artistas de diversos estilos e cientistas sociais, é todo o jogo do poder dos empresários-DJs. Com os mestres mortos, Marlboro e Rômulo Costa, por mais que desmintam, passaram a acumular fortuna e poder político através do "funk".

Outro aspecto a considerar também é o violento contraste entre todo o "lindo discurso" que os defensores do "funk" fazem e a realidade de sua "música" e de seu "espetáculo", cuja ruindade salta aos olhos.

Pior: a própria visão etnocêntrica da classe média sobre o povo pobre (visto como "inocentemente idiota" e "naturalmente patético e grosseiro"), aliada ao paternalismo politicamente correto que trata o público pobre como "bom salvagem", permite que todo o discurso pró-funqueiro prevaleça, em que pese as aberrações narco-pornográficas dos hoje ditos "bailes funk" e da "rica música" (sic).

O povo hoje está envolto numa camisa-de-força funqueira, não podendo mais voltar aos tempos em que as favelas geravam gênios como Cartola e Ataulfo Alves e, mais recentemente, Elza Soares. E nem fazer soul music contemporânea, que é o funk autêntico, o povo favelado pode mais. No máximo, o povo é obrigado a fazer apenas "funk melody" e sambrega, dominado não só pelo narcotráfico como pelos empresários e dirigentes funqueiros, que se autoproclamam "porta-vozes da favela", criando todo um discurso de legitimação do "funk" que só favorece suas finanças e seu poderio político.

Daí a falta de referenciais que o jovem mestre Big Boy e seus discípulos difundiram, num passado recente da cultura carioca.

sábado, 6 de março de 2010

COMERCIAL DO FUSCA EM 1961


"Nós não acrescentamos rabos-de-peixe, nem modificamos rabos-de-peixe. Não aumentamos a grade, nem modificamos a grade. Automóvel para nós não é uma questão de moda. E para quê muito farol?"

Assim começava a mensagem de um comercial do Fusca, clássico modelo Volkswagen que teve várias concepções. O de 1961 foi um deles, com destaque para as lanternas pequeninas dentro de um "ovo".

Por incrível que pareça, dá para ver, de vez em quando, um ou outro Fusca de 1961 pelas ruas brasileiras hoje em dia.

O comercial é bem moderno para os padrões do início dos anos 70. Alguns desavisados poderiam creditar este comercial a 1970, por causa dos efeitos sonoros, que incluem sons de guitarra e violão. Mas é um genuíno comercial de 1961, tempo em que a televisão estava começando, e apenas começando, a se tornar popular. Mas ainda havia muita gente indo para a casa do vizinho ver televisão, com imagens preto e branco, pouco nítidas e com sérios problemas de transmissão. Hi-fi era coisa de disco, não havia chegado à tecnologia televisiva.

Estas imagens foram extraídas de um vídeo gravado do YouTube.

quinta-feira, 4 de março de 2010

JOHNNY ALF, 1929-2010


Músico, considerado um dos precursores da bossa nova, sofria de câncer de próstata; empresário diz que há disco inédito

COMENTÁRIO DESTE BLOG: De influência jazzística mas com estado de espírito bem carioca, Johnny Alf antecipou, no começo dos anos 50, a linguagem musical da Bossa Nova que outros músicos, outros "pais da bossa", trabalharam à sua maneira. Johnny é considerado um desses "pais", mas, polêmicas à parte, sua contribuição musical para o gênero é inestimável, trabalho de um genuíno mestre de nossa música, apesar da discografia relativamente pequena.

Da Revista Rolling Stone

Johnny Alf, considerado um dos precursores da bossa nova, morreu nesta quinta-feira, 4, no Hospital Mário Covas, na cidade de Santo André (São Paulo). O cantor, compositor e pianista sofria de câncer de próstata, e tratava a doença há três anos.

Recluso, Alf não tinha parentes. O velório deve acontecer nesta sexta, 5, na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Músico admirado

"O cara tinha letras e harmonias absolutamente inéditas na música brasileira, e é por isso que Cesar Camargo Mariano, Roberto Menescal, Luiz Eça e Carlos Lyra, garotos que mal podiam entrar no lugar, iam ao Beco das Garrafas só para vê-lo", afirmou Luís Carlos Miéle sobre Johnny, em texto publicado na edição de janeiro da Rolling Stone Brasil.

Para o produtor, que foi mestre de cerimônias do show Genialf, feito por Filó Machado e Cibele Codonho em homenagem ao músico, em dezembro de 2009, Johnny tinha talento de sobra - mas faltava apelo de marketing. Seria esse um dos motivos que levaram Johnny a ser pouco lembrado, em comparação a contemporâneos da bossa nova, como Tom Jobim.

Johnny nasceu Alfredo José da Silva, no dia 19 de maio de 1929. Prodígio, começou a aprender piano aos 9 anos de idade. Formou seu primeiro conjunto musical aos 14. Daí em diante, Johnny seguiu na música, ganhando destaque com suas composições. Uma delas, "Rapaz de Bem", de 1953, foi considerada o pontapé para a bossa.

Apesar da produção escassa nos últimos anos, é possível que o público venha a conferir material inédito em breve: de acordo com Nelson Valencia, que vinha trabalhando como empresário do cantor desde o início da década de 90, há um disco gravado em Nova York há cerca de dez anos, nunca lançado.

==========

BIOGRAFIA

Do Portal Terra Diversão

Alfredo José da Silva, famoso como Johnny Alf, nasceu no Rio de Janeiro em 19 de Maio de 1929. Começou a aprender piano clássico aos nove anos com Geni Borges, amiga de sua família, e logo demonstrou interesse por compositores americanos, como George Gershwin e Cole Porter.

Aos 14 anos, formou um conjunto com amigos no bairro de Vila Isabel e costumava tocar nos fins de semana na Praça Sete, do Andaraí. Cursou até o segundo ano do ensino médio no Colégio Pedro II, onde entrou em contato com algumas pessoas que faziam parte do Instituto Brasil-Estados Unidos, que posteriormente o convidaram para participar de um grupo artístico. Por sugestão de uma amiga americana, adotou o pseudônimo de Johnny Alf. Com o grupo do Instituto Brasil-Estados Unidos fundou um clube para promoção e intercâmbio de música brasileira e americana.

Quando Dick Farney ingressou no grupo em 1949, o clube passou a se chamar Sinatra-Farney Fan Club, tendo entre seus sócios Tom Jobim, Nora Ney e Luís Bonfá, entre outros. Na época, Alf tocava durante a noite no clube e pela manhã assumia seu posto de cabo no Exército. Através de Dick Farney e Nora Ney, Johnny foi contratado em 1952 como pianista da recém-inaugurada Cantina do César. Ali a atriz Mary Gonçalves, que tinha sido Rainha do Rádio em 1952, escolheu três de suas composições, Estamos Sós, O Que é Amar e Escuta para incluir no seu LP Convite ao Romance.

Depois disso, Alf foi convidado para integrar como pianista o conjunto que o violonista Fafá Lemos formou para tocar na boate Monte Carlo. Nessa época, gravou seu primeiro disco com influências do jazz. De seu repertório, duas composições começaram a se destacar, Céu e Mar e Rapaz de Bem, esta escrita por volta de 1953 e considerada revolucionária e precursora da bossa nova.

Em 1961 gravou na RCA seu primeiro LP, Rapaz de Bem, que incluía, entre outras, Ilusão à Toa, que também se tornou um sucesso. Ainda em 1961, recebeu um convite do compositor Chico Feitosa para tocar no Carnegie Hall, em New York. No ano seguinte, retornou ao Rio de Janeiro e tocou no Bottle's Bar, na mesma época em que ali atuavam o Tamba Trio, Sérgio Mendes, Luís Carlos Vinhas e Silvia Teles.

Em 1967, participou do Festival da TV Record com a música Eu e a Brisa. A composição foi desclassificada nas eliminatórias, mas meses depois virou um grande sucesso. Em janeiro de 1998, depois de sete anos sem gravar, apresentou-se no SESC Pompéia, em São Paulo, no show de lançamento do álbum Noel Rosa - Letra e Música.

Confira a discografia do músico
1952 - Johnny Alf
1952 - Convite ao Romance - Mary Gonçalves
1954 - Johnny Alf
1955 - Johnny Alf
1958 - Johnny Alf
1961 - Rapaz de bem
1964 - Diagonal
1965 - Johnny Alf - arranjos de José Briamonte
1968 - Johnny Alf e Sexteto Contraponto
1971 - Ele é Johnny Alf
1972 - Johnny Alf - compacto duplo
1974 - Nós
1978 - Desbunde total
1986 - Johnny Alf - Eu e a brisa
1988 - O que é amar
1990 - Olhos Negros - paticipação Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Menescal, Leny Andrade e outros
1997 - Johnny Alf e Leandro Braga - Letra e música Noel Rosa
1998 - Cult Alf - Johnny Alf - gravado ao vivo
1999 - As set 1999 - As sete palavras de Cristo na Cruz - Dom Pedro Casaldáliga
2001 - Johnny Alf - Eu e a Bossa - 40 anos de Bossa Nova

quarta-feira, 3 de março de 2010

O NEO-GLAMOUR: A BURGUESIA CONTRA-ATACA


O COPACABANA PALACE É UM SÍMBOLO DA IDEOLOGIA GRANFINA NO BRASIL. NA FOTO, SALÃO DE FESTAS DO FAMOSO HOTEL CARIOCA.

Com o fracasso da Contracultura, através de episódicos trágicos como o massacre de Tlatelolco, no México, repressivos, como a invasão dos tanques soviéticos de Praga (hoje capital da República Tcheca) e o julgamento de Chicago dos militantes da Nova Esquerda (EUA), e trágico-repressivos, como o AI-5 no Brasil, além do enfraquecimento do movimento estudantil da França pelo abandono da aliança operária, em 1968, e sem contar a banalização hippie de Woodstock e da chacina da Família Manson, em 1969, a aristocracia (ou a burguesia, no jargão dos intelectuais de esquerda) viu o momento de sua revanche, no raiar dos anos 70.

Para as elites que viam uma simples expressão como "Nação Woodstock" como um palavrão, desconhecendo que o visual bicho-grilo - como aqui denominamos o estilo de vida hippie - era apenas um aspecto diante de tantos outros da juventude dos anos 60, reciclar os tempos em que até os vagabundos vestiam terno e usavam sapatos engraxados.

Esse tempo de glamour e dos valores superiores do homem branco, rico, maduro e dotado de racionalidade - ideologia onde o saber técnico e o poder sócio, econômico e político marcava a superioridade do homem na sociedade ocidental - vigorou entre a segunda metade do século XIX, através dos valores dos novos capitalistas, até meados da década de 50, no século XX, quando a explosão juvenil do rock'n'roll punha em xeque os valores sisudos do mundo aristocrático.

O ideal aristocrático, naqueles idos de 1954-1955, já não oferecia respostas para a humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. Essa ideologia de uma sociedade perfeita, elegante e bem-comportada contrastava com a miséria e o sofrimento de multidões imensas, sobretudo depois do fim da Segunda Guerra, que fez a aristocracia mostrar-se esnobe, moralista e belicista.

Assim, enquanto os grandes senhores da guerra queriam ver jovens lutando para eles na Coréia e depois no Vietnam e depois em qualquer lugar em que estejam em jogo os interesses da "moderna sociedade ocidental", a rebelião roqueira e outros movimentos artísticos, como a pop art e a literatura beatnik, anunciavam a futura onda do Poder Jovem, que entrou no auge em 1968.

Com os excessos da Contracultura, veio a esperança da aristocracia retornar com seus valores de elegância, sisudez e formalidade. Então, nos anos 70, começou-se a esboçar o novo ideal de "sucesso", a partir de valores ligados à elegância extrema, à riqueza financeira e a posse de produtos sofisticados de consumo, o neo-glamour.

Mudavam-se algumas coisas. O engravatado de cabelo engomado com trejeitos de Cary Grant, Humphrey Bogart ou Paul Newman dava lugar ao granfino que eventualmente usava um paletó sobre um suéter "turtleneck" (com a gola longa, que cobre o pescoço) e usava um cabelo mais cheio, com costeletas, na linha Robert Redford.

O som também tinha leves mudanças, substituindo os standards e as releituras mais mornas do swing jazz da Glenn Miller Orchestra - que sobreviveria nos anos 70 muitos anos após ter perdido seu maestro e já sem o mesmo pique de antes - e seus clones, a "música de consultório" de Ray Conniff, Paul Mauriat e outros, e, assim como o pedantismo dos granfinos dos anos 50 lhes permitia se apropriar dos jazzistas mais manjados (Sarah Vaughan, Nat Cole, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald), o pedantismo dos granfinos dos anos 70 embarcava no phillis sound, ou The Sound of Philadelphia, movimento soul que lançou Barry White e Lou Rawls, que musicalmente anteviu a disco music na sua facção mais artística e ligada ao funk autêntico.

Mas havia também outras tendências pop. A música jovem granfina se serviu de nomes que simbolizaram o sucesso juvenil e os valores familiares, como Bee Gees, uma banda de irmãos, ABBA, duas duplas de casais perfeitas para confrontar os Mamas And The Papas hippies, e os Carpenters, uma dupla de irmãos. Veio também um cantor granfino emergente, Barry Manilow, cujo sucesso, mesmo sem querer, acabou influenciando a breguice comportada do brasileiro Fábio Jr.. O granfinismo, que vinha nos cantores românticos uma forma de tranquilizar a humanidade, se valeu também do ex-goleiro espanhol Julio Iglesias, que por sua vez já gerou outro concorrente, Manolo Otero, que carregava ainda mais na elegância.

Os carros Cadillac e a geração anos 50 dos Aero Willys deram lugar aos carros Laudau, Mercury, Comodoro e Opala lançados nos anos 70. O neo-glamour também estimulava a valorização dos cruzeiros marítimos, como "recreação" dos granfinos que ostentavam sua pretensa superioridade social em alto-mar, regados a muito champanhe e uísque.

As regras de etiqueta, que determinavam até mesmo a forma de como um grafino deveria sorrir e dar risadas, tornaram-se norma maior do neo-glamour, até para se defender do desleixo hippie que já era observado até mesmo nas salas de aula universitárias. O moralismo social também era outro princípio maior do neo-glamour, que tentava ressuscitar o modelo autoritário da figura paterna, mas adaptado através da evolução da psicologia moderna. Mas nada que fosse, evidentemente, aderir à "anti-psiquiatria" de Ronnie Lang, tão cultuado pela juventude contracultural.

Os valores granfinos dos anos 50 não eram descartados, apesar das mudanças. As mudanças serviam apenas para atrair a adesão dos jovens, que não poderiam em 1973 adotar o mesmo visual de Bing Crosby em 1953. Jovens influenciados por Beatles e pela soul music não poderiam restringir seus ouvidos com as canções de standards dos seus pais, pois nem mesmo o doo-wop (música negra romântica e vocal que previu parte da soul music) fazia a sua cabeça naqueles idos dos anos 70. Tinham mesmo é se esbaldar com disco music e com um pop comportado que possa equilibrar solos de guitarra e orquestra de cordas.

A superficialidade do neo-glamour, no entanto, começou a declinar já em 1976, depois do curto auge do ideal granfino de vida (1973-1976). Com a explosão punk na Inglaterra e nos EUA, o ceticismo tomou conta dos jovens, que viram no ideal granfino de vida uma grande chatice. A coisa só complicaria com os casos de crimes e corrupção envolvendo granfinos e também a existência de vilões elegantes em seriados norte-americanos dos anos 70 e 80.

NO BRASIL - A ideologia granfina recebeu adesão da aristocracia brasileira, nos anos 70. Mas seu alarde era prejudicado pelos tensos momentos em que o país vivia, na época, quando a crise do petróleo no Oriente Médio fez a economia brasileira entrar em colapso. A ditadura militar intensificou as torturas e o extermínio de guerrilhas oposicionistas, a ponto de irritar até mesmo os generais que antes autorizaram a autonomia ilimitada dos torturadores, como nos episódios das mortes do jornalista Wladimir Herzog e do sindicalista Manuel Fiel Filho.

O neo-glamour só serviria praticamente para os anos 90, quando uma geração de antigos universitários do período 1970-1975, oriundos de famílias bem estruturadas financeiramente, se tornaram mais tarde bem-sucedidos empresários, profissionais liberais e executivos, sempre com lindas namoradas ou esposas: Roberto Justus, Almir Ghiarone, Malcolm Montgomery, Eduardo Menga, Edmar Fontoura, Walter Zagari, Amilcar Dallevo, Eike Batista. Todos homens "símbolos" da maturidade bem-sucedida, mas nos anos 70 simples pupilos da doutrinação elegante e, nos anos 80, adeptos da ideologia yuppie (que se baseava no culto à elegância, à tecnocracia e ao mundo dos negócios).

Estes homens granfinos representam uma geração que, em 1960, poderia ter aparecido nos anúncios do sabão em pó Rinso (antiga marca do grupo empresarial que hoje constitui a Unilever), era muito imatura para entender os movimentos estudantis de 1968, mas era um tanto careta para aderir aos movimentos estudantis de 1977. E, apegados aos pais, muitos deles já usavam terno e gravata até na infância, em cerimônias especiais, enquanto na puberdade paqueravam os anúncios de roupas das Casas José Silva e da Alfred nas revistas de informação geral que liam.

No entanto, certos ícones musicais do neo-glamour deixaram de simbolizar esse universo. ABBA, Bee Gees e Carpenters acabaram tendo tanta penetração no público juvenil quanto Michael Jackson. Júlio Iglesias e Manolo Otero se tornaram extremamente cafonas, a ponto do primeiro, em uma recente visita ao Brasil, estar cercado de ídolos popularescos. Sem chegar a esse ponto, o mesmo ocorreu com Barry Manilow, enquanto Ray Conniff e outros maestros se tornaram desprezados ou curtidos por poucos convictos, não necessariamente granfinos. A disco music, apesar de ser erroneamente vista como "sofisticada" pelo falso revisionismo das rádios dos anos 90, havia se popularizado demais para virar patrimônio dos granfinos.

Com isso, o neo-glamour brasileiro, já uma releitura dos anos 90 para o seu ideário dos anos 70, teve que se tornar ainda mais conservador, preferindo abraçar os valores da geração anos 50. O neo-glamour brasileiro já nasceu e cresceu velho e antiquado.

segunda-feira, 1 de março de 2010

JOSÉ MINDLIN



Morreu na manhã de ontem, de falência múltipla dos órgãos, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, o advogado, empresário e bibliófilo José Mindlin. Ele era membro da Academia Brasileira de Letras e, já doente, havia doado em 2009 todo o seu acervo de livros para a USP, transformando-a na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Seu acervo de livros é considerado o maior acervo particular do país.

Descendente de judeus, Mindlin nasceu em 08 de setembro de 1914, na cidade de São Paulo, a mesma onde encerrou sua vida, em 28 de fevereiro de 2010. Formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e exerceu durante alguns anos a profissão de advogado. Mais tarde, trocou a profissão pela de empresário, no comando da indústria de autopeças Metal Leve.

Mas nunca deixou de ser um colecionador e leitor de livros. Quando se aposentou da profissão de empresário, realizou outras atividades, entre elas a de integrar a Sociedade de Cultura Artística.

Nos anos de chumbo, José Mindlin, por sua visão humanista, chegou a ser classificado como "homem de esquerda" pelo empresário Henning Boilesen, dono do grupo Ultra e colaborador da Operação Bandeirantes (OBAN), órgão de tortura do regime militar. Por isso, Boilesen foi sequestrado e morto por um grupo esquerdista, em abril de 1971.

Mindlin, no entanto, pelo seu caráter ideologicamente neutro, foi chamado pelo governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins - que, como líder estudantil, chegou a transformar a UNE numa organização direitista, nos anos 50 - para assumir a Secretaria de Cultura. Mindlin convidou o jornalista Wladimir Herzog para dirigir a TV Cultura de São Paulo e, quando Wlado, como era conhecido o jornalista, foi torturado e morto pelos militares do DOI-CODI (nome posterior da OBAN), e depois tido por estes como "suicida", o bibliófilo reagiu energicamente e se demitiu do cargo de secretário de Cultura.

José Mindlin define o livro como uma das tecnologias mais fascinantes e duradouras criadas pelo homem, e acreditava ser uma tecnologia difícil de ser superada. Ele acrescentou que sua importância na contribuição para a nossa cultura e para a nossa resistência é inegável. Seu acervo bibliográfico conta com muitas raridades, incluindo as primeiras edições de várias obras de Machado de Assis e outras preciosidades, várias delas obtidas em sebos.

Mindlin havia doado cerca de 40 mil títulos para a USP, que vai compor a nova biblioteca, a Biblioteca Brasiliana Guida e José Mindlin (Guida foi o nome da esposa de Mindlin, também falecida), que estará pronta em maio do próximo ano. Certa vez, Mindlin afirmou sobre sua biblioteca: "Nunca me considerei o dono desta biblioteca. Eu e Guita éramos os guardiães destes livros que são um bem público".