sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O VERDADEIRO RHYTHM AND BLUES: MAIS CRU E MENOS "CHARMOSO"


HOWLIN' WOLF (CHESTER ARTHUR BURNETT) - COM ELE, NÃO HAVIA ESSA HISTÓRIA DE QUE RHYTHM AND BLUES ERA SOUL ROMÂNTICO.

Existe uma idéia equivocada de rhythm and blues. Essa idéia a mídia trabalha há anos, inserindo um “novo” significado para o longevo termo que é praticamente desvinculado de sua realidade original.

Só que a música r&b não é um tema de novela cantado por um Bryan McKnight, não é Celine Dion cantando uma “ode” ao Titanic. Não são os grupos de menudos – erroneamente classificados como “bandas” – ensaiando coro em documentários sobre eles mesmos. Não é esse funk melodioso e suave que já nos EUA recebe este indevido e pretensioso rótulo.

A distorção do significado de rhythm and blues se origina no Grammy, uma espécie de Oscar da música que, por isso mesmo, é comandado pelos burocratas da indústria, que, embora tenham alguma noção de música, às vezes muita teoria acadêmica, valorizam mais o aspecto econômico da coisa. Eles criaram a categoria rhythm and blues para premiar o chamado funk romântico, que nos bailes cariocas é conhecido como charm, numa rara demonstração de sensatez de um universo noiteiro em que funk e rap são termos com significados distorcidos.

O rhythm and blues, para quem conhece as raízes da música negra dos EUA, é uma evolução do blues, já no século XX, com o desenvolvimento da indústria fonográfica naquele país, que propiciou o aparecimento dos race records, discos de música negra, categoria vista com censura pela moralista sociedade branca ianque. Os race records se multiplicavam, porque, naquele apartheid social dos EUA (a regra dos “separados, mas iguais”), os negros tinham uma vida própria, separada e independente dos brancos, e a música negra expressava seus anseios, suas angústias, mágoas ou prazeres. O rhythm and blues seria, já na década de 1940, um ressurgimento do blues, só que mais ritmado, como sugere o nome, e mais sensual.

O r&b é o pai do rock e da soul music. Vemos em Ray Charles um dos que popularizaram o gênero (*). Segundo conta o jornalista Roberto Muggiati, durante anos editor-chefe da revista Manchete e autor do livro Rock, o grito e o mito (1973), indispensável documento para quem quer entender o rock, foi com o cruzamento do rhythm and blues com o country & western branco que, no início dos anos 50, surgiu o gênero que o radialista Alan Freed, sob o pseudônimo de Moondog, batizou de rock’n’roll, nome que, na gíria do blues, significava “deitar e rolar”, sugerindo um ato sexual.

Enquanto isso, na Inglaterra, onde predominava a música orquestrada, foi preciso o desgaste do rock’n’roll nos EUA para ele se revigorar no Reino Unido. Os Beatles vieram para por abaixo a idolatria de galãs fabricados como Pat Boone e Paul Anka, que eram como Ricky Martin e Enrique Iglesias são hoje. A Inglaterra chegou na ressaca ianque e, uma vez que entrou, não saiu mais do circuito.

Com a popularidade do blues entre os ingleses, a primeira fase da “invasão britânica” foi comparada ao rhythm and blues. A imprensa especializada, nos idos de 1963 a 1966, classificava o som das bandas The Who(*), The Animals e Rolling Stones, como r&b. O som desses grupos era bem próximo disso, um blues ritmado. Também foi o caso do grupo norte-americano The Doors, que fazia rock psicodélico mesclado com blues. Jim Morrison, branco, era um bluesman completo, um poeta que cantava com a paixão e a rouquidão de um negro, a exemplo do inglês naturalizado californiano Eric Burdon.

Certamente, a cara do rhythm and blues nem de longe tem a ver com Babyface, Mariah Carey & cia.. A verdadeira cara do r&b nada têm de charmosa, e seu som é cru como é da natureza do mais autêntico blues.

NOTAS

(*)O r&b na prática não tem grandes diferenças com o blues. As diferenças ficam no contexto urbano (o blues de raiz é rural), no uso das guitarras elétricas e num ritmo mais dançante. Nomes como Howlin' Wolf, Muddy Waters, Buddy Guy etc. transitam entre os dois estilos. No Brasil, o blues adota mais a estrutura urbana do r&b.

O grupo inglês The Who, ícone do movimento mod, foi lançado para o estrelato em 1964 com o lema The Maximum Rhythm And Blues ("O máximo em rhythm and blues").

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