Pular para o conteúdo principal

O VERDADEIRO RHYTHM AND BLUES: MAIS CRU E MENOS "CHARMOSO"


HOWLIN' WOLF (CHESTER ARTHUR BURNETT) - COM ELE, NÃO HAVIA ESSA HISTÓRIA DE QUE RHYTHM AND BLUES ERA SOUL ROMÂNTICO.

Existe uma idéia equivocada de rhythm and blues. Essa idéia a mídia trabalha há anos, inserindo um “novo” significado para o longevo termo que é praticamente desvinculado de sua realidade original.

Só que a música r&b não é um tema de novela cantado por um Bryan McKnight, não é Celine Dion cantando uma “ode” ao Titanic. Não são os grupos de menudos – erroneamente classificados como “bandas” – ensaiando coro em documentários sobre eles mesmos. Não é esse funk melodioso e suave que já nos EUA recebe este indevido e pretensioso rótulo.

A distorção do significado de rhythm and blues se origina no Grammy, uma espécie de Oscar da música que, por isso mesmo, é comandado pelos burocratas da indústria, que, embora tenham alguma noção de música, às vezes muita teoria acadêmica, valorizam mais o aspecto econômico da coisa. Eles criaram a categoria rhythm and blues para premiar o chamado funk romântico, que nos bailes cariocas é conhecido como charm, numa rara demonstração de sensatez de um universo noiteiro em que funk e rap são termos com significados distorcidos.

O rhythm and blues, para quem conhece as raízes da música negra dos EUA, é uma evolução do blues, já no século XX, com o desenvolvimento da indústria fonográfica naquele país, que propiciou o aparecimento dos race records, discos de música negra, categoria vista com censura pela moralista sociedade branca ianque. Os race records se multiplicavam, porque, naquele apartheid social dos EUA (a regra dos “separados, mas iguais”), os negros tinham uma vida própria, separada e independente dos brancos, e a música negra expressava seus anseios, suas angústias, mágoas ou prazeres. O rhythm and blues seria, já na década de 1940, um ressurgimento do blues, só que mais ritmado, como sugere o nome, e mais sensual.

O r&b é o pai do rock e da soul music. Vemos em Ray Charles um dos que popularizaram o gênero (*). Segundo conta o jornalista Roberto Muggiati, durante anos editor-chefe da revista Manchete e autor do livro Rock, o grito e o mito (1973), indispensável documento para quem quer entender o rock, foi com o cruzamento do rhythm and blues com o country & western branco que, no início dos anos 50, surgiu o gênero que o radialista Alan Freed, sob o pseudônimo de Moondog, batizou de rock’n’roll, nome que, na gíria do blues, significava “deitar e rolar”, sugerindo um ato sexual.

Enquanto isso, na Inglaterra, onde predominava a música orquestrada, foi preciso o desgaste do rock’n’roll nos EUA para ele se revigorar no Reino Unido. Os Beatles vieram para por abaixo a idolatria de galãs fabricados como Pat Boone e Paul Anka, que eram como Ricky Martin e Enrique Iglesias são hoje. A Inglaterra chegou na ressaca ianque e, uma vez que entrou, não saiu mais do circuito.

Com a popularidade do blues entre os ingleses, a primeira fase da “invasão britânica” foi comparada ao rhythm and blues. A imprensa especializada, nos idos de 1963 a 1966, classificava o som das bandas The Who(*), The Animals e Rolling Stones, como r&b. O som desses grupos era bem próximo disso, um blues ritmado. Também foi o caso do grupo norte-americano The Doors, que fazia rock psicodélico mesclado com blues. Jim Morrison, branco, era um bluesman completo, um poeta que cantava com a paixão e a rouquidão de um negro, a exemplo do inglês naturalizado californiano Eric Burdon.

Certamente, a cara do rhythm and blues nem de longe tem a ver com Babyface, Mariah Carey & cia.. A verdadeira cara do r&b nada têm de charmosa, e seu som é cru como é da natureza do mais autêntico blues.

NOTAS

(*)O r&b na prática não tem grandes diferenças com o blues. As diferenças ficam no contexto urbano (o blues de raiz é rural), no uso das guitarras elétricas e num ritmo mais dançante. Nomes como Howlin' Wolf, Muddy Waters, Buddy Guy etc. transitam entre os dois estilos. No Brasil, o blues adota mais a estrutura urbana do r&b.

O grupo inglês The Who, ícone do movimento mod, foi lançado para o estrelato em 1964 com o lema The Maximum Rhythm And Blues ("O máximo em rhythm and blues").

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O ESTADO DA GUANABARA

AEROFOTO DO FOTÓGRAFO DA REVISTA MANCHETE, CARLOS BOTELHO, PUBLICADA TAMBÉM NA ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS DO IBGE. A FOTO DATA DE 1956, QUANDO A NOVA CAPITAL, BRASÍLIA, COMEÇOU A SER CONSTRUÍDA, TRANSFORMANDO DEPOIS O ANTIGO DISTRITO FEDERAL NA GUANABARA.

Do portal WikipediaA Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, no território do atual município do Rio de Janeiro. A palavra guanabara tem sua origem no tupi guarani guaná-pará, e significa "o seio-mar".

HISTÓRIA

Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada no Município Neutro da Corte, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser a capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, a cidade transformou-se em capital da República, o município neutro em distrito federal e a província em estado. Com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Cons…

30 ANOS SEM KAREN CARPENTER

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A cantora da dupla de irmãos Carpenters, a belíssima Karen Carpenter, faleceu no dia 04 de fevereiro de 1983. Talvez esta postagem pareça tardia, mas há exatos 30 anos a notícia do falecimento da cantora já estava espalhada pelos quatro cantos e repercutia mundialmente, causando tristeza profunda em todos os seus fãs.

Os Carpenters podem não ter sido musicalmente excepcionais, mas eram bastante talentosos, pelo talento de pianista de Richard Carpenter e da bela voz de Karen, que por sinal tinha uma beleza sexy que ela mesma não pôde prestar atenção, tão preocupada em se tornar magra que a fez vítima de anorexia nervosa. Pena, porque Karen era linda e desejadíssima mesmo "cheinha" e, se viva estivesse, continuaria belíssima, apenas adaptando suas feições para os 63 anos que poderia completar no próximo dia 02 de março.

Algumas curiosidades notáveis dos Carpenter: os irmãos chegaram a gravar cover da banda progressiva Klaatu e Karen era eventual bater…

TV EXCELSIOR

TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista co…

PRIMEIRA TRANSMISSÃO DE TV A CORES NO BRASIL FAZ 40 ANOS

Por Alexandre Figueiredo

Hoje faz 40 anos em que se realizou a primeira transmissão televisiva a cores, a partir da TV Difusora de Porto Alegre (hoje TV Bandeirantes local) e a TV Rio (Guanabara, atual TV Record Rio). A TV Globo, do Rio de Janeiro, também participou da façanha.

O evento escolhido foi o desfile tradicional da Festa da Uva, na cidade gaúcha de Caxias do Sul. A foto em questão, aliás, mostra um ônibus "bicudinho" da Mercedes-Benz, provavelmente O-326, que a TV Rio enviou para o Sul do país.

Era tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar e prefeitos com algum senso de oportunismo instalaram aparelhos de TV pelas ruas da cidade para que a população visse a novidade. Aliás, foi assim que Assis Chateaubriand fez para atrair a multidão para a então recém-inaugurada televisão, em vários pontos-chave da cidade de São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Em ambos os casos, eventuais falhas técnicas ocorreram.



Mas quem imaginasse que a televisão a cores era u…

ÍCONE DO PUNK E PÓS-PUNK, MARK E. SMITH MORRE AOS 60 ANOS

Por Alexandre Figueiredo

Patética a cultura rock brasileira dos anos 90 para cá. A chamada "nação roqueira" passou a ter preguiça para garimpar músicas e artistas menos conhecidos, se apegou aos "grandes sucessos" e foi tomada de um superficialismo imenso.

Pior: até uma aberração chamada "fãs de uma música só" apareceram, agindo feito uns idiotas usando as mãos para fazer guitarra-aérea (air guitar) ou então para usar os dedos para forjar o tal "gesto do capeta". Essa idiotização da cultura rock não permite que se conheçam nomes seminais lá fora, mas que são pouco conhecidos aqui.

No punk rock, por exemplo, as bandas de Manchester, Buzzcocks e The Fall, consideradas seminais e fundamentais no Reino Unido tanto quanto Sex Pistols e The Clash, são imperdoavelmente desconhecidas até por punks mauricinhos que imaginam que gostar de Offspring é tudo para a cultura punk. E isso num contexto em que outro grupo de Manchester, Joy Division, é conhecido …

MORREU A ATRIZ E BAILARINA HELOÍSA MILLET

Faleceu na última sexta-feira, no Rio de Janeiro, a atriz e bailarina carioca Heloísa Millet, aos 64 anos de idade, vítima de câncer. Tendo sido conhecida pelo seu trabalho de bailarina na abertura do programa Fantástico, da Rede Globo, em 1974, ela depois foi levada pelo diretor de teatro Zbigniew Ziembinsky para seguir carreira de atriz.

Ao saber do sucesso como bailarina da abertura do programa, Heloísa teve a impressão que relatou numa entrevista de 1994: “Sou pequena, baixa, e quando fiz aquela abertura, virei um mulherão de dois metros de altura. Então, acabaram-se os meus complexos".

Depois, ela fez uma personagem, Betina, na novela Estúpido Cupido, em 1976, e a esse trabalho seguiram-se outros nas novelas Espelho Mágico (1977), Te Contei? (1978), Feijão Maravilha (1979), Marrom-glacê (1979) e Elas por Elas (1982), todas na Globo.

Heloísa também participou da minissérie Terras do Sem Fim (1981) e no elenco do humorístico Estúdio A...Gildo (1982), comandado por Agildo Rib…

TV PAULISTA: ADVOGADOS TENTAM APRESSAR JULGAMENTO CONTRA A TV GLOBO E OS HERDEIROS DE ROBERTO MARINHO

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Quem é mais jovem não viveu a fase em que, antes da TV Globo de São Paulo, o canal 5 era da TV paulista, originalmente uma propriedade do deputado federal Oswaldo Junqueira Ortiz Monteiro, político com passagens pelo PTB, PST, ARENA e PDS. Foi vendida para as Organizações Victor Costa, nome do ex-diretor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro que foi empresariar rádios e concessões de TV no eixo Rio-São Paulo.

Morrendo Victor Costa em 1959, seus herdeiros começaram a arrendar e vender emissoras - a Rádio Mundial do Rio de Janeiro foi arrendada para o fundador da LBV, Alziro Zarur - e, em 1966, vendem o espólio restante para as Organizações Globo, fazendo com que a TV Paulista virasse TV Globo (e é por isso que eu pude ver Sílvio Santos, um dos ex-astros da TV Paulista, na tela da Globo, coisa que hoje soaria estranha).

Os herdeiros de Ortiz Monteiro - ou Junqueira Ortiz, como também era conhecido - nunca aceitaram essa transação, que afirmam ter sido cheia de ir…

REVISTA CAPRICHO JÁ FOI PARA JOVENS ADULTAS

Hoje a famosa publicação da Editora Abril, a revista Capricho, é uma revista para o público adolescente feminino. Desde a década de 80 segue essa orientação, divulgando para o público brasileiro os ídolos teen que fazem sucesso nos EUA, principalmente os ídolos pop em geral.

Mas a origem da Capricho era completamente diferente do seu perfil atual. A revista foi lançada no dia 18 de junho de 1952 - curiosamente, mesma data do nascimento de Isabella Rossellini, atriz e modelo, símbolo da beleza que herdou da mãe, atriz Ingrid Bergman, e passa também para a filha, Eletra - e, a princípio, era quinzenal. Foi a primeira revista que a Abril lançou dedicada ao público feminino. Em novembro, a revista passou a ser mensal, por decisão do proprietário da Abril, Victor Civita, e esta periodicidade vale até hoje, apesar de eventuais períodos em que a revista era publicada quinzenalmente.

A revista misturava dicas para o dia-a-dia feminino, além de reportagens sobre questões sociais que interessa…

RICK SPRINGFIELD PENSOU EM COMETER SUICÍDIO EM 2017

O MÚSICO AUSTRALIANO RICK SPRINGFIELD, TRANSFORMADO EM ANIMAÇÃO NO SERIADO MISSÃO MÁGICA, DA FILMATION, EXIBIDO NO BRASIL.

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Em atividade até hoje, o cantor e guitarrista australiano Rick Springfield revelou, em entrevista recente ao Sirius XM, que em 2017 pensou em se suicidar. O músico sofre de depressão e compreendeu os dramas que levaram os roqueiros Chris Cornell, do Soundgarden, e Chester Bennington, do Linkin Park, ao ato extremo.

Rick, felizmente, não levou adiante tal decisão, mas resolveu falar do tema em seu disco mais recente. Desejamos que ele tenha vida longa e nunca pense em se suicidar, mas que ele possa também alertar ao mundo que ninguém se suicida por pura diversão, mas por viver dramas graves e profundos em suas vidas pessoais.

Em tempo: Rick Springfield marcou a infância de muitas pessoas através do desenho animado Missão Mágica (Mission Magic), que a Filmation (produtora do seriado He-Man) produziu em 1973. Rick dublava a si mesmo - seu per…

ESCÂNDALO DE ASSÉDIO SEXUAL "UNE" TRÊS ATRIZES DOS ANOS 1960

Por Alexandre Figueiredo

Uma grande ironia dos últimos dois anos é que as denúncias de assédio sexual e estupro que se tornaram um escândalo em Hollywood acabou "juntando" três atrizes veteranas da década de 1960, grandes símbolos sexuais daquela época e que tiveram um marido em comum, o cineasta Roger Vadim, já falecido.

A primeira a comentar sobre o escândalo foi a atriz estadunidense Jane Fonda, em outubro de 2017. A atriz contou que foi estuprada na infância e, devido ao trauma sofrido na ocasião, criou uma organização para prevenir a gravidez precoce, além de apoiar iniciativas contra a violência sexual contra mulheres e meninas. Jane é conhecida pelo ativismo político e social.

Sobre o caso Harvey Weinstein, poderoso executivo e produtor de Hollywood, Jane, que se consagrou como musa pelo filme de ficção científica Barbarella, dirigido por Vadim em 1968, lamenta não tê-lo denunciado antes, pois já sabia das práticas de assédio e estupro dele:

"Queria ter dito ant…