KING CRIMSON - PROGRESSISTA POR EXCELÊNCIA


O guitarrista Robert Fripp, líder do King Crimson: preocupação com o experimentalismo e a inovação. Fripp era admirado até por Jimi Hendrix, de quem foi grande amigo.

O King Crimson é considerado um dos grupos experimentais do rock progressivo, que iam além da junção de rock e música clássica e alcançavam o jazz e a música concreta. Em todas as suas formações, um único integrante e fundador traçava o estilo do grupo, ao lado dos inúmeros músicos que o acompanhavam. Este integrante é o guitarrista Robert Fripp.

Nascido na localidade de Dorsetshire, na Inglaterra, Fripp, já aos nove anos de idade, em meados dos anos 50, desejava ser músico. No entanto, ele não se entusiasmava muito com sua vocação, se julgando "desafinado e sem qualquer senso de ritmo". Os pais resolveram pôr Fripp para aprender guitarra em aulas particulares e em dois anos o rapaz já podia tocar a canção "Jingle Bells" - o famoso hino do Natal de todo o mundo - para os pais.

Uma vez Fripp comenta sobre esta época: "Foi então que me perguntei se valeu a pena muito esforço, porque eu era realmente desafinado e sem ouvido musical, e era tão sem ritmo que nem sequer eu conseguia dançar. E cheguei à conclusão de que eu precisava da música e ela precisava de mim".

Assim, Robert Fripp passou a estudar música intensamente, a colecionar muitos discos, a ouvir desde os primeiros discos de Elvis Presley. No entanto, seu know how musical, inicialmente, era voltado para o rock dos anos 50 e o pop adocicado dos anos 60. Era assim o estilo básico de sua primeira banda profissional, The Ravens. Ganhou dinheiro e foi estudar Economia na Universidade de Bournemouth. Ainda se sentia inseguro quanto ao seu talento, se achando um péssimo músico para bailes, apesar de realizar esta tarefa regularmente.

Em 1967 Robert Fripp chega a Londres e encontrava o antigo colega de conservatório, Greg Lake. A agitação noturna e o universo da música fizeram Fripp abandonar Economia e aumentar as horas de estudo musical. Lake e Fripp conheceram os irmãos Peter e Michael Giles, o pianista Ian McDonald e o poeta Peter Sinfield. Eles se reuniram para um propósito: formar um grupo com sonoridade intelectual e apurada, longe do rock dos Rolling Stones, Cream e Pink Floyd. Seria, segundo eles, uma "orquestra de câmera do rock".

A princípio apenas Robert Fripp e os irmãos Giles executaram o plano, formando o trio Giles, Giles & Fripp, em 1968. Peter Giles era o baterista, seu irmão Michael tocava baixo e Fripp era o guitarrista. Gravaram, pelo selo Deram, o álbum The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp, em setembro daquele ano. O disco contava com a participação de vários musicos, dos quais se destaca Nick Hopkins, integrante do Jeff Beck Group que constantemente era tecladista convidado dos Rolling Stones. No entanto, o grupo de Fripp e dos irmãos Giles teve curta duração, por causa das inúmeras discussões. Fripp decide então um novo projeto, um grande conjunto.

Assim, Fripp e Michael Giles permaneciam nas suas funções respectivas, e foram chamados McDonald, para os teclados, e Sinfield, para as letras e a aparelhagem de som. Para completar o grupo, entra Greg Lake para assumir voz e baixo. O grupo, sem nome, se apresentava pelos arredores de Londres e seus modestos concertos, bancados pela própria banda, não rendiam, cada um, mais do que quatro libras.

Em julho de 1969, no famoso concerto em memória do guitarrista Brian Jones, morto naquele mês, os Rolling Stones procuravam uma banda de abertura para a ocasião. Vendo a chance de projeção, Fripp assumiu a missão e, na ocasião, criou o nome da banda baseado em uma das canções compostas: "In the court of Crimson King". Assim, a banda passou a se chamar King Crimson.

A apresentação era um constraste com o estilo da banda principal. O King Crimson era um grupo intelectual, com músicas elaboradas e postura sóbria, enquanto os Stones faziam rock básico, agressivo e sensual. Mesmo assim, o King Crimson se tornou popular e ganhou um contrato com a EG Management, que criaria o selo EG Records, atualmente subsidiário da Virgin Records.

A essas alturas Robert Fripp era respeitado por ninguém menos que Jimi Hendrix, que se tornaria seu amigo. Uma vez Hendrix falou para Fripp: "Toque minha mão esquerda, cara, está perto do meu coração". Quando Hendrix morreu, em 18.09.1970, Fripp acabou sendo uma espécie de herdeiro direto, uma vez que, como o músico de Seattle, também fazia experimentos com a guitarra.

A música que inspirou o nome da banda foi escolhida para ser o nome também de seu primeiro LP, In The Court Of Crimson King, lançado em 10 de outubro de 1969. A capa, de estilo psicodélico, mostrava a face de um sujeito - o "Rei Escarlate"? - com expressão de assustado, foi feita por Barry Godber, que morreu poucos meses depois, em fevereiro de 1970, de ataque cardíaco, com apenas 24 anos.

In The Court Of Crimson King foi bem recebido pela crítica e pelo público, mas no Brasil só foi lançado em 1972. Em 1988, o álbum é relançado no Brasil com a atitude lamentável de omitir o ano original, "maquiando" o ano de lançamento para o então ano do relançamento. Essa fraude foi cometida frequentemente entre 1985 e início de 1990 pela gravadora WEA, e foi tão banalizada que outras gravadoras acabaram também fazendo das suas.

O primeiro álbum do King Crimson é um dos clássicos do rock progressivo, aliás um clássico peculiar. Não é um disco de progressivo de linha medieval ou barroca, como viriam a ser Jethro Tull, Gentle Giant e Triumvirat. Mas também não é um disco de progressivo espacial da linha do Pink Floyd pós-Syd Barrett, do Can e do Eloy. King Crimson era por vezes erudito, mas era também experimental, influenciado pela música concreta. Mas aqui vemos que outro grupo, o Gentle Giant, também tem seus momentos "concretos".

Em 1969, no final da turnê pelos EUA - no qual participavam também The Band, Jefferson Airplane, Janis Joplin, Rolling Stones, entre outros - , McDonald e Michael Giles alegam estar cansados de tocar na banda. Se sentiam "aprisionados". McDonald decide sair, mas Michael Giles ainda continua na banda. Seu irmão Peter volta, o saxofonista Mel Collins e o pianista de jazz Keith Tippet são convidados e o King Crimson grava seu segundo álbum, In The Wake of Poseidon, lançado em maio de 1970.

Greg Lake grava baixo e voz apenas em cinco faixas deste álbum, uma vez que ele foi convidado pelo multitecladista Keith Emerson para completar o trio que já contava com Carl Palmer na bateria. Era o famoso Emerson Lake & Palmer que tirava de uma vez por todas o músico Greg Lake do King Crimson.

Com a saída de Lake no meio das gravações, Fripp chamou seu amigo Gordon Haskell para assumir o lugar de Lake, tanto no baixo quanto na voz. Ele gravou as faixas restantes e Fripp completou o álbum com um número instrumental, inserindo na trajetória do King Crimson o uso do instrumento mellotron, instrumento que já havia sido usado pelo Moody Blues.

Com tanto vai-e-vem, somente Fripp e Sinfield restam da formação original do King Crimson para gravar o terceiro LP, Lizzard. Ele convida vários músicos de jazz para integrar a banda, e não parece entusiasmado com a banda, depois do complicado ano de 1970, muito diferente do bem-sucedido ano de 1969. In The Wake of Poseidon praticamente não foi lançado em concertos, a banda se dissolveu quase que por completo. Até Peter Sinfield abandona o grupo no início de 1971.

Lizzard é o disco que marca a influência explícita do jazz no som progressivo do King Crimson. É o chamado 'jazz-rock sinfônico", em que cabem oboé, flauta, mellotron, trumpete. A guitarra de Robert Fripp segue num estilo anárquico. Apesar do momento tenso, Lizzard mostra um King Crimson em boa forma, com o desempenho de músicos renomados.

Em 1972, depois de uma turnê fracassada nos EUA e do sofrido álbum ao vivo Earthbound, Fripp anuncia o fim do King Crimson e se retira para um pequeno sítio em Dorset. Mas no fim do mesmo ano Fripp anuncia a volta do grupo, com John Wetton (que, juntamente com Carl Palmer e outros músicos, criaria nos anos 80 a banda Asia, dos hits "Only time will tell" e "Heat of the moment"), o violinista sinfônico David Cross, o ex-baterista do Yes Bill Brufford e o "percussionista" Jamie Muir (responsável por tocar latas velhas, gongos, panelas, bacias d'água etc.). O jovem poeta Richard Palmer Jones seria o letrista dessa nova formação, que grava Largue Tongues In Aspic, no início de 1973.

Nessa época, Robert Fripp se entusiasma a ponto de afirmar que a música do Crimson é uma pura energia sexual, a música do orgasmo. Nesse tempo ele faz ataques, durante entrevistas, ao Emerson Lake & Palmer. Segundo Fripp, o King Crimson representa a música do futuro, enquanto o ELP representa a do passado, pois necessita de uma tecnologia sofisticada prestes a ser extinta.

Animado com o desempenho de Largue Tongues In Aspic e da turnê norte-americana - será que um grupo inglês só "acontece" no mundo fazendo turnê nos EUA? Com a palavra, os leitores - realizada em 1973, o King Crimson grava, em 1974, o álbum Starless And Bible Black, não sem antes Fripp gravar com Brian Eno (ex-integrante do Roxy Music), a segunda metade do álbum No pussyfooting.

Starless And Bible Black se torna outro fracasso, a turnê idem (apesar dela render um álbum ao vivo, USA, também de 74, e uma série de gravações piratas), e Robert Fripp se desanima com a banda. O King Crimson grava o álbum Red e Fripp anuncia o fim da banda. Iria investir em outros projetos. Em 1976 lançou uma antologia em álbum duplo, A Young Person's Guide To King Crimson, que tem um livreto em que o próprio Fripp fala da trajetória da banda até o declarado fim em 1975.

Robert Fripp comenta, na época, a respeito de sua banda: "Acabar o Crimson foi uma decisão tranquila. Tive três motivos. Primeiro, por razões históricas. Muito em breve o mundo, tal como o conhecemos, vai acabar. O fim será entre 1990 e 1999, e aí veremos se vamos conseguir nascer uma nova era ou não. O Crimson era uma coisa do velho mundo: complicado, inútil. O novo mundo é o da flauta de bambu, e não do sintetizador. Segundo, porque ele era um meio importante de eu aprender coisas, através da experiência dos outros. (...) E, em terceiro lugar, porque as energias em ação, no momento, no Crimson, não eram oportunas para o meu momento de vida. Só sobreviverão no novo mundo as unidades inteligentes, dinâmicas, pequenas e práticas. Eu sou inteligente, dinâmico, prático e muito pequeno. Eu fico comigo".

Fripp passou, a partir de então, a fazer diversos trabalhos. Gravou com Brian Eno, Blondie, Talking Heads, Peter Gabriel, David Bowie. Fez também trabalhos solo e um até de música eletrônica. Integra o grupo League Of Gentlemen, do qual é um dos criadores, no final dos anos 70. O grupo lança um único álbum. Recentemente, conforme publicado em edições de 2000 da extinta revista Melody Maker, o League Of Gentlemen retornou as atividades, sem Fripp.

A volta do King Crimson, aparentemente, não iria acontecer. Com os problemas na banda League Of Gentlemen, depois da turnê no Reino Unido, a banda se desintegra aos poucos e Fripp decide criar o grupo Discipline, chamando primeiro o seu amigo de longa data Bill Bruford.

Fripp lança uma teoria sobre a produção artística. O guitarrista lança três divisões. A primeira divisão, segundo ele, é a de cultura de massa, a segunda é aquela que garante sobrevivência e prestígio profissional e a terceira é a de pesquisa, de viver um estilo de vida civilizado mas sem chances de defesa. O Discipline seria um grupo de primeira divisão.

Além de Bruford, Fripp convidou o guitarrista Adrian Belew, ex-músico de Frank Zappa e que havia tocado na fase "alemã" de David Bowie (sobretudo no álbum "Lodger"). Para completar, foi chamado para o baixo Tony Levin, músico que tocou em vários discos de Peter Gabriel. Por sugestão de Belew, o nome Discipline se restringiu a um dos álbuns e a banda passou a ter o nome de King Crimson.

O grupo grava três LPs, conforme contrato assinado com a EG Records. O primeiro, Discipline, saiu em 1981, o segundo, Beat, inteiramente dedicado a Jack Kerouac, em 1982, e o terceiro, Three of a perfect pair, em 1984.

O estilo da banda é um rock experimental, com elementos de música concreta, em composições de toda a banda nas melodias e de Adrian Belew em quase todas as letras. Belew se torna o vocalista e a trilogia se torna mais um artigo fundamental do King Crimson, que, se não tinha a erudição sonora de antes, também não se tornava um produto fácil para as paradas de sucesso, como se tornou outro ícone do progressivo inglês, Genesis.

Depois de uma série de concertos em 1984, o King Crimson não dá novas notícias e parece sumir discretamente da cena e da mídia. Depois dessa trilogia, Fripp se dedicava novamente ao League Of Gentlemen. O King Crimson parecia mais uma vez um dinossauro adormecido, apesar de não haver qualquer declaração de extinção, como aquela de 1976.

Em 1989, o único envolvimento de Fripp com o King Crimson está na participação da remasterização de todos os CDs da banda, principalmente o primeiro, In the court of Crimson King, que comemorava 20 anos de lançamento na época.

Em 1994, no entanto, a formação dessa trilogia volta a se reunir, gravando o álbum Vrooom. Mas Bruford saiu do grupo tempos depois, se dedicando a outros projetos. Mas, antes de sua saída, já havia outro baterista, Pat Mastelotto, a princípio como programador de bateria eletrônica.

A formação, além de Mastelotto, contava com Trey Gunn, tocando stick (uma espécie de guitarra/baixo de dez cordas). Durante Vrooom e o álbum seguinte, Thrak, de 1995, os quatro da trilogia 1981-1984 do King Crimson tocavam junto com os dois. Depois Bruford saiu do grupo, e em seguida Levin, que foi seguir carreira solo.

O mais recente lançamento do King Crimson foi Heavy ConstruKtion, de 2000. Trata-se de um álbum ao vivo, durante a turnê européia do mesmo ano realizada pela banda. A formação do álbum foi de Adrian Belew (guitarra e voz), Robert Fripp (guitarra), Trey Gunn (baixo) e Pat Mastelotto (bateria). Como se vê, a música do futuro sonhada por Fripp continua em dia na virada e entrada do novo milênio. Que viva o Rei Escarlate, progressista por excelência.

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