sábado, 27 de fevereiro de 2010

GLÓRIA MAGADAN - A RAINHA DAS TELENOVELAS



Do Blog Virtuália

Para que a história da telenovela no Brasil seja contada e compreendida, é essencial que se escreva nela o nome de Glória Magadan. A escritora, nascida em Cuba, foi a mais importante novelista da década de sessenta, essencial no início do gênero, tornando-se a mulher mais poderosa da televisão da época.

Se Janete Clair foi a consolidação do gênero, Glória Magadan foi o seu alicerce. Suas histórias folhetinescas eram desprovidas de qualquer bom senso ou apego à realidade. Era a ilusão, a fantasia e o sonho na forma bruta, às vezes grotesca. Distanciados da realidade brasileira, os folhetins da autora traziam histórias mirabolantes e exóticas, que podiam ter como cenário o deserto do Saara, o Japão medieval, a corte francesa do século XVIII. Amarradas de forma consistente, mas longe de uma lógica narrativa, as suas aventuras fascinaram o então incipiente público das telenovelas, fazendo da TV Globo uma máquina de produção do gênero, assegurando a audiência que necessitava na época que se lançou como a mais nova emissora de televisão do Brasil.

De 1965 a 1969, Gloria Magadan tornou-se a principal novelista da TV Globo, acumulando o cargo de diretora do núcleo de teledramaturgia da emissora, o que lhe conferiu um poder quase que sem limites. Poderosa, ela era temida por atores, autores e diretores. Uma palavra de desabono da cubana, e determinadas carreiras de ator ou atriz, poderiam cair em desgraça, sendo riscada dos bastidores da televisão. Caíram no seu desagrado nomes de poderosos como o diretor Daniel Filho, o ator Tarcísio Meira, e até a novelista Janete Clair, que em princípio de carreira, atraiu para si a inveja de Glória Magadan, insatisfeita que ela fizesse novelas com maior sucesso do que as suas.

O estilo dramalhão e inconsistente de Glória Magadan foi, aos poucos, tornando-se obsoleto, até que se extinguiu de vez, quando as novelas passaram a ser o principal gênero da televisão brasileira e o público passou a ser mais seletivo, exigindo lógica e uma aproximação efetiva das personagens dos folhetins com a realidade brasileira. Assim, Glória Magadan foi engolida por suas tramas exóticas, sendo demitida da TV Globo, em 1969. Terminava o reinado daquela que se tornara a mulher mais temida e muitas vezes, a mais odiada pelos atores. Terminava a era de Glória Magadan na TV Globo, aonde chegou a ser chamada de “Rainha das Telenovelas”. Esquecida nos tempos atuais, o seu nome é imprescindível na história da novela brasileira, da poderosa TV Globo e da própria teledramaturgia do país.

Glória Magadan Chega à Televisão Brasileira

Maria Magdalena Iturrioz y Placencia nasceu em Cuba, numa data que foge aos arquivos biográficos disponíveis. Adotando o pseudônimo de Glória Magadan, escreveria para sempre o seu nome na história da teledramaturgia latina americana, tornando-se uma das mais famosas novelistas do Brasil.

A autora deixou Cuba após a vitória de Fidel Castro e à instalação dos ideais revolucionários naquele país, refugiando-se em Porto Rico. Seria neste pequeno país da América Central que Glória Magadan passaria a trabalhar na Telemundo, estação de televisão local. Ali, seria contratada pela agência publicitária da Colgate-Palmolive, principal patrocinadora das telenovelas na América Latina. Ainda em Porto Rico, escreveu a novela “Yo Compro Esa Mujer”, em 1960. A agência enviou-a para desenvolver telenovelas que patrocinaria na Venezuela, país em que faria uma nova adaptação de “Yo Compro Esa Mujer”, para a RCTV. Em 1964 seria transferida para o Brasil, chegando a São Paulo como supervisora da seção internacional de novelas da Colgate-Palmolive.

No Brasil, passou a supervisionar a adaptação de textos de telenovelas de autores latino-americanos para a extinta TV Tupi. Supervisionou várias adaptações feitas por Walter George Durst, como “O Sorriso de Helena”, “Gutierritos, o Drama dos Humildes”, “Teresa”, “O Cara Suja”, “A Outra” e “A Cor da Pele”; e a adaptação de Daniel Más que resultou na telenovela “Um Rosto de Mulher”.

Glória Magadan chegaria a TV Globo no final de 1965. Contratada pela recém inaugurada emissora do jornalista Roberto Marinho, marcaria a sua estréia como autora de telenovelas brasileiras com o folhetim “Paixão de Outono”, protagonizado por Yara Lins, Walter Forster, Leila Diniz e Reginaldo Faria. A novela iria inaugurar o horário das 21h30 da TV Globo, dando início a uma bem sucedida carreira de novelista, que faria de Glória Magadan a mulher mais poderosa da televisão brasileira dos anos sessenta.

Surge o Primeiro Serial Killer Misterioso das Telenovelas

O primeiro sucesso veio em 1966, com “Eu Compro Essa Mulher”, história que Glória Magadan dizia, tinha inspiração no romance “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. A novela marcou o início da gestão de Walter Clark na TV Globo, um dos responsáveis pela ascensão da emissora, que se iria transformar na maior do Brasil e uma das maiores do mundo. Dramalhão totalmente desprovido da realidade brasileira, trazia como protagonistas Yoná Magalhães e Carlos Alberto, que ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes, seriam transformados nos maiores atores da televisão brasileira daquela década. No meio da história, Carlos Alberto e Yoná Magalhães casaram-se na realidade. Destacou-se na trama, a irreverente Leila Diniz, no papel da antagonista Úrsula. “Eu Compro Essa Mulher” definia bem o estilo da autora, trazendo na trama heróis perfeitos e lineares, heroínas sofridas e bondosas, sem quaisquer traços humanos, e vilões sem quaisquer vestígios de alma. O maniqueísmo da trama era explorado minuciosamente, sem qualquer compromisso com a realidade. A novela foi sucesso absoluto no Rio de Janeiro, alcançando relativa audiência em São Paulo.

Em 1966, Glória Magadan criou um dos seus maiores sucessos, “O Sheik de Agadir”, baseada no romance “Taras Bulba”, de Nicolai Gogol. Desta vez os delírios da autora centraram a história em Agadir, no Marrocos, transformando as dunas de Cabo Frio, litoral fluminense, no deserto do Saara. Nazistas, árabes e franceses são os protagonistas de uma história exótica, que mostra de forma fantasiosa a invasão da França pelos exércitos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Henrique Martins protagoniza a trama, no papel do Sheik de olhos azuis, Omar Ben Nazir, que se iria apaixonar pela princesa francesa Jeanette Legrand, personagem vivida por Yoná Magalhães. Grandes aplausos viriam para a Madelon de Leila Diniz, popularizando a atriz para o grande público brasileiro, e Amilton Fernandes, como o grande vilão Maurice Dumont.

Mas o grande destaque da trama foi a estréia nas novelas do “serial killer”, gênero que se tornaria parte de grandes folhetins televisivos futuros. Durante toda a trama aparecia o misterioso “Rato”, que eliminava cruelmente várias personagens, enforcando-os na maioria das vezes. Nas misteriosas aparições do “Rato”, era mostrado em cena apenas um par de luvas negras. O enigma despertou a curiosidade do público, o que levou a TV Globo a promover um concurso para que se tentasse descobrir a identidade do assassino. A pergunta ecoava na emissora, “Quem matou?”, mas nenhum telespectador conseguiu descobrir quem era o assassino. Impossível, tamanha a incoerência da autora, que revelou a identidade do “Rato” como sendo uma mulher, Éden de Bassora, personagem da atriz Marieta Severo. Até hoje não se explica como a atriz, então com 19 anos, de corpo franzino e frágil, conseguiu estrangular robustos nazistas. Isto era o universo de Glória Magadan, completamente sem coerência ou compromisso com o bom senso, mas que levava o público ao delírio, numa época em que a televisão brasileira ainda não descobrira uma linguagem a seguir.

Um dos personagens morto pelo “Rato” foi Jean, vivido por Sebastião Vasconcelos. O ator trazia barba e bigode que fizeram a autora se lembrar do líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, despertando-lhe a animosidade, por isto ela eliminou-o da trama. Sobre as mortes que passariam a fazer parte das tramas, Gloria Magadan, já poderosa novelista e diretora de dramaturgia da TV Globo, declararia:

“Primeiro crio os personagens. Depois é que nasce a história. Quando começo a escrever, fico obcecada, penso na trama o tempo todo. Pesquiso pessoalmente como os consumidores sentem os personagens e as situações. Quando constato que o público não aceita bem um personagem, reduzo seu papel, ou mato-o, sem o menor remorso. Nunca me arrependi de matar. Quem cai em desgraça junto ao público está liquidado.”

O Grande Apogeu da Autora

As novelas de Gloria Magadan alcançariam o auge em 1967. Naquele ano, ela chegou a escrever duas novelas simultaneamente, “A Rainha Louca”, para o horário das 21h30, e “A Sombra de Rebeca”, inaugurando um novo horário de telenovelas na TV Globo, o das 20 horas.

“A Sombra de Rebeca” reuniu em um único folhetim, as versões de “Madame Butterfly” de Puccini, e “Rebecca”, romance de Daphné de Murior. Yoná Magalhães era a protagonista, vivendo a japonesa Suzuki, com olhos orientais conseguidos através de uma densa maquiagem. Seu par romântico era, mais uma vez, o marido e ator Carlos Alberto. No final da trama, uma desilusão amorosa levava Suzuki a cometer um haraquiri. Glória Magadan só não explicou como a sua protagonista cometia um ato restrito apenas aos homens japoneses, afinal sua obra não carecia de tais explicações.

“A Rainha Louca” levou os requintes de grande produção, característica que se tornaria uma marca nas novelas da TV Globo. As cenas que se passavam no México, tiveram as gravações feitas naquele país, um luxo para a época. Inicialmente foi pensada como uma adaptação da vida do rei Luís XVI da França e da sua mulher, Maria Antonieta, no século XVIII. Mas a direção da Globo sugeriu que fosse ambientada no século XIX, no México. Assim, Luís XVI foi transformado no imperador Maximiliano e Maria Antonieta em Charlotte, tendo como protagonistas Rubens de Falco e Nathália Timberg, vivendo as personagens, respectivamente. A trama marcou a estréia de Daniel Filho na direção das novelas da emissora carioca. Durante o decurso da trama, o ator Paulo Gracindo foi um dos perseguidos pela autora. Vivendo o conde Demétrios, que tinha poderes sobrenaturais, uma espécie de Drácula, o ator alcançou sucesso diante do público.

Glória Magadan exigiu que ele fizesse caretas e contorções faciais, o que o ator recusou, assim, a personagem, que tinha uma grande participação no início da trama, foi desaparecendo ao longo do seu decorrer.
Foi ainda em 1967, que Janete Clair foi chamada por Glória Magadan para dar solução ao desastre que estava a ser a novela “Anastácia, a Mulher Sem Destino”, escrita por Emiliano Queiroz. O autor criara tantos personagens, que se perdera no meio da história. Janete Clair chegou na TV Globo, provocando um grande terremoto na trama, matando quase todo o elenco, deixando apenas vivos quatro personagens, dando um salto de vinte anos. Começando do zero, Janete Clair deu coerência à trama, e jamais deixou a TV Globo, transformando-se na sua maior novelista, inovando a linguagem e levando a obra de Glória Magadan à decadência.

A Decadência da Era Magadan na TV Globo

A partir da novela “O Homem Proibido”, que em São Paulo teve o título de “Demian, o Justiceiro”, as tramas exóticas de Glória Magadan entraram em decadência. Carlos Alberto vivia um justiceiro moldado no perfil do famoso Zorro, que vivia na Índia. Yoná Magalhães era a heroína da trama, que contava ainda, com um elenco luxuoso: Paulo Gracindo, Rubens de Falco, Mário Lago, Celso Marques, Marieta Severo, Cláudio Cavalcanti, Karin Rodrigues, Diana Morell, Emiliano Queiroz, José Augusto Branco e muitos outros.

“O Santo Mestiço”, de 1968, trouxe Sérgio Cardoso, grande astro da época, à emissora de Roberto Marinho. O ator fazia três papéis, e teve na novela, a primeira experiência desastrosa da sua carreira. Irritado, Sérgio Cardoso foi o primeiro a adotar uma postura concreta contra os textos de má qualidade escritos por Glória Magadan, que culminou em um movimento que iria tirar a autora da poderosa posição de diretora do núcleo de dramaturgia da TV Globo.

Com o passar dos anos, a televisão brasileira foi assumindo uma identidade própria, que tomou a telenovela como principal veículo que expressava esta linguagem. Era preciso que o folhetim adquirisse mais consistência e maior aproximação com o público, com a realidade do país. A primeira a perceber isto foi a TV Tupi, que lançou, em 1968, duas novelas com a linguagem coloquial das ruas brasileiras, “Antonio Maria”, de Geraldo Vietri e Walter Negrão, e “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso. A linha da TV Excelsior passou a investir nos épicos da literatura brasileira, trazendo para a televisão clássicos nacionais, como “A Muralha”, de Dináh Silveira Queiroz, e “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, distanciando-se das histórias dos castelos medievais ou dos desertos da Arábia das novelas da TV Globo.

Glória Magadan não se apercebeu de tais mudanças, insistindo nas histórias extravagantes, distantes da realidade de um Brasil em ebulição, cuja televisão era tomada por festivais da canção que renovavam a linguagem da música e das artes. Em 1968, deflagrada a Tropicália e os festivais históricos da MPB, a autora cubana insistia nas suas alucinações folhetinescas, escrevendo “A Gata de Vison”, novela ambientada no Estados Unidos da época da Lei Seca, com direito a gangster e às suas metralhadoras. A emissora ainda tentou uma inovação, trocou os dois tradicionais casais protagonistas da televisão, desta vez Yoná Magalhães fez dupla romântica com Tarcísio Meira, enquanto que Carlos Alberto fazia dupla com Glória Menezes na novela “Passo dos Ventos”, de Janete Clair. Não houve grande química entre os protagonistas, nem entre o público e a trama. No decurso da novela, a autora apaixonou-se pelo ator Geraldo Del Rey, trinta anos mais jovem do que ela, com quem teria iniciado um romance. Glória Magadan transformou a personagem de Del Rey em protagonista da trama, o que levou Tarcísio Meira a reclamar do destino que estava sendo dado ao seu personagem. Glória Magadan eliminou a personagem de Tarcísio Meira da trama, matou a protagonista vivida por Yoná Magalhães, criando-lhe uma irmã gêmea para ser a heroína e par romântico de Geraldo Del Rey. A novela foi um fracasso. Glória Magadan acusou Daniel Filho de dar maior atenção às novelas de Janete Clair, culpando-o do fracasso da sua trama, levando o diretor a demitir-se da TV Globo. Enciumada com o sucesso ascendente de Janete Clair, a cubana chegou a proibir a autora de ter contacto direto com o elenco.

Em 1969, Glória Magadan escreveu a sua última novela para a TV Globo, “A Última Valsa”, inspirada no filme “Moulin Rouge”, de John Houston. Foi a última viagem da autora ao mundo dos duques e imperadores europeus. Cláudio Marzo e Theresa Amayo foram os protagonistas da trama. O público diria, definitivamente, não ao estilo de Glória Magadan, transformando a novela em um fracasso. Glória Magadan, a mulher mais poderosa da televisão, a Rainha das Telenovelas, foi demitida da TV Globo, em 1969, obrigando a emissora a reestruturar a sua teledramaturgia, mudando a sua linguagem. A mudança veio com “Véu de Noiva” (1969), de Janete Clair, que trocou os cenários europeus e os desertos árabes pelas praias cariocas, pelo cotidiano brasileiro, encerrando de vez o universo de fantasia de Glória Magadan na TV Globo.

Após a demissão da emissora carioca, Glória Magadan foi contratada pela TV Tupi. Em 1970 escreveu para a emissora paulista “E Nós Aonde Vamos?”, trazendo no elenco Leila Diniz (última aparição da atriz em novela, pois morreria em um acidente aéreo em 1972), Geraldo Del Rey, Márcia de Windsor, Theresa Amayo, Jorge Dória, Ítalo Rossi, Eva Todor, Adriano Reys, Marieta Severo, Yara Amaral, Roberto Pirillo e Gracindo Júnior, entre muitos. Ela ainda tentou adaptar o universo da sua teledramaturgia à exigência dos novos tempos, escrevendo uma história longe dos conflitos dos nobres europeus, dos ciganos e dos sheiks árabes, modernizando a ação, tentando contar os problemas da juventude. Mas o estilo da autora era, definitivamente, o da fantasia sem coerência. A novela foi um fracasso. Glória Magadan, outrora poderosa e temida, viu a sua carreira de novelista encerrada no Brasil.

Diante do fracasso final de “E Nós Aonde Vamos?”, a autora deixou o país, indo morar em Miami, local de refúgio dos cubanos resistentes ao governo implantado por Fidel Castro. Nos Estados Unidos, escreveu folhetins românticos para livros e revistas. Em 1996, Glória Magadan submeteu uma sinopse à extinta TV Manchete, que trazia o título de “Homens Sem Mulher”. Sobre o projeto, a autora declararia:

“Há alguns anos submeti à Manchete uma idéia que ainda estou bastante segura de que alcançaria os recordes de Ibope. O título é "Homens Sem Mulher”. É sobre a inversão sexual.”

Não se sabe se as crises constantes que levaram a TV Manchete à falência foram as causas do projeto não ter vingado. Glória Magadan faleceu em Miami, em 27 de junho de 2001, completamente esquecida, longe do título que a fez a “Rainha das Telenovelas”.

OBRAS

1960 – Yo Compro Esa Mujer – Telemundo (Porto Rico)
1960 – Yo Compro Esa Mujer – RCTV (Venezuela)
1965 – Paixão de Outono – TV Globo
1966 – Eu Compro Essa Mulher – TV Globo
1966 – O Sheik de Agadir – TV Globo
1967 – A Sombra de Rebeca – TV Globo
1967 – A Rainha Louca – TV Globo
1968 - Yo Compro Esa Mujer - TV Argentina
1968 – O Homem Proibido (Demian, o Justiceiro) – TV Globo
1968 – O Santo Mestiço – TV Globo
1968 – A Gata de Vison – TV Globo
1969 – A Última Valsa – TV Globo
1970 – E Nós Aonde Vamos? – TV Tupi

Supervisão:

1964 – O Sorriso de Helena - TV Tupi
1964 – Gutierritos, o Drama dos Humildes - TV Tupi
1964 – Pecado de Mulher - TV Tupi
1965 – Teresa - TV Tupi
1965 – O Cara Suja - TV Tupi
1965 – A Outra - TV Tupi
1965 – A Cor da Sua Pele - TV Tupi
1965 – Um Rosto de Mulher - TV Globo

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O VERDADEIRO RHYTHM AND BLUES: MAIS CRU E MENOS "CHARMOSO"


HOWLIN' WOLF (CHESTER ARTHUR BURNETT) - COM ELE, NÃO HAVIA ESSA HISTÓRIA DE QUE RHYTHM AND BLUES ERA SOUL ROMÂNTICO.

Existe uma idéia equivocada de rhythm and blues. Essa idéia a mídia trabalha há anos, inserindo um “novo” significado para o longevo termo que é praticamente desvinculado de sua realidade original.

Só que a música r&b não é um tema de novela cantado por um Bryan McKnight, não é Celine Dion cantando uma “ode” ao Titanic. Não são os grupos de menudos – erroneamente classificados como “bandas” – ensaiando coro em documentários sobre eles mesmos. Não é esse funk melodioso e suave que já nos EUA recebe este indevido e pretensioso rótulo.

A distorção do significado de rhythm and blues se origina no Grammy, uma espécie de Oscar da música que, por isso mesmo, é comandado pelos burocratas da indústria, que, embora tenham alguma noção de música, às vezes muita teoria acadêmica, valorizam mais o aspecto econômico da coisa. Eles criaram a categoria rhythm and blues para premiar o chamado funk romântico, que nos bailes cariocas é conhecido como charm, numa rara demonstração de sensatez de um universo noiteiro em que funk e rap são termos com significados distorcidos.

O rhythm and blues, para quem conhece as raízes da música negra dos EUA, é uma evolução do blues, já no século XX, com o desenvolvimento da indústria fonográfica naquele país, que propiciou o aparecimento dos race records, discos de música negra, categoria vista com censura pela moralista sociedade branca ianque. Os race records se multiplicavam, porque, naquele apartheid social dos EUA (a regra dos “separados, mas iguais”), os negros tinham uma vida própria, separada e independente dos brancos, e a música negra expressava seus anseios, suas angústias, mágoas ou prazeres. O rhythm and blues seria, já na década de 1940, um ressurgimento do blues, só que mais ritmado, como sugere o nome, e mais sensual.

O r&b é o pai do rock e da soul music. Vemos em Ray Charles um dos que popularizaram o gênero (*). Segundo conta o jornalista Roberto Muggiati, durante anos editor-chefe da revista Manchete e autor do livro Rock, o grito e o mito (1973), indispensável documento para quem quer entender o rock, foi com o cruzamento do rhythm and blues com o country & western branco que, no início dos anos 50, surgiu o gênero que o radialista Alan Freed, sob o pseudônimo de Moondog, batizou de rock’n’roll, nome que, na gíria do blues, significava “deitar e rolar”, sugerindo um ato sexual.

Enquanto isso, na Inglaterra, onde predominava a música orquestrada, foi preciso o desgaste do rock’n’roll nos EUA para ele se revigorar no Reino Unido. Os Beatles vieram para por abaixo a idolatria de galãs fabricados como Pat Boone e Paul Anka, que eram como Ricky Martin e Enrique Iglesias são hoje. A Inglaterra chegou na ressaca ianque e, uma vez que entrou, não saiu mais do circuito.

Com a popularidade do blues entre os ingleses, a primeira fase da “invasão britânica” foi comparada ao rhythm and blues. A imprensa especializada, nos idos de 1963 a 1966, classificava o som das bandas The Who(*), The Animals e Rolling Stones, como r&b. O som desses grupos era bem próximo disso, um blues ritmado. Também foi o caso do grupo norte-americano The Doors, que fazia rock psicodélico mesclado com blues. Jim Morrison, branco, era um bluesman completo, um poeta que cantava com a paixão e a rouquidão de um negro, a exemplo do inglês naturalizado californiano Eric Burdon.

Certamente, a cara do rhythm and blues nem de longe tem a ver com Babyface, Mariah Carey & cia.. A verdadeira cara do r&b nada têm de charmosa, e seu som é cru como é da natureza do mais autêntico blues.

NOTAS

(*)O r&b na prática não tem grandes diferenças com o blues. As diferenças ficam no contexto urbano (o blues de raiz é rural), no uso das guitarras elétricas e num ritmo mais dançante. Nomes como Howlin' Wolf, Muddy Waters, Buddy Guy etc. transitam entre os dois estilos. No Brasil, o blues adota mais a estrutura urbana do r&b.

O grupo inglês The Who, ícone do movimento mod, foi lançado para o estrelato em 1964 com o lema The Maximum Rhythm And Blues ("O máximo em rhythm and blues").

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O PARENTESCO MUSICAL DE THE WHO E LED ZEPPELIN


ROGER DALTREY, DO WHO, COM OS MÚSICOS DO LED ZEPPELIN JIMMY PAGE E ROBERT PLANT.

O rock britânico é uma espécie de grande escola em que grupos diferentes são colegas entre si. Somente os pós-yuppies brasileiros, nos seus 55 anos de idade, com a juventude passada dentro de seus consultórios ou escritórios, entende ou prefere acreditar que os Beatles eram um ente isolado dentro do rock inglês, supostamente entrosado com orquestras e cantores românticos, mas deslocado do restante do rock daquele país.

Há muito o que se falar do coleguismo dos Beatles com as demais bandas de rock. Não apenas com os Rolling Stones, mas com Who, Cream, Yardbirds, Jimi Hendrix Experience (Jimi Hendrix foi músico norte-americano, mas esta banda ele formou quando viveu na Inglaterra), Deep Purple, Led Zeppelin, entre tantos outros.

Recentemente o vocalista do Who, Roger Daltrey, afirmou, no programa "6 Music" da rádio BBC, que está interessado em gravar um disco de blues com Jimmy Page, o músico-fundador do Led Zeppelin. O Who não declarou extinto, mas os problemas de audição do guitarrista Pete Townshend ameaçam o futuro da banda, que sobreviveu à morte de dois outros integrantes, o baterista Keith Moon, em 1978, e o baixista John Entwistle, em 2002.

Aliás foi Keith Moon o padrinho do grupo Led Zeppelin, pois, certa vez, em 1967, quando Moon conversava com Jimmy Page, este, que havia feito parte dos Yardbirds como baixista e depois guitarrista, estava formando uma banda na qual ele assumiria a guitarra. A banda se chamaria New Yardbirds e além de Page tinha o baixista John Paul Jones (que fez os arranjos orquestrais de "She's a Rainbow" dos Rolling Stones), o vocalista Robert Plant e o baterista John Bonham.

Keith Moon, ao ver um ensaio da nova banda, disse a Page, entusiasmado com a força sonora da apresentação, que o som do grupo parece um zepelin de chumbo. Jimmy Page achou interessante o comentário e viu na comparação uma sugestão de batismo para a banda, que passou a ser Led Zeppelin. Daí um certo parentesco musical entre os dois grupos, não fosse suficiente a afinidade musical dentro do cenário britânico.

Tanto o Led Zeppelin quanto o Who eram fortemente influenciados pelo blues. O Who chegou a se lançar como o "máximo em rhythm and blues, quando o r&b era um ritmo eletrificado e não um soul romântico, como muitos conhecem hoje.

Além disso, não foi apenas o Led Zeppelin que passou a fazer uma sonoridade mais pesada. O próprio Who, nos anos 70, passou a ter também um som mais pesado e agressivo. Ambos os grupos são grandes bandas de rock, famosas pelos seus músicos excepcionais. E se tornaram sinônimos de rock clássico, para quem conhece a história do rock autêntico. Para quem não conhece, vale a pena conferir os dois grupos, apesar das queixas de certos jovens mimados e falsamente rebeldes, que pensam que "rock clássico" é aquela pieguice poser metal que eles estão acostumados a ouvir nas piores rádios.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ANDY WARHOL


Do Portal UOL Educação

06/08/1928 - Pittsburgh, Pensilvânia, Estados Unidos
22/02/1987 - Nova York, Estados Unidos

Registrado como Andrew Warhola, era filho de pais originários da Eslováquia que migraram para os Estados Unidos durante a Primeira Grande Guerra.


Aos 17 anos, em 1945, entrou no Instituto de Tecnologia de Carnegie, em Pittsburgh, hoje Universidade Carnegie Mellon e se graduou em design.


Logo após mudou para Nova York e começou a trabalhar como ilustrador de importantes revistas, como Vogue, Harper's Bazaar e The New Yorker, além de fazer anúncios publicitários e displays para vitrines de lojas. Começa aí uma carreira de sucesso como artista gráfico ganhando diversos prêmios como diretor de arte do Art Director's Club e do The American Institute of Graphic Arts.

Fez a sua primeira mostra individual em 1952, na Hugo Galley onde exibe quinze desenhos baseados na obra de Truman Capote. Esta série de trabalhos é mostrada em diversos lugares durante os anos 50, incluindo o MOMA, Museu de Arte Moderna, em 1956. Passa a assinar Warhol.

O anos 1960 marcam uma guinada na sua carreira de artista plástico e passa a se utilizar dos motivos e conceitos da publicidade em suas obras, com o uso de cores fortes e brilhantes e tintas acrílicas. Reinventa a pop art com a reprodução mecânica e seus múltiplos serigráficos são temas do cotidiano e artigos de consumo, como as reproduções das latas de sopas Campbell e a garrafa de Coca-Cola, além de rostos de figuras conhecidas como Marilyn Monroe, Liz Taylor, Elvis Presley, Che Guevara e símbolos icônicos da história da arte, como Mona Lisa. Estes temas eram reproduzidos serialmente com variações de cores.

Além das serigrafias Warhol também se utilizava de outras técnicas, como a colagem e o uso de materiais descartáveis, não usuais em obras de arte.

Em 1968, Valerie Solanis, fundadora e única membro da SCUM (Society for Cutting Up Men - Sociedade para castrar homens) invade o estúdio de Warhol e o fere com um tiro, mas o ataque não é fatal e Warhol se recupera, depois de se submeter a uma cirurgia que durou cinco horas. Este fato é tema do filme I shot Andy Warhol (Eu atirei em Andy Warhol), dirigido por Mary Harron, em 1996.

Artista multimídia
Do meio da década de 1960 e mais adiante, a partir da década de 1970, Warhol radicaliza a idéia de artista multimídia em seu tempo e passa a militar em outras áreas que incluem a música e o cinema, filmando, inicialmente, em 16 mm e depois em Super 8 mm. Seus filmes undergrounds são hoje clássicos do gênero e, entre eles, se destacam Chelsea Girls, Empire e Blow Job (1964). São filmes conceituais, onde "nada acontece", como uma câmera parada filmando um corpo humano ou um edifício a partir de uma janela e chegam a atingir diversas horas de duração. Também fez experiências retratando pessoas célebres no formato Polaroid.

Na música, através do grupo de rock underground Velvet Underground, já nos anos 1970, participou de performances e ajudou a agitar e difundir a cena do glitter rock originária de Londres. Dessa mesma vertente também participam, tanto em Londres, como em Nova York, David Bowie (fase Ziggy Stardust), Lou Reed , Iggy Pop, T. Rex, Kiss, New York Dolls (no Brasil, Secos e Molhados), em que elementos de androginia e ambigüidade sexual são ressaltados através do uso de cílios postiços, purpurinas, saltos altos, batons, lantejoulas e paetês, e enfatizam a decadência de padrões arraigados de comportamento.

Cunha a famosa e profética frase, hoje amplamente divulgada: "In the future everyone will be famous for fifteen minutes". (No futuro qualquer um será famoso por quinze minutos).

Mao, foice e martelo e sombras
No fim dos anos 70 e início dos 80, nas artes plásticas, Warhol cria uma série de figuras que incluem o rosto de Mao (1982), com uma dezena de variações em cores berrantes, variações sobre foice e martelo (Hammer and Sickle, 1977), variações sobre o crânio humano (Skulls, 1976), Torso (1982), variações sobre a sombra (Shadows, 1979) e dezenas de retratos de personalidades judaicas, que incluem Freud, Einstein, Kafka, Gershwin, Gertrude Stein e diversos auto-retratos.

Publica The Philosophy of Andy Warhol (from A to B and Back Again, 1977) e POPism: The Warhol Sixties, juntamente com Pat Hackett (1982) e realiza a mostra Portraits of Jews of the Twentieth Century, com os retratos de personagens de origem judaica e a retrospectiva Reversal Series.

Em 1982 aproxima-se da tv a cabo e cria Andy Warhol's TV e Andy Warhol's Fifteen Minutes para MTV, em 1986. Data dessa época a sua intensa colaboração e amizade com Jean-Michel Basquiat, jovem e promissor artista que ele promoveu e ajudou a se firmar no universo das artes plásticas novaiorquinas, tanto quanto outros, como Francesco Clemente e Keith Haring.

Seus últimos trabalhos datam de 1986 com a série de pinturas intitulada The Last Supper, baseados em Da Vinci e um revival do grande tema da pop art intitulado Ads que remetem aos trabalhos iniciais baseados nos apelos da publicidade e do consumo e nos objetos do cotidiano.

Em janeiro de 1987, não se sentia bem e internou-se no New York Hospital para exames e teve que submeter a uma cirurgia de vesícula, considerada rotineira. Durante o pós-operatório teve uma arritmia cardíaca e faleceu aos 59 anos de idade.

Em 1994 foi inaugurado o The Andy Warhol Museum em Pittsburgh, Pensilvânia. (AAR)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O ACORDO MEC-USAID


O REITOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ, FLÁVIO SUPLICY DE LACERDA, AO SER ESCOLHIDO MINISTRO DA EDUCAÇÃO PELO GENERAL CASTELO BRANCO, PROMOVEU O ACORDO COM A AGÊNCIA NORTE-AMERICANA PARA O DESENVOLVIMENTO INTERNACIONAL.

Com a intensidade das tensões da Guerra Fria no mundo se agravarem no continente americano com a declaração de Fidel Castro, então premier cubano, de que Cuba tornou-se adepta do regime socialista da União Soviética, os EUA tentaram manter o domínio sobre as demais nações latino-americanas.

A princípio, o então presidente John Kennedy, já em 1961, promovia a Aliança para o Progresso, para evitar a expansão da influência comunista no continente americano. No Brasil, o nacional-populismo de João Goulart e os projetos e mobilizações de caráter progressista (que não necessariamente se vinculavam ao aparelho político janguista nem ao comunismo do "Partidão") - PCB, que havia transferido o nome Partido Comunista do Brasil para o PC do B, surgido em 1962 por influência maoísta), por representarem ameaça aos interesses dominantes dos EUA (afinal, o Brasil poderia se tornar uma potência na América), fez as classes conservadoras, subordinadas aos ideais de "Tio Sam", a atribuir como "ameaça comunista" qualquer projeto ou manifestação diferenciado que acontecer no território brasileiro.

Isso permitiu a reação dessas classes, de líderes religiosos a donas-de-casa, de empresários a generais, que juntos atuaram na efetivação do golpe militar. Com a ditadura instaurada, o governo militar imediatamente cassou direitos políticos e extinguiu instituições, condenando estas à clandestinidade. A União Nacional dos Estudantes, por exemplo, continuou atuante até 1968, quando o AI-5, como um outro golpe dentro do golpe, aumentou ainda mais a já endurecida repressão ditatorial, permitindo a tortura e o homicídio de "subversivos".

Castelo Branco se prontificou em eliminar o projeto educacional da Universidade de Brasília, cassando professores e dissolvendo seu quadro docente, além de reprimir também o quadro discente (alunos). Mas os protestos estudantis já começaram, naqueles idos de 1964, e se tornaram intensos diante da revolta da mudança brusca de governo, que levava boa parte dos brasileiros a sofrer injustiças e restrições.

O ministro Flávio Suplicy de Lacerda (nenhum parentesco com os Suplicy da esquerda paulista) havia sido escolhido pelo governo ditatorial para assumir o Ministério da Educação e efetivar mudanças que transformassem o quadro educacional num processo rigorosamente controlado pela ditadura. A UNE seria substituída pelo Diretório Nacional dos Estudantes, subordinada ao referido ministério e que só se reuniria - e, mesmo assim, sob determinação do regime - durante as férias escolares.

Mas Flávio estabeleceu logo acordo com o Departamento de Estado dos EUA - que haviam dado apoio e sustentação para os protestos anti-Jango e para toda a mobilização que deu no golpe militar - , que, através da USAID (United States Agency for International Development, órgão que existe até hoje), realizou uma parceria entre este órgão e o ministério para estabelecer mudanças na Educação no Brasil.

Tecnocratas da Educação - que viam o setor não como um projeto social, mas sob o ponto de vista da economia capitalista - dos EUA foram chamados para intervir na Educação brasileira através de seminários, programas de treinamento e na reformulação do sistema de ensino. Era prevista a privatização das Universidades públicas. O ensino perderia a finalidade de produção social do conhecimento, para se tornar tão somente um processo de formação profissional dos estudantes. Aliás, o corpo discente das escolas em geral perderia o poder de mobilização política, já que o moralismo conservador impõe que a missão do estudante é tão somente estudar.

O acordo MEC-USAID que auxiliava o projeto ministerial de Suplicy de Lacerda, então, se resumiu no esforço de eliminação da automonia educacional, transformando a Educação numa fábrica de empregos. Nenhum projeto de melhorias sociais e superação real das desigualdades estava autorizado pelo governo. A Educação estava totalmente subordinada pela ditadura militar, só cabendo aos generais e aos tecnocratas norte-americanos decidir sobre a instrução dos brasileiros em todos os aspectos.

Mas o autoritarismo só fez estimular os protestos estudantis, tamanha a indignação que causou. O acordo MEC-USAID foi uma querosene usada para apagar o incêndio dos protestos estudantis. Foi aí que um dos períodos mais marcantes da história da juventude brasileira ocorreu, entre 1965 e 1968. Foram vários protestos estudantis, duramente reprimidos pelos militares. A ditadura venceu a batalha, mas deixaria uma péssima imagem para a posteridade. E Flávio Suplicy de Lacerda acabou se tornando o abominável "ministro suplício".

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

JOSÉ SERRA NÃO É ESQUERDISTA FAZ MUITO TEMPO


JOSÉ SERRA em dois tempos: durante discurso na Central do Brasil (E), em 1964, e em foto como governador de São Paulo.

Recentemente, Lula disse que não havia direitista entre todos os pré-candidatos à presidência da República para a campanha de 2010. Inclusive o tucano José Serra, governador de São Paulo.

José Serra só foi esquerdista num passado já remoto. Era integrante da Ação Popular, grupo organizado por estudantes católicos que era radicalmente esquerdista. Ele era também filiado à União Nacional dos Estudantes (então sob forte influência da AP) e foi presidente da entidade entre 1963 e 1964. Fez discurso durante o comício do presidente João Goulart na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964. Ficou exilado no Chile entre 1965 e 1973 (quando ocorreu o golpe militar do general Pinochet).

No exílio chileno, José Serra conviveu com Fernando Henrique Cardoso e César Maia, que, ironicamente, estão com o paulista nos quadros da direita brasileira, sendo Serra e FHC no PSDB e Maia no partido-irmão dos tucanos, o DEM (a antiga UDN repaginada).

A formação e profissão de economista e o contato com a intelectualidade neoliberal da USP influenciou a guinada ideológica de José Serra. A fundação do PSDB foi um meio de seus fundadores, antes ligados ao PMDB, criarem um novo partido, com ideologia baseada no capitalismo moderno, na tecnocracia e nos princípios do neoliberalismo.

Como se vê, as pessoas mudam, dependendo das circunstâncias.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

DUCAL, LOJAS DE ROUPAS


NO PRÉDIO EM FORMA DE MEIA-LUA NA AV. BRASIL, NO RIO DE JANEIRO, CHEGOU A FUNCIONAR AS LOJAS DUCAL. O PRÉDIO FOI DEMOLIDO PARA DAR LUGAR A UM TRECHO DA LINHA VERMELHA (VIA EXPRESSA PRES. JOÃO GOULART), EM 1992.

Do portal Wikipedia

A Ducal Roupas foi uma rede de lojas de roupas masculinas brasileira de muito sucesso nas décadas de 1950 e 1960. Seu nome, além de remeter ao nobre título de duque, também era a junção das sílabas das palavras "duas calças", pois quem comprava um paletó e uma calça ganhava outra mais barata e ficava, assim, com duas calças. A promoção deu fama à empresa junto com o seu sistema de crédito.

A Ducal Roupas era referência no mercado de moda masculina na metade do século passado. Seus ternos vestiram vários brasileiros anônimos e famosos em sua época. A Ducal tinha lojas em três estados do país como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Mas a Ducal não era apenas uma grande marca e sim um grande grupo empresarial da época e que possuía além das lojas, indústrias de roupas e eletrônicos (Denison), supermercados (Dado – o primeiro do gênero no Rio), varejo de utilidades domésticas (Decasa), imobiliárias (Daviga), além de serviços de banco de dados (Datamec), consultoria jurídica, crédito (Banco Delta e Decred), agência de publicidade (Denison Propaganda) e até galeria de arte (Petit Galerie).

[editar] História
Todo esse império começou em 1950 quando o jovem José Vasconcelos de Carvalho, então com 30 anos incompletos, juntou o que aprendeu em cursos de especialização em administração nos Estados Unidos à experiência profissional adquirida nas lojas “A Exposição” - de propriedade do seu pai, Lauro de Souza Carvalho - associou-se aos primos José Cândido e José Luiz Moreira de Souza e abriu uma fábrica de roupas (Cia Brasileira de Roupas) e a primeira loja da Ducal na Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro, então capital federal. Para viabilizar o sonho dos três Josés, foram levantados e investidos vinte e dois milhões de cruzeiros.

As vendas a crédito em até 24 vezes e a ousada promoção das "Duas Calças" foram as primeiras estratégias de marketing para o crescimento da Ducal. A promoção pretendia que o cliente ficasse com uma calça para o trabalho e outra para o esporte.

A Ducal firmou-se como uma marca popular para a classe média baixa. As roupas da marca eram de boa qualidade, mas não chegavam a ser muito sofisticadas e com cortes impecáveis. “Quem quisesse roupa bem cortada, que procure o alfaiate”, diz Paulo Afonso de Carvalho, irmão de José Vasconcelos, fundador da Ducal.

Na publicidade, a Ducal investiu em modelos e manequins desconhecidos e famosos, como Pelé que, graças à conquista do primeiro título da Copa do Mundo em 1958, começava a despontar também como garoto-propaganda. Foi o primeiro anunciante famoso da Ducal. Era notório que a marca queria usar o esporte como conceito de comunicação. Outro exemplo foi o patrocínio ao programa esportivo de debates “Ducal nos Esportes”, um tipo de programa que hoje chamamos de mesa-redonda. Emerson Fittipaldi também fez algumas campanhas para a marca.

Mas o período próspero da marca acabou na metade dos anos sessenta. A inflação acabou trazendo grandes prejuízos para a Ducal por causa do seu crediário em parcelas fixas e sem correção monetária. Foi necessário que a Ducal se unisse a igualmente famosa rede mineira de eletrodomésticos Bemoreira em 1966.

A parceria teve sucesso entre o final dos anos sessenta e início dos setenta. Mas a inflação continuava prejudicando o sistema de crédito, sem falar na mudança no comportamento de compra e moda do público. Conseqüentemente, a Bemoreira-Ducal entrou em decadência. À medida que o grupo saía da mídia, as lojas começavam a ser fechadas uma a uma. A última, localizada no município de Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro, foi desativada em 1986.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

KING CRIMSON - PROGRESSISTA POR EXCELÊNCIA


O guitarrista Robert Fripp, líder do King Crimson: preocupação com o experimentalismo e a inovação. Fripp era admirado até por Jimi Hendrix, de quem foi grande amigo.

O King Crimson é considerado um dos grupos experimentais do rock progressivo, que iam além da junção de rock e música clássica e alcançavam o jazz e a música concreta. Em todas as suas formações, um único integrante e fundador traçava o estilo do grupo, ao lado dos inúmeros músicos que o acompanhavam. Este integrante é o guitarrista Robert Fripp.

Nascido na localidade de Dorsetshire, na Inglaterra, Fripp, já aos nove anos de idade, em meados dos anos 50, desejava ser músico. No entanto, ele não se entusiasmava muito com sua vocação, se julgando "desafinado e sem qualquer senso de ritmo". Os pais resolveram pôr Fripp para aprender guitarra em aulas particulares e em dois anos o rapaz já podia tocar a canção "Jingle Bells" - o famoso hino do Natal de todo o mundo - para os pais.

Uma vez Fripp comenta sobre esta época: "Foi então que me perguntei se valeu a pena muito esforço, porque eu era realmente desafinado e sem ouvido musical, e era tão sem ritmo que nem sequer eu conseguia dançar. E cheguei à conclusão de que eu precisava da música e ela precisava de mim".

Assim, Robert Fripp passou a estudar música intensamente, a colecionar muitos discos, a ouvir desde os primeiros discos de Elvis Presley. No entanto, seu know how musical, inicialmente, era voltado para o rock dos anos 50 e o pop adocicado dos anos 60. Era assim o estilo básico de sua primeira banda profissional, The Ravens. Ganhou dinheiro e foi estudar Economia na Universidade de Bournemouth. Ainda se sentia inseguro quanto ao seu talento, se achando um péssimo músico para bailes, apesar de realizar esta tarefa regularmente.

Em 1967 Robert Fripp chega a Londres e encontrava o antigo colega de conservatório, Greg Lake. A agitação noturna e o universo da música fizeram Fripp abandonar Economia e aumentar as horas de estudo musical. Lake e Fripp conheceram os irmãos Peter e Michael Giles, o pianista Ian McDonald e o poeta Peter Sinfield. Eles se reuniram para um propósito: formar um grupo com sonoridade intelectual e apurada, longe do rock dos Rolling Stones, Cream e Pink Floyd. Seria, segundo eles, uma "orquestra de câmera do rock".

A princípio apenas Robert Fripp e os irmãos Giles executaram o plano, formando o trio Giles, Giles & Fripp, em 1968. Peter Giles era o baterista, seu irmão Michael tocava baixo e Fripp era o guitarrista. Gravaram, pelo selo Deram, o álbum The Cheerful Insanity of Giles, Giles & Fripp, em setembro daquele ano. O disco contava com a participação de vários musicos, dos quais se destaca Nick Hopkins, integrante do Jeff Beck Group que constantemente era tecladista convidado dos Rolling Stones. No entanto, o grupo de Fripp e dos irmãos Giles teve curta duração, por causa das inúmeras discussões. Fripp decide então um novo projeto, um grande conjunto.

Assim, Fripp e Michael Giles permaneciam nas suas funções respectivas, e foram chamados McDonald, para os teclados, e Sinfield, para as letras e a aparelhagem de som. Para completar o grupo, entra Greg Lake para assumir voz e baixo. O grupo, sem nome, se apresentava pelos arredores de Londres e seus modestos concertos, bancados pela própria banda, não rendiam, cada um, mais do que quatro libras.

Em julho de 1969, no famoso concerto em memória do guitarrista Brian Jones, morto naquele mês, os Rolling Stones procuravam uma banda de abertura para a ocasião. Vendo a chance de projeção, Fripp assumiu a missão e, na ocasião, criou o nome da banda baseado em uma das canções compostas: "In the court of Crimson King". Assim, a banda passou a se chamar King Crimson.

A apresentação era um constraste com o estilo da banda principal. O King Crimson era um grupo intelectual, com músicas elaboradas e postura sóbria, enquanto os Stones faziam rock básico, agressivo e sensual. Mesmo assim, o King Crimson se tornou popular e ganhou um contrato com a EG Management, que criaria o selo EG Records, atualmente subsidiário da Virgin Records.

A essas alturas Robert Fripp era respeitado por ninguém menos que Jimi Hendrix, que se tornaria seu amigo. Uma vez Hendrix falou para Fripp: "Toque minha mão esquerda, cara, está perto do meu coração". Quando Hendrix morreu, em 18.09.1970, Fripp acabou sendo uma espécie de herdeiro direto, uma vez que, como o músico de Seattle, também fazia experimentos com a guitarra.

A música que inspirou o nome da banda foi escolhida para ser o nome também de seu primeiro LP, In The Court Of Crimson King, lançado em 10 de outubro de 1969. A capa, de estilo psicodélico, mostrava a face de um sujeito - o "Rei Escarlate"? - com expressão de assustado, foi feita por Barry Godber, que morreu poucos meses depois, em fevereiro de 1970, de ataque cardíaco, com apenas 24 anos.

In The Court Of Crimson King foi bem recebido pela crítica e pelo público, mas no Brasil só foi lançado em 1972. Em 1988, o álbum é relançado no Brasil com a atitude lamentável de omitir o ano original, "maquiando" o ano de lançamento para o então ano do relançamento. Essa fraude foi cometida frequentemente entre 1985 e início de 1990 pela gravadora WEA, e foi tão banalizada que outras gravadoras acabaram também fazendo das suas.

O primeiro álbum do King Crimson é um dos clássicos do rock progressivo, aliás um clássico peculiar. Não é um disco de progressivo de linha medieval ou barroca, como viriam a ser Jethro Tull, Gentle Giant e Triumvirat. Mas também não é um disco de progressivo espacial da linha do Pink Floyd pós-Syd Barrett, do Can e do Eloy. King Crimson era por vezes erudito, mas era também experimental, influenciado pela música concreta. Mas aqui vemos que outro grupo, o Gentle Giant, também tem seus momentos "concretos".

Em 1969, no final da turnê pelos EUA - no qual participavam também The Band, Jefferson Airplane, Janis Joplin, Rolling Stones, entre outros - , McDonald e Michael Giles alegam estar cansados de tocar na banda. Se sentiam "aprisionados". McDonald decide sair, mas Michael Giles ainda continua na banda. Seu irmão Peter volta, o saxofonista Mel Collins e o pianista de jazz Keith Tippet são convidados e o King Crimson grava seu segundo álbum, In The Wake of Poseidon, lançado em maio de 1970.

Greg Lake grava baixo e voz apenas em cinco faixas deste álbum, uma vez que ele foi convidado pelo multitecladista Keith Emerson para completar o trio que já contava com Carl Palmer na bateria. Era o famoso Emerson Lake & Palmer que tirava de uma vez por todas o músico Greg Lake do King Crimson.

Com a saída de Lake no meio das gravações, Fripp chamou seu amigo Gordon Haskell para assumir o lugar de Lake, tanto no baixo quanto na voz. Ele gravou as faixas restantes e Fripp completou o álbum com um número instrumental, inserindo na trajetória do King Crimson o uso do instrumento mellotron, instrumento que já havia sido usado pelo Moody Blues.

Com tanto vai-e-vem, somente Fripp e Sinfield restam da formação original do King Crimson para gravar o terceiro LP, Lizzard. Ele convida vários músicos de jazz para integrar a banda, e não parece entusiasmado com a banda, depois do complicado ano de 1970, muito diferente do bem-sucedido ano de 1969. In The Wake of Poseidon praticamente não foi lançado em concertos, a banda se dissolveu quase que por completo. Até Peter Sinfield abandona o grupo no início de 1971.

Lizzard é o disco que marca a influência explícita do jazz no som progressivo do King Crimson. É o chamado 'jazz-rock sinfônico", em que cabem oboé, flauta, mellotron, trumpete. A guitarra de Robert Fripp segue num estilo anárquico. Apesar do momento tenso, Lizzard mostra um King Crimson em boa forma, com o desempenho de músicos renomados.

Em 1972, depois de uma turnê fracassada nos EUA e do sofrido álbum ao vivo Earthbound, Fripp anuncia o fim do King Crimson e se retira para um pequeno sítio em Dorset. Mas no fim do mesmo ano Fripp anuncia a volta do grupo, com John Wetton (que, juntamente com Carl Palmer e outros músicos, criaria nos anos 80 a banda Asia, dos hits "Only time will tell" e "Heat of the moment"), o violinista sinfônico David Cross, o ex-baterista do Yes Bill Brufford e o "percussionista" Jamie Muir (responsável por tocar latas velhas, gongos, panelas, bacias d'água etc.). O jovem poeta Richard Palmer Jones seria o letrista dessa nova formação, que grava Largue Tongues In Aspic, no início de 1973.

Nessa época, Robert Fripp se entusiasma a ponto de afirmar que a música do Crimson é uma pura energia sexual, a música do orgasmo. Nesse tempo ele faz ataques, durante entrevistas, ao Emerson Lake & Palmer. Segundo Fripp, o King Crimson representa a música do futuro, enquanto o ELP representa a do passado, pois necessita de uma tecnologia sofisticada prestes a ser extinta.

Animado com o desempenho de Largue Tongues In Aspic e da turnê norte-americana - será que um grupo inglês só "acontece" no mundo fazendo turnê nos EUA? Com a palavra, os leitores - realizada em 1973, o King Crimson grava, em 1974, o álbum Starless And Bible Black, não sem antes Fripp gravar com Brian Eno (ex-integrante do Roxy Music), a segunda metade do álbum No pussyfooting.

Starless And Bible Black se torna outro fracasso, a turnê idem (apesar dela render um álbum ao vivo, USA, também de 74, e uma série de gravações piratas), e Robert Fripp se desanima com a banda. O King Crimson grava o álbum Red e Fripp anuncia o fim da banda. Iria investir em outros projetos. Em 1976 lançou uma antologia em álbum duplo, A Young Person's Guide To King Crimson, que tem um livreto em que o próprio Fripp fala da trajetória da banda até o declarado fim em 1975.

Robert Fripp comenta, na época, a respeito de sua banda: "Acabar o Crimson foi uma decisão tranquila. Tive três motivos. Primeiro, por razões históricas. Muito em breve o mundo, tal como o conhecemos, vai acabar. O fim será entre 1990 e 1999, e aí veremos se vamos conseguir nascer uma nova era ou não. O Crimson era uma coisa do velho mundo: complicado, inútil. O novo mundo é o da flauta de bambu, e não do sintetizador. Segundo, porque ele era um meio importante de eu aprender coisas, através da experiência dos outros. (...) E, em terceiro lugar, porque as energias em ação, no momento, no Crimson, não eram oportunas para o meu momento de vida. Só sobreviverão no novo mundo as unidades inteligentes, dinâmicas, pequenas e práticas. Eu sou inteligente, dinâmico, prático e muito pequeno. Eu fico comigo".

Fripp passou, a partir de então, a fazer diversos trabalhos. Gravou com Brian Eno, Blondie, Talking Heads, Peter Gabriel, David Bowie. Fez também trabalhos solo e um até de música eletrônica. Integra o grupo League Of Gentlemen, do qual é um dos criadores, no final dos anos 70. O grupo lança um único álbum. Recentemente, conforme publicado em edições de 2000 da extinta revista Melody Maker, o League Of Gentlemen retornou as atividades, sem Fripp.

A volta do King Crimson, aparentemente, não iria acontecer. Com os problemas na banda League Of Gentlemen, depois da turnê no Reino Unido, a banda se desintegra aos poucos e Fripp decide criar o grupo Discipline, chamando primeiro o seu amigo de longa data Bill Bruford.

Fripp lança uma teoria sobre a produção artística. O guitarrista lança três divisões. A primeira divisão, segundo ele, é a de cultura de massa, a segunda é aquela que garante sobrevivência e prestígio profissional e a terceira é a de pesquisa, de viver um estilo de vida civilizado mas sem chances de defesa. O Discipline seria um grupo de primeira divisão.

Além de Bruford, Fripp convidou o guitarrista Adrian Belew, ex-músico de Frank Zappa e que havia tocado na fase "alemã" de David Bowie (sobretudo no álbum "Lodger"). Para completar, foi chamado para o baixo Tony Levin, músico que tocou em vários discos de Peter Gabriel. Por sugestão de Belew, o nome Discipline se restringiu a um dos álbuns e a banda passou a ter o nome de King Crimson.

O grupo grava três LPs, conforme contrato assinado com a EG Records. O primeiro, Discipline, saiu em 1981, o segundo, Beat, inteiramente dedicado a Jack Kerouac, em 1982, e o terceiro, Three of a perfect pair, em 1984.

O estilo da banda é um rock experimental, com elementos de música concreta, em composições de toda a banda nas melodias e de Adrian Belew em quase todas as letras. Belew se torna o vocalista e a trilogia se torna mais um artigo fundamental do King Crimson, que, se não tinha a erudição sonora de antes, também não se tornava um produto fácil para as paradas de sucesso, como se tornou outro ícone do progressivo inglês, Genesis.

Depois de uma série de concertos em 1984, o King Crimson não dá novas notícias e parece sumir discretamente da cena e da mídia. Depois dessa trilogia, Fripp se dedicava novamente ao League Of Gentlemen. O King Crimson parecia mais uma vez um dinossauro adormecido, apesar de não haver qualquer declaração de extinção, como aquela de 1976.

Em 1989, o único envolvimento de Fripp com o King Crimson está na participação da remasterização de todos os CDs da banda, principalmente o primeiro, In the court of Crimson King, que comemorava 20 anos de lançamento na época.

Em 1994, no entanto, a formação dessa trilogia volta a se reunir, gravando o álbum Vrooom. Mas Bruford saiu do grupo tempos depois, se dedicando a outros projetos. Mas, antes de sua saída, já havia outro baterista, Pat Mastelotto, a princípio como programador de bateria eletrônica.

A formação, além de Mastelotto, contava com Trey Gunn, tocando stick (uma espécie de guitarra/baixo de dez cordas). Durante Vrooom e o álbum seguinte, Thrak, de 1995, os quatro da trilogia 1981-1984 do King Crimson tocavam junto com os dois. Depois Bruford saiu do grupo, e em seguida Levin, que foi seguir carreira solo.

O mais recente lançamento do King Crimson foi Heavy ConstruKtion, de 2000. Trata-se de um álbum ao vivo, durante a turnê européia do mesmo ano realizada pela banda. A formação do álbum foi de Adrian Belew (guitarra e voz), Robert Fripp (guitarra), Trey Gunn (baixo) e Pat Mastelotto (bateria). Como se vê, a música do futuro sonhada por Fripp continua em dia na virada e entrada do novo milênio. Que viva o Rei Escarlate, progressista por excelência.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

HERON DOMINGUES FOI LOCUTOR POR ACASO


Aqui vemos uma foto, extraída do site Caros Ouvintes, mostrando Heron Domingues na frente de uma câmera da TV Tupi, onde foi contratado como locutor noticiarista em 1961.

Heron Domingues foi um dos maiores locutores noticiaristas da história do Brasil. Era dotado de um talento de dicção perfeccionista, que serviu de escola para outros apresentadores de jornais falados.

Seu nome esteve associado ao Repórter Esso, da Rádio Nacional e TV Tupi (mas o programa passou até pela Rádio Globo do Rio), e trabalhou neste programa durante 18 anos, desde 1944. Curiosamente, em 1940 ele tentou até carreira de cantor, chegando a se inscrever num programa de calouros na Rádio Gaúcha AM de Porto Alegre. Heron era gaúcho da cidade de São Gabriel, onde nasceu em 04 de junho de 1924.

Ele ia participar do programa de calouros da Rádio Gaúcha quando houve a notícia repentina do ataque à base de Pearl Harbour, no Havaí, pelos aviões japoneses em 07 de dezembro de 1941. Não havia um locutor de plantão e, de repente, Heron foi lançado às pressas para o microfone, dando a notícia em primeira mão. Diante da desenvoltura do rapaz, ele foi rapidamente contratado como locutor da casa. Perdeu de participar do concurso, mas iniciou uma grande carreira. E tudo começou por acaso.

Depois do Repórter Esso, Heron, entre outras experiências, chegou a apresentar até o Jornal Nacional da Rede Globo (uma vez, em 10 de agosto de 1974, faleceu ao noticiar a renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon).

Segue aqui um depoimento dado por Heron Domingues sobre o Repórter Esso:

"Trabalhei no Repórter Esso de 1944 a 1962, sem um dia de folga. Levantava-me ás 6:45 hs. e voltava para casa à 1:30 da madrugada. Nos períodos críticos, dormia na rádio, que tinha uma cama na redação. Para se ter uma idéia da época conturbada em que vivíamos, no período em que fui locutor do Esso, houve no Brasil dez presidentes da república. Durante a guerra, dormia na Rádio Nacional com um fone no ouvido, diretamente ligado a UPI. Sempre que havia uma notícia importante, eles me despertavam, eu mesmo colocava a emissora no ar e transmitia a notícia. Para o fim da guerra, preparamos uma audição especial do Repórter Esso, em que a notícia seria dada fundida com o repicar de sinos. Com medo de me emocionar muito diante do microfone, gravei o início da transmissão: "Atenção! Atenção! Acabou a guerra". (In: BIOGRAFIA DE HERON DOMINGUES PARA O MUSEU DA TELEVISÃO BRASILEIRA Pró-TV)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O "RAT PACK"


DA ESQUERDA PARA A DIREITA: PETER LAWFORD, DEAN MARTIN, SAMMY DAVIS JR. E FRANK SINATRA ERAM O PRINCIPAL NÚCLEO DO "RAT PACK"

Por Rui Chambel - Chambel.Net, com adaptações deste blog

Expressão utilizada para designar um grupo de amigos liderado por Frank Sinatra que, nos anos 50 e 60, ficou conhecido pelos seus espetáculos musicais, filmes e... festas. Para além de Sinatra, o grupo incluía Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop. Maioritariamente masculino, o grupo também incluía mulheres, designadas de "mascotes", entre as quais Shirley Maclaine e Angie Dickinson.

A expressão "Rat Pack" (grupo de ratos) foi utilizada por jornalistas para designar o grupo, que se auto intitulava de "clã" ou "summit", e tem origem num outro grupo de amigos que anos antes, se centrava à volta de Humphrey Bogart, Lauren Bacall e de um jovem Frank Sinatra. O grupo de Bogart e Bacall ficou conhecido pela sua independência perante o poder estabelecido em Hollywood e pretendia quebrar a rotina e a monotonia reinante na cidade. Embora informal, o grupo tinha a sua organização (por exemplo, Bacall era a "mãe" do grupo, enquanto Bogart era o responsável pelas relações públicas), numa clara paródia a Hollywood. O ponto de encontro do grupo era a casa do casal, designada "Holmby Hills Rat Pack" e de onde advém o nome do grupo, tendo a expressão sido utilizada pela primeira vez por Bacall, após uma noitada de Bogart em Las Vegas com os amigos. Este primeiro grupo incluía ainda: David Niven, Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Cary Grant, entre outros.

Com a morte de Bogart no final dos anos 50, o grupo perdeu um dos seus membros mais carismáticos, mas outro assumiu preponderância: Frank Sinatra, que com os seus amigos de Las Vegas constituiu um segundo "Rat Pack". Embora Bacall fosse a "ponte" que unia os dois grupos, o liderado por Sinatra era bem diferente do primeiro, mas o espírito de camaradagem mantinha-se.

O grupo da década de 60 desempenhou um importante papel no desenvolvimento de Las Vegas, não só pela sua "política" de nunca atuar em locais que discriminassem negros, mas também pelos seus espetáculos. Quando um dos membros do grupo tinha um espetáculo agendado era comum os restantes aparecerem de surpresa e atuarem em conjunto. Esta situação levava a que os espectadores esperassem horas pelos espetáculos, muitas vezes na rua ou na entrada dos hotéis esgotados. A popularidade do grupo permitiu estabelecer Las Vegas com uma das capitais do entretenimento e deu ao grupo um grande poder junto dos casinos e na... política, sendo conhecidas as suas ligações ao ex-Presidente John F. Kennedy.

Para além dos espetáculos, o grupo surgiu também em filmes, sendo possível identificar cerca de 11 onde dois ou mais membros do grupo trabalharam em conjunto:

- A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1956)
- Deus Sabe Quanto Amei (1958);
- Never So Few (1959);
- Sete Homens e Um Segredo (1960);
- Sergeants 3 (1962);
- 4 for Texas (1963);
- Os Sete Ladrões da Cidade (1964);
- Divórcio à Americana (1965);
- Dois Contra o Texas (1966);
- A Corrida Mais Louca do Mundo (1981)
- A Corrida Mais Louca do Mundo II (1984).

De todos, Os Onze de Oceano é o filme mais emblemático do grupo, refletindo a sua imagem irreverente e onde participam todos os membros do grupo, inclusive as atrizes Angie Dickinson e Shirley Maclaine.

Em meados da década de 60, a popularidade do grupo começa a decrescer, resultado da Contracultura que iria marcar o final dos anos 60 e início dos anos 70. Muito embora o seu declínio, os membros do grupo mantiveram-se unidos e continuaram a participar em espetáculos musicais e em alguns filmes.

A influência do "Rat Pack" foi tal que as suas histórias (muitas delas inventadas) entraram para o folclore da cidade dos sonhos e o grupo ainda hoje é relembrado através de recriações e tributos. Esta popularidade foi acentuada pelo remake de Sete Homens e um Segredo (Ocean’s Eleven – Façam as Vossas Apostas, realizado em 2001), que popularizou ainda mais a fama à volta do grupo liderado por Sinatra.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A FAMÍLIA DÓ-RÉ-MI



Do Portal Wikipedia

The Partridge Family (br: A Família Dó-Ré-Mi) é uma série de televisão dos Estados Unidos do gênero "comédia" (sitcom). O primeiro episódio foi ao ar em 25 de setembro de 1970 e o último em 23 de março de 1974, exibido pela Rede ABC num total de 96 episódios e quatro temporadas. No Brasil, foi exibida pela Rede Globo nos anos de 1970. Criada por Bernard Slade e produzida por Bob Claver e Mel Swope da Screen Gems. A produtora havia tido um programa de grupo musical familiar (os inicialmente fictícios The Monkees, que depois se transformariam em uma banda verdadeira) cuja série terminara e queria lançar um outro na mesma linha.

A companhia produzia os shows e lançava vários discos com as musicas da banda, cujas gravações a maioria dos intérpretes no programa não participavam. O produtor musical Wes Farrell contratava músicos de estúdio para as gravações. Em poucas semanas de exibição da série, David Cassidy convenceu Farrell de que podia cantar com a banda e se tornou o principal vocalista.(Devido a isso várias músicas gravadas nos primeiros episódios e do primeiro disco não contavam com Cassidy nessa função). Shirley Jones também participou dos discos.

The Partridge Family foi inspirada e vagamente baseada no grupo The Cowsills, uma família musical da vida real famosa no mercado americano dos anos de 1960. Têm-se que os filhos do The Cowsills eram quem os produtores queriam para interpretar The Partridge Family, mas eles rejeitaram a proposta quando souberam que a mãe, Barbara, teria que ficar de fora pois Shirley Jones era quem tinha sido contratada para estrelar o programa.

Com os shows e as campanhas promocionais, David Cassidy se transformaria num ídolo adolescente dos anos de 1970 (inclusive no Brasil). Com isso, David assinaria um contrato solo com os produtores. Como a Família Partridge não existia de verdade, David começou a excursionar com sua própria banda e a gravar seus próprios discos.

O primeiro grande sucesso de The Partridge Family foi a canção de 1970 "I Think I Love You", atingindo o número um da parada da revista Billboard. (A canção foi uma composição de Tony Romeo, autor de muitos sucessos de the Cowsills).

David Cassidy logo se cansaria da súbita fama e dos seguidos shows... No verão de 1972, numa entrevista para a revista Rolling Stone, ele tentava se afastar da imagem popular de Keith Partridge.

Na quarta temporada, com o declínio da audiência, os produtores introduziram o personagem Ricky Stevens (Ricky Segall), uma precoce criança cantora que gravaria musicas infantis, ora acompanhado da banda, ora por Shirley no piano e Danny na guitarra (ele gravaria seu próprio disco com musicas do programa).

Banda

* David Cassidy…Keith Douglas Partridge (filho mais velho, vocalista, guitarra e banjo)
* Danny Bonaduce…Danny Partridge: (vocais, baixo e as vezes guitarra (acústica, elétrica))
* Shirley Jones…Shirley Partridge (mãe, vocal, órgão, tamborins, percursão)
* Susan Dey…Laurie Partridge (vocal, piano, percursão)
* Suzanne Crough…Tracy Partridge (vocal, tamborim, percursão)
* Jeremy Gelbwaks…Chris Partridge (bateria)
* Brian Forster…Chris Partridge (bateria)
* Dave Madden…Reuben Kincaid: (empresário da banda)

De acordo com David Cassidy, Jeremy Gelbwaks teve muitas dificuldades com o papel e incomodava a produção com sua hiperatividade, correndo pelo estúdio simulando barulho de jatos e trombando com as pessoas. No fim da primeira temporada a família se mudou para a região de Los Angeles e Brian Forster substituiu Jeremy na banda.

Uma cadela chamada "Simone" apareceu apenas na primeira temporada.

O cantor de country Johnny Cash fez uma participação no episódio piloto. Ray Bolger, o Espantalho do filme O Mágico de Oz, interpreta Fred Renfrew, o pai de Shirley Partridge. A filha do então governador Ronald Reagan, Maureen Reagan, apareceu também num episódio. As futuras estrelas de As Panteras, Jaclyn Smith, Farrah Fawcett e Cheryl Ladd fizeram participações especiais em diferentes e separados episódios. O ídolo adolescente Bobby Sherman apareceu no episódio 25 (o último da primeira temporada e que gerou uma série da ABC chamada Getting Together, com Sherman e Wes Stern).

Tramas

O programa é sobre uma viúva e seus cinco filhos que se aventuram numa carreira musical. A família morava em San Pueblo, uma pequena cidade fictícia do nordeste da Califórnia.

No episódio-piloto, irmãos e músicos iniciantes de uma banda de garagem convencem a mãe deles (Shirley) a ajudá-los a gravarem uma canção pop. Graças aos esforços do filho de dez anos, Danny (conhecido pelas sardas no rosto), um empresário é contatado e a canção entra para a parada americana das 40 melhores canções (Top-40 hits). Após muita persuasão, a mãe finalmente concorda em sair numa excursão Eles compram um velho ônibus escolar, dão-lhe nova pintura e partem para Las Vegas, Nevada com a primeira apresentação no Caesars Palace.

Nos episódios seguintes, os shows eram feitos em várias localidades. As histórias mostravam os contrastes da vida de uma família suburbana com as aventuras de um grupo musical na "estrada". Após a primeira temporada, os episódios foram focados mais em cenários domésticos e menos em excursões.
[editar] Desenho Animado

A Família Partridge teve um breve ressurgimento do interesse do público por eles quando apareceram em desenhos animados: a primeira aparição foi na série Goober and The Ghost Chasers. O próprio desenho animado foi lançado em 1974 (Partridge Family 2200 A.D., também chamado de The Partridge Family in Outer Space).
[editar] Discografia selecionada

* The Partridge Family Album (BB #4, CB #6) - Bell 6050—1970
* Up to Date (BB #3, CB #3) - Bell 6059—1971
* Sound Magazine (BB #9, CB #9) - Bell 6064—1971
* A Partridge Family Christmas Card (BB #1-Christmas Charts, CB #19) - Bell 6066—1971
* Shopping Bag (BB #18, CB #16) - Bell 6072—1971
* At Home With Their Greatest Hits (BB #21, CB #20) - Bell 1107—1972
* The Partridge Family Notebook (BB #41, CB #33) - Bell 1111—1972
* Crossword Puzzle (BB #167, CB #105) - Bell 1122—1973
* Bulletin Board (CB #124) - Bell 1137—1973
* Ricky Segall and The Segalls -- Bell 1138—1973 (Com canções lançadas no programa)
* The World of the Partridge Family - Bell 1319—1974 (Álbum duplo reunindo os maiores sucessos)
* Greatest Hits (1989)
* The Definitive Collection (com músicas solo de David Cassidy) (2001)
* Come on Get Happy!: The Very Best of The Partridge Family (2005)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

TV EXCELSIOR



TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação, na capital Paulista. A área ficou reservada para guarda de equipamentos, telecine e um pequeno estúdio. Por questões de recepção de imagem, sua antena ficava no alto desse edifício, logo acima dos andares ocupados. Existia ainda um espaço reservado na Rua Frei Caneca, onde ficavam a parte administrativa, diretoria e expediente.

A inauguração da TV Excelsior de São Paulo ocorreu no dia 9 de Julho de 1960, no Teatro Paulo Eiró, Avenida Adolfo Pinheiro, 915, Santo Amaro. Uma intenção - nunca concretizada - foi a de construir um estúdio em frente a tal teatro.

A programação de inauguração ficou assim disposta:

18h00 - Introdução com a Banda da Força Pública de São Paulo
18h30 - Cerimônia Oficial de lançamento do novo prefixo
19h00 - Show Artístico com os maiores cartazes nacionais
21h00 - Ballet do Teatro Municipal de São Paulo
21h30 - Concerto Sinfônico com 60 professores interpretando compositores brasileiros

Festa de inauguração da TV
Excelsior, canal 9 de São Paulo.

Consta que o evento foi muito tumultuado, já que as condições do teatro eram insuficientes. Era necessário buscar uma alternativa. Foi quando o Teatro Cultura Artística, na Rua Nestor Pestana, centro de São Paulo, passava por uma crise financeira e surgiu como opção. A emissora achou por bem alugá-lo, passando a possuir um auditório de peso para produzir diversos programas.

O primeiro grande show pensado para a TV Excelsior foi o "Brasil 60". Manoel Carlos, que na época era assistente, sugeriu um programa de variedades onde se falasse de música popular brasileira, teatro, literatura, futebol e cinema. Maneco (como assim o chamavam) foi elevado a categoria de produtor e o diretor Álvaro de Moya sugeriu Bibi Ferreira para comandar a atração.

Bibi aceitou o convite pensando tratar-se de uma única apresentação (na época ela encenava uma peça num teatro do Rio de Janeiro). Após a conclusão do show, que contou com a presença de Oscarito, Grande Otelo e Mazzaroppi, estabeleceu-se que "Brasil 60" deveria ser apresentado todos os domingos, das 20h30 às 22h00. A direção da Excelsior foi então para o Rio de Janeiro e acertou com Bibi as condições de seu contrato.

Quando a TV Excelsior completou seis meses de atividades, seu faturamento já cobria as despesas. Sua programação tinha nível elevado, estando calcada em programas de variedades, peças de teatro, jornalismo e filmes selecionados. Faziam sucesso programas como o "Simonetti Show" (inicialmente dirigido por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho - o Boni - e depois por Jô Soares) e atrações que abriam as portas para a Bossa Nova (com Tom Jobim, Vinicius de Morais e João Gilberto).

A meta, no entanto, era conquistar o topo da audiência. Com esse objetivo, em 1963, a emissora contratou Edson Leite para cuidar da direção artística e Alberto Saad para responder pela direção administrativa. E a partir daí o perfil da emissora jamais seria o mesmo.


CASAL DE CRIANÇAS USADO NAS VINHETAS DA EMISSORA.

A Rede

A Rede Excelsior surgiu logo depois da implantação do canal 9 de São Paulo, a partir da compra de uma emissora no Rio de Janeiro, antiga concessão da Rádio Mayrink Veiga. Vale dizer que somente esses dois canais eram 100% de propriedade da Excelsior. Os que se seguiram foram composições feitas com os proprietários da época. Assim ocorreu com a TV Gaúcha de Porto Alegre (do grupo Sirotski, onde a Excelsior detinha 50%), TV Vila Rica (do Banco Real, onde a Excelsior detinha 33%) e TV do Paraná (onde foi feita uma associação com o Grupo Martinez). Além disso, foram fechados acordos para retransmissão de programas para cidades de outros Estados, como Uberlândia, Cuiabá, Brasília, além de Recife (através da TV Jornal do Comércio).

Surgida numa época onde a transmissão via satélite ainda não existia, mas contando com o recurso do video-tape, a Excelsior ousou ao implantar o conceito de rede, tendo as fitas transportadas de cidade para cidade. Em assim sendo, o programa que era visto na segunda-feira em São Paulo, poderia ser visto na quarta-feira no Rio de Janeiro e na sexta-feira em Porto Alegre. Isso fazia com que uma mesma produção recebesse a receita publicitária de diferentes praças.

O Apogeu

A diferença entre a TV Excelsior e as demais emissoras era a presença de executivos cuidando da emissora. Em assim sendo, os intervalos passaram a ter tempo delimitado de no máximo cinco minutos (algumas estações na época chegavam a alcançar 20 minutos, pois esse era o tempo que precisavam para troca de cenários e figurinos). Os programas passavam a começar realmente no horário estabelecido, antecedidos pelo top de oito segundos. Foi estabelecida a chamada "programação horizontal", ou seja, atrações fixas todos os dias nos mesmos horários. As roupas eram fornecidas pela emissora (antes astros e estrelas tinham de trazer as roupas de sua própria residência). E foi desenvolvida uma entidade, uma logomarca (um menino e uma menina).

Pode-se afirmar, com toda certeza, que o apogeu da emissora concentrou-se nos anos de 1963/64. Foi nesse período que a TV Excelsior:

*Produziu a primeira telenovela diária da tevê brasileira;
*Realizou um show ao vivo no Parque Ibirapuera em São Paulo, transmitido em cores (28/06/63);
*Passou a investir "pesado" em séries de tevê;
*Sob direção de Carlos Manga, lançou o musical "Times Square", que revolucionou o gênero;
*Inovou ao transmitir futebol ao vivo (segundo depoimento do falecido jornalista Peirão de Castro);
*Foi a primeira a transmitir uma partida de futebol utilizando cinco câmeras;
*Inventou o telejornal "encaixotado" entre duas novelas (a exemplo do que a TV Globo fez depois com o "Jornal Nacional" - "encaixotado" entre as novelas das 7h e 8h);
*Revelou um grande elenco de profissionais, muitos na ativa até hoje, trabalhando na televisão;

Conseqüência: líder de audiência. Para que se tenha uma idéia, o programa "Moacir Franco Show" atingia, em 1963, o índice de 77% de audiência em São Paulo e 97% na cidade de Santos. Tal fato obviamente incomodava a concorrência.

A TV Excelsior não era tida pelos demais canais como uma concorrente, mas sim como uma inimiga, dada sua agressividade comercial. Executivos saíam de São Paulo para o Rio de Janeiro com a intenção de comprar (por muito mais do que ganhavam) artistas de outras emissoras. Conta-se que num único dia, no ano de 1963, um desses executivos contratou quase todos os artistas da TV Rio, com exceção dos humoristas Ronald Golias, Manuel de Nóbrega e Carlos Alberto de Nóbrega, do elenco da "Praça da Alegria".

A atriz Glória Menezes, por exemplo, foi para a Excelsior ganhando cinco vezes mais em relação ao seu salário na TV Tupi. Márcia Real foi outra atriz que saiu da TV Tupi para trabalhar na Excelsior. Seu caso foi mais rumoroso: foi ganhando 10 vezes mais! Anos depois, declarou: "Se os atores hoje ganham o que ganham, devem isso ao Canal 9, TV Excelsior".

Vários cartazes eram instalados em São Paulo com um artista que acabava de ser contratado, com o seguinte slogan: "Eu também estou na Excelsior". Na imprensa, eram muitas as notícias de contratações milionárias e sobre como a emissora estaria inflacionando o mercado televisivo.

Entre 1963/64 a TV Excelsior passou a ter:

*Um elenco teatral duas vezes maior que o da TV Tupi
*Um elenco de humor três vezes maior que o da TV Paulista
*... e o maior número de séries de tevê

Publicava-se na imprensa até a possibilidade da emissora passar a funcionar 24 horas por dia, tal o número de contratados que detinha...


PRÉDIO ONDE FUNCIONAVA A TV EXCELSIOR NO RIO DE JANEIRO, NA RUA VISCONDE DE PIRAJÁ, EM IPANEMA.

O Golpe

O fato de investir pesado e de forma arrojada fez com que a Excelsior alavancasse dívidas. Todas elas poderiam ser pagas com o crescimento da emissora, que apoiava o então governo civil liderado por João Goulart (após a renúncia de Jânio Quadros em 1961). Tinha ainda a simpatia do então governador de São Paulo, Ademar de Barros, tendo obtido dessa forma uma vasta linha de crédito no Banespa.

Mas eis que em 1964 o golpe militar fez com que todo esse sonho começasse a desmoronar. O motivo: a família Simonsen era opositora ao regime que se instalava e a Excelsior passou a ser vigiada, ficando sem prazos e sem recursos para o fluxo de seus pagamentos. Consta que a emissora sofreu até intervenção do governador carioca Carlos Lacerda, inimigo declarado de Simonsen.

Com as empresas do grupo passando por inúmeras dificuldades, Mário Wallace Simonsen viajou para a França. Em Fevereiro de 1965 veio a falecer, aos 56 anos, em decorrência de um enfarte. A Excelsior estava então nas mãos de seu filho, Mário Wallace Simonsen Neto. Wallinho - como o chamavam - era jovem, inexperiente e completamente despreparado para o mundo dos negócios.

Novelas

Apesar das dificuldades, a Excelsior era líder de audiência em vários horários e tinha nas telenovelas o seu ponto mais forte. Em 1963, a emissora produziu a primeira novela brasileira transmitida diariamente. Era "2-5499 Ocupado", autoria de Alberto Migré, estrelada por Tarcísio Meira e Glória Menezes. Suas gravações ocorreram nas ruas de São Paulo e também na Casa de Detenção do Estado.

A primeira grande novela com sucesso de audiência, no entanto, foi "Ambição (1964). A atriz Arlete Montenegro fazia a vilã da trama e quase foi agredida, em diversas oportunidades, por telespectadores inconformados com o caráter de sua personagem. O casamento que coroava o final da trama foi gravado na Igreja da Consolação em São Paulo, o que causou tumulto no trânsito e vários objetos quebrados dentro do recinto.

A Excelsior fez da telenovela uma indústria mas não tinha onde gravá-las. O único recurso era o palco do Teatro Cultura Artística, que só podia ser usado para esse fim pela madrugada adentro. Em 1964, a emissora conseguiu arrendar os estúdios da Cia. Cinematográfica Vera Cruz, na cidade de São Bernardo do Campo (SP), onde chegou a gravar quatro novelas diferentes ao mesmo tempo.

Fazem parte deste ciclo, sucessos como "A Moça que Veio de Longe" (1964, com Rosamaria Murtinho e Hélio Souto), "A Deusa Vencida" (1965, estréia de Regina Duarte, ao lado de Tarcísio Meira, Glória Menezes e Edson França), "A Grande Viagem" (1965/66, com Daniel Filho e Regina Duarte) e "Almas de Pedra" (1966, com Tarcísio Meira, Glória Menezes, Francisco Cuoco e Suzana Vieira).

A glória máxima desse período foi "Redenção", a novela mais longa da história da tevê, com quase 600 capítulos, entre 1966/68. Foi a primeira a possuir uma cidade cenográfica, com estação ferroviária e trem rodando por ao menos 100 metros. O casal central da trama era vivido por Francisco Cuoco e Miriam Mehler (alguns sites divulgam erroneamente que o par de Cuoco na novela era Regina Duarte). Foi em "Redenção" que o público demonstrou o quanto poderia interferir no desenvolvimento de uma trama. Tudo porque o personagem de Aparecida Baxter - a fofoqueira Dona Maroca - deveria morrer. A Excelsior recebeu tantas cartas contrárias que o personagem de Cuoco - Dr. Fernando - fez um transplante de coração, salvando-a. Foi o primeiro transplante realizado em telenovela, numa época em que isso não era feito nem na vida real...

Em agosto de 1967 foram inaugurados os estúdios no bairro da Vila Guilherme em São Paulo. O novo espaço fora projetado para 12 estúdios, espaço para cidades cenográficas, cerca de 500 salas de escritórios, dois restaurantes, ambulatório, oficina mecânica, marcenaria e depósito. A área era isolada e de difícil acesso, além de ser insalubre pelo fato de estar localizada próxima a um depósito de lixo da Prefeitura Municipal. Logo após a inauguração, o local foi vítima de um incêndio.

Ainda assim, as novelas de sucesso prosseguiam com "As Minas de Prata" (1966/67, com Carlos Zara e Regina Duarte), "O Morro dos Ventos Uivantes" (1967, com Altair Lima e Irina Greco), "O Tempo e o Vento" (1967/68, com Carlos Zara e Georgia Gomide) e Legião dos Esquecidos (1968/69, com Francisco Cuoco e Regina Duarte).

Vale dizer que a novela "A Muralha" talvez tenha sido a última grande produção da emissora. Produzida em 1968/69, dava 35% de audiência, tendo conseguido alto nível de direção e interpretação, com um elenco estelar formado por Fernanda Montenegro, Nathália Timberg, Paulo Goulart, Stênio Garcia, Nicete Bruno, Cláudio Corrêa e Castro, Mauro Mendonça e outros. Na ocasião, o ator Larry Hagman (da série Jeannie é um Gênio) visitava o Brasil e ficou espantado com os cenários. Perguntou se estavam produzindo um filme para ser vendido no mercado internacional e ficou inconformado ao saber que aquilo estava sendo feito apenas para uma telenovela. O ator teria dito que todo aquele aparato era caro demais e que não se pagaria da forma como estava sendo feito.

Logo depois vieram outros campeões de audiência como "A Pequena Órfã" (1968/69, com Dionízio Azevedo e Patrícia Aires), "Sangue do Meu Sangue" (1969/70, com Francisco Cuoco, Nicete Bruno, Fernanda Montenegro e Tônia Carrero) e "A Menina do Veleiro Azul" (1969/70, com Maria Izabel de Lizandra e Edson França).

A telenovela "Dez Vidas" (1969/70) foi a última que a emissora conseguiu concluir. Suas externas foram gravadas na cidade de Santana de Parnaíba (SP), com o saudoso Carlos Zara no papel de Tiradentes.

Séries

Várias foram as séries de tevê exibidas pela TV Excelsior. Por ali passaram títulos como Ben Casey, Dr. Kildare, Mr. Lucky, Lassie, Império, Missão Impossível, O Agente da UNCLE, Mannix, James West, Big Valley, Jornada nas Estrelas, 77 Sunset Strip, Cidade Nua, Robin Hood, Flipper, E as Noivas Chegaram, Tarzan, A Noviça Voadora, Bat Masterson, Júlia, A Garota da UNCLE, Impacto, Túnel do Tempo, Contra Espionagem, Bronco, Peter Gunn, Honey West, Casey Jones, O Jovem Centenário, Alma de Aço, Francis Drake, A Escuna do Diabo, Guerra Sombra e Água Fresca, Hondo, Custer, O Falcão, Dick Van Dyke Show, Ele e Ela, As Sogras, Fazendeiro do Asfalto, Chaparral, This is Tom Jones, Quinta Dimensão, Os Monkees, entre outras.

Em 1968 foi publicado na imprensa que a série Missão Impossível (TV Excelsior - Seg, 22h) era a mais assistida em São Paulo, seguida de perto por O Agente da UNCLE (TV Excelsior - Ter, 22h) que, segundo dados divulgados na ocasião, era vista semanalmente por 2,5 milhões de telespectadores.

A Crise

Enquanto a Excelsior se consolidava como a melhor emissora produtora de telenovelas, sobravam dívidas referentes a grande arrancada de 1963, quando promoveu inúmeras contratações: compra de séries, equipamentos para transmissão colorida, instalações etc.

Em 1965 houve uma tentativa de transformar a estação numa fundação. Outra alternativa era ter-se transformado numa emissora do governo estadual. Nada deu certo e, sob pressão, Wallinho Simonsen passou o controle acionário da emissora para Edson Leite, Alberto Saad, Otávio Frias e Carlos Caldeira (estes dois últimos sócios do grupo Folha de SP).

Nesse mesmo ano, com o surgimento da Rede Globo de Televisão, vários profissionais da área de humor passaram a migrar para a nova emissora. Mantendo as telenovelas como principal atração, a Excelsior promoveu, sob o comando de Solano Ribeiro, o "I Festival de Música Popular Brasileira", cuja vencedora foi a cantora Elis Regina, com a música "Arrastão", autoria de Edú Lobo.

Vislumbrando o potencial de tal filão de mercado, a TV Record passou a investir pesado em programas musicais, contratando em 1966 todos os grandes valores da música brasileira.

Na Excelsior, a situação só piorava. A ordem do dia era conter despesas e reduzir ganhos. Consta que a comediante Dercy Gonçalves foi embora da emissora por não concordar com a redução que lhe fora proposta.

Os problemas se avolumavam e já em 1966 a emissora chegou a atrasar em dois meses o pagamento de seus funcionários. Durante os anos de 1967/68, a Excelsior tentou trazer alguns artistas de volta, mas não obteve sucesso, já que eles retornavam, ficavam por um tempo e depois iam embora novamente (como nos casos de Chico Anísio e Bibi Ferreira).

A Falência

A partir de 1969 instaurou-se o processo de falência da TV Excelsior. Haviam saído Edson Leite e Alberto Saad e os acionários do grupo Folha de SP, numa manobra inacreditável, devolveram para Wallinho Simonsen a concessão da rede com todos os equipamentos, todas a dívidas, mas sem os imóveis! Inacreditável... pegar de volta uma empresa com dívidas até o pescoço e quase sem condições de operar...

Mesmo sem restringir a qualidade do que era exibido, a Excelsior foi em frente. No final de 1969, a programação iniciava às 11h30. Todo seu horário vespertino era preenchido com desenhos, séries e filmes já antigos. A partir de 1970, ninguém sabia o que a emissora ia exibir até as 19h00, horário em que entrava no ar a telenovela "A Menina do Veleiro Azul".

Em março de 1970, Wallinho Simonsen vendeu a Excelsior para Dorival Masci de Abreu, na época dono da Rádio Marconi de São Paulo. O jornalista Ferreira Neto (que havia trabalhado na emissora em 1967) recebeu nessa ocasião o cargo de superintendente. Tempos depois soube-se que Abreu tinha processos por dívidas e inúmeros títulos protestados. Wallinho foi detido pela Polícia Federal, após descobrir-se que a verdadeira compradora da TV Excelsior era a mulher de Abreu, Terezinha. A Justiça Federal determinou então que o negócio fosse desfeito. Nesse meio tempo, um colegiado de funcionários da emissora decidiu que Ferreira Neto e Gonzaga Blota fossem colocados como chefes operacionais da rede.

Em abril de 1970 a Excelsior recebeu uma ação de despejo referente aos aluguéis em atraso do Teatro Cultura Artística. Nesse mesmo mês, foi lançada a Campanha da Esperança. Durante 24 horas os funcionários apelavam aos telespectadores e - principalmente - aos credores, para que os auxiliassem. Artistas de outras emissoras passaram a fazer shows beneficentes. Estima-se que a dívida da Excelsior era então da ordem de 10 milhões de dólares. O final da empresa deixaria naquela altura 400 funcionários desempregados.

O incêndio de 1970

Em julho de 1970 ocorreu um incêndio que dizimou três dos quatro estúdios da Vila Guilherme. A situação era cada vez pior: dívidas acumuladas, salários vencidos, perdas na justiça do trabalho, aluguéis atrasados, dívidas com distribuidoras de filmes e vários outros credores. O jornalista Ferreira Neto tomou por iniciativa conversar com o então Presidente da República Emílio G. Médici. Explicou-lhe que a Excelsior pretendia negociar uma grande área de terreno na cidade de Campos de Jordão (SP). A idéia era vender metade da área, realizar ali uma grande telenovela e vender a outra metade com a supervalorização que a novela daria para o local. Médici ficou de pensar a respeito mas nunca deu uma resposta. Ao invés disso, passados dois meses, em 28 de setembro de 1970, cassou a concessão de funcionamento das emissoras da rede. Tanto em São Paulo, como no Rio de Janeiro, a programação continuou por mais dois dias, até que funcionários do Ministério das Comunicações foram promover a retirada do cristal responsável pelas transmissões.

No dia 1 de outubro de 1970, durante o programa cômico "Adélia e suas Trapalhadas", o jornalista Ferreira Neto invadiu os estúdios às 18h40 para anunciar que, por ordem do Governo Federal, o canal 9 paulistano estava encerrando definitivamente suas atividades. Em 15 de outubro de 1970 foi decretada a falência fraudulenta da TV Excelsior.

Pontos de Interesses

Falar de Excelsior é falar de inovação. É sentir saudade de uma televisão que hoje já não existe mais. Nem mesmo a Rede Globo, com todo seu potencial tecnológico, consegue dar às imagens o poder de envolvimento que a Excelsior possuía. Destacamos a seguir pontos de interesse na história dessa emissora:

*Bibi Ferreira comandou durante anos o "Brasil 60" (era 60 por causa do ano em que começou a ser produzido). A cada virada de ano mudava o título. Assim tivemos o Brasil 61, 62, 63 etc. A julgar por relatos da época, era mais ou menos o estilo de atração que Hebe Camargo pratica até hoje em televisão. Com 42% de audiência, foi o primeiro programa a ser vendido para outras praças, coisa até então inédita em tevê. Depois de algum tempo, o programa passou a se chamar "Bibi Sempre aos Domingos". Passou a ter oito horas de duração e promovia gincanas entre cidades do estado de São Paulo;

*A parte de notícias teve grande espaço na emissora. O telejornal chamou-se a princípio "Jornal Excelsior" e depois mudou para "Jornal de Vanguarda". Tal programa ganhou até prêmio na Espanha. Foi o primeiro a ter vários locutores dentro de um mesmo estúdio, cada um falando sobre um assunto. Introduziu-se também nesse telejornal a figura do "sombra" (mais ou menos como mostrado anos depois no programa do Ratinho, no SBT). Alguns pontos de notícia existiam durante a programação, sob o título "A Marcha do Mundo", com comando do já falecido Kalil Filho;

*A parte teatral também foi contemplada. Foi criado o "Teatro 9", envolvendo autores como Gianfrancesco Guarnieri, Roberto Freire e Oduvaldo Viana Filho. Em 1962, Tônia Carrero e Paulo Autran eram os protagonistas da peça "Esses Maridos", sob direção de Adolfo Celi. Tempos depois fora criado o "Teatro 63", idealizado por Walter George Durst. Em 1967, Cassiano Gabus Mendes atuava no setor de dramaturgia da emissora;

*O Canal 9 primou por produzir grandes shows humorísticos e musicais como "Vovô Deville", "Times Square" (até hoje considerado o melhor no gênero, com música de João Roberto Kelly), "My Fair Show", "Ari Leite Show Eu", "A Cidade Se Diverte", "Show Riso" e os programas de Chico Anysio, Moacyr Franco, Costinha, Dercy Gonçalves, dentre outros;

*Luta Livre era o prato preferido de muitos nos finais de semana. Para tanto, a emissora colocava no ar o "Telecatch Montilla" e "Os Reis do Ringue", com os lutadores Ted Boy Marino e Fantomas;

*João Saldanha, Armando Nogueira e Geraldo José de Almeida fizeram parte da equipe esportiva, cobrindo e comentando partidas de futebol;

*Em 1966, a TV Excelsior lançou "Os Trapalhões". Na época, eles eram chamados de "Adoráveis Trapalhões". O quadro era composto por Renato Aragão, Wanderley Cardoso, Ivon Curi, Ted Boy Marino e participação da cantora Vanusa. Em 1969, esse grupo foi para TV Record de São Paulo, sob o título de "Os Insociáveis" (com Renato Aragão, Dedé Santana e Mussum). Nos anos 70, o grupo mudou-se para a a TV Tupi (já com Zacharias);

*O apresentador Edson Bolinha Cury manteve o seu programa de calouros por vários anos na Excelsior. Ele também participava de comentários esportivos sobre futebol aos sábados a noite;

*O apresentador Chacrinha também passou pela emissora com o famoso "A Hora da Buzina" e sua "Discoteca do Chacrinha";

*O apresentador Raul Gil chegou a ter um programa de calouros. Alguns dizem que foi "A Bronca do Telefone"; outros dizem que a atração chamava-se "Calouros no Chuveiro";

*O apresentador Flávio Cavalcanti, numa era pré-Tupi, apresentava "Um Instante, Maestro!";

*O maestro Silvio Mazzuca aparecia aos Domingos, em 1966, no muito aplaudido "Show do Meio Dia";

*Os cantores Eduardo Araújo, Jerry Adriani e Ronnie Von tiveram espaço próprio na Excelsior, dando índices de audiência da ordem de 27%;

*Vários também foram os desenhos exibidos (Popeye, Jambo e Ruivão, Don Pixote, Bat Fino, Os Flintstones, Os Jetsons, Wally Gator, Tartaruga Touché, Bibo Pai e Bobi Filho, Pepe Legal, entre outros.

Conclusão

Uma empresa nunca acaba por um único motivo. Na verdade, um conjunto de fatores levam uma empresa a desaparecer. No caso da Excelsior, esses fatores foram políticos, administrativos, financeiros, dentre outros. Fica evidente que a emissora tinha mentalidade criativa de sobra. Mas faltou, sobretudo, mentalidade administrativa. A diretoria mudou várias vezes, o custo de tudo era sempre muito alto e a despesa era sempre maior que a receita.

O processo de falência da Excelsior possui mais de 2 mil páginas e aponta Mário Wallace Simonsen Neto como o responsável pelo episódio. Wallinho faleceu em 2001 e pouca coisa foi resolvida. Muita gente nada recebeu até hoje. Após a cassação do canal, seus equipamentos simplesmente desapareceram. Há quem diga que muito material da Excelsior teria sido levado para a TV Gazeta de São Paulo, que na época iniciava suas atividades. Algumas publicações dizem que um caminhão de externas dessa emissora teve a logomarca raspada e - embaixo dela - apareceu a da Excelsior.

Segundo o ator Gianfrancesco Guarnieri, a TV Excelsior fez da televisão uma indústria cultural, valorizou o profissional de televisão, investiu na industrialização de telenovelas, abriu espaço para o autor brasileiro e serviu de enorme know-how para o que a Rede Globo é hoje.

Na verdade, a Globo ocupa hoje o primeiro lugar porque deu continuidade - praticamente com as mesmas pessoas - ao modelo implantado pela Excelsior. O que mais podemos dizer de uma emissora que tinha em seu time de profissionais gente jovem e com talento? Gente como Boni, Gonzaga Blota, Daniel Filho... e tantos outros.

Frases

"...o seu grande fracasso foi a revolução de 1964 e a chegada da ditadura. Ela não foi vencida, foi destruída." (Fernando Barbosa Lima)

"Naquela época eu era muito jovem e meu pai estava querendo me situar, me colocar em alguma coisa que eu pudesse produzir e então fui ser diretor na Excelsior." (Wallace Simonsen Neto)

"A Excelsior estabeleceu principalmente uma idéia de empresa industrial de televisão." (Edson Leite)

"(...) foi a autêntica protagonista da transformação da televisão. Não devemos esquecer o que foi a [TV] Tupi e o que significou a TV Paulista, mas o primeiro momento de síntese e de transformação foi a TV Excelsior. Ela foi o elo para para a televisão moderna que existe hoje. Ela foi a transição. Ela teve dentro todas as propostas. Como todas foram viáveis, ela é a verdadeira protagonista da fase moderna da televisão brasileira." (Walter Avancini)

"Pedi apenas a compreensão do responsável pelo Dentel que foi lá, para que eu entrasse no ar e fizesse uma despedida... foi uma despedida patética, onde até eu chorei no ar... tenho arquivado o tape... toda essa coisa terminou assim... foi o sepultamento triste de uma luta terrível ..." (Ferreira Neto)

Fontes: Internet; Arquivo Pessoal; "Memória da Telenovela Brasileira" (livro do saudoso Ismael Fernandes); "Gloria in Excelsior" (brilhante livro escrito por Álvaro de Moya).