A TRAJETÓRIA DE DARCY RIBEIRO


As gerações recentes não conhecem os grandes homens que fizeram alguma coisa pelo país. A memória curta, motivo de anedota durante a ditadura militar, no entanto é moeda de aposta da grande mídia, que, aparentemente em nome do "novo", menospreza as lições do passado. Desde a década de 90, marcada pelo entretenimento obsessivo, pelo pragmatismo do presente e pelo desprezo aos grandes ideais de transformação, tidos erroneamente como falidos, o culto à "memória curta", que tem a vantagem, para as elites, de resgatar personalidades duvidosas através da ocultação de seus erros, chega a ser defendido por setores reacionários da juventude.

Exemplos de personalidades desprezadas pelo grande público são muitos. Apenas poucos iluminados conseguem admirá-los e seguir ou mesmo discutir e questionar seus legados, no saudável debate pelo aperfeiçoamento das idéias. Um deles é o antropólogo, etnólogo, educador e senador Darcy Ribeiro, que as gerações mais recentes se lembram mais na função de colaborador do então governador fluminense Leonel Brizola (1922-2004), nos anos 80, através da elaboração dos Centros Integrados de Educação Popular, os CIEPs.

Darcy, no entanto, foi uma das grandes personalidades de nosso país, e já se foram mais de dez anos de sua morte, ocorrida em 17 de fevereiro de 1997, numa época próxima aos falecimentos do cantor Chico Science e do jornalista e escritor Paulo Francis (que era conservador, mas era dotado de inegável inteligência e talento de escrever). Três personalidades diferentes - sendo Science o mais jovem deles - , mas cada um com sua grandeza, virtude inexistente em épocas de entretenimento compulsivo, onde qualquer Paris Hilton se torna "inteligente" por coisa nenhuma e vira mito "inquestionável" para muita gente.

Darcy Ribeiro era mineiro de Montes Claros, e nasceu em 26 de outubro de 1922. Na juventude, já vivendo em São Paulo, foi diplomado cientista social pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1946. Sua especialização foi em Antropologia. Logo a seguir, em 1947, realizou suas primeiras pesquisas etnólogas. Trabalhando para o Serviço de Proteção aos Índios, entidade criada em 1910 pelo Governo Federal e substituída em 1967 pela atual Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Darcy realizou pesquisas sobre os povos indígenas no Centro-Oeste, no Amazonas e nos Estados de Paraná e Santa Catarina. Essa fase se concluiu em 1956.

Em 1953, Darcy Ribeiro criou o Museu do Índio, no Rio de Janeiro. Além disso, escreveu vários livros resultantes das pesquisas etnográficas sobre os povos indígenas, e também elaborou um trabalho para a UNESCO sobre o impacto provocado pela civilização aos grupos indígenas brasileiros no século XX. Colaborou também para a Organização Internacional do Trabalho, participando da elaboração de um manual sobre os povos aborígenes de todo o mundo. Em 1961, quando desempenhava também o cargo de Ministro da Educação do governo Jânio Quadros, Darcy Ribeiro participou da criação do Parque Indígena do Xingu, com 27 mil km² e localizado no norte de Mato Grosso, entre o Planalto Central e a Amazônia. Atualmente, o Parque conta com cerca de 5.500 índios de catorze etnias ligadas às grandes famílias lingüísticas indígenas do país: Carib, Aruak, Tupi e Jê.

Darcy Ribeiro foi, ao lado de outro educador, Anísio Teixeira, um dos maiores idealizadores da Universidade de Brasília, concebida por uma equipe de professores e intelectuais. Projeto idealizado em 1959, quase não foi levado adiante devido à ameaça de setores conservadores da Igreja Católica de implantarem primeiro uma Universidade Católica. Enfrentando forte oposição, a Universidade de Brasília foi fundada em 21 de abril de 1962, exatamente dois anos após a cidade que a abriga, implantando um programa e uma estrutura de ensino inovadores, que buscavam romper com a tradição viciada do academicismo, mais voltada a uma imitação em tons narcisistas e "façanhudos" dos clichês acadêmicos europeus do passado. Tornou-se o primeiro reitor da instituição.

Uma amostra do caráter transformador da UnB é a preocupação em adaptar a vocação potencial do aluno, que deixaria de escolher previamente uma faculdade para um curso predeterminado. Ao invés disso, faria um curso básico nos Institutos Centrais, durante dois anos, experimentando suas aptidões nos Centros de Prática correspondentes à profissão escolhida. Depois dos estudos introdutórios e básicos, o aluno optaria por vários caminhos, entre eles o de orientar-se para a Faculdade referente à sua profissão, ou permanecer no Instituto Central para aperfeiçoar o aprendizado e conquistar o Bacharelado, ou o próprio aluno encaminhar um plano pessoal de estudos que lhe proporcionasse uma formação curricular de novo tipo, com um novo aprendizado interdisciplinar.

No governo João Goulart, Darcy Ribeiro desempenhou a função de chefe da Casa Civil. Através do cargo, Darcy Ribeiro contribuía com suas idéias para o projeto de reformas estruturais prometido pelo presidente. As reformas de base, numa interpretação exagerada da direita política brasileira, sobretudo através do jornalista e, na época, governador da Guanabara, Carlos Lacerda, foram vistas como uma sinalização para a implantação do comunismo no Brasil, nos moldes adotados por Cuba, que se declarou adepta do regime de Moscou em abril de 1961.

Essa exploração negativa das reformas de base de Jango - que, na verdade, se equiparavam, no contexto da época, ao programa de governo de Luís Inácio Lula da Silva 40 anos depois - resultou no golpe militar de 1964. O golpe, que instaurou uma ditadura de duas décadas, comprometeu seriamente o programa da Universidade de Brasília, tanto pela repressão do regime quanto pela demissão de seus profissionais e idealizadores, forçados a viverem no exterior. Darcy estava incluído entre eles. Estava com os direitos políticos cassados pelo primeiro Ato Institucional lançado pelos generais.

Vivendo em vários países latino-americanos, Darcy Ribeiro colabora na elaboração de projetos de reforma universitária, com base nas idéias defendidas em seu livro A Universidade Necessária e na experiência da Universidade de Brasília. Torna-se professor de Antropologia na Universidade Oriental, no Uruguai. Também atua como assessor dos presidentes Salvador Allende, no Chile, e Velasco Alvarado, no Peru. No exílio, produziu uma série de livros intitulada Antropologia da Civilização, cujos volumes se chamavam O processo civilizatório, As Américas e a civilização, O dilema da América Latina, Os brasileiros - 1. Teoria do Brasil e Os índios e a civilização. Em 1976, voltando ao Brasil, publica seu primeiro romance, Maíra. Em sua vida, o antropólogo publicou mais outros três romances.

Anistiado em 1980, Darcy dá seqüência ao seu trabalho como educador e pesquisador no Brasil. Filia-se ao Partido Democrático Trabalhista, fundado no ano anterior por Leonel Brizola depois de perder o comando do Partido Trabalhista Brasileiro para a filha de Getúlio Vargas, Ivete. Compõe com Brizola a chapa para o governo do Rio de Janeiro, em 1982, vencendo as eleições. Ao cargo de vice-governador, Darcy acumula as funções de Secretário da Cultura e coordenador do Programa Especial de Educação. Idealiza os Centros Integrados de Educação Popular, CIEP's, planejando um novo tipo de edifício escolar e um programa de educação fundamental para crianças carentes. Infelizmente, a burocracia e as pressões políticas da oposição - estávamos no fim da ditadura militar, mas a direita política queria de alguma forma encampar o poder na redemocratização - impediram o êxito completo dos CIEP's. Num acordo político entre Brizola e o então presidente Fernando Collor, foram introduzidos os Centros Integrados de Apoio à Criança (CIAC), de concepção semelhante ao CIEP.

Em 1990, foi eleito senador pelo Rio de Janeiro, defendendo, como parlamentar, vários projetos de lei, entre eles uma lei de trânsito protegendo os pedestres, uma lei sobre transplantes permitindo o uso de órgãos de pessoas falecidas e uma lei para prevenir as crianças de consumirem a cola de sapateiro, droga considerada de alto risco contra a vida.

Nos anos 90, Darcy ainda realizou outros projetos. Implantou e consolidou a Universidade Estadual do Norte Fluminense, visando preparar o ensino superior brasileiro para o Terceiro Milênio. Ainda contribuiu na revitalização da Floresta da Pedra Branca, no Rio de Janeiro, uma área ambiental de 12.000 hectares. Também atuou pelo tombamento de 98 km de praias e encostas no país, além de mil casas em áreas de patrimônio histórico do Rio de Janeiro.

Em 08 de outubro de 1992, Darcy Ribeiro foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira n° 11 da instituição, cujo patrono foi o poeta fluminense Fagundes Varela e cujo ocupante anterior foi Deolindo Couto. Recebeu vários títulos de Doutor Honoris Causa da Sorbonne, da Universidade de Copenhague, da Universidade do Uruguai, da Universidade da Venezuela e da Universidade de Brasília (1995). Não é coisa recente: em 1950, recebeu o Prêmio Fábio Prado, de São Paulo, pelo seu trabalho como antropólogo. Em 1996, no final da vida, o antropólogo recebeu, da Organização dos Estados Americanos, o Prêmio Interamericano de Educação Andrés Bello, pelo conjunto de sua obra.

Nos últimos anos de vida, recebe homenagens, faz palestras para estudantes e publica suas últimas obras. Entre elas, O povo brasileiro, obra que conclui sua série sobre Antropologia da Civilização. No ano de 1996, entrega à editora Companhia das Letras as páginas originais do livro Diários Íntimos, compostas de anotações sobre sua experiência ao lado dos índios Urubu-Kaapor, na Amazônia.

Uma de suas últimas atividades foi a defesa, no Senado, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), aprovada em 1996. Vítima de câncer, Darcy Ribeiro morre em 17 de fevereiro de 1997, com cerca de cinqüenta anos de atividade intelectual e política.

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