A TENTATIVA DE INVERTER OS PAPÉIS DO BREGA JOVEM E DA MPB


GUILHERME ARANTES (E) FOI CONSIDERADO "BODE EXPIATÓRIO" DA BREGALIZAÇÃO DA MÚSICA BRASILEIRA. FÁBIO JR., QUE NO ENTANTO ABRAÇOU A MÚSICA BREGA, É CONSIDERADO "MPB" POR ALGUNS DESLUMBRADOS.

O período 1977-1981 foi complicado para a Música Popular Brasileira. Além da indústria fonográfica estabelecer regras mercantilistas que deturparam a música brasileira seriamente, criou um grande impasse para alguns cantores da nova geração que tiveram o azar de serem obrigados a priorizar o repertório romântico e os arranjos pasteurizados determinados pelos diretores artísticos das gravadoras.

São cantores como Guilherme Arantes, Biafra, Marcos Sabino, Dalto, Vinícius Cantuária, Lúcia Turnbull, Tetê Espíndola, entre outros. Pessoas bem intencionadas da geração jovem da MPB que tiveram o azar de encontrar a indústria fonográfica em sua fase mão-fechada, impondo um padrão luxuoso de arranjos e mixagens. Ênfase nos teclados e nos metais, mixados em volume mais alto que a bateria, mixada bem baixinho. Letras amorosas ou de cunho ecológico piegas. Coro de crianças. Capas bem produzidas. Baladas, muitas baladas, muita música lenta.

A situação, no entanto, piorou quando essa geração surgiu juntamente com a de outros cantores, associados a uma nova safra da música brega. São eles: Fábio Jr., Gilliard, José Augusto, Fernando Mendes, Peninha, Adriana, Nahim, Ângelo Máximo, entre outros. Todos seguindo fielmente a cartilha comercial da música cafona, obedientes a produtores, arranjadores e gerentes de gravadoras, gravando tranquilamente suas piegas canções românticas, fazendo serenamente o serviço da indústria da mídia e do entretenimento.

Diante de várias correntes culturais que vieram a partir dos anos 80, entre roqueiros e brega-popularescos, foi uma grande confusão que prejudicou seriamente toda uma nova geração da MPB. Os interesses mercadológicos também fizeram complicar ainda mais a situação, já que, por exemplo, uma cantora emergente como Joanna, surgida dentro do mesmo cenário de Guilherme Arantes, teve que se mudar para a "praia" de José Augusto por exigência de Michael Sullivan, Paulo Massadas e Miguel Plopschi, que promoviam o mercantilismo musical do "brega luxuoso" na RCA brasileira (atual Sony Music).

Mesmo as gravações da época de veteranos como Ritchie (inglês naturalizado brasileiro) e Marcos Valle (da geração jovem da Bossa Nova pós-1961) acabaram por colocá-los numa reputação brega ingrata. Enquanto isso, nomes como Fábio Jr. e José Augusto eram vendidos falsamente como "MPB" até nos anúncios de clubes noturnos suburbanos. A essas alturas o "brega jovem" já se povoava de crooners da linha de Markinhos Moura, do sucesso "Meu Mel".

As gravações de Caetano Veloso para músicas de Fernando Mendes e Peninha, as de Simone para José Augusto (que por sua vez cooptou o irmão de Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle, para escrever letras para o ídolo brega), junto às broncas roqueiras contra Guilherme Arantes e, por outro lado, toda uma corrente "revisionista" da historiografia brega puxada por Paulo César Araújo, fizeram com que, acidentalmente, os papéis da jovem geração da MPB autêntica dos anos 70-80 tivesse sua reputação invertida com os novos-bregas da mesma época.

É preciso uma análise mais objetiva e menos "apaixonada" para botar a MPB autêntica e a música brega, cada uma, no seu devido lugar.

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