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O SAMBA-SOUL VERSUS O SAMBÃO-JÓIA


Jorge Ben Jor (na época, apenas Jorge Ben - foto à esquerda) foi um dos precursores da fusão do samba com a música soul dos EUA, tendência que teve sua forma diluída para o brega, no caso representada por nomes como Benito Di Paula.

No começo da década de 60, enquanto os EUA viam o surgimento e o crescimento da música soul a partir de artistas lançados por gravadoras como Motown e Stax - hoje selos ligados a grandes companhias - , o Brasil via a redescoberta do samba, desde o final da década anterior.

A juventude moderna da época, mais precisamente 1961, começava a ouvir tanto soul quanto samba nos bailes noturnos, e novos talentos começavam a se tornar conhecidos, como Orlandivo, cantor da banda de Ed Lincoln, e Elza Soares.

Com isso, ao chegar 1963 um jovem cantor influenciado levemente pela Bossa Nova lançava seu primeiro LP. Era Jorge Ben, um jovem do bairro carioca da Tijuca, cujos amigos Erasmo Carlos e o capixaba Roberto Carlos já lançavam discos e eram ídolos musicais emergentes.

A turma da Tijuca era influenciada pela Bossa Nova, mas não queria fazer especificamente este som. Erasmo e Roberto passaram a fazer rock, dentro daquela linha comportada de Elvis Presley após o serviço militar. Jorge Ben, por sua vez, manteve a BN apenas como ingrediente de seu hibridismo musical.

Juntando, pouco depois, com a guitarra elétrica e a soul music, Jorge Ben lançou as bases do que se tornou o "samba jovem", primeiro nome que o samba soul ou samba rock - que de "rock" só tem o nome, porque o ritmo é soul music puro, às vezes um pré-funk (relativo ao funk autêntico), tendência que foi considerada a modernização do samba brasileiro, apenas para diversificar o ritmo afro-brasileiro, criando uma nova linguagem.

Em seguida, o samba jovem mostrou seus novos astros: Elza Soares, Wilson Simonal, Originais do Samba, Trio Mocotó, Orlandivo e outros. Misturava-se, com o samba, elementos de soul e jazz numa linguagem moderna e que traduzia à sua maneira a "antropofagia" pensada por Oswald de Andrade.

O samba soul teve ainda momentos hilários, quando em 1970, num evento promovido pela Rede Globo realizado no Maracanazinho, o maestro Erlon Chaves, convertido em cantor porque Jorge Ben concorria com outra música, "Charles Anjo 45", foi defender a música "Eu Quero Mocotó" (uma brincadeira sexual de Jorge, já que "mocotó" era um gíria dada às belas pernas de uma mulher) junto a algumas dançarinas, que faziam uma coreografia sensual que causou escândalo. Nada a ver com o escândalo proposital e grotesco de um É O Tchan nos anos 90, mas a um happening usado como complemento à música tocada. "Eu Quero Mocotó" foi tocada em alguns episódios do seriado A Diarista, da mesma Globo.

Também não é preciso dizer que o samba soul teve a adesão até de nomes da Jovem Guarda como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia. Um outro amigo da dupla Roberto e Erasmo começava a escrever a história da black music brasieira, o cantor Tim Maia, e ele não ficou de fora do samba rock, sobretudo pelo sucesso "Gostava Tanto de Você".

Mas, enquanto o samba soul ou samba rock faziam sucesso e representavam uma renovação da linguagem do samba, dentro da modernidade juvenil urbana dos anos 60, a música cafona, que pegava carona em ritmos e tendências já superados como fenômenos de sucesso popular, como os boleros, as serestas e mesmo a Jovem Guarda em 1968, também aproveitou para se autopromover das renovações do samba e, dentro do mesmo contexto dos retardatários da Jovem Guarda (Odair José, Paulo Sérgio, etc), veio então uma tendência derivada da música cafona: o sambão-jóia, ou samba-exaltação.

O termo "samba-exaltação" alude ao período político em que esse arremedo de samba jovem foi lançado. O sambão-jóia foi lançado em 1970, como trilha-sonora de uma campanha de valorização do país dentro do contexto ditatorial do governo Emílio Garrastazu Médici, o primeiro a começar o mandato sob a vigência do AI-5. O sambão-jóia também tornou-se perfeito para a exploração política e midiática da ditadura militar sobre a Copa do Mundo de 1970.

Seus nomes foram Benito Di Paula, Luís Ayrão e Luís Américo. Em certos casos, eles contavam com uma reputação semelhante a de compositores e cantores como Paul Anka e Neil Sedaka, que, surgidos num contexto comercial de canastrice roqueira, eles preferiram se sobressair, depois, como compositores românticos. Junto a eles, o cantor Wando surgiria também como uma resposta brega a Jorge Ben, para nos anos 80 se converter, através de sucessos como "Fogo e Paixão", numa caricatura cafona de Chico Buarque.

Aparentemente o sambão-jóia pode ser confundido com o samba soul, mas numa audição bem mais atenta, nota-se que o sambão-jóia, apesar de aparentemente divertido, possui um nível de criatividade artística bastante inferior.

Para o bem e para o mal, sambão-jóia e samba soul acabaram confundidos por muita gente, sejam aqueles que querem ver a duvidosa e medíocre música cafona no primeiro escalão da MPB, sejam as patrulhas de extrema-esquerda que atacavam qualquer manifestação musical politicamente descompromissada, como é o caso do samba soul.

Só mesmo ouvidos apurados e profunda imparcialidade histórica para discernir um e outro, sem rancores "militantes" que incriminem os renovadores do samba nem sentimentalismo paternalista que superestimem os diluidores.

HERANÇA - O samba soul abriu o caminho para a renovação musical vista em grupos como Picassos Falsos, Black Future e Skowa & A Máfia (Skowa, além disso, participou da nova formação do Trio Mocotó), além do movimento mangue beat de Recife e de fazer parte dos referenciais da moderna geração pós-1993 da MPB autêntica.

Já o sambão-jóia passou a influenciar uma geração de artistas neo-bregas, lançados pouco depois dos astros diluidores da música sertaneja, os breganejos (Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, entre outros). Esses novos diluidores do samba, também influenciados pela pseudo-sofisticação do brega por Sullivan & Massadas - principalmente pelos sucessos gravados pela sambista Alcione, cooptada para o esquema brega da dupla - , tornaram-se conhecidos como "sambrega".

O primeiro grupo de sucesso do sambrega foi o Raça Negra, seguido de Só Pra Contrariar (que lançou o cantor Alexandre Pires), Katinguelê, Grupo Molejo, Negritude Júnior, Art Popular, Karametade, Exaltasamba, Soweto (que lançou o cantor Belo) e Os Morenos. A diluição desses grupos evoca a soul music diluída dos EUA dos anos 80-90 e, quando muito, alguns grupos, como Exaltasamba, chegam a fazer uma caricatura de samba tradicional, copiando os elementos mais manjados da música do autêntico sambista Zeca Pagodinho.

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