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O PATRIOTISMO DE BARBOSA LIMA SOBRINHO


Diz uma fábula que um incêndio ocorre e apenas uma andorinha se esforça para apagar a chama. Outros animais logo sugerem para ela desistir, e a ave, no entanto, justifica sua perseverança, dizendo: “eu estou fazendo a minha parte”.

Assim foi Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, que em 16 de julho de 2000 nos deixou aos 103 anos (completos em 22 de janeiro de 2000), trabalhando até o fim. Ele era um jornalista simples, honesto, mas dotado de coragem e ação. Ocupava a cadeira 06 da Academia Brasileira de Letras, da qual era membro desde os 40 anos, em 1937. Foi várias vezes presidente da Academia Brasileira de Imprensa, e na primeira vez, em 1929, reformulou o estatuto da ABI, tornando-o compatível com os ideais democráticos que Barbosa Lima Sobrinho sempre defendeu. Sua maior preocupação sempre foi com a nação, a liberdade e a democracia. Um dos poucos a atuar em defesa das empresas nacionais, Lima Sobrinho defendia a tese de que a baixa auto-estima dos brasileiros atualmente se deve, entre outras coisas, à corrupção política e à venda das empresas nacionais para estrangeiros. Num de seus mais de 50 livros, o jornalista questiona o fato do Brasil nunca ter se tornado um país como o Japão, no que se diz à presença de empresas nacionais fortes.

Barbosa Lima Sobrinho, a princípio, não queria ser jornalista. Ele sonhava com o Direito, daí sua formação de advogado. Mas ele afirmava que o jornalismo era a única opção para pessoas que protestavam, e tão cedo exerceu a vocação, aos 14 anos, na sua terra natal, Recife, num jornal escolar, “A verdade”. Em seguida, passou a escrever para o jornal Diário de Pernambuco. Chegando ao Rio de Janeiro, em 1921 se tornou colaborador do Jornal do Brasil, aí permanecendo até o dia 16.07.2000, quando, ao morrer, já tinha seu último artigo, “A exclusão da classe média”, publicado no jornal. Barbosa Lima tinha uma trajetória peculiar, com idealismo, simplicidade e integridade.

A princípio, apoiou o governo de Vargas, confiando nele um defensor das empresas nacionais (ele havia, entre outras coisas, estatizado a companhia elétrica Light e criado a Companhia Siderúrgica Nacional e a Vale do Rio Doce). Em 1937, no entanto, Lima Sobrinho tem seu mandato na ABI cassado, e ele passou a questionar o regime. Mais tarde, com o surgimento da Petrobrás, em 1953, o jornalista afirmou: “Bastava esta consagração da Petrobrás para redimir sua (de Vargas) biografia”.

Lima Sobrinho presidiu, em 1938, o Instituto do Açúcar e do Álcool. Como deputado federal, fez parte da Assembléia Nacional Constituinte de 1945, que elaborou a Constituição de 1946. Foi governador de Pernambuco entre 1947 e 1951. Neste cargo, ele enfrentou, durante um ano, um processo movido pelos adversários que viam seus interesses comprometidos com o governo vigente. Ciente da sua formação de advogado, Barbosa Lima Sobrinho enfrentou e venceu ele mesmo os quatro advogados dos opositores.

Combatia pacificamente a corrupção e o entreguismo, e diante do Ato Institucional Nº 5 vigente no governo Médici, o jornalista formou uma chapa do MDB com Ulisses Guimarães para a anti-candidatura à sucessão do general presidente, em 1974. Era uma candidatura de protesto, porque o regime não permitia a candidatura de civis a cargos políticos. A candidatura não valeu legalmente, mas abalou a imagem da ditadura militar, que sofria seu primeiro desgaste moral.

Barbosa Lima Sobrinho foi bravo opositor do regime militar, e sofreu um infarto em 1965, diante da situação nacional tensa, viu sua casa sendo revirada pelos militares que o acusavam de participação no governo João Goulart, deposto pelo golpe de 1964. Ainda em 1965 o filho de Barbosa Lima Sobrinho, o também jornalista Fernando Barbosa Lima, estreava na televisão com o “Jornal de Vanguarda”, na extinta TV Excelsior. Este programa criou uma linguagem dinâmica no telejornalismo brasileiro e teve a atriz Natália Thimberg entre os apresentadores.

O fato que Barbosa Lima Sobrinho considera o melhor de sua vida, juntamente com aquela anti-candidatura de 1974, foi a assinatura do processo de impeachment de Fernando Collor, em dezembro de 1992. Ele encabeçou a lista dos assinantes, e além disso fez questão de integrar o grupo que enviou o documento ao Congresso Nacional, em Brasília. Barbosa Lima Sobrinho ainda repreendeu, dias depois, um médico que o seguira porque o jornalista viajou sem licença médica.

Como as antigas gerações de intelectuais, Barbosa Lima Sobrinho, a exemplo do geógrafo baiano Milton Santos, viu a globalização com ceticismo. “A globalização não interessa ao Brasil. É a doutrina das grandes nações, que serve sobretudo aos EUA”. Mas tal visão, infelizmente, é mais coerente, ante o delírio daqueles que só observam a globalização como um fenômeno positivo, irreversível e poderoso, delírio que trata o fenômeno como algo divino, como se Deus não fosse Deus, mas fosse, sim, a “globalização”. Em 1997, classificou a venda da Vale do Rio Doce como um “crime”. Certamente andava decepcionado com os rumos da economia brasileira, mas não perdia a calma e sabiamente fazia seus questionamentos no Jornal do Brasil.

No último artigo, “A exclusão da classe média”, Lima Sobrinho comenta a desesperança crônica do povo brasileiro. Barbosa critica o governo FHC, citado como principal foco da desestabilização sócio-econômica. Ele associa a queda do sentimento de nacionalidade (ou seja, patriotismo), à invasão de empresas estrangeiras, “numa espécie de demonstração prática que o brasileiro é incapaz de gerenciar e produzir, devendo se restringir apenas à função de rentista, como se dizia no século 19”. E mais, ele afirma que, com a desnacionalização, o Brasil não poderá desenvolver suas próprias multinacionais. Encerra ele: “fico imaginando qual será a reação da opinião pública quando afinal acordar e perceber que lhe tiraram tudo e sequer restou o aluguel. Será que teremos de esperar e pagar para ver chegar esse momento trágico? Não será melhor que, sobretudo como obrigação da maior parte dos formadores de opinião, se comece logo a reagir e a defender os legítimos interesses nacionais?”.

Sem dúvida alguma Barbosa nos deixou uma lição de patriotismo verdadeiro, sintetizada nesse precioso aviso no seu artigo que encerrou sua existência longeva e lúcida.

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