terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O COMANDO DE CAÇA AOS COMUNISTAS


CONFLITO ENTRE ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE MACKENZIE LIGADOS AO COMANDO DE CAÇA AOS COMUNISTAS E OS ALUNOS DE FILOSOFIA DA USP, EM SETEMBRO DE 1968. UM ESTUDANTE FOI MORTO NO CONFRONTO.

O episódio do jornalista Bóris Casoy, fazendo um comentário maldoso contra os garis, numa declaração de bastidor que uma falha técnica fez transmitir-se em rede nacional, repercutiu muito mais do que o mero comentário em si. Vários blogueiros, pesquisando revistas antigas, verificaram o passado de Casoy e constataram que ele havia integrado o Comando de Caça aos Comunistas, quando era estudante.

Pois o infame CCC, esquecido há tempos - apesar de seus princípios influenciarem, até hoje, o reacionarismo de muitos jovens sob a capa de "modernos" (fala-se até em Comando de Caça aos Conscientizados) - , e aparentemente associada a anônimos militantes, não só voltou à moda nos debates públicos como também mostrou um rosto bem conhecido, um jornalista que queria "passar o país a limpo" e que julgava os absurdos da vida "uma vergonha", mas que sujou sua reputação com um ato vergonhoso.

O Comando de Caça aos Comunistas é anterior à ditadura militar. Teria surgido já no início da década de 60, quando surgiram diversas instituições insatisfeitas com o quadro político do país na Era Kubitschek. Juscelino Kubitschek, então presidente da República brasileira, apesar de ser ligado a um partido conservador, o Partido Social Democrático (PSD), em virtude da própria aliança como o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), através da figura do vice, João Goulart, que, embora fosse um grande fazendeiro gaúcho, era ligado ao sindicalismo e acusado pela direita política de ser um simpatizante do comunismo.

Logo em 1959 havia surgido, por exemplo, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD). Depois vieram outras siglas, como Grupo de Ação Patriótica (GAP), Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) e o Comando de Caça aos Comunistas (CCC). Todos fachadas de "movimentos sociais" ou "institutos" em prol de uma campanha para eliminar a política nacional-populista que eles temiam se aproximar de ideais socialistas ou comunistas.

A campanha era feita nas mais diversas frentes que havia até movimentos de operários ligados a grupos direitistas. E mesmo a hoje considerada "inocente" divulgação de ídolos cafonas (Waldick Soriano, Nelson Ned) nas rádios do interior do país era uma forma do poder latifundiário neutralizar a ascensão da MPB autêntica dos Centros Populares de Cultura da UNE.

O Comando de Caça aos Comunistas era um misto de entidade paramilitar, gangue de arruaceiros e terroristas. Sua razão de ser, evidentemente, é a Guerra Fria, e a mobilização do grupo se efetivou quando o primeiro-ministro cubano Fidel Castro (que só se declararia presidente em 1976), em abril de 1961, declarou-se aliado do comunismo de Moscou.


INCÊNDIO NA SEDE DA UNE, NO BAIRRO CARIOCA DE BOTAFOGO, EM 01.04.1964. O ATO ESTÁ ASSOCIADO À AÇÃO DO COMANDO DE CAÇA AOS COMUNISTAS.

A primeira grande ação associada ao CCC ocorreu logo em 1964, no dia primeiro de abril, quando a sede da União Nacional dos Estudantes, no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro, foi incendiada. A ação teria sido feita por militantes do Comando de Caça aos Comunistas, pouco depois do Golpe de 1964. A UNE seria considerada extinta pelo governo militar pouco depois, mas a entidade continuou sua ação clandestinamente.

Naquela época, o grupo também teria invadido os estúdios da Rádio MEC, também no Rio, destruindo suas instalações e equipamentos.

Mas as ações do CCC se intensificaram em 1968, quando as manifestações estudantis realizadas no ano anterior - em reação ao acordo MEC/USAID que submeteria a Educação aos programas neoliberais e anti-democráticos - se tornaram intensas, principalmente após a morte do estudante Edson Luís, no Rio de Janeiro.

O CCC então teria feito vários atos violentos. Em 18 de julho, o grupo invadiu o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, durante a peça Roda Viva, escrita por Chico Buarque e dirigida por José Celso Martinez Correia, espancando os atores. No Rio de Janeiro, a poucos dias do AI-5, em 02 de dezembro,o grupo realizou um atentado à bomba no Teatro Opinião.

Mas o fato mais famoso envolvendo o CCC foi no dia 02 de outubro daquele mesmo 1968. Por volta de 10h, um grupo de estudantes da Universidade Mackenzie - nem todos os estudantes de lá eram ligados ao CCC, é bom deixar claro - iniciou uma briga com alunos da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo. Tanto a universidade particular quanto a faculdade estadual ficavam próximas, na mesma rua Maria Antônia.

Os estudantes da USP realizavam pedágios para arrecadar dinheiro para as atividades da UNE, quando eles receberam ataques verbais e físicos, incluindo rojões, ovos, tiros de revólver, dos alunos direitistas da Mackenzie. A rua se esvaziou e os dois grupos iniciaram um duelo, que deixou seis feridos do grupo direitista e dois do grupo da UNE, mas um morto, o estudante José Guimarães, que era ligado ao grupo da UNE.

Já antes desse episódio, uma reportagem da revista O Cruzeiro, segundo vários blogueiros, teria acusado o então universitário Bóris Casoy, que então estudava na Mackenzie, de frequentar reuniões do CCC. Mais tarde, Casoy se tornou conhecido por fazer parte da facção conservadora da imprensa paulistana.

O Comando de Caça aos Comunistas ainda é relacionado ao sequestro e assassinato do padre Antônio Henrique Pereira Neto, em Recife, no dia 26 de maio de 1969. Pereira Neto era ligado ao Arcebispo Dom Hélder Câmara, conhecido por suas ideias humanistas, e o padre havia celebrado, no Rio de Janeiro, uma missa em memória ao estudante Edson Luís.

Pereira Neto havia recebido ameaças de morte do CCC. A sua morte teve como responsáveis, por um inquérito movido pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco, Rogério Matos do Nascimento, delegado Bartolomeu Gibson, investigador de polícia Cícero Albuquerque, tenente José Ferreira dos Anjos, da Polícia Militar, Pedro Jorge Bezerra Leite, José Caldas Tavares e Michel Maurice Och. O sequestro, além da participação do CCC, teria tido o apoio da Central Intelligence Agency (CIA), serviço de informação americano que havia colaborado tanto nas ações golpistas contra Jango quanto no respaldo à ditadura militar.

O Comando de Caça aos Comunistas teria encerrado suas atividades em meados dos anos 70, quando já havia instituições de repressão e tortura como o DOI-CODI, e quando o regime militar já considerava praticamente controlado o quadro sócio-político brasileiro.

Mas o legado do CCC influenciou a ação de jovens reacionários que, desde os anos 90, agem para defender valores conservadores mas pretensamente "modernos" (sobretudo ligados à grande mídia) e que, na Internet, expressam sua fúria contra aqueles que contestam estes valores, com mensagens agressivas ou terrorismo virtual (e-mails "amistosos" contendo vírus).

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