Pular para o conteúdo principal

O CARÁTER GOLPISTA DA MÚSICA BREGA


Enquanto os defensores da música brega e todos os seus derivados - não devemos nos esquecer que até a axé-music e o "funk carioca" (FAVELA BASS) são derivados da música brega - classificam esse universo como se fosse "a verdadeira rebelião popular da História do Brasil", a máscara cai quando vamos analisar a fundo o que realmente é a música brega, que durante tempos foi chamada apenas de música cafona.

A música cafona tem suas origens no interior do país. Seus artistas, evidentemente, precisavam de espaço de divulgação e de tutela para suas carreiras. Quem é que tutelava eles, pobres mendigos? Gente que não tinha dinheiro para criar um armazém e instalava serviços de auto-falantes, relativamente caros naqueles idos de 1958-1964?

Não, os primeiros ídolos bregas eram respaldados por empresários ligados ao poder econômico dessas cidades - os latifundiários - e a rádios que respaldavam esse mesmo poder dominante. Não é preciso ter a "paranóia" de uma Luciana Genro para pensar assim, porque os fatos mostram a realidade dura e crua.

A música brega, em si, é a forma com que o poder dominante trabalha para controlar socialmente o povo pobre. Isso não é teoria conspiratória. Basta fazer uma associação entre o poder político econômico, o poder midiático e os cantores e grupos envolvidos para chegar a essa conclusão.

Note o que era o "cenário" da ideologia brega, com base nas suas letras, no seu lazer, e o papel que a mesma ideologia reservava ao povo pobre:

- A prostituição permanente das mulheres;

- O alcoolismo dos trabalhadores e também dos idosos, como forma passiva de lamentação dos problemas pessoais;

- A música expressa por vozes frouxas, por músicas muito mal compostas, influenciadas sempre em modismos já passados;

- O comércio clandestino de produtos contrabandeados;

- O sub-emprego, sem qualquer garantias trabalhistas;

- Serviços de Educação e Saúde totalmente deficitários.

Esse é o cenário do povo observado na "tão saudável" ideologia brega. A mesma ideologia tão defendida, nos últimos anos, por parte da intelectualidade e até mesmo de algumas personalidades progressistas, que acabaram traindo com seus antigos papéis históricos.

É essa "cultura popular" que as elites golpistas, sob o consentimento de outras elites, até mesmo aquelas que em tese criticariam o golpismo, que deixa o povo na sua eterna miséria. É uma "cultura" que se baseia não na visão de povo vista pelo grande pesquisador Mário de Andrade, mas pelo esnobismo fascista de um Justo Veríssimo (sátira de um fascista tropical criada pelo genial Chico Anysio).

Essa "cultura" do brega, tão louvada, tão exaltada, tão endeusada! Tão vangloriada pelos intelectuais que, no seu autismo, parece que cansaram de ouvir MPB autêntica! Tão estimulada pela mídia gorda, sem que qualquer pessoa, salvo exceções, perceba.

O cinismo é tamanho que, enquanto as prostitutas cientes de seus problemas sociais querem sair desse sub-emprego para irem à escola, para depois virarem professoras, costureiras, cozinheiras, comerciantes, médicas, cabeleireiras, garis, e outros empregos mais dignos, o "sistema" se limita a transformar a prostituição num emprego permanente, com carteira assinada e tudo, tudo para garantir o recreio sexual dos demagogos "Cientistas $ociai$" há muito divorciados.

A ideologia brega funcionou como um verdadeiro complemento interiorano, rural ou suburbano, do Golpe de 1964 e do AI-5. Enfraqueceu culturalmente o povo. Criou-se uma "cultura da mediocridade" que a visão etnocêntrica de intelectuais paternalistas cinicamente classifica de "verdadeira cultura do povo".

Não é preciso identificar esse etnocentrismo enrustido da intelligentzia. Quando nós criticamos a mediocridade gritante de bregas e neo-bregas, esses intelectuais tendenciosos, com total arrogância e esnobismo, nos aconselham a desprezar a estética artística e ainda afirmam que "é isso que o povo sabe fazer".

Isso é puro sentimento de cinismo, o dos defensores da música brega. Claro, esses defensores vivem em condomínios de luxo, para eles o sertão e os subúrbios são apenas paraísos em cenário de pedreiras ou aterros sanitários. Eles ficam felizes quando o mendigo se embriaga e balbucia um bolero malfeito que ouviu no rádio. Ficam felizes quando o menino pobre rodopia seus glúteos agachado ao chão. Mas expressam um sentimento de desdém quando famílias pobres perdem seus parentes num deslizamento de terra, ou um sentimento de pavor quando pobres põem barricadas nas rodovias em protesto contra a falta de uma passarela ou sinalização de trânsito.

A ideologia brega é a ideologia do golpismo cultural. Como tínhamos que descer de Ataulfo Alves, João do Vale, Luiz Gonzaga e Cartola para cantores de falsos boleros de vozes muito fracas e letras resignadas? A intelectualidade que apoia o brega deveria lavar suas bocas com sabão, de tanta demagogia que promovem. Dizem serem solidários com o povo, mas o desprezo deles não é lá muito diferente do de Bóris Casoy.

Tirem suas máscaras de bonzinhos. Se querem que o povo se exploda, defensores do brega, parem de falar meias palavras. Assumam seu golpismo de vez, antes que alguém lhes pegue falando mal de empregadas domésticas, agricultores, analfabetos e desempregados.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O ESTADO DA GUANABARA

AEROFOTO DO FOTÓGRAFO DA REVISTA MANCHETE, CARLOS BOTELHO, PUBLICADA TAMBÉM NA ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS DO IBGE. A FOTO DATA DE 1956, QUANDO A NOVA CAPITAL, BRASÍLIA, COMEÇOU A SER CONSTRUÍDA, TRANSFORMANDO DEPOIS O ANTIGO DISTRITO FEDERAL NA GUANABARA.

Do portal WikipediaA Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, no território do atual município do Rio de Janeiro. A palavra guanabara tem sua origem no tupi guarani guaná-pará, e significa "o seio-mar".

HISTÓRIA

Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada no Município Neutro da Corte, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser a capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, a cidade transformou-se em capital da República, o município neutro em distrito federal e a província em estado. Com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Cons…

MORREU A ATRIZ E BAILARINA HELOÍSA MILLET

Faleceu na última sexta-feira, no Rio de Janeiro, a atriz e bailarina carioca Heloísa Millet, aos 64 anos de idade, vítima de câncer. Tendo sido conhecida pelo seu trabalho de bailarina na abertura do programa Fantástico, da Rede Globo, em 1974, ela depois foi levada pelo diretor de teatro Zbigniew Ziembinsky para seguir carreira de atriz.

Ao saber do sucesso como bailarina da abertura do programa, Heloísa teve a impressão que relatou numa entrevista de 1994: “Sou pequena, baixa, e quando fiz aquela abertura, virei um mulherão de dois metros de altura. Então, acabaram-se os meus complexos".

Depois, ela fez uma personagem, Betina, na novela Estúpido Cupido, em 1976, e a esse trabalho seguiram-se outros nas novelas Espelho Mágico (1977), Te Contei? (1978), Feijão Maravilha (1979), Marrom-glacê (1979) e Elas por Elas (1982), todas na Globo.

Heloísa também participou da minissérie Terras do Sem Fim (1981) e no elenco do humorístico Estúdio A...Gildo (1982), comandado por Agildo Rib…

TV EXCELSIOR

TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista co…

30 ANOS SEM KAREN CARPENTER

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A cantora da dupla de irmãos Carpenters, a belíssima Karen Carpenter, faleceu no dia 04 de fevereiro de 1983. Talvez esta postagem pareça tardia, mas há exatos 30 anos a notícia do falecimento da cantora já estava espalhada pelos quatro cantos e repercutia mundialmente, causando tristeza profunda em todos os seus fãs.

Os Carpenters podem não ter sido musicalmente excepcionais, mas eram bastante talentosos, pelo talento de pianista de Richard Carpenter e da bela voz de Karen, que por sinal tinha uma beleza sexy que ela mesma não pôde prestar atenção, tão preocupada em se tornar magra que a fez vítima de anorexia nervosa. Pena, porque Karen era linda e desejadíssima mesmo "cheinha" e, se viva estivesse, continuaria belíssima, apenas adaptando suas feições para os 63 anos que poderia completar no próximo dia 02 de março.

Algumas curiosidades notáveis dos Carpenter: os irmãos chegaram a gravar cover da banda progressiva Klaatu e Karen era eventual bater…

PRIMEIRA TRANSMISSÃO DE TV A CORES NO BRASIL FAZ 40 ANOS

Por Alexandre Figueiredo

Hoje faz 40 anos em que se realizou a primeira transmissão televisiva a cores, a partir da TV Difusora de Porto Alegre (hoje TV Bandeirantes local) e a TV Rio (Guanabara, atual TV Record Rio). A TV Globo, do Rio de Janeiro, também participou da façanha.

O evento escolhido foi o desfile tradicional da Festa da Uva, na cidade gaúcha de Caxias do Sul. A foto em questão, aliás, mostra um ônibus "bicudinho" da Mercedes-Benz, provavelmente O-326, que a TV Rio enviou para o Sul do país.

Era tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar e prefeitos com algum senso de oportunismo instalaram aparelhos de TV pelas ruas da cidade para que a população visse a novidade. Aliás, foi assim que Assis Chateaubriand fez para atrair a multidão para a então recém-inaugurada televisão, em vários pontos-chave da cidade de São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Em ambos os casos, eventuais falhas técnicas ocorreram.



Mas quem imaginasse que a televisão a cores era u…

RÁDIO CIDADE ENCERROU HISTÓRIA ANTES DOS 40 ANOS. MELHOR ASSIM

Por Alexandre Figueiredo

Seria patético uma rádio comemorar 40 anos de existência com uma trajetória totalmente diversa da original. Se o contexto permitisse, tudo bem, mas soaria ridículo que a Rádio Cidade tivesse que comemorar 40 anos como se fossem os 35 anos da Fluminense FM, algo bastante surreal que, certamente, daria um filme de Luís Buñuel.

A Rádio Cidade, que anunciou sua saída do dial para o próximo dia 31 de julho de 2016, na verdade morreu faz muito tempo. Morreu quando o Sistema Jornal do Brasil sentiu ressentimento de não ter largado na frente de uma rádio autenticamente rock, a Fluminense FM, do Grupo Fluminense de Comunicação.

A Fluminense FM, a "Maldita", bem antes da Internet e do YouTube, tinha uma locução sóbria, que não falava em cima das músicas, e seu repertório, mesmo na programação normal, fugia da mesmice do hit-parade, tocando bandas e artistas até hoje pouco conhecidos.

De Gentle Giant a Teardrop Explodes, nenhuma emissora de rádio roqueira teve…

CASOS HARVEY WEINSTEIN E ROSEANNE BARR APONTAM FRAGILIDADE DA GERAÇÃO "W"

Por Alexandre Figueiredo

Não se fazem mais pessoas mais velhas do que antigamente. A geração nascida a partir de 1950, que se aproxima dos 70 anos, e que vai até 1974, com pessoas a caminho dos 45 ou 50 anos, se envolve cada vez mais em incidentes polêmicos, que vão desde escândalos de assédio sexual e comentários racistas até em postagens que dizem o que não devem e são imediatamente apagadas, não sem repercutir nas redes sociais e ser reproduzida a tempo de aparecer na imprensa no mundo inteiro.

Os casos de Harvey Weinstein, produtor de Hollywood acusado de assédio sexual e até de estupro por um considerável número de atrizes de Hollywood, e de Roseanne Barr, atriz e produtora que havia criado e protagonizado uma sitcom de grande sucesso, intitulada Roseanne, que havia encerrado há tempos e ganhou uma nova temporada recentemente.

Weinstein, um dos fundadores da Miramax Films e, depois, fundou a Weinstein Company com seu irmão Bob, era um dos mais prestigiados produtores executivos …

RAUL SEIXAS

Hoje seria a data de aniversário dos 65 anos do cantor Raul Seixas, um dos maiores nomes do Rock Brasil e um dos mestres, ainda que controversos, da Música Popular Brasileira.

Em 21 de agosto de 1989, ele faleceu de problemas causados pela diabetes. Raul havia retomado a carreira, junto ao conterrâneo Marcelo Nova, e os dois chegaram até a se apresentarem no estreante Domingão do Faustão, quando o programa, ainda sofrendo os ranços do Perdidos da Noite, ainda não era considerado o templo da música brega-popularesca do país.

Raul era uma figura controversa e, em vida, era esnobado e discriminado pela mídia. Tanto que deixou, na primeira oportunidade, a provinciana Salvador, sua terra natal, para viver até o fim da vida em São Paulo. Portanto, Raul tornou-se um paulistano naturalizado.

Raul teve a sorte, num Brasil atrasado quanto à modernidade internacional e numa Salvador mais atrasada ainda, de ter tido como amigo de infância um filho de diplomata. Isso fez Raul acertar o relógio com o …

CASOS DE LULA E DILMA ACABAM DANDO AULA PRÁTICA DA CRISE DA ERA JANGO

Por Alexandre Figueiredo

As pessoas mais jovens têm a oportunidade de relembrar fatos históricos do passado, relacionando a crise política de hoje com a crise que seus pais e avós viveram há 52 anos. A crise política do segundo semestre de 1963 até o primeiro de 1964, que culminou no golpe militar que instaurou uma ditadura de 21 anos, encontra eco na crise atual do governo da presidenta Dilma Rousseff.

A crise atinge o ciclo político do Partido dos Trabalhadores, que se ascendeu no poder em 2003, levando ao cenário político personalidades que combatiam o regime militar: o então presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, por exemplo, foi um operário do ABC paulista que se ascendeu durante a crise do "milagre brasileiro" da ditadura militar, por volta de 1974.

Junto a ele, se ascendeu também o antigo líder estudantil José Dirceu, que havia sido preso quando, presidente da União Nacional dos Estudantes em 1968, foi surpreendido por uma ação policial em Ibiúna, interio…

Cristiano Machado, o homem que virou termo

O POLÍTICO MINEIRO CRISTIANO MACHADO (1893-1953)

Por Hélio Campos Mello, diretor de redação da revista Brasileiros

Antes do 1º turno das eleições municipais, no próximo domingo (5), um pouco de História sobre pleitos no País:

Cristianização

"Termo utilizado a partir de 1951 para designar a traição de um partido político a seu candidato a cargo eletivo. A origem está ligada ao nome de Cristiano Monteiro Machado, candidato à presidência da República em 1950 pelo Partido Social Democrático (PSD). Embora Cristiano Machado tenha sido indicado como candidato oficial do PSD em 17 de maio de 1950 e confirmado na convenção nacional de 9 de junho do mesmo ano, seu partido na realidade apoiou a candidatura de Getúlio Vargas.

"As razões da atitude do PSD estariam ligadas à dissidência que se abriu dentro do partido em torno da escolha de um candidato à presidência da República."

Trecho do texto de Alzira Alves de Abreu, presente no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (DHBB), do …