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A DIFERENÇA ENTRE O "MUSAK" E A CANÇÃO CONTEMPORÂNEA


HENRY MANCINI, AO PIANO, REPRESENTA A CANÇÃO ROMÂNTICA SOFISTICADA, ENQUANTO RAY CONNIFF SIMBOLIZA A DILUIÇÃO ORQUESTRAL PELO MUSAK

Muitos, por equívoco, generalizam ao classificar como "musak" toda orquestra aparentemente associada a uma atitude pop. São aquelas queixas, "música de elevador", "trilha-sonora de consultório", "fundo musical de shopping center" e outras coisas. Mas, enquanto muita orquestra canastrona de fato recebe meritoriamente tais críticas, há no entanto maestros e compositores que injustamente recebem este rótulo, sem que as pessoas percebam realmente seu verdadeiro valor.

A ideia de musak teve origem na década de 60. No entanto, seus elementos teriam surgido ainda na década de 30 do século XX, através da chamada "música ligeira", definida através de músicas orquestrais rápidas, composições similares às das trilhas incidentais dos filmes, arremedos de música clássica sem a dramaticidade das criações eruditas originais.

Na década de 50, orquestras como as de Mantovani e Frank Pourcel já expressavam a pieguice sob uma roupagem erudita. Mas é na década seguinte que a música orquestrada comercial se moderniza, através de nomes como Ray Conniff, Bert Kaempfert, Billy Vaughn e Paul Mauriat. Eles formaram uma geração de maestros que mesclaram os arranjos orquestrais diluídos com elementos de swing, twist, country, boleros e standards. Dizem as más línguas que essas orquestras eram compostas por músicos rejeitados tanto pelas big bands de jazz quanto pelas orquestras sinfônicas e filarmônicas que se dedicam à música erudita.

Essas orquestras se inspiravam no clima de bailes juvenis, além dos musicais da fase áurea de Hollywood, o que fez confundi-los com dois maestros que, por coincidência, tornaram-se famosos na mesma época: Henry Mancini e Burt Bacharach.

Tidos como "bodes expiatórios" da orquestração cafona, Henry Mancini e Burt Bacharach, todavia, são compositores, músicos e maestros de altíssimo valor artístico, seguindo a tradição cancioneira de Cole Porter, Rodgers e Hammerstein e os irmãos Gershwin. São compositores de música orquestrada romântica, que valorizavam a melodia e a perfeição na criação musical. Mesmo coisas que, à primeira vista, soam meio tolas, como "Baby Elephant Walk", de Mancini (conhecida pelos brasileiros como "O Passo do Elefantinho" graças à versão pelo grupo pré-Jovem Guarda Trio Esperança), na verdade são bem interessantes.

Talvez o sucesso comercial coincidente tanto entre esses compositores e as orquestras de musak e pelo fato de determinadas emissoras de rádio dos EUA tocarem tanto uns quanto outros no mesmo cardápio musical, é que tenha gerado essa confusão. O que é uma grande injustiça para Mancini e Bacharach, que, curiosamente, influenciaram em parte o rock alternativo dos anos 60 aos anos 80, sendo lembrados até pelo grupo punk Stranglers - que gravou "Walk On By" de Bacharach, mas no mesmo esquema estrofe-refrão-longa instrumental-refrão final inspirado no que foi feito em "Light My Fire" dos Doors - e por Morrissey, que gravou "Moon River" de Mancini.

Já Ray Conniff tornou-se o símbolo maior das orquestras diluidoras, embora Paul Mauriat tenha tido algum destaque (o sucesso "L'Amour Est Bleu", ou "Love is Blue", de 1968) e Billy Vaughn ("La Paloma") também. Mas Conniff se sobressaiu pela fórmula piegas de fazer um arremedo de orquestra de jazz, com batida de swing e um coro que fazia vocalise (ou seja, um vocal que soa como instrumento) junto com a seção de metais. Tudo num tendencioso ecletismo, que inclui dos boleros ao pop contemporâneo, explorando os sucessos do momento e as músicas mundialmente mais célebres, sem esquecer sequer de Ary Barroso, pela música "Aquarela do Brasil".

O auge dessas orquestras se deu na década de 70, quando a onda da Contracultura foi desmoralizada por diversos incidentes, e quando o ideal granfino procurava voltar à moda. Foi o auge dos maestros lançados nos anos 60, sobretudo Conniff. Mas também foi a época do surgimento de solistas de musak, como o flautista romeno Gheorghe Zamfir e o pianista francês Richard Clayderman. A era yuppie dos anos 80 colaborou com o musak através do clarinetista e saxofonista americano Kenny G.

A pretensa sofisticação do musak teve grande sentido para um público pouco informado e que há muito estava distante da apreciação da verdadeira música orquestral, seja a erudita, seja a jazzística. Para esse público, o musak serviu bastante para ambientar reuniões familiares, festas elegantes e bailes saudosistas e a classe médica aproveitou para tocar esse tipo de música nos seus consultórios, clínicas e hospitais, por acharem que este tipo de música era relaxante.

Mas a decadência do musak se deu por causa de sua própria fragilidade. Seu ecletismo piegas, suas limitações de criação e execução musicais - a falta de imaginação orquestral fazia com que, por exemplo, as seções de cordas se limitassem a reproduzir a linha melódica vocal das versões originais - e mesmo seu tendenciosismo cansativo de explorar os sucessos do momento fizeram com que o musak caísse no esquecimento, não tendo a força necessária para se tornar musicalmente perene.

O jornal O Estado de São Paulo, num de seus equívocos típicos da imprensa conservadora, até tentou classificar Ray Conniff, na nota da sua morte, em 2002, como "maestro de big band". Mas a manobra não convenceu e o musak tornou-se conhecido como um movimento de maestros e orquestras medíocres que tentaram diluir a música erudita em fórmulas pop bem comerciais.

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