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CONTRACULTURA


A CANTORA JANIS JOPLIN, DURANTE APRESENTAÇÃO NO FESTIVAL DE MONTEREY, EM 1967, NO AUGE DA CONTRACULTURA, QUE TEVE A CANTORA COMO UM DOS TALENTOS EMERGENTES.
Muita gente associa o movimento da Contracultura aos anos de 1968-1969, tradicionalmente creditados como o resumo da década de 60. Não diríamos que era o resumo ou a síntese da famosa década do século XX, mas apenas o auge de um processo que aconteceu durante toda a década.

Na verdade, a Contracultura teria origem na década de 50, quando a juventude intelectualizada dos EUA e Europa estava desconfiada com a rebeldia massificada do rock'n'roll. Esses jovens liam escritores beat como Jack Kerouac e William Burroughs, apreciavam o cinema do neo-realismo italiano e da nouvelle vague francesa, apreciavam filosofia existencialista, misticismo oriental, artes plásticas modernistas (desde os dadaístas até nomes como Amedeo Modigliani e Jackson Pollock, além da pop art e do concretismo) e teatro engajado ou interativo. Musicalmente, estavam mais próximos do jazz experimental de nomes como John Coltrane e Charles Mingus, embora apreciassem também o jazz clássico de Charlie Parker e o jazz-blues de Billie Holiday, dois nomes precocemente falecidos e, por isso, miticamente mais cultuados.

Em 1960, um documentário do francês Jean Rouch em parceria com o filósofo compatriota Edgar Morin, já mostrava o estado de espírito contracultural dos jovens entrevistados. Crônica de um Verão, o tal documentário, já descrevia as várias questões que a juventude francesa expressava para a década. As universidades do mundo inteiro já pensavam a mobilidade e o espírito de mudança para a década. Isso nos "caretas" anos de 1960 e 1961.

Na Carolina do Norte, EUA, em 1961, um grupo de estudantes negros foi almoçar em um restaurante com funcionários brancos, e estes se recusaram a atendê-los. Num protesto tipicamente de 1968, o sit-in - protesto pacífico que consistia na pessoa ficar sentada, seja para barrar autoridades, seja para reclamar atendimento, seja para provocar policiais, entre outros motivos - foi o recurso usado pelos negros, que ficaram no restaurante até serem atendidos.


PROTESTO DE ESTUDANTES NEGROS CONHECIDO COMO "SIT-INS", QUANDO ELES DECIDIRAM ESPERAR SILENCIOSAMENTE NUM RESTAURANTE DOS EUA PARA SEREM ATENDIDOS POR GARÇONS BRANCOS. PROTESTO TIPICAMENTE DE 1968, MAS OCORRIDO EM 1961.

Mas o período da Contracultura propriamente dito só ficaria nítido a partir de 1964. Transformações na moda - sobretudo através da modelo inglesa Twiggy, famosa por sua magreza - , na música (por um lado a renovação britânica do rock e, por outro, as expressões folk e psicodélicas na Califórnia, EUA), nas outras artes e na ação política dos estudantes, além de novos agentes sociais que começaram a se manifestar, como mulheres, negros, imigrantes, homossexuais, estudantes que também eram operários, e outros estratos sociais.

Havia também a guerra do Vietnã e a juventude se revoltava com a decisão dos governos dos países envolvidos, como EUA, Reino Unido e França, de enviar jovens soldados para lutarem no front do país asiático.

O auge desse cenário todo foi entre 1967 e 1968. A música assistiu a uma porção de álbuns de rock conceituais, marcados por sua criatividade ímpar, desde os Beatles (através do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band) até a emergente banda Jimi Hendrix Experience. Muitas bandas de rock de garagem tornam-se conhecidas nessa época, como Seeds, Sonics, Jefferson Airplane, Zombies.

Em 1968, uma série de manifestações acontecem envolvendo jovens em vários países do mundo. A Tchecoslováquia (hoje dois países, República Tcheca e República da Eslováquia), a França, os EUA, a Inglaterra, o México e o Brasil assistem a diversas manifestações juvenis que reivindicam não apenas a renovação dos valores da vida política, mas também os valores morais e o fim da discriminação a estratos sociais excluídos do status quo da época.


PASSEATA DOS CEM MIL, REALIZADA NO RIO DE JANEIRO, FOI O AUGE DA MOBILIDADE JUVENIL BRASILEIRA, EM JUNHO DE 1968.

NO BRASIL

O acordo MEC-USAID proposto pelo governo militar, como forma de dissolver o movimento estudantil através de um sistema de ensino meramente profissionalizante e tecnocrático, irritou a juventude brasileira (exceto, é claro, o CCC e seus simpatizantes) que, desde 1966, realizava protestos sobretudo nas grandes capitais.

Os protestos estudantis, de um lado, e os festivais de música, de outro, davam a tônica dos manifestos juvenis no Brasil durante a década de 60. Não se podia falar em Contracultura no Brasil, primeiro porque o quadro político ditatorial não permitia a liberdade juvenil, o jovem apenas tinha que arrumar emprego, formar família e ficar calado. Segundo, porque o impacto do rock psicodélico ou do folk rock - tendências vanguardistas do período 1965-1968 - no Brasil foi mínimo, e a Jovem Guarda, inspirada nas influências de Elvis Presley e da música jovem italiana de 1958-1964 - ainda estava no auge em 1967.

Nem todo jovem se manifestou nesses protestos, é verdade. Mas o apoio da sociedade, sobretudo aos protestos em solidariedade ao estudante Edson Luís de Lima Souto, morto por um tiro quando outros estudantes e policiais entraram em choque em março de 1968, era grande. A Passeata dos Cem Mil foi o auge desse tempo que, no âmbito musical, incluiu o auge da MPB universitária (que fundiu o engajamento cepecista e a sofisticação da Bossa Nova) e a ascensão do controverso movimento da Tropicália.

A Contracultura não encontrou terreno fértil no Brasil, e só veio fragmentada, seja pelo fôlego mobilizador de 1967-1968, seja pelo espírito de "desbunde" dos tempos após o AI-5. De 1969 em diante, o psicodelismo e a cultura hippie entrariam no Brasil meio atropelados com o então nascente rock progressivo.

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