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COMO A CONTRACULTURA DE 1968 FRACASSOU?


PROTESTO DE INTEGRANTES DA NEW LEFT EM CHICAGO, DURANTE A CONVENÇÃO DO PARTIDO DEMOCRATA, EM 1968. OS DETIDOS FORAM JULGADOS NO HOJE CONHECIDO HISTORICAMENTE COMO O "CHICAGO TRIAL".

1968 foi um ano trágico. Não foi um ano alegre. Não foi a síntese do sonho dos anos 60, mas o auge dele. O grande ponto positivo foi que nunca a sociedade se uniu com tanta intensidade para pedir uma grande mudança nos valores morais, políticos, culturais e outros, dando como superada a sociedade conservadora que até então se vivia.

Mas, apesar disso, todos os protestos acabaram fracassando, transformando não só 1968 como o final da década de 60 numa grande decepção. Mas a Contracultura gerou frutos que só cresceriam com o passar do tempo. No entanto, naquela época, as manifestações foram malogradas, de uma forma ou de outra. Até no Brasil. Juntando isso com o atentado da Família Manson, a violência de Altamont, ambas em 1969, e no falecimento de jovens roqueiros como Brian Jones, ainda em 1969, Jimi Hendrix e Janis Joplin em 1970 e Jim Morrison em 1971, a Contracultura teve que se desfazer como sonho, esperando o tempo passar para que algumas conquistas comecassem a se efetivar aos poucos.

ESTADOS UNIDOS - Durante a Convenção do Partido Democrata em Chicago, em 1968, membros dos Panteras Negras, da Nova Esquerda (New Left) e da Students For a Democratic Society (SDS) realizavam um protesto por vezes bem-humorado (por conta das brincadeiras irônicas de Abbie Hoffman, da New Left) foram detidos pela polícia que reprimiu violentamente as manifestações, causando mortos e feridos. Detidos, Hoffman, Jerry Rubin (também da New Left), Tom Hayden (da SDS, depois marido da atriz Jane Fonda), e Bobby Seale, dos Panteras Negras, entre outros, foram julgados por uma corte num evento conhecido como o Chicago Trial. O julgamento simbolizou a reação da sociedade conservadora estadunidense contra os avanços da Contracultura.

BRASIL - A Contracultura no Brasil, a rigor, não existia, mas vários de seus elementos mobilizadores eram de alguma forma expressos pelos jovens. A radicalização do movimento estudantil, que protestava contra as reformas educacionais previstas no acordo MEC/USAID movido pela ditadura militar e os EUA, que ameaçavam subordinar o ensino aos valores estritamente tecnocráticos, teve seu auge em 1968. Um confronto entre estudantes e policiais militares no restaurante Calabouço matou o estudante Edson Luís. Várias passeatas surgiram, pouco depois, em protesto não só contra esse episódio mas contra a repressão policial na missa em memória ao estudante morto. Outros confrontos sangrentos aconteceriam, como o confronto entre os universitários direitistas ligados ao CCC e os estudantes da USP em São Paulo. O radicalismo juvenil, aliado ao pronunciamento irônico do jornalista e deputado Márcio Moreira Alves contra os militares fez o governo do general Arthur da Costa e Silva se reunir com outros generais e ministros para decidir pelo quinto ato institucional, que tornou a censura e repressão ditatorial mais rígidas e cruéis.

FRANÇA - Em maio de 1968, Paris estava na vanguarda da Contracultura, não pela música (onde a vanguarda se dividia entre o Reino Unido e a Califórnia), mas pela postura política dos estudantes. Os protestos envolviam diversas causas, desde a defesa dos direitos de moços e moças dormirem juntos nas residências estudantis, até mesmo o fim do autoritarismo político, o repúdio à guerra do Vietnam e o anacronismo do ensino universitário. Jovens pichavam frases como "É Proibido Proibir", e os estudantes contaram com o apoio de intelectuais, operários, políticos de esquerda e outras facções que identificavam-se com a causa. Chegou a haver uma greve geral, e os estudantes barravam as ruas usando carros e outros objetos como barricadas.Mas o presidente-general Charles De Gaulle, que tentava reprimir as manifestações, tentou se rearticular politicamente vencendo uma eleição, e negociou com o proletariado sobre reivindicações trabalhistas e salariais, fazendo com que os operários deixassem o apoio aos estudantes, enfraquecendo o movimento.

TCHECO-ESLOVÁQUIA - A Primavera de Praga, relativa ao nome da capital da antiga república, era um projeto de democratização do país, promovido pelo presidente Aleksander Dubcek, que tornaria o país livre da influência do comunismo da "cortina de ferro" comandado pela União Soviética. Dubcek queria um socialismo com face humana e adotou medidas que diminuíram as restrições à liberdade de imprensa, de expressão do livre pensamento e de mobilização social. A abertura política previu também o fim do monopólio do Partido Comunista, criando outros partidos. A medida não agradou os chefes soviéticos. As tropas do Pacto de Varsóvia invadiram Praga, detiveram Dubcek e a população protestou de forma não-violenta, tentando desnortear as tropas. Houve greve geral, e outros protestos bem-humorados, baseados num travesso personagem literário da literatura local, usavam de travessuras para tentar expulsar as tropas. Havia comunicação de rádios livres que orientavam as manifestações populares. Mas uma reação de surpresa das tropas soviéticas, que tomaram completamente Praga, deu fim ao período democrático. Pouco depois da Tcheco-Eslováquia voltar ao controle soviético, um estudante chegou a se suicidar, em derradeiro protesto.

MÉXICO - Nas vésperas dos Jogos Olímpicos de 1968, a serem ocorridos na capital mexicana, uma série de protestos estudantis foi realizada para chamar a atenção da situação sócio-política do país latino-americano. No ápice das manifestações, que contavam também com o apoio de operários e camponeses, iniciou-se uma reunião na cidade de Tlatelolco, para a noite do dia 02 de outubro de 1968. No entanto, vários policiais e militares, vestidos à paisana, cercaram a Plaza de Las Trés Culturas e atiraram contra a multidão, sem discernir sequer quais as pessoas que só estavam lá por acaso e não pela manifestação. O genocídio iniciou-se no final da tarde daquele dia, e seguiu-se durante a noite. O número de mortos é até hoje incerto, mas entidades ligadas aos direitos humanos falam de algo entre 300 e 500. O presidente mexicano na época, Gustavo Diaz Ordaz (1911-1979) anunciou, em 1969, ao Congresso mexicano, que foi o único responsável pelo massacre, que ele julgou necessário para conter o avanço de "hordas vermelhas". O ministro do interior do governo Diaz Ordaz, Luiz Echeverria, chegou a ser acusado de cúmplice do genocídio em 2006 e ser condenado a prisão domiciliar (pela idade avançada do acusado, então com 84 anos), mas pouco depois as acusações foram anuladas.

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