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ANÍSIO TEIXEIRA: UMA LIÇÃO DE EDUCADOR PARA O BRASIL


A realidade educacional do Brasil ainda está cheia de imperfeições e de problemas. No entanto, ela poderia ter sido pior, não fosse em boa parte pela atuação de um professor que, durante várias décadas, realizou vários projetos e implantou novas idéias no então burocrático e moralista sistema de ensino brasileiro. Anísio Teixeira, que teria completado 100 anos no dia 12 de julho passado, foi o cidadão que deu valiosa contribuição à educação brasileira do século XX.

De educação conservadora e jesuíta, Anísio Spínola Teixeira rompeu com os valores católicos ortodoxos por intermédio do amigo Monteiro Lobato, o criador do Jeca Tatu e do Sítio do Pica-pau Amarelo e que defendeu a campanha pelo surgimento de uma empresa estatal de exploração do petróleo (que veio a ser a Petrobrás – Petróleo Brasileiro S. A. - em 1953). Anísio, natural de Caetité, interior da Bahia, já expunha suas idéias a respeito da educação, tendo sido ao longo da vida um adepto das idéias de John Dewey (1859-1952), estudioso da educação nos EUA.

Teixeira batalhou, já em meados dos anos 20, para que o ensino pré-escolar fosse considerado um segmento educacional, pois essa é a fase onde as crianças, ainda bebês, se ingressam no universo sócio-educativo. Em 1931 o pré-escolar foi incluído na reforma educacional do antigo Distrito Federal (município do Rio de Janeiro). Ainda nessa década, Anísio Teixeira participou da assinatura do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, em 1932. Este Manifesto tinha como princípio fundamental reivindicar a igualdade no curso ginasial, acabando com a separação do trabalho intelectual com o trabalho manual. Nessa época, o ginásio se dividia em duas modalidades: uma, para os pobres, de nível meramente profissional, e outra, para as classes mais abastadas, dedicada ao aprimoramento intelectual (filosofia, sobretudo).

No Estado Novo, ditadura de Getúlio Vargas instaurada entre 1937 e 1945, Anísio Teixeira foi para uma espécie de exílio dentro da Bahia, no qual, entre outras coisas, criou um cimento a base de calcário das conchas marinhas. O material, barato, influiu na expansão urbana de Salvador nas décadas seguintes.

Entre outras atividades a se destacar, Anísio participou da campanha contra a mortalidade de crianças e de gestantes, além de lutar para o desenvolvimento de pesquisas no combate a doenças como tuberculose. As instituições cuja fundação tiveram participação ativa de Anísio Teixeira foram, entre outras, o Programa de Capacitação de Pessoal de Nível Superior (Capes), um programa que preparava, a nível superior, os professores para o ensino fundamental (1º e 2º graus. Ele também participou da criação da Sociedade Brasileira de Pesquisa Científica (SBPC) e da Fundação Baiana para o Desenvolvimento da Ciência.

Sua maior criação, no entanto, foi na condição de secretário da Educação e Saúde do Governo da Bahia, a gestão de Otávio Mangabeira (1947-1951). Anísio Teixeira, que enxergava a educação não apenas como um processo formal de aprendizado teórico, mas num completo aprendizado de vida, que incluía atividades práticas e até lazer, criou em 1947 o Centro Educacional Carneiro Ribeiro (CECR), mais conhecido como Escola-Parque, localizado no bairro da Liberdade, em Salvador, e atualmente em reformas. Havia dentro do local uma padaria e até um jornal diário e um serviço de rádio comunitária (alto-falante). As crianças dispunham também de serviço médico e odontológico e permaneciam na instituição durante todo o dia. Era um dos projetos mais audaciosos de educação para a época.

Anísio Teixeira ainda criou, nos anos 40, o atendimento médico domiciliar e a unidade médica fluvial nas regiões do Rio São Francisco e transformou o Instituto Oswaldo Cruz em centro de pesquisa e produção de vacinas e medicamentos. Teixeira também foi o precursor da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

Em 1960 Anísio estava entre os professores e intelectuais que criaram a Universidade de Brasília (UnB), entre os quais Darcy Ribeiro. Colaborador de muitos projetos de Teixeira, Darcy Ribeiro foi um dos mentores dos CIEPs – Centros Integrados de Escolas Públicas – que, concebidos nos anos 80, infelizmente não foram devidamente postos em prática, sua realização se limitou praticamente à construção de escolas, ficando ainda no papel a implantação dos projetos educacionais. Teixeira também ajudou na criação da Universidade do Distrito Federal em 1935 que depois foi incorporada à Universidade do Brasil, atual UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Anísio Teixeira lançou vários livros. Neles, o autor expunha suas idéias sobre a educação é saúde públicas. Acusado de comunista pela direita, de ateu pelos católicos e de “moderado” pela esquerda, Anísio teve um de seus livros condenado pela Igreja. Em 1934, o livro Educação progressiva, uma introdução à filosofia da educação, chegou até a ser recolhido por iniciativa dos católicos. Mais tarde a obra, com algumas mudanças, foi reeditada com outro título, Pequena introdução à filosofia da educação.

Em 1958, um grupo de bispos católicos liderados pelo gaúcho Dom Vicente Scherer, lançou manifesto pedindo a demissão de Anísio do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP). Mas o apoio do arcebispo primaz do Brasil e de Salvador, Cardeal da Silva, de 529 educadores brasileiros e do próprio presidente Juscelino Kubitschek, Teixeira foi mantido no cargo. Teixeira defendia o fim da obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas brasileiras, o que irritou a Igreja.

Nos anos 60, foi reitor da UnB e participou de outros projetos em prol da educação pública. Mas a realidade política da ditadura, a partir de 1964, não possibilitava sua ação. Anísio Teixeira morreu em março de 1971, num estranho acidente, caindo no poço de um elevador.

Destaca-se uma frase de Anísio Teixeira, durante um pronunciamento em abril de 1959, que mantém a atualidade nos dias de hoje. “As nossas escolas são fábricas de diplomas, distribuídos à base de propinas, a uma mocidade inculta. Raro é aquêle que se destaca na vida pública, em conseqüência do seu saber. Daí a necessidade urgente e inadiável de reestruturarmos o ensino nacional, em bases amplas, profundas e, sobretudo, honestas”.

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