segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MORREU A CANTORA E COMPOSITORA TEENA MARIE



A cantora, compositora e instrumentista de funk autêntico, Teena Marie, faleceu na noite do último domingo, 26, de causas não divulgadas. Nos últimos anos, todavia, amigos afirmavam que a cantora tinha um histórico de convulsões.

Ela era afilhada artística do soulman Rick James, já falecido, e iniciou sua carreira musical em 1975. Mary Brockert era seu nome de batismo e a cantora, mesmo branca, era um dos destacados talentos do funk autêntico, tendo feito sucesso entre os anos 80.

Seu primeiro álbum, de 1979, foi quase todo composto por Rick James, mas Teena não tardou a mostrar seu talento de compositora. Os LPs It must be magic (1981) e Starchild (1984) se tornaram grandes sucessos. Deste último, o primeiro pela Epic Records, depois de iniciar carreira fonográfica na Motown, vieram as músicas "Lovergirl" e "Ooo La La La", que se tornaram grandes sucessos nas paradas norte-americanas.

Ao longo da carreira, Teena lançou 13 álbuns. O último deles, Conga Square, foi lançado em 2009. No disco, ela presta tributo a cantoras como Sarah Vaughan e Billie Holiday.

A princípio, muita gente pensava que Teena era negra, tal a intimidade que ela tinha com o funk autêntico. E, com a morte dela, é mais uma maldição que atinge a soul music em geral, já que o estilo possui um vasto e constante obituário. De James Brown a Michael Jackson, passando por Otis Redding, Marvin Gaye, Sam Cooke e Dan Hartman, além do nosso Tim Maia, o pop negro vê muitos talentos serem ceifados a cada ano.

Isso complica as coisas para o público mais jovem, uma vez que a soul music com instrumentos musicais e bons arranjos lhes parece algo "velho", enquanto o gangsta rap e o "funk carioca", no caso brasileiro, são as únicas coisas relacionadas à black music que os jovens, movidos a grande mídia, são induzidos a curtir.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

MORRE CAPTAIN BEEFHEART, PARCEIRO DE FRANK ZAPPA



Lendário roqueiro Captain Beefheart morre aos 69 anos

Do Portal Terra

Don Van Vliet, conhecido pelo pseudônimo Captain Beefheart, um dos principais nomes do rock experimental americano nas décadas de 60 e 70, morreu nesta sexta-feira (17) por complicações de esclerose múltipla, na Califórnia. O falecimento foi anunciado pela Michael Warner Gallery, de Nova York, que representa seu trabalho como artista plástico, informa o site da revista Rolling Stone.

Junto com o amigo de infância Frank Zappa, Vliet foi um dos fundadores do chamado "art rock" na década de 60, mesclando o rock and roll psicodélico da época com o blues, free jazz, experimentalismos de vanguarda e letras surreais e bem-humoradas. Seu grupo, o Magic Band, com uma formação mutante de músicos, existiu entre 1965 e 1982, sob seu forte controle criativo.

Nascido em 1941 na cidade de Glendale, Califórnia, desde criança Vliet mostrou propensão para a arte. Ele gostava de pintar e esculpir animais como dinossauros e peixes, e aos nove anos ganhou um prêmio do Zoológico de Los Angeles, e foi considerado uma "criança prodígio". Na adolescência a família se mudou para a cidade de Lancaster, próxima ao deserto de Mojave, um ambiente mais tranquilo para que ele produzisse sua arte. Nesta época começou seu interesse por música, ouvindo pioneiros do blues como Son House e jazzistas como Thelonius Monk e John Coltrane.

Na escola, ele conheceu Frank Zappa, que compartilhava seus interesses em música e arte. Eles começaram a fazer juntos paródias de músicas da época, e criaram um roteiro para um filme chamado Captain Beefheart vs. the Grunt People, primeira aparição do nome Captain Beefheart. Embora muito tímido, ele imitava bem a voz grave e profunda de blueseiros como Howlin' Wolf. Em 1965, um guitarrista de blues chamado Alex Snoufer o convidou para cantar na banda e estava formando. Foi o início da Magic Band.

Em 1967 foi lançado o primeiro álbum da Magic Band, Safe as Milk. Com base no blues rock da época, o disco já sinalizava algum experimentalismo, e chamou a atenção de músicos como John Lennon e Paul McCartney. Mas, ao contrário, não gostava dos Beatles, e os satirizou na música Beatle Bones 'n' Smokin' Stones. No mesmo ano o grupo foi convidado para tocar no Festival de Monterrey, mas fortes ataques de ansiedade, agravados pelo uso de LSD, levaram Beefheart a "travar" durante um show e deixou o palco. A banda acabou cancelando a participação em Monterrey. Eles gravaram músicas que foram lançadas no disco Strictly Personal, em 1968.

No ano seguinte, Beefheart criou o disco que é considerado sua obra-prima: Trout Mask Replica. Ele exerceu completo controle sobre os músicos, que viveram durante oito meses juntos, em uma espécie de comuna, durante a "gestação" do álbum, lançado pela gravadora Straight Records, de Zappa. Ele e os músicos não tinham dinheiro para comida, e Beefheart muitas vezes abusava deles física e psicológicamente. O resultado foram 28 músicas compostas por Beefheart no piano, de uma só tacada, em oito horas e meia. Os outros músicos sofreram para transpor as músicas para seus instrumentos. Mas no final, o álbum que mesclou definitivamente o blues e o rock com o experimentalismo erudito, melodias atonais, ritmos iconoclastas e os vocais de Beefheart indo do gutural ao falsete, foi aclamado pela crítica especializada. Trout Mask Replica foi considerado pela Rolling Stone o 58º melhor disco de todos os tempos.

Ainda em 1969, Beefheart fez o vocal da falixa Willie the Pimp, do clássico disco Hot Rats, de Zappa. Na década de 70, a produção de Capitain Beefheart e da Magic Band foi irregular, contrastando discos mais experimentais e mais comerciais. Na década de 80 ele acabou definitivamente com o Magic Band e se tornou cada vez mais recluso, se dedicando principalmente às artes plásticas. Ele desenvolveu esclerose múltipla e ficou confinado a uma carreira de rodas desde a década de 90.

A influência de Beefheart é sentida em todas as gerações posteriores do rock experimental e alternativo. Os punks e pós-punks de The Clash, Pere Ubu, Gang of Four e The Fall, os new-waves Talking Heads, Blondie e Devo, os indies Sonic Youth e Pixies, o grunge Kurt Cobain, Jack White, Beck e muitos outros citam Beefheart como influência. O crítico Lester Bangs, o DJ John Peel e o criador dos Simpsons Matt Groening já declararam considerá-lo um dos maiores "gênios" da história do rock.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

BLAKE EDWARDS MORRE AOS 88 ANOS



Um dos maiores nomes da comédia mundial, Blake Edwards faleceu na manhã desta quinta-feira, 16 de dezembro, aos 88 anos.

Do sítio Adoro Cinema

Edwards foi responsável pela criação de uma das maiores franquias cômicas da história, A Pantera Cor-de-Rosa, e de muitos outros sucessos no gênero, como Um Convidado Bem Trapalhão e Mulher Nota 10.

Mas antes de criar o Inspetor Clouseau (personagem imortalizado por Peter Sellers e que mais recentemente foi interpretado por Steve Martin), o cineasta também havia provado ter talento para comandar romances, tendo dirigido o belíssimo Bonequinha de Luxo, filme que ficou marcado pela cena em que Audrey Hepburn canta "Moonriver" em sua janela.

O diretor foi grande amigo do compositor Henry Mancini, com quem trabalhou já em seu primeiro sucesso, a série televisiva "Peter Gunn". Mais tarde, Mancini realizou para o amigo a trilha de A Pantera Cor-de-Rosa, que é ponto chave na franquia.

A série do atrapalhado inspetor francês conta ainda com os filmes Um Tiro no Escuro, A Volta da Pantera Cor-de-Rosa, A Nova Transa da Pantera Cor de Rosa, A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa, A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa e A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa.

Blake Edwards recebeu indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar pelo roteiro do musical Vítor ou Vitória?, mas só em 2004 recebeu seu primeira estatueta. O diretor/roteirista/ator/produtor recebeu um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra das mãos do comediante e fã Jim Carrey (O Golpista do Ano).

Nascido na cidade de Tulsa, Oklahoma, no dia 26 de julho de 1922, como William Blake Crump, o cineasta ficou conhecido como grande diretor de atores. Sob seu comando, Audrey Hepburn, Jack Lemmon, Lee Remick, Julie Andrews, Robert Preston e Lesley Ann Warren receberam indicações ao prêmio da Academia.

Era casado com a atriz Julie Andrews, a eterna Maria Von Trapp de A Noviça Rebelde, desde 1969. Ao ler uma entrevista em que Edwards a descrevia como "tão doce que deve ter violetas entre suas pernas", a atriz mandou para o cineasta um buquê de violetas. Tempos depois, os dois começaram o relacionamento que durou 41 anos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A FIGURA ÍNTEGRA DE OSCAR NIEMEYER



Por Alexandre Figueiredo

Os brasileiros deveriam ouvir os mais sábios, aqueles que têm sempre o que dizer.

Não com arrogância nem com pedantismo, mas com simplicidade e capacidade de aprender e desenvolver experiências e transmitir lições.

Uma grande oportunidade é ter o arquiteto Oscar Niemeyer vivo, aos 103 anos, lúcido e trabalhando.

É vê-lo com a criatividade de um menino desenhando e criando seus projetos.

E ele fez muitas obras, desde os anos 40. Como o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, e o prédio do antigo Ministério da Educação, no Castelo, no então Distrito Federal que hoje é a cidade do Rio de Janeiro.

E participou na elaboração do prédio-sede da Organização das Nações Unidas, assim como dos prédios da Esplanada dos Ministérios de Brasília.

Sem falar do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que, sempre que faço caminhadas pela orla de Icaraí até Boa Viagem, tenho a oportunidade de passar por perto e admirar.

Mas Niemeyer também foi e é um ativista social.

Um socialista autêntico, solidário aos movimentos sociais e aos grandes projetos de melhoria para o país.

Sempre esteve apoiando iniciativas em prol do progresso sócio-político-cultural do Brasil.

Conviveu com os maiores nomes do Modernismo brasileiro e foi um dos intelectuais que se inspiraram na geração de 1922.

Por isso a importância de Oscar Niemeyer.

Que, desafiando o moralismo religioso, é um ateu com surpreendente instinto altruísta.

Com uma humildade e uma serenidade ímpares.

Idoso, é muito mais jovial que tanto jovem que, com seu bacharelado, parte para sua sisudez engravatada, endinheirada e careta.

O Brasil deve ouvir os intelectuais que se foram, e também deve ouvir os intelectuais que ainda estão.

Oscar Niemeyer é um grande mestre. Porque nunca quis se passar por tal.

Porque os verdadeiros mestres não se consideram mestres. O que importa não é a pose nem os discursos de fachada, mas a prática e a experiência real, pois os atos dizem muito mais do que nossas pretensões.

Parabéns ao grande mestre Niemeyer. Se possível, que continue com longa vida e saúde, e que suas lições nesses 103 anos não sejam em vão.

Certamente não serão em vão, mesmo.

O Brasil medíocre é que cai, por mais que queira permanecer em pé.

O Brasil genial, ainda que adormecido por força das forças reacionárias, está despertando.

E é esse Brasil que acorda de novo e que quer ouvir os verdadeiros mestres, como Niemeyer.

Oscar Niemeyer, mineiro cidadão do mundo, figura íntegra do nosso país.

Desejamos feliz aniversário a esse ilustre brasileiro, patriota genuíno.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

GODARD, 80 ANOS NA CRISTA DA "NOVA ONDA"



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Hoje é o aniversário de 80 anos de um dos poucos cineastas de vanguarda ainda vivos e ativos, o polêmico Jean-Luc Godard, numa época em que o cinema perde tantas referências vivas que muitos incautos imaginam que até o cinema comercial mais razoável é "vanguarda" ou "alternativo". Em épocas onde a burrice travestida de inteligência impera, muitas vezes sob o signo da chantagem e do esnobismo, isso é muito grave. Em compensação, o Brasil de hoje mais parece um filme de Luís Buñuel.

Godard, 80 anos na crista da "Nova Onda"

Da Agência EFE

O Pai da "Nouvelle Vague", a revolucionária onda que mudou o cinema por uma proposta crítica e comprometida, o cineasta Jean-Luc Godard completa nesta sexta-feira 80 anos, ligado a uma visão particular do cinema e da vida.

Poucos meses depois que seu último filme, "Film Socialisme", chegou às telas de alguns países, o cineasta franco-suíço não se esquivou das polêmicas.

Acusado de "antissemita" nos Estados Unidos, Godard se negou no mês passado a receber o Oscar oferecido por Hollywood pelo conjunto de sua carreira, "magoado" porque a imprensa americana reprovou sua postura "muito pró-palestina".

Chamado de pai da "Nouvelle Vague", o autor de "Acossado", considerado o filme fundador dessa rompedora corrente, abriu as portas para uma nova maneira de fazer cinema.

Filho de uma família da burguesia franco-suíça, Godard nasceu em Paris durante a Segunda Guerra Mundial.

Educado na França, acabou os estudos de Etnologia, mas logo trocou pelo cinema, primeiro como crítico, até que passou para o outro lado da barreira.

O sucesso que "Acossado" teve entre o público e a crítica em 1959, sua narrativa diferente, com constantes mudanças de direção, foram o tiro de saída para uma geração que estava ansiosa para revolucionar os modelos da época.

"O que eu queria era partir de uma história convencional e refazer, de forma diferente, todo o cinema que já havia sido feito", assegurou, então, Godard.

François Truffaut, Éric Rohmer e Claude Chabrol moldaram a corrente para transformá-la em um fenômeno que ultrapassou fronteiras e se instalou de forma duradoura.

Depois vieram os filmes "Uma Mulher é Uma Mulher" (1961), "O Pequeno Soldado" (1963) e "Bande à Part" (1964), entre outras muitas obras que completam sua ampla filmografia.

Godard nunca se esquivou do papel de líder, de cabeça visível dos jovens que queriam mudar o estilo da época.

No turbulento mês de maio de 1968, enquanto os estudantes marchavam nas ruas de Paris, Godard liderou o movimento que levou o protesto contra o sistema ao Festival de Cannes.

Com este festival, o diretor viveu uma história de amor e ódio. Apesar de suas seis indicações, nunca ganhou uma Palma de Ouro.

Este ano, depois de anunciado seu retorno ao La Croisette para apresentar "Film Socialisme", o diretor cancelou sua participação no último minuto, vítima de um misterioso "mal grego".

"Com o Festival irei até a morte, mas não darei um passo mais", disse o cineasta em uma carta, alimentando a máquina dos rumores que se inquietam por seu estado de saúde.

No entanto, para alguns, não foi mais que um desprezo ao tapete vermelho, ao "glamour" que sempre combateu em sua vida e em seus filmes.

Godard foi um diretor comprometido com uma certa ideia política, uma esquerda tão particular como sua obra.

"A Chinesa" e "Week-end à Francesa" são exemplos de sua particular visão da luta do proletariado.

Nos anos 1970 viajou pelo mundo, seguiu brigando com o sistema, rodou filmes que se negou a estrear, como "One American Movie" e "British Sonunds", e começou a experimentar o vídeo.

Voltou-se para um cinema mais comercial nos anos 1980, onde se reencontrou com atores de renome, mas sem nunca renunciar à polêmica.

E, depois de um período, retornou ao cinema experimental no final do século passado, com obras como "Elogio do Amor".

Quentin Tarantino homenageou o diretor batizando sua produtora de "Bande à Part".

Tão alheio à polêmica que provoca como ao entusiasmo que gera, Godard segue na crista da "Nova Onda" que ajudou a criar.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O DISCURSO DE CABO ANSELMO



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Espécie de ancestral da juventude pseudo-esquerdista dos últimos 15 anos, e que está a todo canto mostrando sua agressividade da linha CCC, mas adotando uma postura falsamente socialista, o sargento José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, se autopromoveu diante da revolta de sua classe no Rio de Janeiro. Ele fez um discurso que é reproduzido abaixo, e que conseguiu enganar muita gente naqueles idos de março de 1964.

Aparentemente um porta-voz solidário da classe revoltosa, que reivindicava direitos simples como se elegerem deputados e se casarem, Cabo Anselmo no entanto não passava de um agente da CIA, que teria criado um tumulto entre os militares de patentes inferiores, criando um contexto entre tantos outros (como a pressão da Marcha Deus e Liberdade, por exemplo) para a realização do Golpe de 1964 e a ditadura.

Mais tarde, Cabo Anselmo, tão falsamente esquerdista, revelou-se depois um direitista "desiludido com o marxismo", dos mais cruéis, entregando os próprios colegas e uma namorada para morrerem dentro dos porões da tortura ditatorial.

Cabo Anselmo apareceu em 2009 no Canal Livre da TV Bandeirantes, dando uma entrevista. Para chegar em São Paulo (o ex-militar vive escondido, sob identidade falsa, temendo represálias), ele teve que ser escoltado.

O pseudo-esquerdismo de Anselmo nos põe a pensar, por exemplo, da estranheza de haver um ex-jornalista da Folha de São Paulo como colunista cultural da Caros Amigos, ou de haver um arquiteto paranaense que havia sido prefeito de Curitiba durante a ditadura e hoje se "abriga" no PSB, de um professor mineiro de discurso reacionário e agressivo mas que finge ser petista anti-PiG. Ou então de tantos outros casos, como de tantos playboys filhinhos-de-papai que, tão alienados, adotam uma postura tão forçada e falsamente de esquerda.

Quem serão os novos Cabos Anselmos de hoje?

O discurso de Cabo Anselmo

Editado por Paulo Kautscher - Reproduzido do Blog do Luís Nassif

E 12 dias após....

O incendiário discurso do cabo Anselmo (1964)

"Aceite, Senhor Presidente, a saudação dos marinheiros e fuzileiros navais do Brasil, que são filhos e irmãos dos operários, dos camponeses, dos estudantes, das donas de casa, dos intelectuais e dos oficiais progressistas das nossas Forças Armadas;

Aceite, Senhor Presidente, a saudação daqueles que juraram defender a Pátria, e a defenderão se preciso for com o próprio sangue dos inimigos do povo: latifúndio e imperialismo;

Aceite, Senhor Presidente, a saudação do povo fardado que, com ansiedade, espera a realização efetiva das reformas de base, que libertarão da miséria os explorados do campo e da cidade, dos navios e dos quartéis.

Brasileiros civis e militares! Meus companheiros!

A Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil completa, neste mês de março, o seu segundo aniversário. E foram as condições históricas, a fome, as discriminações, os anseios de liberdade, as perseguições e as injustiças sofridas, que determinaram a criação de uma sociedade civil, realmente independente, com a finalidade de unir, através da educação, da cultura e da recreação, os marinheiros e fuzileiros navais do Brasil.

Autoridades reacionárias, aliadas ao antipovo, escudadas nos regulamentos arcaicos e em decretos inconstitucionais, a qualificam de entidade subversiva. Será subversivo manter cursos para marinheiros e fuzileiros? Será subversivo dar assistência médica e jurídica? Será subversivo visitar a Petrobrás? Será subversivo convidar o Presidente da República para dialogar com o povo fardado?

Quem tenta subverter a ordem não são os marinheiros, os soldados, os fuzileiros, os sargentos e os oficiais nacionalistas, como também não são os operários, os camponeses e os estudantes.

A verdade deve ser dita.

Quem, neste País, tenta subverter a ordem são os aliados das forças ocultas, que levaram um Presidente ao suicídio, outro à renúncia, e tentaram impedir a posse de Jango e agora impedem a realização das reformas de base; quem tenta subverter são aqueles que expulsaram da gloriosa Marinha o nosso diretor, em Ladário, por ter colocado na sala de reuniões um cartaz defendendo o monopólio integral do petróleo; quem tenta subverter a ordem são aqueles que proibiram os marujos do Brasil, nos navios, de ouvir a transmissão radiofônica do comício das reformas.

Somos homens fardados. Não somos políticos. Não temos compromissos com líderes ou facções partidárias. Entretanto, neste momento histórico, afirmamos o nosso entusiástico apoio ao decreto da Supra, ao da encampação da Capuava e demais refinarias particulares, e ao do tabelamento dos aluguéis. Aguardamos, aliados ao povo, que o Governo Federal continue a tomar posições em defesa da bolsa dos trabalhadores e da emancipação econômica do Brasil. Na data de hoje comemoramos o nosso segundo aniversário, isto é, o aniversário da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil.

Ao nosso lado estão os irmãos das outras armas: sargentos do Exército e da Aeronáutica, soldados, cabos e sargentos da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros. Estão, também, companheiros da mesma luta, os sargentos da nossa querida Marinha de Guerra do Brasil. Aqui, sob o teto libertário do Palácio do Metalúrgico, sede do glorioso e combativo Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos do Estado da Guanabara, que é como o porto em que vem ancorar o encouraçado de nossa Associação, selamos a unidade dos marinheiros, fuzileiros, cabos e sargentos da Marinha com os nossos irmãos militares do Exército e da Aeronáutica, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, e com os nossos irmãos operários. Esta unidade entre militares e operários completa-se com a participação dos oficiais nacionalistas e progressistas das três armas na comemoração da data aniversária de nossa Associação.

Nós, marinheiros e fuzileiros, que almejamos a libertação de nosso povo, assinalamos que não estamos sozinhos. Ao nosso lado, lutam, também, operários, camponeses, estudantes, mulheres, funcionários públicos e a burguesia progressista; enfim, todo o povo brasileiro.

Nosso empenho é para que sejam efetivadas as reformas de base, Reformas que abrirão largos caminhos na redenção do povo brasileiro. Eis por que, do alto desta tribuna do Palácio do Metalúrgico, afirmamos à Nação que apoiamos a luta do Presidente da República em favor das reformas de base. Aplaudimos com veemência a Mensagem Presidencial enviada ao Congresso de nossa Pátria.

Clamamos aos deputados e senadores que ouçam o clamor do povo, exigindo as reformas de base. Ainda esperamos que o Congresso Nacional não fique alheio aos anseios populares. E com urgência reforme a Constituição de 1946, ultrapassada no tempo, a fim de que, extinguindo o § 16 do art. 141, possa realmente, no Brasil, se fazer uma reforma agrária. Dizemos que somos contrários à indenização prévia em dinheiro para desapropriações. O bem-estar social não pode estar condicionado aos interesses do Clube dos Contemplados. É necessário que se reforme a Constituição para estender o direito de voto aos soldados, cabos, marinheiros e aos analfabetos. Todos os alistáveis deverão ser elegíveis, para que novamente não ocorra a injustiça como a cometida contra o sargento Aimoré Zoch Cavalheiro.

Em nossos corações de jovens marujos palpita o mesmo sangue que corre nas veias do bravo marinheiro João Cândido, o grande Almirante Negro, e seus companheiros de luta que extinguiram a chibata na Marinha. Nós extinguiremos a chibata moral, que é a negação do nosso direito de voto e de nossos direitos democráticos. Queremos ver assegurado o livre direito de organização, de manifestar o pensamento, de ir e vir. Defendemos intransigentemente os direitos democráticos e lutamos pelo direito de viver como seres humanos. Queremos, na prática, a aplicação do princípio constitucional: "Todos são iguais perante a lei". Nós, marinheiros e fuzileiros navais, reivindicamos: reforma do Regulamento Disciplinar da Marinha, regulamento anacrônico que impede até o casamento; não interferência do Conselho de Almirantado nos negócios internos da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil; reconhecimento pelas autoridades navais da AMFNB; anulação das faltas disciplinares que visam apenas a intimidar os associados e dirigentes da AMFNB; estabilidade para os cabos, marinheiros e fuzileiros; ampla e irrestrita anistia aos implicados no movimento de protesto de Brasília.
Iniciamos esta luta sem ilusões. Sabemos que muitos tombarão para que cada camponês tenha direito ao seu pedaço de terra, para que se construam escolas, onde os nossos filhos possam aprender com orgulho a História de uma Pátria nova que começamos a construir, para que se construam fábricas e estradas por onde possam transitar nossas riquezas. Para que o nosso povo encontre trabalho digno, tendo fim a horda de famintos que morrem dia a dia sem ter onde trabalhar nem o que comer. E sobretudo para que a nossa Bandeira verde e amarela possa cobrir uma terra livre onde impere a paz, a igualdade e a justiça social."

Fonte: AQUI

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

35 ANOS SEM VLADIMIR HERZOG



Por Alexandre Figueiredo

Em 1975, eu era um menino de quatro anos. Ficava nos meus brinquedinhos em casa, no Barreto, em Niterói, e via muitos desenhos animados, além de expressar minha já surpreendente busologia, porque já começava a entender de transporte coletivo nessa época.

O Brasil em que eu vivia não parecia perigoso, mas era, e muito. Afinal, o temível quinto ato institucional da ditadura militar (o AI-5) vigorava com energia, tendo permitido os órgãos de tortura a "fazer a limpa" em boa parte da guerrilha, até então. E, naquele 25 de outubro, um fato ocorreu que eu, obviamente, só tomaria conhecimento a partir do fim dos anos 80, já perto de meus 18 anos.

Sim, não se podia ficar informado do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo. A censura pegava pesado. Circulou uma versão de que ele havia se suicidado dentro de sua cela no DOI-CODI. Uma versão vagabunda, cínica, inverossímil, e mesmo a "pose" de Herzog era muito grotesca para ser considerada um suicídio. E o contexto político permitia muito menos a veracidade dessa tese, por mais que a "Revolução" a tomasse como verdadeira.

Curiosamente, Vladimir nasceu Vlado. Vlado não era apelido, era nome de batismo mesmo. O apelido Vladimir veio porque ele achava que Vlado soaria exótico no Brasil. Nascido em junho de 1937, viveu apenas 38 anos. Para se ter uma ideia, hoje em tenho 39. Vlado nasceu na atual Croácia (então parte da Iugoslávia), mas naturalizou-se brasileiro. Certamente, muito mais brasileiro que tantos brasileiros natos adeptos do neoliberalismo. E bem mais patriota brasileiro do que os torturadores que o mataram na prisão do DOI-CODI.

Vlado foi comunista assumido, ligado ao "partidão", o Partido Comunista Brasileiro. Exerceu o jornalismo em vários veículos de imprensa, sobretudo em O Estado de São Paulo. Mas sua atuação foi autônoma, não se compactou com o golpismo da grande imprensa, que protestava contra a censura militar não por ser contra o ato em si, mas porque seu processo atrasava a veiculação dos jornais e "esfriava" seu conteúdo. A essas alturas, a Folha de São Paulo, hoje tão "moderna", fornecia suas viaturas para os "gorilas" do DOI-CODI transportarem prisioneiros políticos.

Herzog também teve uma passagem em Londres, trabalhando para a BBC (numa atividade que, hoje, corresponderia à BBC Brasil, afiliada da rede britânica). Foi dramaturgo, era apaixonado por fotografia, ensinou na Escola de Comunicação e Artes da USP e era um intelectual engajado.

Sua luta pela resistência à ditadura militar incomodou o governo. Detido pelos militares do DOI-CODI, provavelmente Herzog não baixava a cabeça. Talvez por isso os torturadores fizeram questão de enforcá-lo, vendo que não estavam lidando com alguém submisso nem resignado.

Herzog queria justiça, queria um Brasil mais livre, como muitos cidadãos brasileiros de então. Era um dos jornalistas como poucos, e que certamente não existem na elite midiática de hoje. Era um jornalista humanista, progressista, de uma grandiosa geração com cara e coragem que constituiu a imprensa esquerdista, às vezes trabalhando até nos veículos da imprensa direitista, mas dentro de uma autonomia que seus editores eram obrigados a tolerar.

A morte de Vlado foi horrível, mas gerou um ponto bem positivo. Mostrou que os órgãos de tortura da ditadura militar, protegidos pelo AI-5 e usados para reprimir e eliminar opositores do "governo revolucionário" (como a ditadura era conhecida então), também expressavam a mesma ameaça de insubordinação militar e quebra de hierarquia que os sargentos revoltosos da época de João Goulart representaram nos idos de 1964.

Com isso, os órgãos de tortura passaram a ser vistos como um perigo para o próprio regime militar, pelo abuso de poder com que exerciam suas atividades. E criou clima de conflito até entre os próprios generais, sobretudo com Sílvio Frota, de linha dura e apoiado pelos torturadores. Havia, nessa época, nos bastidores das Forças Armadas, a ameaça de Frota um dia ser indicado presidente da República e transformar o Brasil num caos.

No ano seguinte, Manuel Fiel Filho foi morto pelos torturadores, agravando ainda mais a situação no lado da repressão. Foi o complemento da repercussão do caso Herzog, aumentando a crise ditatorial que já acontecia pelo colapso econômico que era reflexo da crise internacional do petróleo, no Oriente Médio.

Daí que a morte de Vladimir Herzog foi um dos primeiros fatores que levaram à decadência da ditadura militar, que se anunciava eterna, mas que se desgastou ao longo dos anos, se extinguindo em 1985.

Ainda sofremos os efeitos devastadores causados pela ditadura militar, mas vivemos um cenário sócio-político bem mais saudável. E podemos nos relembrar de Vladimir Herzog sem medo, falando de seu exemplo humano e sua dedicação sem que qualquer força venha nos reprimir por isso. Daí Herzog ser considerado um dos exemplos, um dos grandes nomes respeitados e venerados por aqueles que lutaram pela redemocraticação do país.

sábado, 23 de outubro de 2010

PELÉ COMEMORA 70 ANOS COM HOMENAGENS E LEMBRANÇAS



Do Portal Terra

O rei faz 70 anos. Pelé, que decidiu comemorar longe dos holofotes que sempre o perseguem, terá uma rodada do Campeonato Brasileiro com seu nome, além de inúmeras homenagens, com imagens e gols, que lembram a sua carreira de campeão.

O ex-jogador pretende passar o aniversário no sábado com sua família no Brasil, em um lugar não-revelado. Nos gramados, as partidas do fim de semana no Brasileiro se chamarão "Rodada Pelé 70 Anos", e um jogador do Santos vestirá a camisa 70 em homenagem ao eterno ídolo do clube.

Considerado o "Rei do Futebol", Pelé nunca deixou de ser centro das atenções. Qualquer comentário dele vira manchete. Exposições e filmes sobre a carreira do tricampeão mundial com a seleção brasileira acontecem periodicamente. Em Santos, um museu está sendo erguido em sua homenagem.

A importância de Pelé para o futebol mundial é lembrada ainda em diversos especiais da mídia, que repete os gols mais bonitos, os dribles, as jogadas memoráveis, os diversos títulos conquistados.

"O Pelé continua sendo a grande referência do futebol. Passados vários anos que ele parou, ele continua sendo o rei. Penso que como ele, não terá outro", disse à Reuters o ex-lateral Carlos Alberto Torres, companheiro dele no Santos e na seleção.

"A cada dia aparecem grandes jogadores, mas como ele jogava, acho difícil. Ele reunia todas as qualidades e além disso era um grande profissional. É um grande exemplo para todos os jogadores", acrescentou.

Pelé brilhou pela seleção brasileira já aos 17 anos, sendo campeão da Copa de 1958. Quatro anos depois, participou da campanha vitoriosa no Mundial do Chile, e em 1970 comandou a equipe tricampeã no México.

"Como torcedor, tive o privilégio de assistir a muitos gols e a grandes exibições do Pelé. Como presidente da CBF, só tenho de agradecer, como todo brasileiro, ao craque pelas conquistas que abriram caminho para o penta mundial", disse o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, ao anunciar a homenagem a Pelé no campeonato nacional.

O Santos, clube pelo qual ele atuou de 1956 a 1974, sendo campeão da Libertadores e do Mundial por duas vezes, lembrará o ídolo ao escalar o jovem Neymar com a camisa 70 na partida de domingo contra o Grêmio Prudente.

"ATLETA DO SÉCULO"

Pelé ganhou no Santos 45 títulos, o que "equivale a 51,13 por cento de um total de 88 canecos levantados pelo alvinegro praiano ao longo dos seus 98 anos de história", informou o Santos em seu site.

Pela equipe paulista, Pelé, que nasceu na cidade mineira de Três Corações, marcou a grande maioria de seus 1.284 gols, entre eles o milésimo, de pênalti, em 1969, quando disse a famosa frase: "O povo brasileiro não pode esquecer das crianças."

No mesmo ano aconteceu outra passagem memorável de Pelé pelo Santos. Em meio a uma guerra civil na África, as forças rivais declararam uma trégua para que Pelé e o time do Santos passassem com segurança entre Kinshasa e Brazzaville, como é mostrado no filme "Pelé Eterno".

Campeão do Campeonato Paulista por 10 vezes e artilheiro do torneio em 11 ocasiões, o ex-camisa 10 é ainda o maior goleador da seleção brasileira, com 95 gols em 114 jogos, e conta com uma série de prêmios. Entre eles o título de "Atleta do Século" concedido pelo jornal francês L''Equipe.

Fora dos campos, Pelé foi ministro dos Esportes de 1995 a 1998 e já atuou como músico e ator.

Em 2000, a Fifa o escolheu como o maior jogador de futebol do século 20, numa polêmica eleição que teve o argentino Diego Maradona como líder na votação pela Internet e o brasileiro como o escolhido por especialistas. A entidade que controla o futebol mundial acabou concedendo o prêmio a Pelé.

A "competição" com Maradona sobre o melhor de todos os tempos não incomoda Pelé.

Em entrevista à Reuters este ano, o brasileiro disse que "primeiro os argentinos têm que resolver quem é o melhor deles", argumentando que já quiseram compará-lo com Alfredo di Stéfano, argentino naturalizado espanhol, além de Maradona.

sábado, 9 de outubro de 2010

JOHN LENNON FARIA 70 ANOS


Um dos mais famosos músicos ingleses é lembrado hoje.

O controverso John Lennon, um dos integrantes dos Beatles, faria 70 anos de nascimento neste dia.

Durante menos de 25 anos, o músico participou de uma das fases mais ricas e abrangentes da história da música mundial, e a do rock em particular.

Só os dez anos em que ele cantou e tocou uma das guitarras nos Beatles são de uma riqueza de experiências que até hoje rende muitos livros.

Foi um dos talentos emergentes do rock de garagem de Liverpool, ainda sob o frescor do skiffle, o ritmo jovem britânico que influenciou muito a "batida do Mersey", nome do rio que passa pela cidade inglesa.

Foi um dos principais nomes da revitalização do rock dos EUA pelo outro lado do Atlântico, uma vez que o rock estadunidense saiu desacreditado, viu jovens talentos morrerem cedo e sofreu a invasão de canastrões, enquanto a soul music ocupava o coração dos jovens.

John Lennon, juntamente com seus parceiros Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, gravou uma grande quantidade de clássicos do rock, desde as canções "inocentes" da primeira fase até as esquisitices sonoras da segunda fase.

Os Beatles eram vistos como "comportadinhos", isolados do contexto das demais bandas do rock do Reino Unido.

Grande engano.

Os Beatles se relacionavam com os integrantes dos Rolling Stones, Who, Yardbirds, Cream, David Bowie, Led Zeppelin e Deep Purple (só para citar os conhecidos), como garotos que estudavam na mesma escola.

Não raro saía um entrosamento musical nisso tudo.

Ou então Mick Jagger e Keith Richards davam as caras nas gravações dos Beatles e no vídeo de "All You Need Is Love".

Aliás, foi Lennon apoiar os Rolling Stones do seu Rock And Roll Circus e lá o beatle lançou sua Plastic Ono Band, iniciando sua parceria musical com a esposa Yoko Ono.

John Lennon viveu um sonho intenso, nos anos 60. Mas, com o amadurecimento dos Beatles, as individualidades de cada integrante se tornaram evidentes.

Com isso, os fab four não podiam mais conviver juntos como uma só banda.

The Beatles, o hoje conhecido "álbum branco" de 1968, já mostrava isso.

E tão logo seus membros esboçaram seus trabalhos solo, carreira oficialmente lançada depois do fim dos Beatles.

Os Beatles terminaram não pondo os carros na frente dos bois. Mas pondo Abbey Road antes de Let It Be, que dos dois discos foi gravado primeiro.

Vieram os trabalhos solo. E Lennon, entrevistado pela Rolling Stone, disse que o sonho acabou.

Ideia expressa numa canção que Lennon dizia que só acreditava nele e em Yoko Ono. Uma letra que declara todo o ceticismo dele com a vida.

Lennon escreveu letras pacifistas. Mas encontrou uma época diferente.

Os jovens dos anos 70 não acreditavam no rock sessentista.

Achavam que os artistas dos anos 60 ficaram ricos e se esqueceram da juventude e de suas causas rebeldes. E se ocuparam no punk rock e movimentos posteriores.

Aí a superexposição de Lennon acabou deixando-o vulnerável ao atentado fatal, por um psicopata que dizia ser "fã" dos Beatles. Atirou duas vezes em Lennon, que morreu a caminho do hospital, sem curtir direito os 40 anos, em 08 de dezembro de 1980.

09 de outubro. Dia nove. Revolution Number Nine, One After 909, Number Nine Dream. Number nine, number nine, number nine...

Que o diga George Harrison, que compôs com Lennon a instrumental "Cry For a Shadow" (obscura canção do quarteto de Liverpool) e também guitarrista dos Beatles, que gravou um disco de nome Cloud Nine e também sofreu outro atentado, que não o matou diretamente, mas agravou o câncer que o matou em 2001.

John Lennon, morrendo, sepultou o sonho da volta dos Beatles.

Ele havia retomado os entendimentos com Paul McCartney, depois de anos do fim do grupo.

Tivemos que nos contentar com o recurso tecnológico de retrabalhar algumas demos deixadas por Lennon com gravações posteriores de McCartney, Harrison (mais seu escudeiro Jeff Lynne, do ELO) e Starr, sob a batuta do "quinto beatle", maestro e produtor George Martin, com melodias acrescentadas pelos cinco.

Uma delas, "Free As a Bird", é uma simpática balada bem ao estilo da segunda fase.

A força dos Beatles é tanta que até quem não viveu para conhecer Lennon vivo sabe das músicas da banda.

O legado dos Beatles se tornou muito marcante. Há mais de 45 anos. Os quatro rapazes de Liverpool fizeram muita gente juntar dinheiro para comprar instrumentos e montar suas bandas.

E até o José Ramos Tinhorão, apegado às raízes folclóricas do Brasil, reconhece que os Beatles fazem música sofisticada.

E boa parte da trajetória do grupo se deve a esse rebelde, com jeitão de bad boy, que fundou o Quarrymen e, com os Beatles e a carreira-solo, escreveu muitos dos momentos mais marcantes e até polêmicos da história não só da música, mas das celebridades em geral.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

HÁ 40 ANOS, MORRIA JANIS JOPLIN



Do Portal Terra

Há quarenta anos, em 4 de outubro de 1970, a cantora americana Janis Joplin morreu, devido à uma overdose de heroína, com apenas 27 anos. Sua morte e a de Jimi Hendrix, duas semanas antes, em 18 de setembro, também com 27, foram um duro golpe para a geração hippie e os amantes do rock and roll.

Janis Lyn Joplin nasceu em 19 de janeiro de 1943 na cidade de Port Arthur, no Texas. Desde cedo o espírito rebelde da garota se expressava através da música e da arte. Ela começou a cantar influenciada pelas grandes vocalistas de blues, como Bessie Smith. Apesar de branca, Janis admirava a música e a cultura negras, numa época em que a segregação racial ainda era muito forte nos Estados Unidos, e a voz potente e cheia de emoção não devia nada às grandes cantoras negras.

Após circular pelos círculos beatniks de Nova York e San Francisco, ela foi morar em Austin, no Texas, onde cursou a Universidade do Texas. Desta época começou suas experiências com drogas e bebida, que a levaram ao vício. Em 1966 um amigo a apresentou à banda Big Brother and the Holding Company, de San Francisco, onde então começava a explodir a revolução hippie. Ela se juntou à banda, e incorporou sua voz blueseira ao grupo de rock psicodélico pesado.

Em 1967 sua performance com a banda no Monterrey Pop Festival à catapultou para a fama, a transformando na primeira vocalista mulher de destaque no mundo do rock. No mesmo ano eles lançaram o primeiro disco, com músicas como Down On Me. Mas a obra prima da banda foi o clássico disco Cheap Thrills, com as músicas Piece of My Heart, Ball and Chain e Summertime, entre outras, lançado no ano seguinte.

Seu vício em drogas e álcool começaram a criar problemas com os outros membros da banda, e no final de 1968 ela saiu em carreira solo. Em 1969 lançou o primeiro disco solo, I Got Dem Ol' Kozmic Blues Again Mama!, com Kozmic Blues e Try (Just a Little Bit Harder). No ano de sua morte, ela gravou Pearl, com as clássicas Mercedes-Benz e Bobby McGee, mas não viveu para ver o lançamento do disco. Uma overdose acidental de heroína a matou em um hotel de Los Angeles. Seu estilo único de cantar, a entrega no palco e a emoção transmitida pelas músicas a transformaram em uma lenda do rock, reverenciada até hoje.

sábado, 2 de outubro de 2010

"MINDUIM" COMEMORA 60 ANOS



A Turma do Charlie Brown comemora 60 anos de publicação. Suas histórias ora eram dotadas de humor sarcástico, ora eram cheias de profundo lirismo, e toda essa obra foi produzida desde 02 de outubro de 1950, quando foi lançada a primeira tira, até 13 de fevereiro de 2000, um dia após o falecimento de seu autor, Charles M. Schulz.

Conhecido como Sparky desde a infância, Schulz, na verdade, havia criado um embrião da Turma do Charlie Brown, chamado Lil'Folks, onde já se via o personagem Charlie Brown e um cachorro com as caraterísticas semelhantes ao Snoopy das primeiras tiras, além de haver um outro personagem fanático pela música de Ludwig Van Beethoven, a exemplo do pianista Schroeder.


LIL' FOLKS: O "EMBRIÃO" DA TURMA, JÁ COM CHARLIE BROWN E SEU CACHORRO, ENTÃO SEM NOME.

Lil' Folks foi publicada entre 22 de junho de 1947 e 22 de janeiro de 1950. Para não ser confundida com obras da história em quadrinhos como Lil'Abner (criação de Al Capp conhecida, no Brasil, como Ferdinando), a Newspaper Enterprised Association, que editava Lil' Folks, sugeriu que Schulz mudasse o nome para Peanuts (nome que foi traduzido aqui como "Minduim", simplificação à mineira de "Amendoim"). Charles Schulz nunca gostou desse nome, achava muito ridículo, mas aceitou.


A PRIMEIRA TIRA.

A primeira fase de Peanuts contava apenas com Charlie Brown e Snoopy como personagens bem conhecidos. Outros personagens, Shermy e Patty (não confundir com Patty Pimentinha, ou Peppermint Patty, que só surgiu em 1966), são menos conhecidos e saíram das tiras oficialmente em meados dos anos 70, embora apareçam nos longa-metragens feitos com a Turma do Charlie Brown.

Com o tempo, outros personagens foram criados: Violeta (Violet, fevereiro de 1951), Schroeder (maio de 1951), Lucy (março de 1952), Lino (Linus, setembro de 1952), Chiqueirinho (Pig Pen, julho de 1954), Sally Brown (agosto de 1959), Patty Pimentinha ("Peppermint" Patty, agosto de 1966), Woodstock (introduzido em abril de 1967; batizado em junho de 1970), Franklin (julho de 1968), Marcie (julho de 1971) e Rerun Van Pelt (março de 1973).

É difícil enumerar todos os detalhes num texto como este, além do mais que é só vendo os desenhos, seja na imprensa, seja na animação, para sentir a delícia de ver os personagens e suas divertidas e, por vezes, reflexivas histórias.

Sabe-se que Charlie Brown é um típico nerd, apaixonado por uma enigmática garota ruiva, dono do esperto cachorro Snoopy. Este, por sua vez, é um personagem dotado de inteligência e auto-suficiência, além de inclinado à imaginação fértil (uma de suas fantasias é sendo o aviador Barão Vermelho, Red Baron no original). Snoopy, mais tarde, também teve como amigo um passarinho que Schulz depois batizou como Woodstock.

Há a temperamental Lucy, o filosófico Lino agarrado ao seu cobertor azul, a masculinizada Patty Pimentinha e sua inseparável amiga, a intelectualizada Marcie, e o sujo Chiqueirinho, cujo paralelo existe entre nós através do Cascão de Maurício de Souza.

Charlie Brown tem uma irmã chamada Sally, enquanto Lucy e Lino são também irmãos e ganhariam mais tarde o caçula Rerun.

A Turma do Charlie Brown é uma obra dotada de lirismo e muito senso de humor. Às vezes é temperada de melancolia. Reflete o mundo dos adultos através dos personagens infantis, enquanto os personagens adultos aparecem apenas pelos pés, no plano inferior. A trilha sonora dos longa metragens animados ficava entre o jazz fusion e a música clássica, além de algumas baladas orquestradas.


A ÚLTIMA TIRA.

A dedicação de Charles Schulz às histórias de seus personagens foi tal que, no final da vida, ele anunciou que sua obra foi encerrada, e que não haveria outro desenhista que desse continuidade aos personagens. Sua preocupação era de que sua obra fosse descaraterizada.

Após sua morte, em 12 de fevereiro de 2000, seus personagens apareceram apenas no longa-metragem He's a Bully, Charlie Brown, de 2006, também última produção de Bill Melendez, responsável pela animação dos personagens de Schulz. Melendez morreu em 2008.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

HÁ 55 ANOS, MORREU JAMES DEAN



Do blog TV pelo Espectador

No dia 30 de setembro de 1955, o choque de seu Porsche em alta velocidade contra um Ford que vinha em direção contrária causou a morte imediata do jovem ator de cinema, levando a consternação internacional.

James Byron Dean nasceu em Fairmont, no estado americano de Indiana, em 8 de fevereiro de 1931. Mudou-se com sua família para Los Angeles quando tinha cinco anos de idade. Aos oito, após a morte da mãe, retornou ao Meio-Oeste, onde cresceu na fazenda de um parente. Retornou para a Califórnia, matriculando-se no Santa Monica Junior College e, mais tarde, na universidade UCLA.

Dean estreou no meio artístico com um pequeno grupo teatral dirigido por James Whitmore, também em comerciais de TV e representando pequenos papéis em diversos filmes.

Em 1952, foi para Nova York, onde trabalhou como motorista de ônibus até conseguir uma ponta na peça See the Jaguar, na Broadway. Depois, frequentou aulas no Actors Studio, atuou na televisão e retornou para a Broadway no The Immoralist (1954). Essa última aparição foi um teste para a companhia Warner Bros e o início de uma das mais espetaculares carreiras no cinema.

Data da morte virou nome de filme

Um ano e três filmes mais tarde, James Dean já era conhecido e admirado como personificação da inquieta juventude norte-americana dos anos 50 e uma encarnação do título de seu filme Juventude Transviada (1955). Dean morreu num acidente de automóvel quando se dirigia a Salinas para competir numa corrida de carros esportivos de luxo. Muitos de seus fãs recusaram-se a acreditar na morte do ator. A data virou título de um filme – 30 de Setembro, 1955 (rodado em 1978). James Dean, que foi indicado duas vezes postumamente para o Oscar de Melhor Ator – em Vidas Amargas (1955) e Assim Caminha a Humanidade (1956) –, recebeu uma homenagem póstuma do Correio dos Estados Unidos. Em 1996, entrou como "segundo selo" para a série Lendas de Hollywood. Marilyn Monroe foi a primeira estrela da série, impressa em 1995.

O mito do ator norte-americano também rendeu muitos livros. Um dos mais lidos é James Dean – a biografia, do jornalista e poeta francês Yves Salgues. Escrito por um autor de 19 anos e publicado 15 meses após a morte do ator, o livro tornou-se um sucesso mundial, no rastro do vácuo deixado pela morte de Dean em milhares de fanáticos admiradores.

De temperamento ao mesmo tempo frágil e selvagem, Dean representou o ceticismo do pós-guerra e a rebeldia que caracterizou a juventude do século 20. Na opinião de Salgues, o "ídolo sem ideologia nem causa consolidou, com sua morte prematura, a figura do jovem urbano carente e selvagem ao mesmo tempo. Foi um monstro de repercussão inimaginável produzido nos milionários estúdios de Hollywood, no tempo em que estes estúdios realmente faziam história, fornecendo à opinião pública mundial o cardápio açucarado do sonho americano e de um mundo livre, fortalecido pela derrota do nazismo e o temor do perigo comunista".

A imagem do ator que ficou no coração dos jovens foi a do James Dean de Juventude Transviada. Imortalizado no seu sorriso triste, a morte acabou por eternizar sua juventude. No fim do século 20, "sem heróis de carne e osso", muitos jovens voltaram a cultuar "anjos" do passado, como Dean, cujo rosto – segundo Yves Salgues – "para sempre será irônico e triste e terá para sempre 24 anos". A conturbada e misteriosa vida do ator também está documentada no filme James Dean – Um Ídolo e Suas Paixões, dirigido por Mardi Rustam.

FLINTSTONES COMPLETAM 50 ANOS



Do blog Sobre Isso

I Yabba Dabba-Do!! Bedrock está em festa!! Os pré-históricos mais famosos do planeta estão comemorando 50 anos.

Quem não se lembra das confusões de Fred Flintstone e o seu melhor amigo Barney Rubble, ao lado de suas esposas Vilma e Bete, seus filhos Pedrita e Bambam e do adorável Dino, o dinossauro de estimação que jogava o Fred no chão toda vez que ele chagava do trabalho.

Criado nos estúdios Hanna-Barbera, os Flintstones foi exibido pela primeira vez na ABC no dia 30 de setembro de 1960 e teve 166 episódios, sendo que o último foi exibido no dia 1º de abril de 1966.

O sucesso da série foi tanto, que ele foi parar no horário nobre da tv. Criado por William Hanna e Joseph Barbera, até hoje é uma de suas mais rentáveis criações.

Estima-se que o desenho já foi assistido por mais de 300 milhões de telespectadores em 80 países e dublado em 22 idiomas e com certeza marcou diversas gerações.

Após a sua última temporada (1966), foi produzido o primeiro especial da série “Um Homem Chamdo Flintstone”, depois disso vários longas sobre as famílias de Bedrock foram exibidos e séries de desenhos baseados no original como “Bambam e Pedrita” (1971-1972), onde contava a história deles já adolescentes e “Flintstones nos Anos Dourados” (1986-1988), que narra as aventuras de Fred, Barney, Vilma e Betty quando eram crianças.

ATOR TONY CURTIS MORRE AOS 85 ANOS



Do Portal Terra

O ator americano Tony Curtis morreu aos 85 anos em sua residência na cidade de Henderson, no estado americano de Nevada, informou nesta quinta-feira (30) sua filha, a atriz Jamie Lee Curtis, ao site Entertaiment Tonight.

Protagonista de várias comédias de Hollywood das décadas de 1950 e 1960, como Quanto Mais Quente Melhor (1959), Curtis foi hospitalizado em julho em Las Vegas (EUA) por conta de problemas respiratórios, mas ainda não foram divulgados detalhes de sua morte.

Com mais de 50 anos de carreira e uma centena de filmes como protagonista, Curtis, cujo verdadeiro nome era Bernard Schwartz, nasceu em 3 de junho de 1925, em Nova York, em uma família de origem judaica.

Estudou interpretação na Academia de Arte Dramática de sua cidade natal e, em 1949, estreou em Hollywood com um papel de coadjuvante em Baixeza.

Sua popularidade no cinema começou dois anos depois com O Príncipe Ladrão e protagonizou depois títulos como Trapézio (1956), Acorrentados (1958) e Spartacus.

Uma de suas mais famosas interpretações seria Quanto Mais Quente Melhor, na qual Billy Wilder contracenou Marilyn Monroe e Jack Lemmon.

Curtis se casou em seis ocasiões, a primeira delas em 1951 com a atriz Janet Leigh, mãe de suas filhas Jamie Lee e Kelly Curtis, também atrizes.

Ele deixa a mulher, a modelo Jill Vandenberg, 45 anos mais nova do que ele.

Tony Curtis se despediu do cinema em 2005 com uma colaboração na série televisiva CSI. Nos últimos anos de vida, cultivou uma de suas grandes paixões, a pintura.

Em 2008, expôs uma coleção de 35 quadros nas lojas de departamento londrinas Harrods.

O ator sempre mostrou seu amor pelo cinema. "Continuo gostando do cinema porque é minha vida. Sou feito de celuloide", declarou, ao receber dez anos atrás um prêmio no Festival Internacional de Sitges (nordeste da Espanha).

terça-feira, 28 de setembro de 2010

ENTREVISTA COM GERALDO VANDRÉ



Por Geneton Moraes Neto - Blog Dossie Geral 21.09.2010

A pergunta que todos gostariam de fazer é a mais simples possível: o que foi que aconteceu com Geraldo Vandré ?
Vandré : “Ficou fora dos acontecimentos (ri). Ficou fora dos acontecimentos. Acho melhor para ele. Tenho outras coisas para fazer. Estudei leis. Quando terminei meu curso de Direito aqui no Rio e fui me dedicar a uma carreira artística, já sabia que arte é cultura inútil. Mas hoje consegui ser mais inútil do que qualquer artista. Sou advogado num tempo sem lei. Quer coisa mais inútil do que isso ? Quando entrei na escola, para estudar, era a Universidade do Distrito Federal. Quando saí, era Universidade do Estado da Guanabara. Hoje, é Uerj, no Maracanã”.

Você se animaria a fazer uma temporada comercial,em teatros ?

Vandré : “Tenho uma prioridade: fazer a minha obra de língua espanhola. É uma obra popular. Além de tudo, o que quero fazer, antes de cantar canções populares no Brasil, é terminar uma série de estudos para piano, música erudita com vistas a composição de um poema sinfônico. Porque aí já é a subversão total. Não existe nada mais subversivo do que um subdesenvolvido erudito”.

O fato de a música “Caminhando” ter se tornado uma espécie de hino de protesto provoca o quê em você hoje: orgulho ou irritação ?

Vandré: “Estou tão distante de tudo. Mas não tenho o que corrigir em nada do que fiz. Tenho muito orgulho de tudo o que fiz. Protesto é coisa de quem não tem poder. Não faço canção de protesto. Fazia música brasileira. Canções brasileiras. A história de “protesto” tem muito a ver com a alienação denominatória, é o “protest song” norte-americano, a música country. Há algumas coincidências. Não concordo com a denominação “música de protesto”. Fiz música popular brasileira”.

Você teve uma divergência artística com os tropicalistas – entre eles, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Hoje, você ainda considera ruim a música que eles faziam na época ?

Vandré : “Com essa pergunta, eu me lembrei de uma resposta que o próprio Gil deu uma vez. Fiz uma pergunta a ele. Não me lembro qual foi. E ele disse: “Ah, faço qualquer coisa. Uma tem que dar certo”. Eu não faço qualquer coisa”.

Mas você mudou de opinião sobre os tropicalistas ou não ?

Vandré: “Parece que eles continuam na mesma. É o que me parece. Eu estou distante de tudo – não só do Tropicalismo como de tudo praticamente que se faz do Brasil”.

Em que país vive Geraldo Vandré ?

Vandré: “Vive num Brasil que não está aqui. Geraldo Vandré vive no Brasil. Eu até me atreveria a dizer que quem não vive no Brasil é a maioria dos brasileiros. A quase totalidade dos brasileiros não vive mais no Brasil. Vive num amontoado”.

Como é este Brasil de Geraldo Vandré ?

Vandré : “É o antes – de quarenta anos atrás. O país que o Brasil era quando fiz música para o Brasil não era este país de hoje. Não existia este processo de massificação. Dentro da minha própria carreira – profissionalmente falando – houve uma mudança ali no Maracanãzinho. Ali, houve a passagem do que eu fazia para um público de um teatro de setecentas ou no máximo mil e duzentas pessoas para um ginásio com trinta mil pessoas. E a televisão direto no ar. Já foi a massificação”.

O Brasil de quarenta anos atrás era melhor do que o Brasil de hoje ?

Vandré: “Eu fazia música para aquele país”.

E por que não fazer música para o Brasil de hoje ?

Vandré: “Porque o país é outro. O que existe é cultura de massa. Não é cultura artística brasileira. Não há praticamente espaço para a cultura artística. Se você considerar os outros autores, eles fazem coisas de vez em quando. Não têm uma carreira como tinham antigamente – nem Chico Buarque nem Edu Lobo, ninguém. A carreira que eles têm é uma carreira hoje muito segmentada”.

Você se considera, então, uma espécie de exilado que vive dentro do Brasil ?

Vandré: “Estou exilado até hoje. Ainda não voltei. Eu estou exilado e afastado das atividades que eu tinha até 1968 no Brasil. Eu me afastei. Não retornei”.

Por que é que você resolveu se afastar totalmente da carreira artística naquela época ?

Vandré: “Naquela época, já era assim: já era como hoje. Quando voltei, o Brasil já estava num processo de massificação em que o público para quem eu tinha escrito e para quem eu tinha composto praticamente já não existia, aquela classe média de quatro anos e meio antes. Estava muito confuso tudo.Fui esperando, fui vendo outras coisas. Isso foi de mal a pior – cada vez mais. Para você ter uma ideia: quando terminei o curso de Direito no Rio e me mudei para São Paulo, em 1961, para fazer uma carreira artística, não existia bóia-fria em São Paulo. Hoje, São Paulo é a terra do bóia-fria: todo mundo amontodo nas cidades. Vão aos campos para plantar e para colher e depois voltam para a cidades. Quando fui para São Paulo, a cidade tinha quatro milhões de habitantes. Hoje, são dezesseis milhões de amontoados. É um genocídio. Tiraram todo mundo dos campos para produzir e exportar…”

A decisão de interromper a carreira,então, foi – de certa maneira – um protesto contra o que você via como “massificação” da sociedade brasileira ?

Vandré: “Não. O que houve foi muito mais uma falta de motivo, uma falta de razão para cantar. Protesto,não: falta de razão, falta de porquê. Estou fazendo o que acho que devia fazer”.

O que é que chama a atenção do Geraldo Vandré no Brasil de hoje ? Que manifestação artística desperta interesse ?

Vandré: “A miséria aumentou. Se você pegar a letra de “Caminhando” – ” pelos campos, as fomes em grandes plantações/pelas ruas marchando indecisos cordões/ ainda fazem da flor seu mais forte refrão/ e acreditam nas flores vencendo o canhão” -, hoje é mais ainda. Hoje, as ruas estão muito mais cheias de indecisos cordões. O processo de massificação destruiu praticamente a urbe brasileira”.

Você se animaria a fazer uma canção como “Caminhando” hoje ?

Vandré:”Não existe isso. A gente nunca faz uma canção como uma outra. Aquela é uma canção. Cada uma é uma.A gente faz independentemente de animação. Quando decide fazer, faz”.

Você diria que o Brasil é um país ingrato ?

Vandré : “Não. De forma alguma. São coisas que ocorrem. Guerra é guerra.Não perdi (ri). Eu me lembrei agora de um poema muito bonito de Gonçalves Dias que aprendi com meu pai: “Não chores, meu filho, não chores/ Viver é lutar/ A vida,meu filho, é combate/é luta renhida/ que aos fracos abate e aos bravos só pode exaltar”.

Quando você se lembra hoje do Maracanãzinho inteiro cantando “Caminhando” que sentimento você tem ?

Vandré: “Aquilo foi muito bonito, muito bonito. Pena que eu não posso ver o VT. Estão guardando o VT não sei para quê.Quero ver o VT. Lá na sua estação eles devem ter. Procure lá. Consegue o VT para ver!” ( olhando para a câmera).

Você tem saudade daquela época ?

Vandré : “Saudades….Saudades…Um pouco. Mas também há tanta coisa para fazer que não dá muito tempo de sentir saudade”.

Você vive de quê hoje ? Você recebe direitos autorais ?

Vandré: “Nunca dependi de música para viver. Sou servidor público. Hoje, estou aposentado como servidor público federal”.

Você deixou de receber direitos autorais ?

Vandré: “Pagam o que querem. Não existe controle. Não existe critério. Se nós tivéssemos direito de autor, teríamos os direitos conexos, direitos de marcas, patentes, propriedade industrial. É um assunto complexo. Mas aí não seríamos subdesenvolvidos“.

Você foi o único grande nome daquela geração que não voltou aos palcos – entre eles, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque…

Vandré: “Eu não voltei. É uma boa pergunta: por que não voltei? Não mudou tudo ? Mas será que mudou ?As razões pelas quais me afastei continuam preponderantes no que que se apresenta como realidade brasileira”.

Se você fosse escrever um verbete numa enciclopédia sobre Geraldo Vandré qual seria a primeira frase ?
Vandré: “Criminoso (ri)”.

Por quê ?

Vandré : “O que você chama de governo ainda me tem como anistiado por haver cantado as canções que cantei. Fui demitido do serviço público por causa das canções. O que se apresenta como governo no Brasil até hoje cobra impostos sobre o “corpo de delito” que foram as canções que fiz. Deu para entender agora ? “.

Você foi punido pelo governo da época, perdeu o emprego público…

Vandré: “Fui demitido. Depois, retornei. Briguei, briguei, briguei..”

Em algum momento, você foi considerado “criminoso”…

Vandré: “Fui demitido por causa da canção. E essa canção que foi motivo de minha demissão até hoje é…Voltei por força de um despacho dado com fundamento na Lei de Anistia, como se eu fosse criminoso. Anistia é para criminoso – condenado por sentença transitada em julgado, se ele aceitar. Porque ele pode não aceitar. Aceitar a anistia significa aceitar-se criminoso, beneficiário de anistia”.

Você acha que a grande injustiça foi esta : em algum momento você ser considerado um criminoso ?

Vandré: “Injustiça não é a palavra…”

Você teria cometido um “delito de opinião” …

Vandré: “Não. Era subversão mesmo, sob certos aspectos, porque não havia nada mais para fazer naquele instante. Não me lembro. Mas as Forças Armadas, propriamente ditas, entenderam muito melhor do que a sociedade civil. Nunca tive nenhum problema com as Forças Armadas propriamente. Sempre houve uma consideração e respeito entre nós”.

Hoje, você nega que tenha sido em algum momento um antimilitarista nos anos sessenta ?

Vandré: “Nunca fui antimilitarista. Nunca assumi tal posição. Fui lá e falei o que queria dizer, numa canção que foi dita e cantada no Brasil diante de todo mundo. A canção foi cantada para os soldados, também”.

O grande equívoco sobre Geraldo Vandré foi este : achar que você era antimilitarista ?

Vandré : “Não houve, na realidade, um grande equívoco. Houve uma grande manipulação porque, quanto mais proibido, mais sucesso fazia; mais se vendia; menos conta se prestava. É uma questão muito séria”.

Qual foi a última manifestação artística que despertou o interesse e a curiosidade de Geraldo Vandré no Brasil ?

Vandré: “Passei quatro anos e meio fora do Brasil. Quando voltei, havia uma coisa muito importante que era o Movimento Armorial. Havia o Quinteto Armorial e a Orquestra Armorial. A sonoridade era muito condensada. O resultado era importante. Para mim, foi a coisa mais importante que aconteceu nos últimos tempos. Não me lembro de outra coisa que tenha ido além daquilo”.

E da produção recente, alguma coisa chamou a atenção do Geraldo Vandré ?

Vandré: “Nada. Tiririca (ri). Dizem que vai ser o deputado mais votado de São Paulo. Está bom ? “.

Você disse, numa discussão na época dos festivais: “A vida não se resume a festivais”. Hoje, tanto tempo depois dos festivais, qual é o principal interesse do Geraldo Vandré ?

Vandré : “São as outras coisas que não estão nos festivais. Minha vida funcional – de que cuidei até me aposentar; as minhas relações com a Força Aérea, o meu projeto de fazer estas gravações na América espanhola…Tenho muita coisa para fazer”.

Outro grande nome que se celebrizou como opositor do regime militar na música brasileira foi Chico Buarque de Holanda. Você acompanhou o que ele fez depois ?
Vandré: “Chico teve um caminho diferente do meu. Não chegou a parar. Produziu muito durante aquela época em que eu estava fora. Chico ficou aqui. Saiu e voltou, saiu e voltou. Passei quatro anos e meio fora. Quando voltei, fiz uma tentativa de apresentação num programa de televisão. Não vem ao caso qual, mas não gostei do que aconteceu: o jogo de pressões que se fez em volta. Recuei. Depois, passou-se um tempo. A própria Globo queria fazer um festival. Chegaram a me procurar. Não tive interesse em participar”.

O que é que a produção de Chico Buarque significa para você ?

Vandré: “Chico é uma pessoa muito talentosa, muito importante. Um grande artista”.

Você perdeu o contato com todos os seus companheiros de geração na música ?

Vandré: “Nunca fui muito enfronhado no meio artístico. Fazia minhas coisas. Voltava para minhas atividades extramusicais”.

É verdade que você ficou escondido na casa da família Guimarães Rosa antes de ir para o exílio ?

Vandré: “Eu saí de circulação. Depois que o tempo foi passando, as coisas vão ficando claras: as Forças Armadas propriamente ditas não tinham nada contra mim. Não tomaram nenhuma iniciativa contra mim. Quando fecharam o Congresso Nacional, no dia 13 de dezembro de 1968, eu estava indo para Brasília para fazer um espetáculo. Evidentemente, suspendemos o espetáculo. Vim de carro – guiando – até São Paulo. Eu estava à mão das Forças Armadas….Nunca deixei de estar. Mas claro que algo poderia acontecer: ao andar à toa pela rua, eu poderia de repente encontrar um “guardinha de trânsito” que quisesse fazer média. Há sempre alguém que quer tirar proveito de situações assim. Para evitar, saí de circulação. Durante um tempo, estive na casa de Dona Aracy (viúva de Guimarães Rosa – que tinha morrido meses antes). Fiquei lá porque, quando vinha para o Rio, como não tinha casa aqui, sempre ficava na casa de amigos e de pessoas conhecidas”.

Por que você tomou esta decisão tão drástica – de interromper uma carreira de tanto sucesso ?

Vandré: “Decidir sair do Brasil naquele ano de 1968. (N:Os mesmos agentes que prenderam Caetano Veloso e Gilberto em São Paulo,em dezembro de 1968, tentaram prender Geraldo Vandré. Mas, avisado por Dedé, à época mulher de Caetano Veloso, Geraldo Vandré conseguiu escapar a tempo) Eu tinha uma programação para fazer fora do Brasil. Tinha um contrato com a televisão Bavária,na Alemanha, para fazer um filme sobre Geraldo Vandré. Fui fazer. Passei um ano e meio pela Europa. Depois, voltei para o Chile – para onde eu tinha ido do Brasil. Havia muitos brasileiros lá ainda. De lá, fui para o Peru. Ganhamos um festival em Lima em 1972 com uma canção que era a única não cantada em espanhol. Era cantada em “brasileiro” mesmo. O Brasil não conhece a canção.Chama-se “Pátria Amada Idolatrada, Salve, Salve – Canção terceira”.

Você se lembra da letra ?

Vandré : “Eu me lembro. É uma canção que foi feita para ser cantada por um homem e uma mulher. Existe de caso pensado – coincidentemente – uma confusão de sentimentos entre a ideia da pátria e a ideia da mulher amada.O homem canta: “Se é pra dizer-te adeus/ pra não te ver jamais/Eu – que dos filhos teus fui te querer demais-/no verso que hoje chora para me fazer capaz da dor que me devora/quero dizer-te mais/ que além de adeus/ agora eu te prometo em paz levar comigo afora o amor demais”. - E a mulher, cuja imagem se confunde com a noção da pátria, responde:
- “Amado meu sempre será quem me guardou no seu cantar/ quem me levou além do céu/além dos seus/e além do mais/ amado meu/ que além de mim se dá/não se perdeu nem se perderá”. - Os dois cantam juntos um para o outro. É um contraponto”.

Você foi constrangido a gravar, em 1973, um depoimento em que negava que fosse militante político. Qual foi o peso deste depoimento na decisão de Geraldo Vandré de interromper a carreira ?

Vandré: “Nunca fui constrangido a declarar que não tive militância política. Nunca tive militância político-partidária. Nunca pertenci a nenhum partido. Nunca fui político profissional. Não fui obrigado a dizer que não era militante. Nunca fui militante político. Nesta contemporaneidade em que estamos, eu me lembrei de um professor de Filosofia que dizia: “O homem é um animal político”. Sou uma qualidade de animal político que não depende de eleição. Vamos estudar a diferença entre política e eleição ?”.

Que lembrança você guarda deste depoimento ? Você foi levado para uma sala do aeroporto de Brasília e gravou um depoimento em que – de certa maneira – renegava …

Vandré (interrompendo) : “É um assunto que ficou muito confuso. Não me lembro exatamente. Gostaria de ver a declaração…”

Você gravou o depoimento quando voltou do Chile…

Vandré: “Gostaria de ver, porque houve montagens. Era gravação. O que foi para o ar não sei”

O depoimento criou espanto na época, porque – de certa maneira – era você negando a militância política…
Vandré: “Nunca fui militante. Se engajamento político é pertencer a um partido, nunca pertenci a nenhum. Nunca fui engajado politicamente”.

Você obrigado a gravar este depoimento ? Fazia parte do acordo para voltar para o Brasil ?

Vandré: “Queriam que eu fizesse uma declaração. Não me lembro o que foi que disse. Mas eu disse coisas que poderia dizer. O que eu disse era verdade. Não disse nada que não tenha querido dizer. A TV Globo deve ter isso. Procure lá…”

A gente procurou e não encontrou….

Vandré: “Pois é: somem com tudo. Que loucura essa…Por quê ? Veja se acha o vt do Maracanãzinho. É o que tem Tom Jobim. É o mesmo vt. A minha parte sumiu. Por quê ? Fizeram uma retrospectiva do Festival. Botaram o Festival no Maracanãzinho- Tom, Chico, todo mundo, Cynara e Cybele. Mas, na hora de botar o Geraldo Vandré, usaram um filme feito na Alemanha, em que eu estava de barba. Não é certo”…

Talvez tenham recolhido o filme…

Vandré: “Para mim, é muito difícil acreditar que a TV Globo tenha se desfeito do filme. Não acredito. Devem estar guardando muito bem guardado”

Só para esclarecer este episódio sobre o depoimento que você gravou quando voltou do exílio: que lembrança exatamente você tem ? Quem pediu a você para gravar este depoimento ?

Vandré: “Aquelas declarações foram feitas para uma pessoa que se me apresentava como da Polícia Federal. Fiz um depoimento aqui. Depois, disseram que eu tinha de ir para Brasília. Cheguei ao Brasil no dia 14 de julho. Dois meses depois, apareço como se estivesse chegando em Brasília. Aquilo foi uma manipulação. O depoimento foi gravado antes. Gravaram-me descendo do avião em Brasília. Tudo muito manipulado. É esta a história dos vts: normalmente, temos esta doença. Estou falando aqui. O que vai ser mostrado vai ser uma seleção que a estação vai fazer. Não vai ser o que estou dizendo. Isso é muito sério”.

Para encerrar o assunto: o depoimento teve um peso na decisão de interromper a carreira ? Você ficou incomodado com aquilo ?

Vandré: “Não. Eu estava chegando e vendo como estavam a coisas.Não tinha menor noção da realidade. Tive de passar por um processo de adaptação no retorno ao Brasil”.

O grande mistério que existe sobre Geraldo Vandré durante todas essas décadas é, afinal de contas, o que aconteceu com ele depois da volta do exílio: você foi maltratado fisicamente ?

Vandré: “Não, não.”

Se você tivesse a chance hoje de se dirigir a uma plateia de jovens num festival,o que é que você diria a eles ?
Vandré: “Vamos ter de dar um tempo aí, não é ?…” (rindo)

Um “tempo” de quantos anos ?

Vandré: “Não sei. Agora, vocês vão votar para presidente, deputado, senador. Estão ocupados com outras coisas. Estou por fora”.

Que papel você acha que vai caber a Geraldo Vandré na história da música popular brasileira moderna ?

Vandré: “Nunca fiz este tipo de avaliação”.

Que papel você espera ter ? Você se acha suficientemente reconhecido ?

Vandré: “Obtive o reconhecimento que procurei e quis”.

Você em algum momento se arrepende de ter interrompido a carreira ?

Vandré: “Não. Porque raramente me arrependo das coisas que faço. Calculo bem, reflito bem, meço bem : quando faço é para ficar feito mesmo. Não existe arrependimento não”.

Para efeito de registro histórico: você, primeiro, não se considera antimilitarista…

Vandré: “Não…”

Segundo: você não foi maltratado fisicamente durante o regime militar…

Vandré: “Não…”

Terceiro: você disse o que quis no depoimento que você foi forçado a gravar quando voltou do exílio…

Vandré: “E em quarto: há o Quarto Comando Aéreo Regional…Tenho uma canção para o “exército azul”, a Força Aérea…(ri e exibe o brasão da Aeronáutica, impresso numa espécie de cartão de visita que traz, no verso, a letra de “Fabiana“). A aviação é muito bonita. A loucura é a aviação. Porque a maior loucura do homem é voar. Conhece loucura maior do que esta ? Não existe”.

Como é que surgiu a fascinação de Geraldo Vandré pela aviação ?

Vandré: “Desde pequeno, desde criança”.

Você gostaria de ter sido aviador ?

Vandré: “É. Não fui aviador militar. Não sou piloto, mas – de certa forma – sou aviador, porque me ocupo de assuntos da aviação. Uma coisa é aviador, outra é piloto. Você pode ser piloto, co-piloto, rádio navegador, mecânico de bordo, médico aviador. Há vários caminhos – não necessariamente tem de ser piloto…”.

O fato de você ter composto uma música em homenagem à Força Aérea criou um certo espanto. Hoje, você se hospeda em hotéis da Aeronáutica, como este. Nós estamos num ambiente militar…

Vandré :”Relativamente, porque este é um instituto de direito privado…”

Houve alguma mudança na postura do Geraldo Vandré ou não em relação às Forças Armadas ?

Vandré : “O que houve foi o reconhecimento de uma parte da sociedade que nunca tinha tido oportunidade de saber realmente quais eram as minhas posições”.

Em que situação Geraldo Vandré voltaria a um palco hoje ?

Vandré: "Depende de onde. Tenho uma programação na qual invisto meu tempo e minhas energias : gravar um disco no exterior, num país de língua espanhola. É minha prioridade. Depois, vou ver minha programação para o Brasil. Escrevi umas trinta canções originalmente em “americano de habla hispânica”. Quero gravar num país de música espanhola, com músicos de lá. Minha prioridade comercial é esta. Para o Brasil, por ora, o projeto é a canção da Força Aérea mesmo – e um projeto sinfônico. A canção se chama Fabiana porque nasceu na FAB – em sua honra e em seu louvor”.

Você, hoje, então prefere compor peças sinfônicas ?

Vandré: “Tenho estudado música. Compus uma série de estudos para piano – aproveitando da técnica de uma jovem pianista de São Paulo. Mas a música ganhou outras dimensões. Passou a ser física e matemática. Ritmos do coração. Fica mais complicado,mas, para mim, é música”.

Você tem planos de gravar a música que você fez em homenagem à FAB ?

Vandré: “Claro. Já fizemos uma apresentação numa festa da Força Aérea em torno das comemorações da Semana da Asa, em São Paulo, com um coral de trezentos infantes. Uma coisa muito bonita. Com o tempo, vamos ver quais são alternativas que se colocam”.

Você declarou algumas vezes : “Geraldo Vandré não existe mais….”

Vandré ( interrompendo) : “Não, não declarei. Eu disse que ele não canta no Brasil comercialmente. Apresentei uma canção para a Força Aérea do Brasil. Não canto comercialmente no Brasil porque os problemas todos que tive de enfrentar resultaram de especulações comerciais: vendas clandestinas, câmbio negro, tudo isso. Quanto mais se proibia,mais se vendia. A sociedade, às vezes, tem essa doença”.

Você canta “Disparada” hoje, em casa ?

Vandré : “Não. Faz tempo que não pego num violão. Tenho de voltar a estudar”.

Que instrumento, então, você toca ? Piano ?

Vandré : "Não. Não sou pianista. Toco de improviso alguma coisa”.

Pelo menos duas músicas que você compôs são conhecidíssimas até hoje: “Disparada” e “Caminhando”.

Vandré ( interrompendo) : “Pelo menos duas…”

Se você fosse escolher uma, que música você escolheria como típica da produção de Geraldo Vandré ?

Vandré: “Disparada” é mais brasileira, tem uma forma mais consequente com a tradição das formas da música popular : a moda de viola. “Caminhando” já é mais urbana. É uma crônica da realidade. É a primeira vez que fiz uma crônica. Deu no que deu. A realidade não estava muito querendo ser…”

Retratada…A obra-prima de Geraldo Vandré qual é ?

Vandré: “Todas são iguais. Para mim, são todas iguais. Isso de obra-prima é uma questão de seleção e de predileção do público, os meios de comunicação e os chamados formadores de opinião”.

Mas você deve ter uma predileção pessoal…

Vandré: “Não tenho. É tudo igual mesmo”.

As peças sinfônicas você compõe como ?

Vandré : “As melodias, algumas harmonias…Para escrever em notas convencionais, preciso da escrita de pessoas que estão muito mais afeitas a esta tarefa do que eu.Eu levaria anos para escrever uma partitura. Jamais escreveria como alguém que faz parte de uma orquestra, lê e escreve na hora, à primeira vista. Hoje,estou dedicado a preparar um poema sinfônico cuja abertura coralística será a Fabiana, a canção que fiz para a Força Aérea”.

Você hoje se animaria a fazer um espetáculo para o público brasileiro ?

Vandré :”Não. Para o público brasileiro, só uma coisa muito especial”…

Em que situação você voltaria a se apresentar no Brasil ?

Vandré: “Chegamos a cogitar de fazer uma apresentação da Fabiana no Clube de Aeronáutica. É um dos projetos de que chegamos a nos ocupar. Mas até agora as coisas ficaram postergadas, porque o clube vai entrar em reforma. Vêm aí as Olimpíadas Militares. O clube vai ter de se adequar”.

Qual é a grande inspiração que você tem para compor essas peças sinfônicas ? O que é que motiva você a compor ?
Vandré: “Nunca dependi muito da palavra inspiração. Escolhia os temas. O fundamental para mim é a memória que tenho do que ouvia no cancioneiro popular, as músicas de desde a minha infância”.

O público brasileiro ainda vai ter chance de ver Geraldo Vandré cantando “Caminhando” e “Disparada” no palco ?

Vandré: “Isso é profecia. Não sou profeta”.

O que é que levou você a fazer uma música em homenagem à FAB, a Força Aérea Brasileira, você, que era tido nos anos sessenta como antimilitarista ?

Vandré: “Era tido. Por quem ? Isso deveria ser perguntado para os que a mim me tinham como antimilitarista.Não sou militarista. Mas também não sou anti. Todos os países soberanos do mundo têm suas forças armadas. O que é que devemos fazer com as nossas ? Entregá-las para outras pessoas ? Vamos fazer isso ? Acho que não!
Chamo de “Fabiana” porque nasceu na FAB. Costumamos dizer assim: uma servidora da FAB é “fabiana”. A letra diz : “Desde os tempos distantes de criança numa força,sem par, do pensamento teu sentido infinito e resultado do que sempre será meu sentimento/todo teu/todo amor e encantamento/vertente.resplendor e firmamento/ Como a flor do melhor entendimento/a certeza que nunca me faltou/na firmeza do teu querer bastante/seja perto ou distante é meu sustento/ De lamentos não vive o que é querente do teu ser no passado e no presente/Do futuro direi que sabem gentes de todos os rincões e continentes/que só tu saber do meu querer silente/porque só tu soubeste, enquanto infante, das luzes do luzir mais reluzente pertencer ao meu ser mais permanente”.
O refrão é, coincidentemente, um contraponto de “vem/vamos embora/ que esperar não é saber” : “Vive em tuas asas todo o meu viver/ meu sonhar marinho / todo amanhecer”.

Termina a entrevista. Já são quase sete da noite. O Grande Solitário da MPB caminha em direção à escadaria que dá acesso à ala de hóspedes do hotel que funciona no Clube da Aeronáutica. Parte sozinho. Vai em companhia do único habitante do Brasil que Geraldo Vandré criou para si: o próprio Geraldo Vandré.

sábado, 18 de setembro de 2010

HÁ 40 ANOS, JIMI HENDRIX SE FOI



Jimi Hendrix nos deixou há 40 anos atrás.

Grande músico, excelente compositor e até talentoso cantor, Jimi teve uma brevíssima carreira, que no entanto produziu uma riqueza artística que provocou um enorme impacto no cenário da música, fazendo com que outros guitarristas de rock, mesmo muito talentosos, fundissem a cuca diante das ousadias do jovem mestre.

Jimi foi um guitarrista de soul music, lá pelos meados dos anos 60. Gravou com Little Richard, Isley Brothers, Ike & Tina Turner, e tantos outros. Era um jovem discreto, embora afeito a performances que chamavam a atenção, ainda que não sejam exibicionistas. Little Richard não gostava de competir, em performances, com seu guitarrista de apoio. Mas, por incrível que pareça, Hendrix não era exibicionista, ele apenas vibrava com o som da guitarra que tocava. Hendrix fazia o que gostava, senão não teria sido o importante músico que foi e continua sendo para nossa lembrança.

Pois o talento de Jimi Hendrix com sua Fender Stratocaster (marca que ele mais usou e que um dia pretendo comprar para eu ensaiar guitarra) fascinou o baixista do grupo inglês The Animals, Chaz Chandler, que tão logo virou seu empresário e levou o músico mulato de Seattle para Londres, apresentando-o a dois músicos que formaram com ele a "Experiência", ou seja, The Jimi Hendrix Experience: o baixista Noel Redding e o baterista Mitch Mitchell, ambos recentemente falecidos.

A brevíssima discografia de Jimi Hendrix, seja com esta banda, seja com a posterior, Band of Gypsies, revela uma riqueza musical que combinava melodia, barulho, efeitos de estúdio, sons eletrificados, com uma mistura estilística de blues, soul, rock psicodélico, folk, que em certos aspectos antecipava o hard rock ou mesmo o heavy metal, fazendo Jimi Hendrix se tornar o patrono do rock pesado.

Jimi Hendrix também causou polêmica com suas performances, embora a famosa cena da guitarra incendiando seja tão somente uma sugestão de Chaz e que Jimi a princípio recusou-se a realizar.

Hendrix usava drogas, como a maior parte dos jovens dos anos 60 usava. Mas sua morte se deu por ingestão de remédios para dormir, aliada à demora no socorro médico. Mas a mídia sensacionalista fez invencionices a respeito da tragédia de Hendrix, como se ele fosse um maluco insano e psicopata.

Pois Jimi Hendrix era lúcido, autocrítico, e nos últimos meses de vida a coisa que ele mais fazia era gravar no seu estúdio Electric Lady suas inúmeras músicas, covers e outros ensaios guitarrísticos. Deixou um grande material que ao longo do tempo resultou em vários discos póstumos.

Até hoje o talento de Jimi Hendrix não foi superado. Sua agilidade guitarrística afetou até mesmo a indústria de fabricação de guitarras, que teve que adaptar-se tecnologicamente para os avanços sonoros e técnicos provocados pelo guitarrista. Hendrix ia da guitarra rítmica aos solos sem escalas, e sua habilidade sonora é até hoje admirável.

E, nos tempos de mediocridade musical sendo defendida até por cientistas sociais, a trajetória de Jimi Hendrix é fundamental para relembrarmos não só o talento dele, mas todo o cenário da música jovem (e não apenas rock) naqueles idos de 1967-1970, onde o prestígio do cantor ou do conjunto musical se valia mais pela música (e que música!) do que pelo marketing.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

JOVEM GUARDA: GRAVAÇÕES ORIGINAIS SÃO ESQUECIDAS DO GRANDE PÚBLICO


EDUARDO ARAÚJO - Antiga gravação é resgatada como tema de seriado da Rede Globo.

Atualmente, está no ar o seriado Separação?!, da Rede Globo, criação do casal Fernanda Young e Alexandre Machado. Prestes a encerrar sua primeira temporada, o seriado escolheu como tema uma antiga gravação de "Pode Vir Quente que Eu Estou Fervendo", sucesso da Jovem Guarda, na voz de um de seus autores, Eduardo Araújo (que fez a música com Carlos Imperial, para quem não sabe uma espécie de Carlos Eduardo Miranda dos anos 60). A gravação, se não me falha a memória, é de 1965.

É algo estranho que acontece com um fenômeno que até mantém-se relativamente forte na lembrança das pessoas e consegue ser apreciado até mesmo por gerações mais jovens, mesmo aqueles que nasceram quando os antigos cantores jovens já estavam na casa dos quarenta.

A Jovem Guarda é muito lembrada, mas as gravações originais são praticamente esquecidas, prevalecendo as regravações que sucessivamente aconteceram ao longo do tempo, seja pelos próprios intérpretes, seja por outros dos mais diversos estilos. São poucas as gravações originais de seus sucessos que são relembradas pelo grande público e difundidas pela mídia, e nem mesmo todas as músicas de Roberto Carlos são relembradas nas versões originais. Sobretudo o lendário álbum Louco Por Você (1961), renegado pelo cantor por ser supostamente um subproduto dos projetos artísticos de Carlos Imperial.

É verdade que a Jovem Guarda não foi um fenômeno artisticamente revolucionário. Seu maior mérito é modernizar a cultura jovem brasileira, mostrar elementos ligados à jovialidade e descontração, além de mostrar, mesmo de forma tímida e frouxa, a cultura rock para o país. Frouxa, porque não discernia o rock original de nomes como Elvis Presley, Bill Haley e, mais tarde, os Beatles, de canastrões como Bobby Darin e Pat Boone ou do ingênuo pop juvenil italiano, forte influência da JG devido à grande ascendência italiana da juventude urbana paulista e pelo efeito do sucesso do filme Candelabro Italiano, de 1962.

Como todo fenômeno, a Jovem Guarda teve seu antes e seu depois. Sua origem foi da cena jovem brasileira, a partir de 1958, quando jovens cantores como os irmãos Cely e Tony Campello faziam suas primeiras apresentações e seus primeiros discos. Essa fase durou até 1963, quando os maiores ídolos jovens eram Cely Campello, Sérgio Murilo e Ronnie Cord. Tínhamos até um conjunto que estava sintonizado com a onda da instrumental guitar muito em evidência na época, que foram The Jordans.

A Jovem Guarda ganhou seu nome em 1964 por conta de uma tirada de Carlito Maia, publicitário da Magaldi, Maia & Prosperi, baseada numa frase de Vladimir Ulianov, o célebre Lenin da Revolução Russa de 1917: "O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada".

Não vou aqui dizer toda a história da JG, mas sabemos que Roberto Carlos se tornou seu ídolo maior, tornando-se o mais famoso de seus integrantes. Seu amigo Erasmo Carlos também é outro dos principais nomes, junto a Wanderléia. Mas outros nomes tornaram-se conhecidos, entre conjuntos e cantores.

Eduardo Araújo é um deles. Namorado e depois esposo de outra cantora da JG, Silvinha Araújo (já falecida), tornou-se famoso por músicas como "O Bom" ("Meu carro é vermelho / Não uso espelho pra me pentear") e "Pode Vir Quente que Eu Estou Fervendo".

O pouco conhecimento que o grande público tem do acervo original da Jovem Guarda é de certa forma preocupante. Não tanto pelo fato da Jovem Guarda ser musicalmente genial, mas num certo sentido suas músicas eram divertidas e empolgantes. Várias delas eram até boas, e seus intérpretes de fato tinham uma natural empatia com o público juvenil.

É uma questão puramente de honestidade. Afinal, se a Jovem Guarda teve seu valor, por que seu legado tem que ser ofuscado por regravações sucessivas ou até mesmo por versões "banquinho-e-violão" feitas por ídolos da MPB pós-1988? Não seria bom se a JG fosse relembrada pelos jovens através de suas gravações originais?

O repertório originalmente gravado pelos artistas da Jovem Guarda têm, de certa forma, seu sentido histórico. São, de certa forma, o retrato de uma época. Além disso, o melhor seria se o público jovem de hoje se lembrasse muito mais dos precursores do movimento, como Sérgio Murilo e Cely Campello, do que de retardatários como Odair José, Paulo Sérgio e Diana.

A pré-Jovem Guarda é muito mais instigante, mesmo dentro de seu contexto de temas inocentes e postura despolitizada e não-engajada, do que a pós-Jovem Guarda dos ídolos que integraram a segunda geração da música brega. Como toda tendência que mostra todo seu potencial no início. E que, no caso da Jovem Guarda, era um potencial que encontrou seu auge entre 1964 e 1968. O que aconteceu depois foi apenas sombra do que já foi.