TWIST DÁ LIÇÃO DE DESPRETENSÃO AO "FUNK CARIOCA"


O rock estava em entressafra, tanto pelo envelhecimento musical de seus pioneiros (Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Bill Haley), pela morte prematura de músicos emergentes (Buddy Holly, Richie Valens, Eddie Cochran) e pela invasão de cantores canastrões (Pat Boone, Ricky Nelson, Bobby Darin).

Nesta situação, por volta de 1960, a música jovem buscou outros focos. Algo que acontece hoje, quando os jovens atuais têm suas atenções desviadas do rock para o techno, o hip hop e o pop dançante em geral. Há quase cinquenta anos, os ritmos que desviaram as atenções juvenis eram cha-cha-cha (espécie de mambo mais sensual), o hully-gully e, sobretudo, o twist.

O twist era um ritmo que, na aparência, era até derivado sonoramente do rock'n'roll. Mas seu andamento era menos acelerado e as guitarras eram as mínimas possíveis. E o estado de espírito roqueiro, isso o twist não tinha. Estava mais próximo das gerações mais recentes de jazz e swing dos anos 50, como Johnnie Ray.

Seu maior expoente foi o cantor Chubby Checker, embora houvesse vários grupos associados ao ritmo e, num contexto mais próximo do soul, houvesse também cantores como Gary US Bonds.

O sucesso do twist ocorreu entre 1960 e 1963, terminando quando a soul music multiplicava seus sucessos, através dos artistas dos selos Motown e Stax, e pouco antes da invasão britânica que revigorou o rock'n'roll.

Mas o twist deixou de ser modismo de cabeça erguida e humildade. Nunca fez artifícios mirabolantes para perpetuar seu sucesso. Não tinha força lírica, não posava de música de protesto, porque sua finalidade era apenas a dança e o divertimento.

Chubby Checker depois virou empresário de uma fábrica de doces e só se apresenta esporadicamente relembrando os antigos sucessos. Mas nem ele e nem o twist como um todo se julgou acima ou igual a Bob Dylan, não embarcou na Contracultura, nem criou uma retórica engenhosa pseudo-intelectual que forçasse a perpetuação desesperada do modismo. O twist foi uma mania mundial, mas, quando veio o seu fim, todos encararam o término humildemente.

Taí uma grande lição para o ultra-pretensioso "funk carioca" que, mesmo num plano artístico bem inferior ao twist e sendo muito menos divertido que o ritmo popularizado por Chubby Checker, não é mais do que tão somente um ritmo exclusivamente dançante e comercial.

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