A MAIOR TEORIA CONSPIRATÓRIA DO BRASIL FOI UM LIVRO


No Brasil mergulhado no politicamente correto, um livro cheio de teses discutíveis seduziu os brasileiros, tocando no sentimentalismo presente até mesmo em alguns intelectuais.

Poucos sabem, mas a maior teoria conspiratória existente no Brasil não está publicada necessariamente na Internet - pelo menos que eu saiba, a obra completa - , mas em livro. Considera-se uma teoria conspiratória quando uma ideia aparentemente diferente não encontra sentido totalmente pertinente na realidade.

Pois a grande teoria conspiratória do escritor Paulo César Araújo, escrita no livro Eu Não Sou Cachorro Não (Record: 2001), que fala sobre a música brega dos anos 70, não só conseguiu pegar desprevenida muita gente como virou a própria "verdade oficial" da música brasileira. Tudo porque, nesta tese discutível, Araújo promoveu a fama de "coitadinhos" dos ídolos bregas, que durante muito tempo integraram o establishment da grande mídia brasileira durante a ditadura militar.

Esta tese consiste em promover os ídolos bregas como se eles tivessem sido "cantores de protesto" nos chamados "anos de chumbo" (no caso entre 1968 e 1978). A retórica do esperto Paulo César Araújo, presente em boa parte do livro, consiste em trabalhar como "certeza" uma suposta associação entre as letras de frustrações amorosas dos ídolos cafonas com o pretenso sentido de protesto "oculto" nelas.

Duas passagens exemplificam o truque discursivo de PC Araújo. Uma dá conta de uma "pesquisa estudantil" de universitários da PUC de Belo Horizonte, em 1972, que "concluiu" que, só porque os trabalhadores usavam a música "Eu Não Sou Cachorro, Não", sucesso de Waldick Soriano, como desabafo para suas situações de vida miserável, a música seria "na verdade" uma "canção de protesto".

O discurso de Paulo César Araújo não indica que a tese da "música de protesto" seja verdadeira e nem sua abordagem é objetiva, mas seduziu muita gente. Notem o nível de persuasão desta retórica:

"Aparentemente, o bolero de Waldick Soriano é apenas mais uma daquelas ingênuas canções de dor-de-cotovelo que costumam freqüentar a programação das emissoras de rádio, mas que um refrão de tão forte apelo popular como 'Eu não sou cachorro não / para viver tão humilhado" não poderia estar sendo endereçado ao patrão, à patroa, ao gerente, ao policial, enfim, aos representantes imediatos da opressão vivida pelo público ouvinte desta música?"

Outra passagem é quando Paulo César Araújo tenta, de maneira bem tendenciosa, associar a tese de "protesto" da música de Waldick, à música "Opinião", de Zé Kéti, cujo famoso trecho diz o seguinte: "Podem me prender / Podem me bater / Podem, até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião / Daqui do morro / Eu não saio, não".

Só que nada tem a ver a contundência explícita da letra do sambista Zé Kéti com o débil lamento amoroso de Waldick Soriano. Além disso, pouco importa se a música foi usada pelo povo para se queixar da polícia, do patrão, dos generais ou coisa parecida, a música originalmente foi tão somente sobre desilusões amorosas, naquela temática patética da música brega.

No entanto, Paulo César Araújo conseguiu vencer tocando no sentimentalismo fácil. No fundo, Araújo produziu um melodrama travestido em historiografia. A classe média alta precisava de um livro desses para disfarçar o complexo de culpa burguês com mais um paternalismo ao povo pobre que, ingenuamente, consumiu um tipo de música que foi difundido pela mídia que apoiava a ditadura militar. E, sobretudo, pela grande mídia regional, afinal grande mídia não existe somente no corredor Projac/Jardim Botânico nem na Av. Paulista.

Comentários