sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ligas Camponesas foram o MST do Brasil dos anos 50-60


O advogado e político FRANCISCO JULIÃO, que tornou-se o líder militante das Ligas Camponesas até o Golpe de 1964. Ele chegou ainda a participar das campanhas pelas Diretas Já na década de 80.

A ação de manifestantes sem-terra brasileiros não é novidade alguma entre nós. Se percebermos bem, essas manifestações surgiram desde que o país cresceu ainda no período colonial, quando as primeiras ocupações de terras no interior brasileiro provocavam conflitos e injustiças. Até Gilberto Freyre, nosso ilustre antropólogo, já afirmava a realidade de grandes proprietários de terras no período colonial brasileiro.

Pode-se dizer que as revoltas dos trabalhadores rurais sem-terras se equipara às inúmeras revoltas de diversos estratos populares ocorridas no século XIX no Brasil. Ou então na beirada do século XX, que foi o caso da Revolta de Canudos, comandada pelo peregrino Antônio Conselheiro e ocorrida na comunidade de Canudos, no interior da Bahia.

As Ligas Camponesas, com esse nome, teria se originado na década de 1930, com manifestantes rurais sustentados pelo antigo PCB, Partido Comunista do Brasil (nome hoje dado ao PC do B, partido da base de apoio do governo Lula - desde 1962 o PCB se chama Partido Comunista Brasileiro). Elas foram desativadas em 1945, mas alguns núcleos continuaram existindo.

Nas décadas de 50 e 60, porém, elas cresceram a partir de um núcleo surgido em 1954, através da Sociedade Agrícola e Pecuária de Plantadores de Pernambuco (SAPPP), que prestava assistência financeira e social aos agricultores, visando livrá-los do domínio do poder latifundiário. Esse núcleo surgiu no engenho Galiléia, na cidade pernambucana de Vitória de Santo Antão.

A SAPPP aceita o apoio de um fazendeiro do engenho Galiléia mas outro fazendeiro adverte este de que o movimento é influenciado pelo comunismo, e então o dono deste engenho pede para os agricultores dissolverem o movimento, ameaçando os trabalhadores de expulsão e aumento do valor do foro. Os manifestantes, então, vão para Recife, conseguindo o apoio do advogado Francisco Julião. A iniciativa da SAPPP conseguiu a desapropriação do engenho Galiléia, em 1959.

As Ligas Camponesas então cresceram, a partir daí, e atingiram pelo menos 13 Estados brasileiros. A bandeira da reforma agrária virou a tônica da política brasileira, e isso em parte preocupou os grandes proprietários de terras - a essas alturas já aliados ao empresariado urbano dos "institutos" IBAD e, depois, IPES - , a ponto até mesmo de investir tanto na pistolagem quanto no patrocínio de um sistema de valores culturais que tornou-se conhecido como "cultura brega".

O então presidente da República, João Goulart, havia feito várias promessas de cumprimento da reforma agrária, estabelecendo contatos amistosos com as Ligas e com políticos comunistas. Além disso, havia também as pressões do cunhado de Jango, Leonel Brizola, que adotava uma política populista de cunho revolucionário. Jango havia anunciado até mesmo algumas desapropriações de terras, várias localizadas em beiras de rodovias.

A última declaração de grande repercussão nesse sentido foi durante o comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964, quando Jango afirmou que iria cumprir o projeto de reformas de base. A sociedade conservadora, reagindo aos efeitos desse comício, já realizava diversas marchas intituladas "da Família com Deus pela Liberdade", e resolveu realizar outra manifestação no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.

As Ligas Camponesas foram extintas nos primeiros atos institucionais determinados pela ditadura militar, que depois do golpe realizado em 01 de abril - apesar da data comemorativa ser 31 de março, para evitar alusões ao "Dia da Mentira", até porque a ditadura passou muito tempo se autoproclamando uma "revolução democrática" - , foram declaradas ilegais, sendo proibidas por lei de existirem.

As revoltas continuaram, e durante toda a ditadura, a pistolagem dos capatazes dos latifundiários fez várias vítimas fatais. O quadro continua inalterado até hoje, as Ligas é que foram substituídas pelo MST. Francisco Julião morreu em 1996. O MST já havia surgido em 1984 e hoje é liderado por João Pedro Stedile.

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