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Ditadura permitiu pornografia para amansar o povo pobre


1964: Várias marchas envolvendo grupos religiosos, entidades diversas (como a CAMDE - Campanha da Mulher pela Democracia - , o "instituto" IPES e a Escola Superior de Guerra) e o empresariado, reivindicavam moralidade ao pedirem a derrubada do governo João Goulart. Foram as chamadas Marchas da Família Com Deus pela Liberdade, cujo clímax aconteceu no Vale do Anhangabaú, São Paulo, em 19 de março daquele ano. Uma outra marcha aconteceu no Rio de Janeiro, em 02 de abril, para comemorar o golpe militar.

Dez anos depois, com a crise do petróleo no Oriente Médio atingindo o mundo, o Brasil sofreu um colapso econômico que comprometeu seriamente o "milagre brasileiro" do governo do general Médici e levaria a ditadura militar à falência, anos depois. a crise do petróleo aconteceu em 1973 e fatos sócio-políticos diversos já começavam a abalar o regime militar, apesar da atividade intensa dos órgãos de repressão que matavam a sangue frio diversos acusados de subversão, sobretudo jovens.

A crise foi assumida pelo sucessor de Médici, Ernesto Geisel, diante de um quadro social que ameaçava explodir em revolta popular. Um líder sindical começava a se destacar na militância política, o hoje presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. O movimento estudantil voltaria a pleno vapor em 1977. E agora?

A ditadura militar sempre contou com um apoio da grande mídia, que não era incondicional, mas tinha afinidades de interesses. A mídia já havia investido na chamada "cultura brega" para desviar as atenções do grande público à revolta dos opositores do regime militar. A cafonice presente nos ídolos musicais, programas sensacionalistas de rádio e TV e na imprensa marrom, era o cardápio usado pelo poder da grande mídia para domesticar o povo pobre, através da mediocrização cultural. Cultura fraca, povo fraco e povo fraco é mais manipulável, dizem os estrategistas do poder e do controle social.

GRETCHEN VALEU POR MIL JAGUNÇOS

Com isso, o moralismo original dos defensores do golpe militar teve que se afrouxar. O sexo masculino é mais propenso a realizar revoltas violentas, e por isso o regime militar permitiu que a mídia passasse a explorar a pornografia, dentro das restrições de censura estabelecidas. Mas, independente da eficácia desse controle censor, o objetivo é domesticar os homens através da exploração pela mídia dos instintos sexuais.

Veio então o humorismo com piadas de duplo sentido, seja na televisão, seja na mídia escrita, havendo até revistinhas com piadas "picantes". Vieram os filmes de porno-chanchada, claramente comerciais, com histórias sem pé nem cabeça que no entanto encheram platéias nos cinemas. Vieram as revistas eróticas, desde a franquia brasileira da Playboy e da concorrente Ele Ela, até mesmo revistas mais "populares" como Big Man Internacional e Fiesta, além da grotesca Brazil.

Também vieram as chacretes do Cassino do Chacrinha, que inauguraram a atual fase das boazudas brasileiras. Rita Cadillac foi a principal. E, na música, um DJ, Mister Sam (espécie de precursor paulista do DJ Marlboro, como produtor-empresário-radialista), lançou a calipígia Gretchen, na verdade Maria Odete de Miranda, de nome artístico nórdico mas de aparência suburbana à brasileira.

Com isso tudo, os homens se distraíram com o mercado sexual. Para contrabalançar, o mercado brega lançaria também seitas religiosas para "moderar" os excessos e também criar uma cafonice paralela, a cafonice "pelo louvor", sobretudo através do rótulo "gospel".

Isso tudo amansou o povo, permitindo maior controle social pela ditadura. Criou também mercados da cafonice, seja do lado pornográfico, seja do lado "crente", que teve reflexos até no mercado televisivo. E, da parte das boazudas, criou sucessivas gerações que, mesmo não tendo a popularidade de antes (o "encalhe" amoroso é um sintoma disso), continuam firmes no universo popularesco.

Uma só Gretchen valeu por mil jagunços na hora de conter a revolta dos homens contra a ditadura. Os poderosos foram dormir tranquilos.

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