Pular para o conteúdo principal

CAROLINA MARIA DE JESUS - A INTELECTUAL DO MORRO


A ESCRITORA CAROLINA MARIA DE JESUS

Mais de quatro décadas antes de livros como os da série Falcão, de MV Bill, ou de obras sobre a realidade das favelas escritas por gente de fora dos morros, como Carandiru e Abusado, se tornarem sucesso nas livrarias, uma moradora de favela se destacou como escritora e intelectual, num tempo em que a cultura das favelas não era ainda manipulada pela mass media.

Ela nasceu em Sacramento, em Minas Gerais, em 14 de março de 1914. Sua família extremamente pobre contava ainda com outros sete irmãos. Na década de 30 se mudou para São Paulo para arrumar trabalho e, morando na favela do Canindé, que ficava às margens do Rio Tietê e hoje não existe mais, sustentava três filhos trabalhando como catadora de papel. Certa vez, no meio de um lixo, Carolina encontrou um caderno velho, sem coisa alguma escrita e com folhas meio soltas, e pensou em registrar suas memórias em forma de diário.

Por sorte, Carolina foi descoberta em 1958 por um repórter da Folha da Noite (um dos três jornais que, mais tarde, se fundiram e viraram a Folha de São Paulo), Audálio Dantas (ex-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas e atual vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa), durante uma reportagem na favela do Canindé.


O SUCESSO DE CAROLINA MARIA DE JESUS CHAMOU A ATENÇÃO DE INTELECTUAIS COMO A ESCRITORA CLARICE LISPECTOR.

Audálio Dantas prometeu a Carolina que iria datilografar os manuscritos no diário. Com algumas revisões, até porque a língua culta exercia grande influência na época (e mesmo assim, a simplicidade narrativa da obra foi integralmente mantida), Audálio, já contratado, em 1959, como jornalista da revista O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand, publica na revista alguns trechos do diário de Carolina, incluindo fotos tiradas com os manuscritos.

Mas foi somente em 1960 que o trabalho foi publicado, com o título de Quarto de Despejo. 600 exemplares foram vendidos só na noite de lançamento, e, no final de 1960, as vendas chegaram a 100 mil exemplares. Intelectuais como a escritora Clarice Lispector foram prestigiar pessoalmente a autora.

Com o sucesso, Carolina Maria de Jesus viajou pelo mundo. Sua obra foi traduzida para 29 idiomas e a edição italiana ganhou prefácio do escritor Alberto Moravia. Uma peça de teatro foi adaptada por Edi Lima e encenada no Teatro Nídia Líci, em São Paulo. Também houve uma adaptação da mesma obra em telefilme, pela Televisão Alemã, utilizando a própria Carolina de Jesus como protagonista. A obra, cujo título, em português, é Despertar de Um Sonho, é até hje inédito no Brasil.

No entanto, a obra Quarto de Despejo e a própria expressão da escritora nos seus depoimentos, mostram a dura realidade das favelas. A obra não tem cunho ideológico e as exposições e opiniões da autora deixavam tanto a esquerda quanto a direita em situação incômoda. O livro de 1960 tem narrativa monótona, e seus dados pouco variavam no decorrer do tempo, o que dá um tom de amarga atualidade na obra. Um trecho do livro dá a noção da narrativa simples e deste propósito de denunciar a miséria e o descaso da sociedade de forma crua e sem disfarces:

1 de julho. Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente. (...) Quando passei perto da fabrica vi varios tomates. Ia pegar quando vi o gerente. Não aproximei porque ele não gosta que pega. Quando descarregam os caminhões os tomates caem no solo e quando os caminhões saem esmaga-os. Mas a humanidade é assim. Prefere vê estragar do que deixar seus semelhantes aproveitar.

As declarações causaram muita polêmica para muita gente, irritando até mesmo o governador da Guanabara, jornalista Carlos Lacerda, certa vez, e as más línguas, injustamente, tratavam a escritora como se ela tivesse um ataque de estrelismo. Nessa época, com o Brasil começando uma ditadura militar, Carolina foi aos poucos injustiçada e caiu num desmerecido esquecimento, diante da revolta desmedida de setores da opinião pública.

Carolina ainda publicou Pedaços de Fome, em 1963, pela Editora Áquila, e em 1965 publicou Provérbios. Em 1977, último ano de sua vida, foi entrevistada por jornalistas franceses. Na ocasião ela entregou os manuscritos de suas memórias biográficas. A escritora faleceu em 13 de fevereiro do mesmo ano, tendo as anotações biográficas sobre sua infância e adolescência publicadas em livro na França e Espanha, em 1982. Só em 1986 esse livro seria lançado no Brasil, com o título de Diário de Bitita.

Carolina Maria de Jesus foi uma das duas únicas brasileiras que foram incluídas na Antologia de Escritoras Negras, publicada em 1980 pela Random House, em Nova Iorque. Seu nome também foi incluído no Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis, publicado em Lisboa por Lello & Irmão.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

TV EXCELSIOR

TV Excelsior - A Criadora do Padrão Globo de Qualidade

Edson Rodrigues - Retro TV

Dez anos de criatividade que resultaram no desenvolvimento da televisão brasileira. Assim podemos definir a trajetória da TV Excelsior, Canal 9 de São Paulo. Mas, como tudo começou? E como tudo acabou?

O Início

Estamos em 1959 e a Organização Victor Costa - que já possuía a TV Paulista Canal 5 - ganha um novo canal de televisão. Naquela época era comum um mesmo dono ter mais de uma emissora. Antes mesmo de inaugurá-la, Mário Wallace Simonsen manifesta interesse em comprar os direitos sobre o novo canal. A família Simonsen era poderosa, possuía mais de 40 empresas (uma delas a aérea Panair) e estavam ansiosos por colocar no ar a TV Excelsior (nome este que veio da emissora de rádio, hoje a conhecida CBN). Os valores da venda são desencontrados, mas é sabido que a cifra foi a mais alta até então registrada.

A emissora instalou-se nos dois últimos andares de um prédio localizado na esquina da Avenida Paulista co…

30 ANOS SEM KAREN CARPENTER

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A cantora da dupla de irmãos Carpenters, a belíssima Karen Carpenter, faleceu no dia 04 de fevereiro de 1983. Talvez esta postagem pareça tardia, mas há exatos 30 anos a notícia do falecimento da cantora já estava espalhada pelos quatro cantos e repercutia mundialmente, causando tristeza profunda em todos os seus fãs.

Os Carpenters podem não ter sido musicalmente excepcionais, mas eram bastante talentosos, pelo talento de pianista de Richard Carpenter e da bela voz de Karen, que por sinal tinha uma beleza sexy que ela mesma não pôde prestar atenção, tão preocupada em se tornar magra que a fez vítima de anorexia nervosa. Pena, porque Karen era linda e desejadíssima mesmo "cheinha" e, se viva estivesse, continuaria belíssima, apenas adaptando suas feições para os 63 anos que poderia completar no próximo dia 02 de março.

Algumas curiosidades notáveis dos Carpenter: os irmãos chegaram a gravar cover da banda progressiva Klaatu e Karen era eventual bater…

ATRIZ ARACY CARDOSO MORRE NO RIO AOS 80 ANOS

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Aracy Cardoso faleceu hoje, aos 86 anos - divulgado em informações recentes, e reproduzimos abaixo um artigo do jornal O Tempo apenas mudando essa informação, pois estava creditada a apenas 80 anos.

Aracy foi uma das mulheres mais bonitas de sua geração e também um dos grandes talentos na atuação, tendo começado no teatro, em 1952, em peças como Mulher de Outro Mundo, montada pelo grupo Teatro de Equipe.

Ela também foi casada com o ator e cineasta Ibanez Filho, falecido em 2006.

Atriz Aracy Cardoso morre no Rio aos 80 anos

Do Jornal O Tempo - Belo Horizonte, 26 de dezembro de 2017.

RIO DE JANEIRO. Morreu nesta terça-feira (26), no Rio de Janeiro, aos 80 anos, a atriz Aracy Cardoso. Ela era conhecida por participações em diversas novelas da Rede Globo, como “Fogo Sobre Terra” (1974), “De Corpo e Alma” (1992) e “Sol Nascente” (2017), seu último trabalho, no qual interpretou a personagem Dona Laís. Também ficou marcada pela personagem Zazá em “A Gata Comeu” (1985).

O ESTADO DA GUANABARA

AEROFOTO DO FOTÓGRAFO DA REVISTA MANCHETE, CARLOS BOTELHO, PUBLICADA TAMBÉM NA ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS DO IBGE. A FOTO DATA DE 1956, QUANDO A NOVA CAPITAL, BRASÍLIA, COMEÇOU A SER CONSTRUÍDA, TRANSFORMANDO DEPOIS O ANTIGO DISTRITO FEDERAL NA GUANABARA.

Do portal WikipediaA Guanabara foi um estado do Brasil de 1960 a 1975, no território do atual município do Rio de Janeiro. A palavra guanabara tem sua origem no tupi guarani guaná-pará, e significa "o seio-mar".

HISTÓRIA

Em 1834, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada no Município Neutro da Corte, permanecendo como capital do Império do Brasil, enquanto que Niterói passou a ser a capital da província do Rio de Janeiro. Em 1889, a cidade transformou-se em capital da República, o município neutro em distrito federal e a província em estado. Com a mudança da capital para Brasília, em 21 de abril de 1960, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se o estado da Guanabara, de acordo com as disposições transitórias da Cons…

OS 70 ANOS DE RITA LEE

Por Alexandre Figueiredo

A cantora paulistana Rita Lee Jones teve como proeza ser uma das primeiras cantoras musicistas e compositoras a fazer sucesso e, também, ser uma das primeiras artistas envolvidas com rock psicodélico a ter o conhecimento e o reconhecimento do grande público.

Iniciando sua carreira em 1966, como integrante da banda O'Seis, o embrião dos Mutantes, numa época em que a maior cantora da Bossa Nova, Sylvia Telles, saía de cena prematuramente devido a uma tragédia automobilística, Rita Lee foi uma batalhadora musical num período em que os movimentos estudantis desafiavam a ditadura militar e ela, irritada, reagiu com a truculência institucional do AI-5.

Num país como o Brasil, em que Os Mutantes parecem tardios na carreira discográfica - seu primeiro álbum só foi lançado em 1968, talvez pela falta de visão da indústria fonográfica, pois a fase psicodélica dos Mutantes, entre 1968 e 1972, poderia ter sido registrada em disco com dois anos de antecedência - , Rita…

AOS 80 ANOS, JANE FONDA DIZ QUE NÃO ESPERAVA CHEGAR AOS 30

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Com 80 anos e em atividade, a atriz Jane Fonda, uma das revelações de Hollywood no começo dos anos 1960, sendo mais conhecida então como a filha do astro Henry Fonda - e, depois, irmã de Peter Fonda, de Sem Destino (Easy Rider), este pai da também atriz Bridget Fonda - , não imaginava que sobreviveria aos 30 anos.

Era uma época em que atrizes faleceram precocemente por diversos incidentes - entre 1961-1962 o mundo perdeu a inglesa Belinda Lee e a estadunidense Marilyn Monroe - , e Jane, felizmente, seguiu sua vida não sem dificuldades, mas consolidando seu talento e seu carisma até hoje. Além de atriz, ela já gravou um vídeo de ginástica, escreveu livro e havia sido ativista política de esquerda,

Consagrando-se como "musa" no filme de ficção científica Barbarella, de 1968 e atualmente solteira depois de três casamentos - com o cineasta Roger Vadim, o político Tom Hayden e o empresário de Comunicação Ted Turner - , atualmente participa de seriados de…

PRIMEIRA TRANSMISSÃO DE TV A CORES NO BRASIL FAZ 40 ANOS

Por Alexandre Figueiredo

Hoje faz 40 anos em que se realizou a primeira transmissão televisiva a cores, a partir da TV Difusora de Porto Alegre (hoje TV Bandeirantes local) e a TV Rio (Guanabara, atual TV Record Rio). A TV Globo, do Rio de Janeiro, também participou da façanha.

O evento escolhido foi o desfile tradicional da Festa da Uva, na cidade gaúcha de Caxias do Sul. A foto em questão, aliás, mostra um ônibus "bicudinho" da Mercedes-Benz, provavelmente O-326, que a TV Rio enviou para o Sul do país.

Era tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar e prefeitos com algum senso de oportunismo instalaram aparelhos de TV pelas ruas da cidade para que a população visse a novidade. Aliás, foi assim que Assis Chateaubriand fez para atrair a multidão para a então recém-inaugurada televisão, em vários pontos-chave da cidade de São Paulo, em 18 de setembro de 1950. Em ambos os casos, eventuais falhas técnicas ocorreram.



Mas quem imaginasse que a televisão a cores era u…

CARLOS HEITOR CONY MORRE AOS 91 ANOS

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Conservador moderado, embora polêmico, Carlos Heitor Cony foi um dos maiores escritores do Brasil dos últimos tempos. Tendo defendido o golpe militar de 1964, como jornalista e cronista do Correio da Manhã, pouco após a instalação da ditadura militar, ele passou para a oposição. O livro O Ato e o Fato de 1964 foi um dos primeiros livros lançados com críticas à ditadura militar.

Não se considerava esquerdista e, em 2016, apoiou a queda da presidenta Dilma Rousseff. Ainda assim, deixou uma importante trajetória como cronista, romancista, articulista e intelectual, e era um dos membros da Academia Brasileira de Letras.

Uma curiosidade é que, quando ele era coroinha de uma igreja em Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro, ele constantemente passava perto de um bar onde estava um grupo de rapazes, entre eles o notável compositor e sambista Noel Rosa. Cony faria 92 anos em março.

Carlos Heitor Cony morre aos 91 anos

Do Portal G1

O jornalista e escritor Carlos Heito…

MORREU A ATRIZ E BAILARINA HELOÍSA MILLET

Faleceu na última sexta-feira, no Rio de Janeiro, a atriz e bailarina carioca Heloísa Millet, aos 64 anos de idade, vítima de câncer. Tendo sido conhecida pelo seu trabalho de bailarina na abertura do programa Fantástico, da Rede Globo, em 1974, ela depois foi levada pelo diretor de teatro Zbigniew Ziembinsky para seguir carreira de atriz.

Ao saber do sucesso como bailarina da abertura do programa, Heloísa teve a impressão que relatou numa entrevista de 1994: “Sou pequena, baixa, e quando fiz aquela abertura, virei um mulherão de dois metros de altura. Então, acabaram-se os meus complexos".

Depois, ela fez uma personagem, Betina, na novela Estúpido Cupido, em 1976, e a esse trabalho seguiram-se outros nas novelas Espelho Mágico (1977), Te Contei? (1978), Feijão Maravilha (1979), Marrom-glacê (1979) e Elas por Elas (1982), todas na Globo.

Heloísa também participou da minissérie Terras do Sem Fim (1981) e no elenco do humorístico Estúdio A...Gildo (1982), comandado por Agildo Rib…

"MINDUIM" COMEMORA 60 ANOS

A Turma do Charlie Brown comemora 60 anos de publicação. Suas histórias ora eram dotadas de humor sarcástico, ora eram cheias de profundo lirismo, e toda essa obra foi produzida desde 02 de outubro de 1950, quando foi lançada a primeira tira, até 13 de fevereiro de 2000, um dia após o falecimento de seu autor, Charles M. Schulz.

Conhecido como Sparky desde a infância, Schulz, na verdade, havia criado um embrião da Turma do Charlie Brown, chamado Lil'Folks, onde já se via o personagem Charlie Brown e um cachorro com as caraterísticas semelhantes ao Snoopy das primeiras tiras, além de haver um outro personagem fanático pela música de Ludwig Van Beethoven, a exemplo do pianista Schroeder.


LIL' FOLKS: O "EMBRIÃO" DA TURMA, JÁ COM CHARLIE BROWN E SEU CACHORRO, ENTÃO SEM NOME.

Lil' Folks foi publicada entre 22 de junho de 1947 e 22 de janeiro de 1950. Para não ser confundida com obras da história em quadrinhos como Lil'Abner (criação de Al Capp conhecida, no Brasil, c…