quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

GAROTAS DO ALCEU


Eu imagino que belo filme Hollywood faria se adaptasse as histórias brasileiras das Garotas do Alceu Penna, que fizeram muito sucesso nas páginas de O Cruzeiro, num filme de longa-metragem. Imagine se víssemos a Natalie Portman, Jessica Lucas, Lacey Chabert, Emma Watson e Alexis Bledel, por exemplo, juntinhas, falando de situações interessantes, de um jeito aparentemente ingênuo mas de uma discreta mas significativa inteligência.

Muita gente pode achar piegas as histórias das Garotas do Alceu - série denominada apenas "Garôtas", com o "chapéuzinho" no "o" - , mas eu, quando lia as edições de O Cruzeiro na biblioteca (escolhia geralmente as edições dos anos 50 e 60), não via essa pieguice. É claro que, num Brasil com funkeiras arrogantes, axezeiras duronas e solteiras fãs de breganejo tolas e medrosas (têm medo de arrumar o vaqueiro que elas tanto sonham para namorar), as Garotas do Alceu parecem fora do tempo. Posso dizer que o problema não são os bons valores do passado soarem antiquados ao Brasil de hoje, mas é o Brasil de hoje que está surdo a esses valores.

As Garotas do Alceu, pelo que li, pareciam falar de situações banais, de madames indo ao hipódromo da Gávea, de homens atraentes cujo valor para namoro as garotas comentam umas às outras, de festas a serem realizadas no próximo fim de semana, e por aí vai. Mas, no íntimo de tudo isso, havia inteligência, além do comportamento arrojado das garotas (que hoje soa bastante normal, embora pouco influente no universo popularesco das boazudas e das solteironas medrosas). É uma inteligência na dose ideal de uma mulher, combinando graciosidade, doçura e um pouco de sabedoria.

A seção "Garôtas" surgiu em 05 de abril de 1938. Durou 26 anos. Os desenhos eram feitos pelo desenhista de moda Alceu Penna (1933-1980) e a seção teve vários colaboradores: o próprio Alceu Penna, Accioly Netto (que usava o pseudônimo Lyto), Millôr Fernandes (Emmanuel Vão Gôgo), Edgar Alencar (pseudônimo A.Ladino) e Maria Luiza Castello Branco. A fase de "Garôtas" que eu li muito tinham textos de Maria Luiza (que assinava apenas com estes dois nomes).

Se alguma das Garotas do Alceu se transformasse em carne e osso e viesse para mim a me pedir em namoro, eu diria "sim" todo feliz da vida.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A MAIOR TEORIA CONSPIRATÓRIA DO BRASIL FOI UM LIVRO


No Brasil mergulhado no politicamente correto, um livro cheio de teses discutíveis seduziu os brasileiros, tocando no sentimentalismo presente até mesmo em alguns intelectuais.

Poucos sabem, mas a maior teoria conspiratória existente no Brasil não está publicada necessariamente na Internet - pelo menos que eu saiba, a obra completa - , mas em livro. Considera-se uma teoria conspiratória quando uma ideia aparentemente diferente não encontra sentido totalmente pertinente na realidade.

Pois a grande teoria conspiratória do escritor Paulo César Araújo, escrita no livro Eu Não Sou Cachorro Não (Record: 2001), que fala sobre a música brega dos anos 70, não só conseguiu pegar desprevenida muita gente como virou a própria "verdade oficial" da música brasileira. Tudo porque, nesta tese discutível, Araújo promoveu a fama de "coitadinhos" dos ídolos bregas, que durante muito tempo integraram o establishment da grande mídia brasileira durante a ditadura militar.

Esta tese consiste em promover os ídolos bregas como se eles tivessem sido "cantores de protesto" nos chamados "anos de chumbo" (no caso entre 1968 e 1978). A retórica do esperto Paulo César Araújo, presente em boa parte do livro, consiste em trabalhar como "certeza" uma suposta associação entre as letras de frustrações amorosas dos ídolos cafonas com o pretenso sentido de protesto "oculto" nelas.

Duas passagens exemplificam o truque discursivo de PC Araújo. Uma dá conta de uma "pesquisa estudantil" de universitários da PUC de Belo Horizonte, em 1972, que "concluiu" que, só porque os trabalhadores usavam a música "Eu Não Sou Cachorro, Não", sucesso de Waldick Soriano, como desabafo para suas situações de vida miserável, a música seria "na verdade" uma "canção de protesto".

O discurso de Paulo César Araújo não indica que a tese da "música de protesto" seja verdadeira e nem sua abordagem é objetiva, mas seduziu muita gente. Notem o nível de persuasão desta retórica:

"Aparentemente, o bolero de Waldick Soriano é apenas mais uma daquelas ingênuas canções de dor-de-cotovelo que costumam freqüentar a programação das emissoras de rádio, mas que um refrão de tão forte apelo popular como 'Eu não sou cachorro não / para viver tão humilhado" não poderia estar sendo endereçado ao patrão, à patroa, ao gerente, ao policial, enfim, aos representantes imediatos da opressão vivida pelo público ouvinte desta música?"

Outra passagem é quando Paulo César Araújo tenta, de maneira bem tendenciosa, associar a tese de "protesto" da música de Waldick, à música "Opinião", de Zé Kéti, cujo famoso trecho diz o seguinte: "Podem me prender / Podem me bater / Podem, até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião / Daqui do morro / Eu não saio, não".

Só que nada tem a ver a contundência explícita da letra do sambista Zé Kéti com o débil lamento amoroso de Waldick Soriano. Além disso, pouco importa se a música foi usada pelo povo para se queixar da polícia, do patrão, dos generais ou coisa parecida, a música originalmente foi tão somente sobre desilusões amorosas, naquela temática patética da música brega.

No entanto, Paulo César Araújo conseguiu vencer tocando no sentimentalismo fácil. No fundo, Araújo produziu um melodrama travestido em historiografia. A classe média alta precisava de um livro desses para disfarçar o complexo de culpa burguês com mais um paternalismo ao povo pobre que, ingenuamente, consumiu um tipo de música que foi difundido pela mídia que apoiava a ditadura militar. E, sobretudo, pela grande mídia regional, afinal grande mídia não existe somente no corredor Projac/Jardim Botânico nem na Av. Paulista.

domingo, 27 de dezembro de 2009

CAROLINA MARIA DE JESUS - A INTELECTUAL DO MORRO


A ESCRITORA CAROLINA MARIA DE JESUS

Mais de quatro décadas antes de livros como os da série Falcão, de MV Bill, ou de obras sobre a realidade das favelas escritas por gente de fora dos morros, como Carandiru e Abusado, se tornarem sucesso nas livrarias, uma moradora de favela se destacou como escritora e intelectual, num tempo em que a cultura das favelas não era ainda manipulada pela mass media.

Ela nasceu em Sacramento, em Minas Gerais, em 14 de março de 1914. Sua família extremamente pobre contava ainda com outros sete irmãos. Na década de 30 se mudou para São Paulo para arrumar trabalho e, morando na favela do Canindé, que ficava às margens do Rio Tietê e hoje não existe mais, sustentava três filhos trabalhando como catadora de papel. Certa vez, no meio de um lixo, Carolina encontrou um caderno velho, sem coisa alguma escrita e com folhas meio soltas, e pensou em registrar suas memórias em forma de diário.

Por sorte, Carolina foi descoberta em 1958 por um repórter da Folha da Noite (um dos três jornais que, mais tarde, se fundiram e viraram a Folha de São Paulo), Audálio Dantas (ex-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas e atual vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa), durante uma reportagem na favela do Canindé.


O SUCESSO DE CAROLINA MARIA DE JESUS CHAMOU A ATENÇÃO DE INTELECTUAIS COMO A ESCRITORA CLARICE LISPECTOR.

Audálio Dantas prometeu a Carolina que iria datilografar os manuscritos no diário. Com algumas revisões, até porque a língua culta exercia grande influência na época (e mesmo assim, a simplicidade narrativa da obra foi integralmente mantida), Audálio, já contratado, em 1959, como jornalista da revista O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand, publica na revista alguns trechos do diário de Carolina, incluindo fotos tiradas com os manuscritos.

Mas foi somente em 1960 que o trabalho foi publicado, com o título de Quarto de Despejo. 600 exemplares foram vendidos só na noite de lançamento, e, no final de 1960, as vendas chegaram a 100 mil exemplares. Intelectuais como a escritora Clarice Lispector foram prestigiar pessoalmente a autora.

Com o sucesso, Carolina Maria de Jesus viajou pelo mundo. Sua obra foi traduzida para 29 idiomas e a edição italiana ganhou prefácio do escritor Alberto Moravia. Uma peça de teatro foi adaptada por Edi Lima e encenada no Teatro Nídia Líci, em São Paulo. Também houve uma adaptação da mesma obra em telefilme, pela Televisão Alemã, utilizando a própria Carolina de Jesus como protagonista. A obra, cujo título, em português, é Despertar de Um Sonho, é até hje inédito no Brasil.

No entanto, a obra Quarto de Despejo e a própria expressão da escritora nos seus depoimentos, mostram a dura realidade das favelas. A obra não tem cunho ideológico e as exposições e opiniões da autora deixavam tanto a esquerda quanto a direita em situação incômoda. O livro de 1960 tem narrativa monótona, e seus dados pouco variavam no decorrer do tempo, o que dá um tom de amarga atualidade na obra. Um trecho do livro dá a noção da narrativa simples e deste propósito de denunciar a miséria e o descaso da sociedade de forma crua e sem disfarces:

1 de julho. Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente. (...) Quando passei perto da fabrica vi varios tomates. Ia pegar quando vi o gerente. Não aproximei porque ele não gosta que pega. Quando descarregam os caminhões os tomates caem no solo e quando os caminhões saem esmaga-os. Mas a humanidade é assim. Prefere vê estragar do que deixar seus semelhantes aproveitar.

As declarações causaram muita polêmica para muita gente, irritando até mesmo o governador da Guanabara, jornalista Carlos Lacerda, certa vez, e as más línguas, injustamente, tratavam a escritora como se ela tivesse um ataque de estrelismo. Nessa época, com o Brasil começando uma ditadura militar, Carolina foi aos poucos injustiçada e caiu num desmerecido esquecimento, diante da revolta desmedida de setores da opinião pública.

Carolina ainda publicou Pedaços de Fome, em 1963, pela Editora Áquila, e em 1965 publicou Provérbios. Em 1977, último ano de sua vida, foi entrevistada por jornalistas franceses. Na ocasião ela entregou os manuscritos de suas memórias biográficas. A escritora faleceu em 13 de fevereiro do mesmo ano, tendo as anotações biográficas sobre sua infância e adolescência publicadas em livro na França e Espanha, em 1982. Só em 1986 esse livro seria lançado no Brasil, com o título de Diário de Bitita.

Carolina Maria de Jesus foi uma das duas únicas brasileiras que foram incluídas na Antologia de Escritoras Negras, publicada em 1980 pela Random House, em Nova Iorque. Seu nome também foi incluído no Dicionário Mundial de Mulheres Notáveis, publicado em Lisboa por Lello & Irmão.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O PINK FLOYD ORIGINAL


Muita gente associa o nome Pink Floyd ao famoso grupo de rock progressivo dos anos 70, de uma postura mais séria e um tanto melancólica, aliada a capas de discos esquisitas e uma virtuose instrumental envolvente.

Mas originalmente o grupo não era assim. Os primórdios do grupo mostravam uma banda psicodélica, com um outro vocalista e letrista, cuja musicalidade era mais alegre e lírica, e as letras eram verdadeiros poemas dotados de senso de humor.

A origem do Pink Floyd se deu em 1964, quando depois de diversos nomes (entre eles Architectural Abdabs, Sigma 6 e Magadeaths) uma banda de Londres influenciada por soul e jazz, decidiu se chamar Tea Set. A banda existia desde 1963. Após várias formações e depois de Chris Dennis, vocalista, ter saído do grupo, a formação inicial teve Syd Barrett como cantor e guitarrista rítmico, Rado "Bob" Klose como guitarrista principal, Roger Waters no baixo, Richard Wright no órgão e Nicky Mason na bateria.

O nome havia se mudado para The Pink Floyd Sound quando os integrantes souberam que havia outra banda com o nome de Tea Set. O nome Pink Floyd foi escolhido por Barrett para homenagear dois cantores de blues que ele gostava muito, Pink Anderson e Floyd Council.

Bob Klose, pouco depois, saiu da banda, e Syd Barrett tornou-se o único guitarrista. Começaram então formatando um som calcado no acid rock, com a maior parte das composições a cargo de Syd Barrett. Como a maioria do rock psicodélico, é verdade que o Pink Floyd antecipou o progressivo em algumas faixas, como a longa instrumental "Interestellar Overdrive", composta por todos os quatro, mas havia desde influências de blues e surf music até uma estranha polka chamada "Bike".

O grupo gravou diversas músicas, que se tornaram raridades. Mas o principal do repertório dessa fase do Pink Floyd é o compacto See Emily Play / Arnold Layne, de 1966, presente na coletânea Relics (1971), o álbum Piper At The Gates of Dawn, de 1967 e a música "Jugband Blues", incluída no A Saucerful of Secrets, de 1968.

Piper At The Gates of Dawn é um dos muitos álbuns lançados no ano de 1967 e que marcaram a história do rock. E tem uma grande curiosidade é que foi gravado no edifício Abbey Road Studios na mesma época de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Outra curiosidade é que o Pink Floyd excursionou durante um tempo com a Jimi Hendrix Experience. Que excursão envolvendo duas grandes bandas!!

O sucesso crescente do Pink Floyd, no entanto, teve como grande dificuldade o envolvimento de Syd com alucinógenos, e um incidente que marcou essa fase foi uma entrevista no programa de TV de Pat Boone - sim, o cantor canastrão da geração 1958 - em que, em dado momento, Syd de repente fica parado olhando para a câmera, sem dizer uma palavra.

A situação de Barrett se agravou de tal forma que os outros integrantes decidiram chamar um amigo, David Gilmour, para tocar guitarra na banda enquanto, a princípio, Barrett apenas cantava. Depois Barrett foi cogitado para ser apenas compositor. Mas isso não aconteceu. Barrett simplesmente estava tomado pelos efeitos dos alucinógenos.

Syd Barrett lançou dois álbuns, Madcap Laughs e Barrett, ambos de 1970. Parecia uma carreira fértil, com dois LPs seguidos num único ano, mas depois disso Barrett desistiu de seguir a música. Durante 36 anos, ele se dedicou à pintura e viveu recluso na casa da mãe (e, depois, da irmã). Diabético e quase cego, ainda recebia músicos para conversas.

Barrett morreu em 2006 (dois anos depois seria a vez de Ricky Wright), deixando um legado que mostrava seu grande talento de cantor, letrista e guitarrista, sendo um dos mestres da cultura alternativa do mundo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

UM RISO EM DECÚBITO - DON ROSSÉ CAVACA


CAPA DA EDIÇÃO DE 2007 DO LIVRO DE DOM ROSSÉ CAVACA, QUE EM 1961 CUSTAVA CR$ 995,00. A NOTA DE CINCO CRUZEIROS VINHA COMO BRINDE, SERVINDO DE TROCO PARA QUEM DESSE MIL CRUZEIROS.

Por Alexandre Figueiredo -
editor deste blog

Está no mercado brasileiro, novamente, um famoso livro de humor de 1961, há muito tempo esquecido neste país sem memória.

É o livro "Um riso em decúbito", de Don Rossé Cavaca, livro que eu soube da existência quando pesquisei a retrospectiva de 1961 da revista Manchete, na edição do final de dezembro daquele ano (não pude guardar a data).

Don Rossé Cavaca era na verdade José Martins de Araújo Jr.. Era jornalista, publicitário, radialista, ator, humorista. Começou sua carreira como jornalista esportivo, no Jornal dos Sports, assinando as matérias como Araújo Júnior.

Fã de Dom Quixote, famoso personagem da literatura mundial, Araújo Jr. passou a integrar, em 1949, a equipe do jornal Tribuna da Imprensa, do qual foi um dos fundadores, ao lado dos jornalistas Carlos Lacerda e Hélio Fernandes, este irmão do Millôr Fernandes e hoje responsável pelo jornal. Araújo Jr. casou-se com a prima do famoso "demolidor de presidentes".

Don Rossé Cavaca então tornou-se jornalista esportivo, mas durante o expediente era muito piadista, tanto que uma vez Carlos Lacerda, ao chegar na redação, perguntou, impaciente, por que todos os jornalistas ainda estavam no recinto. Era Cavaca contando mais um de seus "causos".

"Um riso em decúbito" é uma obra peculiar, pois, apesar de ser um livro, suas páginas se limitam a ter uma frase ou poema. Mesmo assim, é um livro delicioso de ler, e eu pude lê-lo todo. É um humor inteligente, simples, crítico como o melhor do humor brasileiro.

Cavaca foi um dos pioneiros das chamadas "pegadinhas" da televisão (fórmula que hoje se esgota pela vulgaridade), tendo feito a Câmera Indiscreta do Cavaca, nos primórdios da TV Globo, emissora então limitada à Guanabara, em 1965. Ainda nesse ano, Cavaca, às vésperas do Natal, morreu vítima de um acidente de lambreta. Tinha 42 anos então, pois era nascido em 27 de março de 1923.

O livro "Um riso em decúbito" foi relançado recentemente, pela Editora Desiderata. Da capa original, foi mantido o nome em caligrafia e a grafia do título, acrescido apenas pela foto do autor e pelos dados técnicos mais recentes.

O livro original custava 995 cruzeiros, mas vinha com uma nota de cinco cruzeiros de troco, daí o lema do livro: "o único que vem com o troco". Na edição atual, o livro custa entre R$ 16,90 e R$ 19,90, e o troco - R$ 0,10 - não vem junto com o livro, mas é dado pelo funcionário do caixa.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A verdadeira música universitária


EDU LOBO, UM DOS NOMES DA VERDADEIRA MÚSICA UNIVERSITÁRIA

A moderna MPB sirgiu no circuito universitário, quando a sofisticação da Bossa Nova e o engajamento do Centro Popular de Cultura da UNE se uniram diante do delicado cenário sócio-político da ditadura militar. O termo MPB acabou significando uma espécie de Frente Ampla da cultura brasileira, em que as melodias serviam também de arma contra o arbítrio militar. Eram melodias que juntavam a simplicidade dos ritmos regionais com a educação poética e melódica da Bossa Nova, numa fusão que, na década de 60, causou um grande impacto pela sua criatividade excepcional.

Era a verdadeira canção universitária, em tempos em que o movimento estudantil não era corrompido e, mesmo na ilegalidade, lutava por ideais democráticos e contra o abuso do poder da ditadura militar. Havia a ameaça da privatização das universidades federais e, em 1965, já se esboçava o acordo entre o Ministério de Educação e a agência de ajuda norte-americana USAID, que iria transformar o ensino superior em um processo meramente tenocrático.

Os festivais de música da televisão, sobretudo a TV Record de São Paulo, foram o principal reduto da música universitária autêntica, que era, também, solidária de fato com a canção popular genuína. Com o tempo, o Tropicalismo se somou à MPB com elementos estrangeiros recriados no contexto brasileiro, e que por sua vez influenciariam a geração de cantores e cantoras dos anos 70.

É de se lamentar, todavia, que hoje exista uma "música universitária" que, sabemos, é influenciada por ritmos popularescos, herdeiros da música brega que até existia, sem esse nome, nos anos 60, mas era divulgada nos rincões latifundiários de nosso país.

O chamado "brega universitário" ("sertanejo universitário", "pagode universitário" e outros, até mesmo o "arrocha universitário") não prima pela qualidade musical nem pela inteligência. Ele se define mais pelo visual bem cuidado, pela tecnologia avançada, é mais um sinônimo de música brega feita por pessoas riquinhas e arrumadinhas. Mas, mesmo assim, extremamente arrogantes, já que criticar qualquer ídolo desse universo "universitário" significa se sujeitar a reações irritadas de seus adeptos. Tal qual os estudantes reacionários da Universidade Mackenzie em 1968, ligados ao Comando de Caça aos Comunistas.

Para sentir a arrogância dos "bregas universitários", uma das duplas do dito "sertanejo universitário" usa um nome artístico que soa como uma provocação a dois nomes da MPB autêntica, o cantor João Bosco (da genuína geração universitária dos anos 70) e Vinícius de Morais, diplomata e poeta que apoiou o CPC da UNE.

Por isso, nada tem a ver a sofisticação musical da música brasileira universitária dos anos 60 e os novos ídolos "universitários" de hoje, que só disfarçam a mediocridade e a burrice com muito visual e muito equipamento de ponta, além de, é claro, um intenso e agressivo (em todos os aspectos) esquema de marketing.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fila da Manteiga, no Rio de Janeiro, em 1952


FILA DA MANTEIGA - por Roberto Tumminelli
Largo da Carioca, Outubro de 1952.


Originalmente publicado no fotolog Carioca da Gema.

Aqui está um interessante flagrante do cotidiano do Rio de Janeiro. Peço desculpas pela má qulaidade da imagem, mas a sua impressão era terrivel. Dei uma "despiorada" no Photoshop para que ela ficasse mais publicavel.


Podemos ver uma imensa fila que atravessava o Largo da Carioca chegava até a barraca do SAPS - Serviço de Alimentação da Previdência Social que vendia manteiga ao povo, que o governo havia importado. Por cointa do preço que estava abaixo do mercado longas filas de mais de 300 pessoas se formavam. Isso diariamente. Além do preço barato, o atendimento dos funcionários da barraca da SAPS era péssimo. Havia no máximo três funcionários para atender a população. Aliada a má vontade dos funcionários da SAPS, estava também a cisma deles em relação a alguns compradores que acarretava demora no atendimento, irritação e muitas vezes confusão além da já citada fila (resultado de todos esses fatores)
.

A cisma dos funcionarios da SAPS era que muitas vezes comerciantes infiltravam compradores nas filas para que esses estocassem as lojas com a manteiga que era então vendida a preços mais altos que nas barracas da SAPS. Muitas vezes os funcionários se negavam a vender a manteiga a menores de idade que eram mandados pelos seus pais para as imensas filas. Era mais um motivo para confusão, protestos e mais irritação.

O SAPS foi criado em 1940 durante o governo Vargas e deveria garantir alimentação digna e barata à emergente mão-de-obra-industrial com implantação de uma rede pública de restaurantes populares nos grandes centros. Em 1945 seis unidades da SAPS funcionavam no Rio de Janeiro; outras 42 operavam no resto do país fiscalizadas pelo governo. O interessante é que os famosos “bandeijões” de universitários derivaram dos restaurantes da SAPS. O mais famoso era o Restaurante Central dos Estudantes do Rio, ficaria nacionalmente conhecido nas manifestações políticas de 1968/69 como “Calabouço”, que havia sido criado em 1951. O SAPS ainda sobreviveu até 1967. Um decreto da ditadura militar então extinguiu o órgão e fechou vários restaurantes populares, entre eles o Calabouço. A alegação era de que haviam se transformado em espaços de discussão e efervescência política. Só no Rio, 20 mil refeições diárias deixaram de ser fornecidas a populações carentes.

domingo, 20 de dezembro de 2009

PROGRESSIVO FOI POPULAR ENTRE ROQUEIROS BRASILEIROS


A BANDA INGLESA YES FOI MUITO APRECIADA ENTRE OS MÚSICOS BRASILEIROS.

O rock progressivo foi uma evolução musical do rock psicodélico, e por incrível que pareça sua história pode ter surgido por dois caminhos em 1966, seja a partir das lições do Moody Blues - que já apresentava influências sinfônicas - , seja pelos Beach Boys (isso mesmo, os de "Surfin' USA"), através do disco Pet Sounds, que, mesmo sem fugir do estilo vocal e instrumental dos californianos, foge da temática surfista e juvenil dos discos anteriores, e expressa a obsessão de Brian Wilson de compor canções fortemente melodiosas.

Mas foi o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles que impulsionou a onda progressiva, junto a outros discos como Are You Experienced? de Jimi Hendrix Experience e já os primeiros LPs da banda Frank Zappa & The Mothers of Invention. Logo no final da década de 60, viriam os primeiros grandes grupos progressivos, como Jethro Tull, Yes, Gentle Giant, Genesis e King Crimson.

O Brasil viveu uma situação insólita. Recebendo tardiamente as influências do rock sessentista - só para se ter uma ideia, enquanto a California, nos EUA, vivia o apogeu do psicodelismo, em 1967, a juventude brasileira (salvo a turma underground, ou "udigrudi") ainda ouvia The Platters - , o Brasil só assistiu à onda psicodélica, meio misturada com a onda hippie da "Woodstock nation" e com a ascensão dos progressivos em 1970, quando os jovens se desiludiram com a situação do país, devido ao AI-5 e à concretização do projeto repressivo do governo militar, que fazia seus primeiros desaparecidos políticos (cuja divulgação na imprensa era proibida).

Então era a onda do desbunde, que era uma expressão que equivalia à "sacanagem", algo entre a encrenca e o desabafo. Desbundar era se encrencar. Mas o desbunde era gozação, esculhambação com a situação de marasmo forçado do Brasil ditatorial. A desilusão com o colapso da Contracultura, com o fim dos movimentos estudantis e de todo protesto que ainda existia nos quatro primeiros anos do regime militar. A juventude "parafrentex" (para citar expressão da época) tornou-se underground não por opção, mas por necessidade de sobrevivência. E rock virou coisa de roqueiro. A classe média curtia MPB semi-clandestinamente e as rádios que apoiavam a ditadura "presenteavam" o povo com música brega.

O rock progressivo entrou na mente dos jovens brasileiros como uma utopia de aperfeiçoamento musical. Muitos grupos surgiram, a maioria no underground, mas destaca-se o Sagrado Coração da Terra, o Terço e a experiência dos Mutantes apenas com Sérgio Dias Baptista da formação original.

Essa utopia era gozada porque os músicos aparentemente não dispunham de recursos para comprar instrumentos e equipamentos melhores. Também a ditadura militar criava um ambiente sócio-político digno de um pesadelo. Então, essa utopia era vivida com espírito de improviso, com uma certa ingenuidade que não tornava impossível a causa progressiva, mas tornava-a difícil e complicada. Mesmo assim, quem acreditava no progressivo, nas aulas de música em cursos mais avançados - como violão clássico, por exemplo - , no aprendizado da flauta, do piano, no conhecimento da música clássica e da MPB mais virtuosista, se dava bem, se não no sucesso comercial, mas na construção de uma reputação que, a longo prazo, faria a diferença.

O grupo inglês Yes era a banda mais popular entre os fãs de rock progressivo no Brasil. Depois viriam o Pink Floyd (já distante da poesia e do senso de humor de Syd Barrett) e Genesis (então sob a liderança do performático Peter Gabriel, hoje comprometido com um som mais eclético e experimental). Mas King Crimson, Jethro Tull e Procol Harum, entre outros, tinham sua cadeira cativa. E Rick Wakeman, tecladista solo que integrou o Yes por uma fase, era um dos músicos mais cobiçados pelos brasileiros, assim como Steve Howe, também do Yes, David Gilmour, do Pink Floyd, e Robin Trower, do Procol Harum. Robert Fripp, do King Crimson, era uma espécie de ídolo alternativo dos progressivos.

O rock progressivo também influenciou o Clube da Esquina, havendo sobretudo uma banda que mesclava Yes com Byrds de forma bem mineira, o 14-Bis (formado por alguns integrantes do Terço). E isso refletia até mesmo no repertório de Elis Regina, já que ela gravou músicas do amigo Milton Nascimento. Foi uma forma de trazer o progressivo para as massas, de alguma forma.

No entanto, os exageros da superprodução e de virtuosismo instrumental - havia até piada irônica de que um sucesso progressivo tinha que ter um solo de bateria de no mínimo cinco minutos, ou que um compacto simples de rock progressivo seria dividido em uma caixa de pelo menos 5 LPs - fez o progressivo se desgastar e entrar a simplicidade do punk rock, em 1976. Mas a novidade só seria percebida pelos brasileiros a partir de 1979, quando muitos se convenceram de que os vestígios hippies e progressivos estavam ultrapassados (mas ainda resistiriam alguns anos depois).

Um caso típico é o grupo Vímana, de Lulu Santos, Ritchie e Lobão, que oscilava entre o rock básico tipo Rolling Stones e o progressivo tipo Yes. O grupo dissolveu para ser uma banda de apoio do suíço Patrick Moraz, ex-Yes, mas toda a metodologia progressiva deste tecladista entediou os brasileiros, que, como poucos informados no Brasil, sabiam que o progressivo estava decadente. O grupo chegou a fazer alguns ensaios, mas se dissolveu e os três músicos hoje fazem um som mais próximo do rock básico ou mesmo do pop sofisticado (como Ritchie, erroneamente chamado de "brega", para deleite dos verdadeiros bregas que, por sua vez, são creditados erroneamente como "MPB").

O progressivo brasileiro continua até hoje, gerando até bandas recentes, mas é um estilo underground com um público mais especializado e fiel.

Cristiano Machado, o homem que virou termo


O POLÍTICO MINEIRO CRISTIANO MACHADO (1893-1953)

Por Hélio Campos Mello, diretor de redação da revista Brasileiros


Antes do 1º turno das eleições municipais, no próximo domingo (5), um pouco de História sobre pleitos no País:

Cristianização

"Termo utilizado a partir de 1951 para designar a traição de um partido político a seu candidato a cargo eletivo. A origem está ligada ao nome de Cristiano Monteiro Machado, candidato à presidência da República em 1950 pelo Partido Social Democrático (PSD). Embora Cristiano Machado tenha sido indicado como candidato oficial do PSD em 17 de maio de 1950 e confirmado na convenção nacional de 9 de junho do mesmo ano, seu partido na realidade apoiou a candidatura de Getúlio Vargas.

"As razões da atitude do PSD estariam ligadas à dissidência que se abriu dentro do partido em torno da escolha de um candidato à presidência da República."

Trecho do texto de Alzira Alves de Abreu, presente no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (DHBB), do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

O PSB não é o PSDB, mas o fato encontra caprichosos paralelos com a eleição municipal em São Paulo. O que pode haver de diferente é que lá, em Minas Gerais, na eleição de 1950, Cristiano Machado não foi avisado por seu partido de que não era bem vindo como candidato. Portanto cristianizar é diferente de alckminizar.

Comentário deste blog: Cristiano Machado foi prefeito em Belo Horizonte, e durante seu mandato, entre 1926 e 1929, fundou o Mercado Central da cidade. Chegou a ser nomeado embaixador do Brasil no Vaticano, em 1953, mas faleceu antes de tomar posse.

Ditadura permitiu pornografia para amansar o povo pobre


1964: Várias marchas envolvendo grupos religiosos, entidades diversas (como a CAMDE - Campanha da Mulher pela Democracia - , o "instituto" IPES e a Escola Superior de Guerra) e o empresariado, reivindicavam moralidade ao pedirem a derrubada do governo João Goulart. Foram as chamadas Marchas da Família Com Deus pela Liberdade, cujo clímax aconteceu no Vale do Anhangabaú, São Paulo, em 19 de março daquele ano. Uma outra marcha aconteceu no Rio de Janeiro, em 02 de abril, para comemorar o golpe militar.

Dez anos depois, com a crise do petróleo no Oriente Médio atingindo o mundo, o Brasil sofreu um colapso econômico que comprometeu seriamente o "milagre brasileiro" do governo do general Médici e levaria a ditadura militar à falência, anos depois. a crise do petróleo aconteceu em 1973 e fatos sócio-políticos diversos já começavam a abalar o regime militar, apesar da atividade intensa dos órgãos de repressão que matavam a sangue frio diversos acusados de subversão, sobretudo jovens.

A crise foi assumida pelo sucessor de Médici, Ernesto Geisel, diante de um quadro social que ameaçava explodir em revolta popular. Um líder sindical começava a se destacar na militância política, o hoje presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. O movimento estudantil voltaria a pleno vapor em 1977. E agora?

A ditadura militar sempre contou com um apoio da grande mídia, que não era incondicional, mas tinha afinidades de interesses. A mídia já havia investido na chamada "cultura brega" para desviar as atenções do grande público à revolta dos opositores do regime militar. A cafonice presente nos ídolos musicais, programas sensacionalistas de rádio e TV e na imprensa marrom, era o cardápio usado pelo poder da grande mídia para domesticar o povo pobre, através da mediocrização cultural. Cultura fraca, povo fraco e povo fraco é mais manipulável, dizem os estrategistas do poder e do controle social.

GRETCHEN VALEU POR MIL JAGUNÇOS

Com isso, o moralismo original dos defensores do golpe militar teve que se afrouxar. O sexo masculino é mais propenso a realizar revoltas violentas, e por isso o regime militar permitiu que a mídia passasse a explorar a pornografia, dentro das restrições de censura estabelecidas. Mas, independente da eficácia desse controle censor, o objetivo é domesticar os homens através da exploração pela mídia dos instintos sexuais.

Veio então o humorismo com piadas de duplo sentido, seja na televisão, seja na mídia escrita, havendo até revistinhas com piadas "picantes". Vieram os filmes de porno-chanchada, claramente comerciais, com histórias sem pé nem cabeça que no entanto encheram platéias nos cinemas. Vieram as revistas eróticas, desde a franquia brasileira da Playboy e da concorrente Ele Ela, até mesmo revistas mais "populares" como Big Man Internacional e Fiesta, além da grotesca Brazil.

Também vieram as chacretes do Cassino do Chacrinha, que inauguraram a atual fase das boazudas brasileiras. Rita Cadillac foi a principal. E, na música, um DJ, Mister Sam (espécie de precursor paulista do DJ Marlboro, como produtor-empresário-radialista), lançou a calipígia Gretchen, na verdade Maria Odete de Miranda, de nome artístico nórdico mas de aparência suburbana à brasileira.

Com isso tudo, os homens se distraíram com o mercado sexual. Para contrabalançar, o mercado brega lançaria também seitas religiosas para "moderar" os excessos e também criar uma cafonice paralela, a cafonice "pelo louvor", sobretudo através do rótulo "gospel".

Isso tudo amansou o povo, permitindo maior controle social pela ditadura. Criou também mercados da cafonice, seja do lado pornográfico, seja do lado "crente", que teve reflexos até no mercado televisivo. E, da parte das boazudas, criou sucessivas gerações que, mesmo não tendo a popularidade de antes (o "encalhe" amoroso é um sintoma disso), continuam firmes no universo popularesco.

Uma só Gretchen valeu por mil jagunços na hora de conter a revolta dos homens contra a ditadura. Os poderosos foram dormir tranquilos.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Jazz e Standards


As gerações mais recentes não viveram a fase áurea do jazz e, acostumadas com o ecletismo musical, confundem as coisas.

Assim, imaginam que música caribenha instrumental, Bossa Nova, Standards e jazz são a mesma coisa. Para elas, é tudo jazz. Além disso, elas confundem jazz clássico com jazz fusion, o que poderia exigir muita paciência para um especialista de jazz explicar o gênero para a rapaziada que só conhece jazz pelos sucessos mais manjados de Ella Fitzgerald, Louis Armstrong (aliás através de uma balada, "What a Wonderful World", e não do repertório jazzístico) e Sarah Vaughan, para não dizer dos elementos jazzísticos dos sucessos de Frank Sinatra (que só foi cantor de jazz no distante começo de carreira como crooner de uma big band).

Mas não são somente os mais jovens que confundem as coisas. Há, entre os adultos, até mesmo os cinquentões, uma enorme confusão a respeito do jazz. Os mais granfinos, sobretudo, acham que tudo que envolver orquestra de metais, homens vestidos de black tie e um certo ar pomposo e chique, é considerado "jazz". Pura incoerência com a origem bem popular do estilo.

A confusão mais comum envolve o jazz e os standards, que é a música popular norte-americana. Só por esta envolver elementos do jazz, não significa que ela seja o estilo propriamente dito. Como no pop dançante de Michael Jackson, que adota elementos de rock (como em "Beat it" e "Black And White"), e não é rock. Até porque o aproveitamento parcial de elementos de um estilo não indica de modo algum a identificação com ele como um todo.

Os standards, aliás, são herdeiros da fusão do Dixieland (jazz tocado pelos brancos na década de 1920) com a música das peças da Broadway, avenida dos teatros de Nova York, acrescidos também dos elementos da música orquestrada "ligeira", que era uma variante da música clássica em composições curtas e acessíveis, antecessora do musak.

Os standards foram a trilha-sonora da fase áurea de Hollywood, e não é preciso detalhar seus principais compositores, como Cole Porter, Rodgers & Hammerstein, Irving Berlin, os irmãos Gershwin etc.. Alguns deles originários da Broadway.

No período 1920-1935, o jazz era considerado uma música das classes populares, situação que mudou muito na década seguinte, quando a Era do Swing dava lugar à Era do Be-Bop. O jazz, para sobreviver à exploração comercial de Hollywood (que com seu standard sugava algum elemento original do jazz), tornou-se mais sofisticado. Até ser, no mainstream, substituído pela Era do Rock

Recentemente, o rock também perde sua força no mainstream e aos poucos passa o bastão para o pop eclético atual.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Os "emos" de 50 anos atrás


PAT BOONE TORNOU-SE APRESENTADOR DE TEVÊ E GRAVOU ATÉ DISCO DE ROCK PESADO (?); PAUL ANKA VIROU COMPOSITOR DE SUCESSO, TENDO UMA MÚSICA GRAVADA POR FRANK SINATRA.

1958 parecia o ano em que o rock'n'roll, ritmo lançado ao sucesso mundial quatro anos antes, começava a se desgastar. Já soava meio velho, o que fez com que outros ritmos como o cha-cha-cha (inspirado nas rumbas), o hully-gully (influenciado no country) e o twist (influenciado pelo rock, mas rompendo com seu estado de espírito), desviassem as atenções dos jovens.

Elvis Presley havia entrado no serviço militar e o show business tratou de investir em novos ídolos. Vieram então uma geração de moços-galãs, como Paul Anka, Neil Sedaka, Pat Boone, Ricky Nelson, Bobby Darin, entre tantos outros. A onda dos "roqueiros bons-moços" era tal que tinha até jogador de futebol americano se passando por "roqueiro" e gravando disco.


BOBBY DARIN E RICKY NELSON FALECERAM, RESPECTIVAMENTE, EM 1973 E 1985.

A regra era imitar no que havia de mais "certinho" no fenômeno Elvis Presley. A ênfase era nas canções românticas e na diluição mais domesticada do ritmo roqueiro, apoiando-se no sistema de estrelato que faria os cantores-galãs adorados pelas fãs adolescentes.

A moda pode ter feito um estrondoso sucesso comercial e gerado influências sobretudo na música italiana, cuja primeira cena considerada de rock mesclava o romantismo que marcava eventos musicais como o Eurovision com o rock de Elvis, gerando uma tradução roqueira mais próxima do perfil domesticado. No entanto, deixou o rock'n'roll, como era conhecido através de Bill Haley, Jerry Lee Lewis e Little Richard, além do próprio Elvis em sua fase "crua" de 1956-1957, em baixa entre os jovens.

Para piorar, os anos de 1959 e 1960 seriam marcados por tragédias envolvendo cantores emergentes do rock'n'roll original, como Richie Valens e Buddy Holly, mortos em 1959 num acidente aéreo nos EUA, e Eddie Cochran, morto em um acidente de carro na Inglaterra. Era a sombra de James Dean (1931-1955), ator que nunca foi músico mas era um símbolo de comportamento para o rock'n'roll original, assustando os jovens de então mais uma vez.

Porém, mais cedo ou mais tarde, a moda dos cantores-galãs acabou, quando outros cantores, apesar da boa aparência, vieram para fazer rock de verdade, revigorando as lições da turma de 1954-1955. Del Shannon e Dion Di Mucci eram dois deles. Mas, curiosamente, um cantor dessa cena, Ronnie James Dio, seria mais tarde conhecido como um dos mais respeitados e populares cantores de heavy metal do mundo, tendo participado de uma das formações do Black Sabbath e do grupo de metal-progressivo Rainbow.

Diante disso, Pat Boone depois tornou-se apresentador de TV. Paul Anka e Neil Sedaka tornaram-se compositores hit-makers, algo que no Brasil se viu com os ídolos bregas Odair José, Luís Ayrão e Benito di Paula. Paul Anka adaptou uma composição francesa, transformando-a em "My Way", que se tornou grande sucesso na interpretação de Frank Sinatra em 1969 mas, nos anos 70, ganhou uma versão sarcástica do punk rock através de Sid Vicious. Os outros cantores-galãs não conseguiram se segurar no sucesso, e Bobby Darin faleceu de overdose no início dos anos 60.

Nos anos 90, Pat Boone gravou um disco de covers de rock pesado. Mas, na década de 80, pouco depois da morte de Ricky Nelson, em um desastre aéreo, seus dois filhos gêmeos formaram um grupo no mesmo estilo poser de Bon Jovi, que se chamou apenas Nelson.

Para as gerações recentes, os cantores-galãs de 1958-1961 equivaliam, para a época, o que as bandas "emo" correspondem aos dias de hoje.

Lotações eram as vans do passado


LOTAÇÃO DA EMPRESA AUTO ANGLIA, CIRCULANDO EM 1955 NO BAIRRO DO ENGENHO NOVO, NO RIO DE JANEIRO, ENTÃO DISTRITO FEDERAL.

Os lotações (sim, o gênero gramatical é masculino) foram os equivalentes às vans e micro-ônibus controlados por particulares, cooperativas ou empresas pequenas no passado distante do país. Eram uma espécie de versão mirim dos antigos ônibus, que na verdade eram caminhões que no lugar do "baú" tinham um "salão" com várias cadeiras enfileiradas em dois corredores juntos às janelas. Algo que, nos seriados americanos, se vê muito nos ônibus escolares.

Os lotações geralmente serviam linhas pequenas, ou ramais que não eram explorados pelas linhas regulares. No Rio de Janeiro, os lotações existiam muito na Zona Norte e Zona Oeste, atendendo bairros distantes não servidos por ônibus comuns, mas havia também linhas para a Zona Sul.

Assim como as vans nos anos 90 e nesta década, os lotações recebiam muitas queixas dos usuários, pelas imprudências do trânsito, pela má conservação dos carros e outras irregularidades.


FOTO DE MÁRIO DE MORAES PARA REPORTAGEM SOBRE TRANSPORTE COLETIVO CARIOCA, PUBLICADA NA REVISTA O CRUZEIRO DE 24.11.1962

No começo da década de 1960, a revista O Cruzeiro, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, publicou várias reportagens sobre os problemas dos transportes coletivos cariocas, assunto muito discutido pelos moradores naqueles três primeiros anos que antecederam ao projeto do governador da Guanabara, jornalista Carlos Lacerda.

Em 24 de novembro de 1962, Ubiratan de Lemos fez uma reportagem comparando os lotações aos ônibus regulares, como vemos nesta foto com o lotação "Lins-Leblon" junto ao ônibus da Viação Elite (empresa extinta), linha13 Estrada de Ferro / Urca (atual 107, servida pela Transportes Amigos Unidos). A reportagem descrevia os lotações como altamente perigosos, comparando-os a verdadeiros assassinos, devido à alta velocidade com a qual rodavam.

Com o projeto de reformulação do sistema de ônibus de Carlos Lacerda, implantado entre 1961 e 1964, uma estatal foi criada para substituir os velhos e também perigosos bondes da Light, a CTC (Companhia de Transportes Coletivos) e estabeleceu lei fundindo vários lotações que se transformaram, entre 1961 e 1964, em diversas empresas, várias delas até hoje em circulação: Auto Viação Tijuca, Auto Viação Alpha, Expresso Pégaso, Viação Verdun, entre outras.

Em 1998, tecnocratas do transporte coletivo ameaçaram implantar o "Rio Bus", caricatura do sistema de ônibus de Curitiba, que na prática faria voltar o sistema de ônibus aos tempos pré-1964, com as vans fazendo papel de "lotações". Felizmente, o projeto não foi implantado, apesar das queixas dos tecnocratas, tomados de muita vaidade e estrelismo. Até porque o Rio de Janeiro cresceu muito depois de 1964, apesar de já ter perdido o status de capital do Brasil.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

SÉRGIO MURILO FOI "REI" ANTES DE ROBERTO CARLOS


Não dá para entender por que a mídia prefere se dedicar mais aos retardatários da Jovem Guarda (salvo os medalhões) do que os pioneiros.

Preferem falar de Paulo Sérgio, Odair José, Luís Ayrão e Evaldo Braga, enquanto desprezam Ronnie Cord, George Freeman e sobretudo Sérgio Murilo.

Sérgio Murilo (1941-1992) foi o rei da música jovem bem antes de Roberto Carlos. O cantor capixaba mais popular do país começava sua carreira, entre Bossa Nova, bolero e esboços do som da Jovem Guarda (termo que veio de 1964 da mente do publicitário Carlito Maia com base numa declaração do comunista Lênin). Mas, antes de 1963, Roberto Carlos não tinha sequer um quarto do sucesso que tinha hoje, embora seu potencial fosse evidente e seu talento fosse notável. Embora renegado pelo próprio cantor hoje em dia, Louco por Você, LP de 1961 de Roberto Carlos, é bem melhor do que muitas baboseiras que ele gravou nos anos 80 e 90.

Mas falando sobre Sérgio Murilo, ele é que era o rei da juventude musical brasileira, e seu sucesso "Marcianita" (de 1959) até foi gravado, anos depois por Caetano Veloso em sua fase tropicalista.

E um recado para a novíssima geração emo do Cine: se esses garotos têm uma música chamada "Garota radical", Sérgio Murilo já havia lançado em 1960 uma música com o mesmo tema, "Broto Legal", que aliás era o equivalente de "Garota radical" no jargão coloquial da época.

Apesar de bobinha e um tanto ingênua, "Broto Legal" é uma canção simpática e divertida, dentro daquele padrão do rock brasileiro principiante daquela época.

domingo, 13 de dezembro de 2009

A falta que faz Sílvia Telles


Entre as décadas de 50 e 60, uma cantora de belíssima voz e, por sinal, linda também, marcou a Música Popular Brasileira com um talento ímpar. É uma cantora que faz falta, pela sua inigualável beleza de voz, ao mesmo tempo suave e intensa.

Temos hoje discípulas de Elis Regina, discípulas de Gal Costa e até mesmo de Marisa Monte. Mas de Sílvia Telles, a MPB não encontra discípula. Por outro lado, é lamentável que a maioria das cantoras emergentes - aqui não se fala da MPB autêntica - prefere adotar um falso estilo black, com firulas completamente artificiais como o excesso de vibratos e o prolongamento desnecessário de sílabas.

No entanto, a exemplo de Elis, com sua Maria Rita Mariano, Sílvia Telles também teve filha seguindo a música, a também cantora Cláudia Telles, em atividade até hoje, apesar de fora da grande mídia.

Segue aqui um texto do Wikipedia que dá uma noção de como foi a trajetória dela e para as gerações saberem que foi Sílvia Telles (o prenome foi às vezes grafado como Sylvia), que teria tido 75 anos de idade, se viva estivesse:

Sylvia Telles (Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1934 — Maricá, 17 de dezembro de 1966), também conhecida como Sylvinha Telles, foi uma cantora brasileira e uma das intérpretes dos primórdios da bossa nova.

A maioria de seus discos estão fora de catálogo, o que dificulta o seu conhecimento pelas gerações recentes. Porém, ocasionalmente é lançada uma compilação com algumas de suas inúmeras gravações.

Segundo matéria publicada em O Globo e assinada por João Máximo: "Sylvinha foi uma das melhores intérpretes da moderna música brasileira, entendendo-se como tal a que vai de Ponto final - com Dick Farney e Amargura, com Lúcio Alves, até as canções que Tom e Vinicius fizeram depois de Orfeu da Conceição".

Em 1954, Billy Blanco, amigo da família, notou o dom de Sylvinha e apresentou-a a amigos músicos. Nas reuniões que eles faziam, pôde conhecer os grandes nomes do rádio da época, tais como Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, que a ajudou a encontrar trabalho em boates para o início de sua carreira profissional. Nessa época, conheceu seu primeiro namorado, o cantor e violonista João Gilberto, amigo de Mário; o relacionamento acabou porque a família Telles não gostava do jovem, que vivia de favor na casa dos outros[2].

No ano seguinte, Garoto escreveu-lhe um musical, chamado Gente de bem e champanhota, executado no Teatro Follies de Copacabana. Na ocasião, o músico e advogado José Cândido de Mello, o Candinho, acompanhou Sylvinha na canção Amendoim torradinho, por Henrique Beltrão. Eles se apaixonaram à primeira vista. Pouco tempo depois, morreu Garoto, sem poder ver o lançamento do primeiro disco de Telles.

Sylvinha e Candinho casaram-se e tiveram uma filha, Cláudia Telles. Em 1956, ela e seu marido apresentaram pela TV Rio o programa Música e romance, recebendo como convidados Tom Jobim, Dolores Duran, Johnny Alf e Billy Blanco. Contudo, o casal logo se separou.

Em 1958, o local de encontro dos músicos passou a ser o apartamento de Nara Leão, então com quinze anos de idade. Ronaldo Bôscoli, que freqüentava as reuniões, atuava como produtor musical do grupo. Sylvia Telles, que já era um nome conhecido, foi então chamada para participar de um espetáculo no Grupo Universitário Hebraico, juntamente com Carlos Lyra, Roberto Menescal, entre outros. Foi neste show, "Carlos Lyra, Sylvia Telles e os seus Bossa nova", que a expressão "bossa nova" foi divulgada pela primeira vez.

Sylvinha Telles chegou a fazer turnês em outros países, como Estados Unidos, Suíça, França e Alemanha.

Em 1963, já divorciada de Candinho, Sylvia casou-se com o produtor musical Aloysio de Oliveira, separando-se no ano seguinte por causa de ciúme. Aloysio casou-se com Cyva, do Quarteto em Cy, posteriormente.

Aos trinta e dois anos de idade, Sylvia Telles morreu em um acidente de automóvel na rodovia Amaral Peixoto, no município de Maricá, em companhia de seu namorado Horacinho de Carvalho, filho da socialite Lily de Carvalho Marinho. Eles se dirigiam à fazenda de Horacinho no município, mas Horacinho dormiu ao volante, algo que acontecera à própria Sylvia dois anos antes, enquanto voltava de um show.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ligas Camponesas foram o MST do Brasil dos anos 50-60


O advogado e político FRANCISCO JULIÃO, que tornou-se o líder militante das Ligas Camponesas até o Golpe de 1964. Ele chegou ainda a participar das campanhas pelas Diretas Já na década de 80.

A ação de manifestantes sem-terra brasileiros não é novidade alguma entre nós. Se percebermos bem, essas manifestações surgiram desde que o país cresceu ainda no período colonial, quando as primeiras ocupações de terras no interior brasileiro provocavam conflitos e injustiças. Até Gilberto Freyre, nosso ilustre antropólogo, já afirmava a realidade de grandes proprietários de terras no período colonial brasileiro.

Pode-se dizer que as revoltas dos trabalhadores rurais sem-terras se equipara às inúmeras revoltas de diversos estratos populares ocorridas no século XIX no Brasil. Ou então na beirada do século XX, que foi o caso da Revolta de Canudos, comandada pelo peregrino Antônio Conselheiro e ocorrida na comunidade de Canudos, no interior da Bahia.

As Ligas Camponesas, com esse nome, teria se originado na década de 1930, com manifestantes rurais sustentados pelo antigo PCB, Partido Comunista do Brasil (nome hoje dado ao PC do B, partido da base de apoio do governo Lula - desde 1962 o PCB se chama Partido Comunista Brasileiro). Elas foram desativadas em 1945, mas alguns núcleos continuaram existindo.

Nas décadas de 50 e 60, porém, elas cresceram a partir de um núcleo surgido em 1954, através da Sociedade Agrícola e Pecuária de Plantadores de Pernambuco (SAPPP), que prestava assistência financeira e social aos agricultores, visando livrá-los do domínio do poder latifundiário. Esse núcleo surgiu no engenho Galiléia, na cidade pernambucana de Vitória de Santo Antão.

A SAPPP aceita o apoio de um fazendeiro do engenho Galiléia mas outro fazendeiro adverte este de que o movimento é influenciado pelo comunismo, e então o dono deste engenho pede para os agricultores dissolverem o movimento, ameaçando os trabalhadores de expulsão e aumento do valor do foro. Os manifestantes, então, vão para Recife, conseguindo o apoio do advogado Francisco Julião. A iniciativa da SAPPP conseguiu a desapropriação do engenho Galiléia, em 1959.

As Ligas Camponesas então cresceram, a partir daí, e atingiram pelo menos 13 Estados brasileiros. A bandeira da reforma agrária virou a tônica da política brasileira, e isso em parte preocupou os grandes proprietários de terras - a essas alturas já aliados ao empresariado urbano dos "institutos" IBAD e, depois, IPES - , a ponto até mesmo de investir tanto na pistolagem quanto no patrocínio de um sistema de valores culturais que tornou-se conhecido como "cultura brega".

O então presidente da República, João Goulart, havia feito várias promessas de cumprimento da reforma agrária, estabelecendo contatos amistosos com as Ligas e com políticos comunistas. Além disso, havia também as pressões do cunhado de Jango, Leonel Brizola, que adotava uma política populista de cunho revolucionário. Jango havia anunciado até mesmo algumas desapropriações de terras, várias localizadas em beiras de rodovias.

A última declaração de grande repercussão nesse sentido foi durante o comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964, quando Jango afirmou que iria cumprir o projeto de reformas de base. A sociedade conservadora, reagindo aos efeitos desse comício, já realizava diversas marchas intituladas "da Família com Deus pela Liberdade", e resolveu realizar outra manifestação no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.

As Ligas Camponesas foram extintas nos primeiros atos institucionais determinados pela ditadura militar, que depois do golpe realizado em 01 de abril - apesar da data comemorativa ser 31 de março, para evitar alusões ao "Dia da Mentira", até porque a ditadura passou muito tempo se autoproclamando uma "revolução democrática" - , foram declaradas ilegais, sendo proibidas por lei de existirem.

As revoltas continuaram, e durante toda a ditadura, a pistolagem dos capatazes dos latifundiários fez várias vítimas fatais. O quadro continua inalterado até hoje, as Ligas é que foram substituídas pelo MST. Francisco Julião morreu em 1996. O MST já havia surgido em 1984 e hoje é liderado por João Pedro Stedile.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

TWIST DÁ LIÇÃO DE DESPRETENSÃO AO "FUNK CARIOCA"


O rock estava em entressafra, tanto pelo envelhecimento musical de seus pioneiros (Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Bill Haley), pela morte prematura de músicos emergentes (Buddy Holly, Richie Valens, Eddie Cochran) e pela invasão de cantores canastrões (Pat Boone, Ricky Nelson, Bobby Darin).

Nesta situação, por volta de 1960, a música jovem buscou outros focos. Algo que acontece hoje, quando os jovens atuais têm suas atenções desviadas do rock para o techno, o hip hop e o pop dançante em geral. Há quase cinquenta anos, os ritmos que desviaram as atenções juvenis eram cha-cha-cha (espécie de mambo mais sensual), o hully-gully e, sobretudo, o twist.

O twist era um ritmo que, na aparência, era até derivado sonoramente do rock'n'roll. Mas seu andamento era menos acelerado e as guitarras eram as mínimas possíveis. E o estado de espírito roqueiro, isso o twist não tinha. Estava mais próximo das gerações mais recentes de jazz e swing dos anos 50, como Johnnie Ray.

Seu maior expoente foi o cantor Chubby Checker, embora houvesse vários grupos associados ao ritmo e, num contexto mais próximo do soul, houvesse também cantores como Gary US Bonds.

O sucesso do twist ocorreu entre 1960 e 1963, terminando quando a soul music multiplicava seus sucessos, através dos artistas dos selos Motown e Stax, e pouco antes da invasão britânica que revigorou o rock'n'roll.

Mas o twist deixou de ser modismo de cabeça erguida e humildade. Nunca fez artifícios mirabolantes para perpetuar seu sucesso. Não tinha força lírica, não posava de música de protesto, porque sua finalidade era apenas a dança e o divertimento.

Chubby Checker depois virou empresário de uma fábrica de doces e só se apresenta esporadicamente relembrando os antigos sucessos. Mas nem ele e nem o twist como um todo se julgou acima ou igual a Bob Dylan, não embarcou na Contracultura, nem criou uma retórica engenhosa pseudo-intelectual que forçasse a perpetuação desesperada do modismo. O twist foi uma mania mundial, mas, quando veio o seu fim, todos encararam o término humildemente.

Taí uma grande lição para o ultra-pretensioso "funk carioca" que, mesmo num plano artístico bem inferior ao twist e sendo muito menos divertido que o ritmo popularizado por Chubby Checker, não é mais do que tão somente um ritmo exclusivamente dançante e comercial.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Beatles dão idéia de como uma década é diferente em seus anos


O grupo inglês The Beatles foi uma das bandas de rock mais populares do mundo. O grupo existiu entre 1960 e 1970, mas seus músicos antes integraram o Quarrymen e havia um embrião chamado Silver Beatles(e Ringo havia integrado outras bandas antes de ser o "quarto fabuloso" no lugar de Pete Best). E também seus integrantes marcaram em suas carreiras-solo (só Ringo não teve o sucesso comercial dos parceiros).

Pois a banda personifica bem o que é a diferença de anos dentro de uma década. Pode-se dizer, seguramente, que a banda de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr foi um dos maiores símbolos da década de 1960, a última década revolucionária que tivemos.

A banda gravou discos entre 1963 e 1969. Let It Be, apesar de ter sido lançado em 1970, foi gravado até antes de Abbey Road, lançado no ano anterior. Cada ano era uma experiência rica que os quatro fabulosos de Liverpool - uma cidade industrial da Inglaterra - , que mesmo na sua fase "ingênua" era dotada de um grande talento e potencial.

A banda foi responsável pela revigoração do rock'n'roll, que andava desacreditado com escândalos, tragédias e o próprio envelhecimento "precoce" do ritmo (não é preciso dizer que nomes como Bill Haley e Chuck Berry eram meio "titios" para a moçada roqueira dos anos 50). Os Beatles acabaram compensando as tragédias de Buddy Holly, Richie Valens e Eddie Cochran, emergentes talentos dos EUA, mortos prematuramente e, pior, passados para trás por uma geração de canastrões do porte de Ricky Nelson e Pat Boone que imitavam de forma caricata o estilo de Elvis Presley.

Os Beatles puxaram toda uma cena roqueira britânica que, na ordem crescente da ousadia, foi dos Herman's Hermits ao Deep Purple, revelando de Gerry And The Pacemakers a Jethro Tull, sem esquecermos de nomes como Pink Floyd de Syd Barrett e Led Zeppelin. Tinha Rolling Stones, The Who, mas também The Zombies, Jeff Beck Group, Spencer Davis Group, Traffic, Cream e mesmo o revolucionário Jimi Hendrix Experience (Hendrix era americano, mas esse trio foi formado na Inglaterra com outros músicos ingleses).

Mas como nosso assunto aqui é Beatles, deixemos os outros para outras histórias.

Basicamente, os Beatles tiveram duas fases, a primeira com rock básico e algumas canções românticas, e a outra, mais experimental e excêntrica, com momentos de psicodelia. Numa divisão didática, situa-se superficialmente a primeira fase de 1963 a 1966, quando o fim das apresentações ao vivo dos Beatles (que não conseguiram ouvir o que eles mesmos estavam tocando devido à gritaria histérica das fãs) tornou-se o divisor da carreira do grupo. Em seguida, veio a fase experimental, sobretudo com muitos efeitos de estúdio e várias pesquisas musicais, num interessante diálogo de igual para igual entre o produtor e maestro George Martin e os quatro músicos.

Mas em 1965 e 1966, anos respectivos de Rubber Soul e Revolver, já prenunciam essa fase experimental. E desses dois, o primeiro causou um impacto profundo na mente do músico da banda californiana Beach Boys, Brian Wilson, que chegou até a deixar o grupo para compor o revolucionário álbum Pet Sounds, lançado em 1966. E Pet Sounds influenciou o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, um dos álbuns de 1967 dos Beatles (tem até sons de animais, em "Good Morning, Good Morning", incluindo sons que, dizem, só podem ser ouvidos por cães).

Mas não houve apenas isso, Sgt. Pepper's também foi sucedido por discos tão excêntricos como Magical Mystery Tour e The Beatles (cuja capa branca rendeu a alcunha de White Album), respectivamente de 1967 e 1968. Depois Abbey Road e Let It Be inauguraram o rock setentista, já prenunciado, em parte, em White Album.

Cada ano foi peculiar na breve mas rica carreira dos Beatles. Com eles, não dá para investir nesse papo de "meados dos anos 60". Isso é só uma pequena amostra como cada ano é diferente um do outro, já que ocorre muita coisa em 365 ou 366 dias.

Décadas são diferentes em cada ano


Existe uma patota bastante animada que, quando contempla o passado, se comporta como criancinhas animadas e vão logo dando os créditos, vagos, de cada foto ou fato do passado: "meados dos anos 50", "final dos anos 60", "anos 40", "década de 50" e outras imprecisões similares.

Alguns até tropeçam e creditam como "anos 50" uma foto dos anos 40 e como "anos 60" uma foto dos anos 50. E todo mundo se comportando que nem moleques em excursão, mandando mensagens do tipo "Ah, eu fui para esta praça com meu pai comer algodão doce". "Eu me lembro deste dia, brinquei de pique-esconde com meus dois primos".

Mas nada de pesquisa séria. Nada de averiguar a data exata. Mesmo que citasse que brincou de pique-esconde, passeou com o pai, rodou de carro com o tio para tal fazenda e por aí vai, pelo menos poderia ter um espírito de pesquisa mais apurado.

As décadas são dinâmicas em cada uma. Uma década é composta de dez anos. E cada ano é peculiar em si. Assim como a primeira metade de uma década não é igual à segunda metade da mesma década. Isso em si dá muita responsabilidade para uma pesquisa, é preciso ficar atento.

Dizer "meados dos anos 60" feito um bobo alegre nada tem de informativo. Ter mais atenção com as coisas não custa coisa alguma.

NÃO É DESCULPA VOCÊ NÃO TER VIVIDO ESSA ÉPOCA


Este blog pode ser lido por qualquer pessoa, mas é dedicado a quem nasceu a partir de 1978, que não acompanhou o Trem da História mesmo em alguns fatos recentes, como a Contracultura, a chegada do homem à Lua, e nem mesmo o Punk Rock vivenciou direito.

Esse pessoal, sobretudo no Brasil, foi instigado a apreciar referências posteriores a 1989. Ou, quando muito, obviedades de 1975 a 1979 (mesmo coisas mais antigas que essa época mas que estavam em voga então), ou tolices infantis dos anos 80.

É uma geração que só conheceu o rock dos anos 50-60 a partir de uma colagem do DJ Jive Bunny. Superestimou a disco music como se até o Village People fosse sofisticado. É uma geração que, sem conhecer Bertolt Brecht, personificou bem o analfabeto político por ele descrito num poema, ainda que essa geração pose de "engajada".

Essa geração só conheceu o rock contemporâneo através do enjoativo grunge, do ridículo poser metal e do patético poppy punk. A maior parte dos seus ídolos potenciais foram meros fogos-de-palha da música pop, do Apache Indian ao Technotronic, do Green Jelly ao Sugar Ray, do Double You ao Vanilla Ice, do Que Fim Levou Robin? a uma tal de Luka. Todos levados pelo vento, de tão frágeis.

Para dar uma luz a essa geração, que não teve acesso a coisas bacanas - só descobriram a década de 80 há poucos anos atrás - , crio este blog na tentativa de mostrar não apenas coisas agradáveis, mas coisas informativas sobre as décadas que influíram decisivamente na formação da sociedade contemporânea.

Portanto, não é desculpa alguma o pessoal nascido em 1978, 1981 etc, dizer que não viveu essa época. Cuidado com essa declaração, porque a qualquer momento essa geração poderá vivenciar as décadas de 50, 60 e 70, nem que seja nos sonhos dormidos do dia-a-dia.

Como diz o escritor L. P. Hartley, "o passado é um outro país". Cabe decifrar o passado, ou o passado devorará os alienados.